Rita Hayworth e Jean Louis
Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2003
%Susana
Rita Hayworth pode ser considerada um produto tipicamente americano desenhado por um francês. Jean Louis Berthault, conhecido apenas por Jean Louis, criou o vestido "Feuilles" ou o vestido "Vent" ou a capa "Cygne" ou o vestido "Anguille" (vestidos de cena para os espectáculos musicais de Marlene Dietrich em Las Vegas), como também desenhou o vestido "Happy Birthday, Mr. President" que Marilyn Monroe usou para cantar os parabéns a J. F. Kennedy. Mas antes de todos estes, qual paradigma, vestiu Rita Hayworth com um 'corpo' de cetim preto, que para sempre ficaria conhecido como "That Dress", aquele vestido com o qual ela canta "Put the Blame on Mame", dobrada por Anita Ellis, em "Gilda" (1946). A Rita Hayworth poder-se-ia aplicar a observação que um empresário de um clube nocturno faz a Frank Sinatra, Joey Evans em "O Querido Joey" (1957), quando este lhe pede emprego: "I'm running a girl's show. Legs... not tonsils" ("Dirijo um espectáculo de raparigas. Pernas, não amígdalas").
"Nunca houve uma mulher como Gilda" era a frase publicitária que anunciava a estreia do filme que assombraria a existência de Rita Hayworth. Uma fantasmagoria. "Todos os homens que conheci, apaixonaram-se por Gilda e acordaram comigo". A femme fatale foi sempre uma criação das fantasias masculinas. Jean Louis soube interpretar na perfeição essas fantasias.
Nascido em Paris, em 1907, Jean Louis começa a sua carreira como ilustrador no atelier de Christoff Von Drecoll (casa de costura parisiense que marcaria a moda europeia da belle époque até finais dos anos 20), mudando-se depois para Nova Iorque onde trabalharia com Hattie Carnegie (criadora do "Carnegie Look" - uma sofisticada simplificação do trabalho de alguns criadores europeus, como Dior, que definiu a moda americana durante as décadas de 40 e 50). Será em 1944 que Jean Louis se tornará o designer-chefe de guarda-roupa da Columbia, iniciando, um ano depois, com "Tonight and Every Night", uma colaboração com Rita Hayworth que duraria mais nove filmes e cerca de 14 anos: entre "Gilda" e "O Querido Joey", passando ainda por "A Dama de Xangai" (1947) ou "Chuva" (1953). Sobre "That Dress", Jean Louis chegou a confessar: "Aquele vestido pareceu-me esplêndido desde o primeiro momento em que a vi com ele. Creio que, como ninguém, Rita o tornava extremamente sensual".
Paralelamente ao seu trabalho no cinema, Jean Louis desenvolve uma carreira como designer de moda, e a fusão de ambos estabelece uma obra cujas características passam pela exaltação do vestido como linguagem da moda feminina, vestido entendido como uma redundante segunda pele e estrutura de sensualidade, não apenas em termos formais, mas também materiais - musselinas translúcidas, sedas suaves, cetins lustrosos e escorregadios, peles volumosas e lantejoulas metálicas. Quando Gilda canta "Amado Mio", usa um vestido "midriff" (diafragma) branco, em duas peças, bordado a lantejoulas, o ventre desnudo. As reverberações vestimentárias exóticas da América do Sul, difundir-se-iam no Ocidente, no final dos anos 40, graças a esse vestido "Amado Mio".
Mas se em "Gilda", Jean Louis modela as sedimentadas convenções da femme fatale, já em "O Querido Joey" (Rita Hayworth como Vera Simpson), "aristocratiza" essa femme fatale. Da rapariguinha boa e ingénua dos primeiros filmes, da beleza mediterrânea de, por exemplo, Carmen em "Blood and Sand" (1941), passando por personagens de singular feminidade (em confronto com homens fortes que a conquistavam pela dureza), ou ainda pelo brilho das coreografias das comédias musicais (em especial com Fred Astaire), o 'tipo' Gilda, e a sua consequente erotização em femme fatale marcou a carreira de Rita Hayworth, atingindo um tal grau de popularidade que fez surgir por todo o lado os "penteados gilda", os "sapatos gilda", luvas do mesmo género e vestuário de idêntico estilo.
