Controlar parceiros infiéis

07-03-2004
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Controlar Parceiros Infiéis

Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2003

%B.W.

"Onde é que estás?" Em situação de crise conjugal, o marido ou a mulher procura confirmar as suas suspeitas através de telefonemas constantes ou então dos registos no telemóvel do parceiro, verificando a factura detalhada. Saber com quem falou o parceiro e que mensagens mandou ou recebeu são a forma mais recente de controlar, diz o psiquiatra José Gameiro, que faz terapia de casal, em Lisboa.

Antes, o controlo era feito através da contagem dos quilómetros do carro, do extracto do cartão de crédito ou da Via Verde. Agora o telemóvel é o detective. "O drama disto é que, nas relações de desconfiança e ciúme, o verificar diário dos passos do companheiro não sossegam a pessoa nos casos em que não encontra o que queria encontrar", refere o psiquiatra.

No futuro, com o equipamento de terceira geração, o cônjuge desconfiado pode ligar, perguntar o que é que o companheiro está a fazer e de seguida pedir para confirmar: "Mostra-me os teus colegas de trabalho." O interpelado poderá mostrar-lhe o espaço onde se encontra ou confirmar que, de facto, não está no emprego.

Mas este é um "pseudocontrolo", acredita José Gameiro. "Ninguém controla ninguém. O telemóvel permite o acesso, mas não o controlo. Mesmo em relação aos miúdos, não os controla. Ele pode dizer que está num sítio e não estar."

Em situação de crise, qualquer pessoa que normalmente não o faria é capaz de, à noite, aproveitar o sono do companheiro e devassar-lhe os segredos no telemóvel.

Em todo o mundo, os inquiridos por Sadie Plant no estudo "Os efeitos do telemóvel na vida social e individual", admitem que espreitam os telemóveis dos parceiros. As relações com o aparelho mudam conforme o género, nota a investigadora: as mulheres utilizam-no mais para comunicar, os homens usam-no para jogar.

Os homens continuam a usar os aparelhos como símbolo de estatuto e de virilidade. Num estudo britânico observou-se com que frequência os telemóveis estavam em cima da mesa, em bares do bairros lobdrinos Soho e Convent Garden. Na maioria dos pares masculinos, os telefones estavam à vista, como que a mostrar que há alguma rivalidade entre eles. Entre as mulheres, apenas dez por cento os tinham expostos, o que poderá significar que elas dão mais importância às conversas cara-a-cara.

No entanto, seis em cada dez mulheres sozinhas têm o telefone bem à vista, mais do que os homens (47 por cento). A mensagem pode ser: "Não estou sozinha, estou com o meu telemóvel."

Tratamentos para viciados

Deslocada, a dar aulas na Madeira, Fátima, 29 anos, tem uma relação de dependência com o telemóvel. Os amigos e a família ficaram no Continente e "há que aparecer, nem que seja pelo telefone". As conversas levam-na a gastar 15 euros por semana - "é horrível, porque é muito dinheiro" - e tem dois telefones, de dois operadores diferentes, para poder falar com todos. "Só com a minha mãe, é meia hora diária", confessa. "Às vezes ligo, sem nenhum propósito, só para fazer notar a minha existência."

E há momentos em que o isolamento e a solidão apertam de tal maneira que os dedos percorrem o teclado à procura de uma voz amiga do outro lado do mar. "Sobretudo à noite e ao fim-de-semana. O domingo à tarde... É um dia muito parvo, o domingo, porque é quando as pessoas estão com a família e, nessa altura, é quando me agarro mais ao telemóvel", confessa.

Embora seja declaradamente dependente, Fátima diz que se estivesse mais perto dos que ama, a sua relação com o telefone seria completamente diferente.

Depois de lhe terem sido roubados três telemóveis, Gisela, 27 anos, jornalista de um diário da capital, decidiu não voltar a ter telefone. "O telemóvel faz-me falta, mas as ocasiões são muito menos do que as que imaginei. Faz alguma falta quando estou sozinha, quando fiquei de me encontrar com alguém, mas a maior parte das vezes estou sempre à beira de um telefone." Gisela apercebeu-se de que as pessoas têm alguma relutância em ligar para o telefone fixo e que muitos insistem em pedir-lhe o número do móvel. "Se ligam e eu não estou, pensam logo que não vão voltar a encontrar-me, mas também não deixam mensagem", queixa-se.

