Por ANTÓNIO ARNALDO MESQUITA
Quinta-feira, 29 de Maio de 2003
Paulo Pedroso admitiu ter sido avisado por juiz da Boa Hora
Paulo Pedroso disse ao juiz Rui Teixeira, do Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa que foi um magistrado judicial da Boa Hora a alertá-lo para o facto de poder estar a ser investigado, devido a alegado abuso sexual de crianças. "A coisa está negra para o Paulo Pedroso e o Férrinho também não escapa", ou "não se safa". Seriam estas as palavras que andariam a ser ditas por um desembargador da Relação de Lisboa e lhe terão sido transmitidas por aquele magistrado judicial ao ex-ministro da da Segurança Social. Estas expressões constam do auto de interrogatório de Pedroso e é uma das vertentes principais da inquirição do arguido, na qual as escutas telefónicas acabariam por ter um papel decisivo.
Na sequência de tal rumor, a que os dirigentes do PS conferiram credibilidade suficiente, Paulo Pedroso não perdeu tempo e, três dias depois, em 12 de Maio, requereu ao procurador-geral da República, José Souto Moura, que lhe fossem facultados as peças que indiciariam o seu envolvimento naquele caso, para procedimento criminal contra os autores da alegada calúnia. Disponibilizou-se nessa petição para dar também os esclarecimentos tidos por necessários pelos investigadores do processo de pedofilia na Casa Pia. Ferro Rodrigues, sobre quem circulavam igualmente versões que apontavam para o seu envolvimento no caso, terá contactado o Presidente da República e também escreveu a José Souto Moura.
A questão do conhecimento evidenciado pelos dois dirigentes socialistas sobre factos constantes do processo foi um dos temas centrais das perguntas que lhe foram dirigidas pelo juiz Rui Teixeira, que se encontra desde ontem com segurança policial, e das alegações do Ministério Público. Pairou mesmo a possibilidade de essa alegada fuga de informação ter partido da Polícia Judiciária. O deputado socialista assegurou então no Tribunal de Instrução Criminal, durante o interrogatório, que nenhuma fonte da Polícia Judiciária divulgou elementos sobre o processo da Casa Pia, fosse a elementos do PS ou a outros. Face a esta afirmação, o procurador João Guerra, titular do inquérito, sustentou que aquela explicação do arguido seria indiciadora de comprometimento do ex-ministro nos factos que o indiciam em práticas pedófilas. Baseando-se nas escutas telefónicas, João Guerra sustentou que Paulo Pedroso teria conhecimento de factos em investigação e revelaria ainda receio pessoal de que a investigação o atingisse a si, evidenciando o que, no entender do procurador, seria um interresse injustificado por factos relativos à estratégia do seu co-arguido Carlos Cruz. Esta alusão do magistrado do Ministério Público basear-se-á no facto de, num telefonema que durou 11 minutos, foi escutado em 4 de Abril e mereceu uma transcrição de seis linhas. O ex-ministro da Segurança Social no Governo socialista terá afirmado a Ferro Rodrigues, no contexto de um comentário sobre a imprensa do dia, que um jornal dizia que Carlos Cruz andava a mandar mensagens por telemóvel aos amigos.
As escutas telefónicas dominaram, aliás, parte substancial da diligência, preenchida largo tempo com a audição das intercepções gravadas nas últimas semana e feitas tanto a Paulo Pedroso como a Ferro Rodrigues. O procurador não se satisfez quanto às explicações adiantadas por Pedroso, relativamente a expressões a que atribuíra especial significado - "alerta amarelo e bombardeamento ao embaixador" . E não terá mesmo, neste último caso, ao contrário da defesa do deputado, percebido uma palavra essencial [ Rússia ou russo?] para acabar com a ilusão induzida pela transcrição que o "embaixador R..." seria o diplomata Ritto que é arguido no processo. O advogado Celso Cruzeiro, defensor de Paulo Pedroso, alertou o Tribunal para o facto de o arguido ter dado uma cabal e completa explicação para o sentido das conversas escutadas e aconselhou o Ministério Público a "desconfiar sempre das verdades fáceis e das palavras definitivas".