Em plena década de 40, o 'tipo' Gilda só poderia ser um grande sucesso ou um enorme fracasso. A postura arrojada da mulher representada estava no limiar do aceitável à luz dos valores morais da época. A prová-lo estão as devastadoras críticas da imprensa espanhola, que na altura observava atentamente a ascensão de Margarita Carmen Cansino (Rita Hayworth). Depois desse filme "medíocre e escandaloso", "uma das coisas mais lamentáveis até à data vistas nas nossas telas", deixou de ser grato falar da ascendência daquela que outrora tinham convenientemente apelidado de "vedeta espanhola". Esquecendo as suas origens, as notícias passariam a dar mais destaque ao seu casamento com o génio, esse incomensurável e extravagante Orson Welles, de quem Rita Hayworth teve uma filha.
Rebecca nascera pouco antes do início da rodagem de "Gilda", obrigando Jean Louis à confecção de uma estrutura complexa, uma verdadeira máquina de cena, cingindo o vestido ao ventre de Rita e usando uma espécie de atilho tenso e cruzado que terminava num lanço junto à anca, mantendo o vestido moldado ao corpo, estático, através de hastes de plástico, adelgaçadas com calor, conservando assim a sua forma. Uma escultura com corpo dentro. Durante esse número de música e dança, Gilda encena o prenúncio de um strip-tease, que terá a sua ressonância em "O Querido Joey" quando "Vera Vanessa" ou "Vera dos Véus Evanescentes", outrora nome artístico da respeitável Mrs Prentiss Simpson, simula um mímico strip-tease cantando "Zip! I'm so eclectic. / Zip! I`m a little hectic./ Zip! My artistic taste is classic and dear./ Zip! Who the hell is Lil St. Cyr?" Tudo um problema de fechos de correr. É a própria Gilda quem o diz: "Zippers throw me" (Os fechos enervam-me).
Depois de "Gilda", Rita está preparada para subir ao Olimpo, em "Down to Earth" (1947), quando Jean Louis a encarna em Terpsícore, musa da dança na mitologia grega que, sob a forma de Kitty Pendleton, desce à terra para se apaixonar por um mortal. Uma divindade clássica, a pin-up da nação, "a deusa do amor", "a ruiva atómica". Porque mortal Rita só foi em "A Dama de Xangai", uma hibridização de Grace Kelly e Marilyn que a transforma na pérfida e glacial "dark lady" Elsa Bannister. Rita Hayworth com o cabelo curto e platinado. Jean Louis dilui o guarda-roupa em corpóreos fatos-de-banho.
Jean Louis viveu 89 anos, trabalhou até aos 66 e participou em mais de 140 filmes. Vestiu a actriz Loretta Young (sua mulher), para a lendária série televisiva "The Loretta Young Show", vista semanalmente por muitas mulheres que a seguiam atentamente como tendência de moda. Foi um dos primeiros designers masculinos a ser nomeado para um Oscar e, em 1956, com o filme "The Solid Gold Cadillac" ganhou a sua primeira e única estatueta. Passavam oito anos desde que, pela primeira vez, se havia galardoado um trabalho de "Costume Design", numa altura em que se distinguiam duas sub-categorias, atribuindo-se até 1966 dois prémios por ano aos melhores trabalhos de guarda-roupa, a cores e a preto e branco.
A imensidão da carreira de Jean Louis confunde-se com a iconografia da femme fatale clássica, um enunciado de vestuário (em "Gilda", desenhou 31 figurinos para Rita Hayworth), um guarda-roupa variável segundo as regras do claro-escuro, metáfora de duplicidade. Nessa encenação, o corpo fragmenta-se em mãos, pernas, rosto; até o cigarro se torna um acessório de moda. Se o guarda-roupa expõe a psicologia de uma personagem, o ecrã de cinema é, então, o lado de dentro do corpo feminino.