Enquanto teve telemóvel, mantinha-o sempre ligado e nas férias recebia telefonemas de trabalho. Não era dependente, mas não sabia desligar o aparelho, admite.

Agora, passado quase um ano sem telemóvel, pensa - "infelizmente" - voltar a comprar, por pressão da família e dos amigos que se queixam de não a encontrar. Só que, desta vez, Gisela terá outro cuidado na sua utilização: "Vou aprender a desligar."

Por cá, os especialistas não têm conhecimento de "comportamentos aditivos" em relação ao telemóvel. Provavelmente os adolescentes serão mais agarrados ao telefone que os adultos, o que é "natural". Gustavo Cardoso, do Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa, lembra que "faz parte" da adolescência. A geração anterior estava dependente do telefone fixo e também passava horas ao telefone.

O psicólogo Eduardo Sá diz que o falar ao telemóvel pode ser um comportamento aditivo, como comer muito. "Se os adolescentes se barricarem atrás de um telemóvel, então são doentes e têm de ser tratados."

Em Espanha, começaram a chegar aos consultórios psiquiátricos os primeiros casos de dependência. A maioria são mulheres, têm entre 16 e 25 anos, são tímidas, sós, imaturas, frustradas e com problemas de socialização, retrata o diário "El País". Os doentes podem ter até nove telefones, gastarem mais de 800 euros mensais e, tal como a maioria dos dependentes, assumir comportamentos violentos, mentir ou roubar.

Na Dinamarca, um dos países com maior penetração de telemóveis, existe uma clínica que recebe, desde 1998, em média, duas pessoas por semana com problemas por causa dos telemóveis. Destas, 60 por cento são mulheres e sujeitam-se a tratamentos de psicoterapia.

Controlar Parceiros Infiéis

Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2003

%B.W.

"Onde é que estás?" Em situação de crise conjugal, o marido ou a mulher procura confirmar as suas suspeitas através de telefonemas constantes ou então dos registos no telemóvel do parceiro, verificando a factura detalhada. Saber com quem falou o parceiro e que mensagens mandou ou recebeu são a forma mais recente de controlar, diz o psiquiatra José Gameiro, que faz terapia de casal, em Lisboa.

Antes, o controlo era feito através da contagem dos quilómetros do carro, do extracto do cartão de crédito ou da Via Verde. Agora o telemóvel é o detective. "O drama disto é que, nas relações de desconfiança e ciúme, o verificar diário dos passos do companheiro não sossegam a pessoa nos casos em que não encontra o que queria encontrar", refere o psiquiatra.

No futuro, com o equipamento de terceira geração, o cônjuge desconfiado pode ligar, perguntar o que é que o companheiro está a fazer e de seguida pedir para confirmar: "Mostra-me os teus colegas de trabalho." O interpelado poderá mostrar-lhe o espaço onde se encontra ou confirmar que, de facto, não está no emprego.

Mas este é um "pseudocontrolo", acredita José Gameiro. "Ninguém controla ninguém. O telemóvel permite o acesso, mas não o controlo. Mesmo em relação aos miúdos, não os controla. Ele pode dizer que está num sítio e não estar."

Em situação de crise, qualquer pessoa que normalmente não o faria é capaz de, à noite, aproveitar o sono do companheiro e devassar-lhe os segredos no telemóvel.

Em todo o mundo, os inquiridos por Sadie Plant no estudo "Os efeitos do telemóvel na vida social e individual", admitem que espreitam os telemóveis dos parceiros. As relações com o aparelho mudam conforme o género, nota a investigadora: as mulheres utilizam-no mais para comunicar, os homens usam-no para jogar.