Pedroso nega envolvimento
No início do interrogatório, Paulo Pedroso negou envolvimento nos factos que lhe eram imputados. Assegurou que não tinha tido relações sexuais com menores de 16 ou 18 anos e que apenas teria estado em Elvas - cidade onde a acusação sustenta haver uma residência que serviu de cenário a actos de pedofilia com antigos e actuais alunos da Casa Pia - somente em missões partidárias ou governativas. Foi taxativo ao garantir que nunca esteve em nenhuma residência privada desta cidade alentejana.
Quanto aos restantes co-arguidos no processo, o ex- ministro da Segurança Social assegurou que apenas os conhecia da televisão, salvo o ex-provedor-adjunto da Casa Pia, Manuel Abrantes, de quem teria um conhecimento protocolar e superficial. Relativamente a Carlos Silvino, que terá sido motorista da Comissão Para o Rendimento Mínimo, Pedroso também foi peremptório: nunca viajou em qualquer carro guiado por Carlos Silvino, mas em viaturas do gabinete do ministro da Segurança Social e identificou o seu motorista oficial. Paulo Pedroso revelou ao juiz de instrução que, nas funções governativas exercidas entre Novembro de 1997 e Março de 2002, nunca tutelou a Casa Pia.
O ex-ministro da Segurança Social foi ainda inquirido sobre a possibilidade de o seu envolvimento no processo da Casa Pia ter sido montado por algum inimigo seu. Paulo Pedroso admitiu ter a opinião de que por trás dos factos poderá estar uma "complexa organização" mas reconheceu não ter dados sobre isso. Adiantou apenas ter tido uma conversa com uma pessoa que atribuiu o caso da Casa Pia a uma trama dos serviços secretos militares. Por fim, questionado sobre se tinha conhecimento de pessoas que não gostassem de si ao ponto de montar uma cabala, Paulo Pedroso citou apenas um caso antigo de um ex-jornalista e actual assessor do ministro da Defesa, Paulo Portas, que disse a um amigo seu não gostar nem de si nem do líder do PS, Ferro Rodrigues.
Categorias
Entidades
Por ANTÓNIO ARNALDO MESQUITA
Quinta-feira, 29 de Maio de 2003
Paulo Pedroso admitiu ter sido avisado por juiz da Boa Hora
Paulo Pedroso disse ao juiz Rui Teixeira, do Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa que foi um magistrado judicial da Boa Hora a alertá-lo para o facto de poder estar a ser investigado, devido a alegado abuso sexual de crianças. "A coisa está negra para o Paulo Pedroso e o Férrinho também não escapa", ou "não se safa". Seriam estas as palavras que andariam a ser ditas por um desembargador da Relação de Lisboa e lhe terão sido transmitidas por aquele magistrado judicial ao ex-ministro da da Segurança Social. Estas expressões constam do auto de interrogatório de Pedroso e é uma das vertentes principais da inquirição do arguido, na qual as escutas telefónicas acabariam por ter um papel decisivo.
Na sequência de tal rumor, a que os dirigentes do PS conferiram credibilidade suficiente, Paulo Pedroso não perdeu tempo e, três dias depois, em 12 de Maio, requereu ao procurador-geral da República, José Souto Moura, que lhe fossem facultados as peças que indiciariam o seu envolvimento naquele caso, para procedimento criminal contra os autores da alegada calúnia. Disponibilizou-se nessa petição para dar também os esclarecimentos tidos por necessários pelos investigadores do processo de pedofilia na Casa Pia. Ferro Rodrigues, sobre quem circulavam igualmente versões que apontavam para o seu envolvimento no caso, terá contactado o Presidente da República e também escreveu a José Souto Moura.