Rita Hayworth e Jean Louis
Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2003
%Susana
Rita Hayworth pode ser considerada um produto tipicamente americano desenhado por um francês. Jean Louis Berthault, conhecido apenas por Jean Louis, criou o vestido "Feuilles" ou o vestido "Vent" ou a capa "Cygne" ou o vestido "Anguille" (vestidos de cena para os espectáculos musicais de Marlene Dietrich em Las Vegas), como também desenhou o vestido "Happy Birthday, Mr. President" que Marilyn Monroe usou para cantar os parabéns a J. F. Kennedy. Mas antes de todos estes, qual paradigma, vestiu Rita Hayworth com um 'corpo' de cetim preto, que para sempre ficaria conhecido como "That Dress", aquele vestido com o qual ela canta "Put the Blame on Mame", dobrada por Anita Ellis, em "Gilda" (1946). A Rita Hayworth poder-se-ia aplicar a observação que um empresário de um clube nocturno faz a Frank Sinatra, Joey Evans em "O Querido Joey" (1957), quando este lhe pede emprego: "I'm running a girl's show. Legs... not tonsils" ("Dirijo um espectáculo de raparigas. Pernas, não amígdalas").
"Nunca houve uma mulher como Gilda" era a frase publicitária que anunciava a estreia do filme que assombraria a existência de Rita Hayworth. Uma fantasmagoria. "Todos os homens que conheci, apaixonaram-se por Gilda e acordaram comigo". A femme fatale foi sempre uma criação das fantasias masculinas. Jean Louis soube interpretar na perfeição essas fantasias.
Nascido em Paris, em 1907, Jean Louis começa a sua carreira como ilustrador no atelier de Christoff Von Drecoll (casa de costura parisiense que marcaria a moda europeia da belle époque até finais dos anos 20), mudando-se depois para Nova Iorque onde trabalharia com Hattie Carnegie (criadora do "Carnegie Look" - uma sofisticada simplificação do trabalho de alguns criadores europeus, como Dior, que definiu a moda americana durante as décadas de 40 e 50). Será em 1944 que Jean Louis se tornará o designer-chefe de guarda-roupa da Columbia, iniciando, um ano depois, com "Tonight and Every Night", uma colaboração com Rita Hayworth que duraria mais nove filmes e cerca de 14 anos: entre "Gilda" e "O Querido Joey", passando ainda por "A Dama de Xangai" (1947) ou "Chuva" (1953). Sobre "That Dress", Jean Louis chegou a confessar: "Aquele vestido pareceu-me esplêndido desde o primeiro momento em que a vi com ele. Creio que, como ninguém, Rita o tornava extremamente sensual".
Paralelamente ao seu trabalho no cinema, Jean Louis desenvolve uma carreira como designer de moda, e a fusão de ambos estabelece uma obra cujas características passam pela exaltação do vestido como linguagem da moda feminina, vestido entendido como uma redundante segunda pele e estrutura de sensualidade, não apenas em termos formais, mas também materiais - musselinas translúcidas, sedas suaves, cetins lustrosos e escorregadios, peles volumosas e lantejoulas metálicas. Quando Gilda canta "Amado Mio", usa um vestido "midriff" (diafragma) branco, em duas peças, bordado a lantejoulas, o ventre desnudo. As reverberações vestimentárias exóticas da América do Sul, difundir-se-iam no Ocidente, no final dos anos 40, graças a esse vestido "Amado Mio".
Mas se em "Gilda", Jean Louis modela as sedimentadas convenções da femme fatale, já em "O Querido Joey" (Rita Hayworth como Vera Simpson), "aristocratiza" essa femme fatale. Da rapariguinha boa e ingénua dos primeiros filmes, da beleza mediterrânea de, por exemplo, Carmen em "Blood and Sand" (1941), passando por personagens de singular feminidade (em confronto com homens fortes que a conquistavam pela dureza), ou ainda pelo brilho das coreografias das comédias musicais (em especial com Fred Astaire), o 'tipo' Gilda, e a sua consequente erotização em femme fatale marcou a carreira de Rita Hayworth, atingindo um tal grau de popularidade que fez surgir por todo o lado os "penteados gilda", os "sapatos gilda", luvas do mesmo género e vestuário de idêntico estilo.