Os homens continuam a usar os aparelhos como símbolo de estatuto e de virilidade. Num estudo britânico observou-se com que frequência os telemóveis estavam em cima da mesa, em bares do bairros lobdrinos Soho e Convent Garden. Na maioria dos pares masculinos, os telefones estavam à vista, como que a mostrar que há alguma rivalidade entre eles. Entre as mulheres, apenas dez por cento os tinham expostos, o que poderá significar que elas dão mais importância às conversas cara-a-cara.

No entanto, seis em cada dez mulheres sozinhas têm o telefone bem à vista, mais do que os homens (47 por cento). A mensagem pode ser: "Não estou sozinha, estou com o meu telemóvel."

Tratamentos para viciados

Deslocada, a dar aulas na Madeira, Fátima, 29 anos, tem uma relação de dependência com o telemóvel. Os amigos e a família ficaram no Continente e "há que aparecer, nem que seja pelo telefone". As conversas levam-na a gastar 15 euros por semana - "é horrível, porque é muito dinheiro" - e tem dois telefones, de dois operadores diferentes, para poder falar com todos. "Só com a minha mãe, é meia hora diária", confessa. "Às vezes ligo, sem nenhum propósito, só para fazer notar a minha existência."

E há momentos em que o isolamento e a solidão apertam de tal maneira que os dedos percorrem o teclado à procura de uma voz amiga do outro lado do mar. "Sobretudo à noite e ao fim-de-semana. O domingo à tarde... É um dia muito parvo, o domingo, porque é quando as pessoas estão com a família e, nessa altura, é quando me agarro mais ao telemóvel", confessa.

Embora seja declaradamente dependente, Fátima diz que se estivesse mais perto dos que ama, a sua relação com o telefone seria completamente diferente.

Depois de lhe terem sido roubados três telemóveis, Gisela, 27 anos, jornalista de um diário da capital, decidiu não voltar a ter telefone. "O telemóvel faz-me falta, mas as ocasiões são muito menos do que as que imaginei. Faz alguma falta quando estou sozinha, quando fiquei de me encontrar com alguém, mas a maior parte das vezes estou sempre à beira de um telefone." Gisela apercebeu-se de que as pessoas têm alguma relutância em ligar para o telefone fixo e que muitos insistem em pedir-lhe o número do móvel. "Se ligam e eu não estou, pensam logo que não vão voltar a encontrar-me, mas também não deixam mensagem", queixa-se.

Enquanto teve telemóvel, mantinha-o sempre ligado e nas férias recebia telefonemas de trabalho. Não era dependente, mas não sabia desligar o aparelho, admite.

Agora, passado quase um ano sem telemóvel, pensa - "infelizmente" - voltar a comprar, por pressão da família e dos amigos que se queixam de não a encontrar. Só que, desta vez, Gisela terá outro cuidado na sua utilização: "Vou aprender a desligar."

Por cá, os especialistas não têm conhecimento de "comportamentos aditivos" em relação ao telemóvel. Provavelmente os adolescentes serão mais agarrados ao telefone que os adultos, o que é "natural". Gustavo Cardoso, do Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa, lembra que "faz parte" da adolescência. A geração anterior estava dependente do telefone fixo e também passava horas ao telefone.

O psicólogo Eduardo Sá diz que o falar ao telemóvel pode ser um comportamento aditivo, como comer muito. "Se os adolescentes se barricarem atrás de um telemóvel, então são doentes e têm de ser tratados."

Em Espanha, começaram a chegar aos consultórios psiquiátricos os primeiros casos de dependência. A maioria são mulheres, têm entre 16 e 25 anos, são tímidas, sós, imaturas, frustradas e com problemas de socialização, retrata o diário "El País". Os doentes podem ter até nove telefones, gastarem mais de 800 euros mensais e, tal como a maioria dos dependentes, assumir comportamentos violentos, mentir ou roubar.

Na Dinamarca, um dos países com maior penetração de telemóveis, existe uma clínica que recebe, desde 1998, em média, duas pessoas por semana com problemas por causa dos telemóveis. Destas, 60 por cento são mulheres e sujeitam-se a tratamentos de psicoterapia.

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