A questão do conhecimento evidenciado pelos dois dirigentes socialistas sobre factos constantes do processo foi um dos temas centrais das perguntas que lhe foram dirigidas pelo juiz Rui Teixeira, que se encontra desde ontem com segurança policial, e das alegações do Ministério Público. Pairou mesmo a possibilidade de essa alegada fuga de informação ter partido da Polícia Judiciária. O deputado socialista assegurou então no Tribunal de Instrução Criminal, durante o interrogatório, que nenhuma fonte da Polícia Judiciária divulgou elementos sobre o processo da Casa Pia, fosse a elementos do PS ou a outros. Face a esta afirmação, o procurador João Guerra, titular do inquérito, sustentou que aquela explicação do arguido seria indiciadora de comprometimento do ex-ministro nos factos que o indiciam em práticas pedófilas. Baseando-se nas escutas telefónicas, João Guerra sustentou que Paulo Pedroso teria conhecimento de factos em investigação e revelaria ainda receio pessoal de que a investigação o atingisse a si, evidenciando o que, no entender do procurador, seria um interresse injustificado por factos relativos à estratégia do seu co-arguido Carlos Cruz. Esta alusão do magistrado do Ministério Público basear-se-á no facto de, num telefonema que durou 11 minutos, foi escutado em 4 de Abril e mereceu uma transcrição de seis linhas. O ex-ministro da Segurança Social no Governo socialista terá afirmado a Ferro Rodrigues, no contexto de um comentário sobre a imprensa do dia, que um jornal dizia que Carlos Cruz andava a mandar mensagens por telemóvel aos amigos.
As escutas telefónicas dominaram, aliás, parte substancial da diligência, preenchida largo tempo com a audição das intercepções gravadas nas últimas semana e feitas tanto a Paulo Pedroso como a Ferro Rodrigues. O procurador não se satisfez quanto às explicações adiantadas por Pedroso, relativamente a expressões a que atribuíra especial significado - "alerta amarelo e bombardeamento ao embaixador" . E não terá mesmo, neste último caso, ao contrário da defesa do deputado, percebido uma palavra essencial [ Rússia ou russo?] para acabar com a ilusão induzida pela transcrição que o "embaixador R..." seria o diplomata Ritto que é arguido no processo. O advogado Celso Cruzeiro, defensor de Paulo Pedroso, alertou o Tribunal para o facto de o arguido ter dado uma cabal e completa explicação para o sentido das conversas escutadas e aconselhou o Ministério Público a "desconfiar sempre das verdades fáceis e das palavras definitivas".
Pedroso nega envolvimento
No início do interrogatório, Paulo Pedroso negou envolvimento nos factos que lhe eram imputados. Assegurou que não tinha tido relações sexuais com menores de 16 ou 18 anos e que apenas teria estado em Elvas - cidade onde a acusação sustenta haver uma residência que serviu de cenário a actos de pedofilia com antigos e actuais alunos da Casa Pia - somente em missões partidárias ou governativas. Foi taxativo ao garantir que nunca esteve em nenhuma residência privada desta cidade alentejana.
Quanto aos restantes co-arguidos no processo, o ex- ministro da Segurança Social assegurou que apenas os conhecia da televisão, salvo o ex-provedor-adjunto da Casa Pia, Manuel Abrantes, de quem teria um conhecimento protocolar e superficial. Relativamente a Carlos Silvino, que terá sido motorista da Comissão Para o Rendimento Mínimo, Pedroso também foi peremptório: nunca viajou em qualquer carro guiado por Carlos Silvino, mas em viaturas do gabinete do ministro da Segurança Social e identificou o seu motorista oficial. Paulo Pedroso revelou ao juiz de instrução que, nas funções governativas exercidas entre Novembro de 1997 e Março de 2002, nunca tutelou a Casa Pia.
O ex-ministro da Segurança Social foi ainda inquirido sobre a possibilidade de o seu envolvimento no processo da Casa Pia ter sido montado por algum inimigo seu. Paulo Pedroso admitiu ter a opinião de que por trás dos factos poderá estar uma "complexa organização" mas reconheceu não ter dados sobre isso. Adiantou apenas ter tido uma conversa com uma pessoa que atribuiu o caso da Casa Pia a uma trama dos serviços secretos militares. Por fim, questionado sobre se tinha conhecimento de pessoas que não gostassem de si ao ponto de montar uma cabala, Paulo Pedroso citou apenas um caso antigo de um ex-jornalista e actual assessor do ministro da Defesa, Paulo Portas, que disse a um amigo seu não gostar nem de si nem do líder do PS, Ferro Rodrigues.