Em plena década de 40, o 'tipo' Gilda só poderia ser um grande sucesso ou um enorme fracasso. A postura arrojada da mulher representada estava no limiar do aceitável à luz dos valores morais da época. A prová-lo estão as devastadoras críticas da imprensa espanhola, que na altura observava atentamente a ascensão de Margarita Carmen Cansino (Rita Hayworth). Depois desse filme "medíocre e escandaloso", "uma das coisas mais lamentáveis até à data vistas nas nossas telas", deixou de ser grato falar da ascendência daquela que outrora tinham convenientemente apelidado de "vedeta espanhola". Esquecendo as suas origens, as notícias passariam a dar mais destaque ao seu casamento com o génio, esse incomensurável e extravagante Orson Welles, de quem Rita Hayworth teve uma filha.
Rebecca nascera pouco antes do início da rodagem de "Gilda", obrigando Jean Louis à confecção de uma estrutura complexa, uma verdadeira máquina de cena, cingindo o vestido ao ventre de Rita e usando uma espécie de atilho tenso e cruzado que terminava num lanço junto à anca, mantendo o vestido moldado ao corpo, estático, através de hastes de plástico, adelgaçadas com calor, conservando assim a sua forma. Uma escultura com corpo dentro. Durante esse número de música e dança, Gilda encena o prenúncio de um strip-tease, que terá a sua ressonância em "O Querido Joey" quando "Vera Vanessa" ou "Vera dos Véus Evanescentes", outrora nome artístico da respeitável Mrs Prentiss Simpson, simula um mímico strip-tease cantando "Zip! I'm so eclectic. / Zip! I`m a little hectic./ Zip! My artistic taste is classic and dear./ Zip! Who the hell is Lil St. Cyr?" Tudo um problema de fechos de correr. É a própria Gilda quem o diz: "Zippers throw me" (Os fechos enervam-me).
Depois de "Gilda", Rita está preparada para subir ao Olimpo, em "Down to Earth" (1947), quando Jean Louis a encarna em Terpsícore, musa da dança na mitologia grega que, sob a forma de Kitty Pendleton, desce à terra para se apaixonar por um mortal. Uma divindade clássica, a pin-up da nação, "a deusa do amor", "a ruiva atómica". Porque mortal Rita só foi em "A Dama de Xangai", uma hibridização de Grace Kelly e Marilyn que a transforma na pérfida e glacial "dark lady" Elsa Bannister. Rita Hayworth com o cabelo curto e platinado. Jean Louis dilui o guarda-roupa em corpóreos fatos-de-banho.
Jean Louis viveu 89 anos, trabalhou até aos 66 e participou em mais de 140 filmes. Vestiu a actriz Loretta Young (sua mulher), para a lendária série televisiva "The Loretta Young Show", vista semanalmente por muitas mulheres que a seguiam atentamente como tendência de moda. Foi um dos primeiros designers masculinos a ser nomeado para um Oscar e, em 1956, com o filme "The Solid Gold Cadillac" ganhou a sua primeira e única estatueta. Passavam oito anos desde que, pela primeira vez, se havia galardoado um trabalho de "Costume Design", numa altura em que se distinguiam duas sub-categorias, atribuindo-se até 1966 dois prémios por ano aos melhores trabalhos de guarda-roupa, a cores e a preto e branco.
A imensidão da carreira de Jean Louis confunde-se com a iconografia da femme fatale clássica, um enunciado de vestuário (em "Gilda", desenhou 31 figurinos para Rita Hayworth), um guarda-roupa variável segundo as regras do claro-escuro, metáfora de duplicidade. Nessa encenação, o corpo fragmenta-se em mãos, pernas, rosto; até o cigarro se torna um acessório de moda. Se o guarda-roupa expõe a psicologia de uma personagem, o ecrã de cinema é, então, o lado de dentro do corpo feminino.