Transparência
«Ao assumir, na SIC-Notícias, em entrevista a Maria João Avillez, que foi toxicodependente, Morais Sarmento tomou uma atitude pouco comum e que o dignifica como homem e como político. (...) E a propósito de transparência ocorre, por contraponto, a atitude de Isaltino Morais, que, também chamado para o Governo, decide apenas suspender o mandato de presidente da Câmara de Oeiras em vez de apresentar a renúncia.»
NUNO Morais Sarmento, o novo ministro da Presidência, é, por enquanto, um desconhecido para a esmagadora maioria dos portugueses. O país político deu por ele quando Durão Barroso o chamou para vice-presidente do PSD. Mas nos três anos que leva de exercício do cargo não teve exposição pública suficiente para demonstrar junto da opinião pública a vocação e a capacidade políticas que os mais próximos lhe atribuem. Agora que assume funções de Estado ao mais alto nível terá, como os restantes novatos em cargos de governação, a oportunidade de comprovar os méritos ou de frustrar as expectativas criadas em torno do seu nome.
Há um ponto, no entanto, que o ministro da Presidência marcou já a seu favor. Ao assumir, na SIC-Notícias, em entrevista a Maria João Avillez, que foi toxicodependente, Morais Sarmento tomou uma atitude pouco comum e que o dignifica como homem e como político. Não deve ser fácil para alguém que acaba de ser nomeado ministro dar público conhecimento de comportamentos pessoais desviantes que diminuem a sua imagem e podem tornar-se um estigma fatal para quem tem a ambição de uma carreira com tal grau de visibilidade. Pode-se dizer que foi «política» esta opção: os rumores sobre essa parte do seu passado corriam há muito nos bastidores e Morais Sarmento terá pretendido evitar que eles saltassem para as páginas dos jornais, apanhando-o desprevenido e obrigando-o a explicar-se na defensiva. Mas nem por isso a confissão tem menos valor. São raros os momentos na vida pública em que alguém toma a iniciativa de revelar, por sua iniciativa, uma fraqueza deste tipo, correndo o risco de ficar para sempre sob vigilância apertada. Deve-se, pois, sublinhar a seriedade do gesto, assim como a preocupação de transparência que ele traduz.
E a propósito de transparência, ainda que num plano completamente distinto, ocorre, por contraponto, a atitude de Isaltino Morais, que, também chamado para o Governo, decide apenas suspender o mandato de presidente da Câmara de Oeiras, para o qual foi eleito em Dezembro, em vez de apresentar a renúncia. Não é caso único, como se sabe. Também o socialista Narciso Miranda teve o cuidado de assegurar o regresso à Câmara de Matosinhos - e o seu controlo efectivo, enquanto estivesse ausente -, para o caso de ser demasiado efémero o cargo de secretário de Estado no Ministério do Equipamento Social, experiência que, na realidade, veio a revelar-se curta.
Não se questiona, como é óbvio, a legalidade do acto; o que se lamenta, precisamente, é que a lei o permita, consentindo, na prática, que o mesmo cidadão seja titular de dois cargos públicos em simultâneo. E que, por razões da sua conveniência particular - garantir um lugar de retaguarda -, esse cidadão não veja, ou não queira ver, que a sua opção apenas contribui para alimentar uma ideia de promiscuidade que prejudica tanto a imagem do ministro como a do autarca.
fmadrinha@mail.expresso.pt
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«Ao assumir, na SIC-Notícias, em entrevista a Maria João Avillez, que foi toxicodependente, Morais Sarmento tomou uma atitude pouco comum e que o dignifica como homem e como político. (...) E a propósito de transparência ocorre, por contraponto, a atitude de Isaltino Morais, que, também chamado para o Governo, decide apenas suspender o mandato de presidente da Câmara de Oeiras em vez de apresentar a renúncia.»
NUNO Morais Sarmento, o novo ministro da Presidência, é, por enquanto, um desconhecido para a esmagadora maioria dos portugueses. O país político deu por ele quando Durão Barroso o chamou para vice-presidente do PSD. Mas nos três anos que leva de exercício do cargo não teve exposição pública suficiente para demonstrar junto da opinião pública a vocação e a capacidade políticas que os mais próximos lhe atribuem. Agora que assume funções de Estado ao mais alto nível terá, como os restantes novatos em cargos de governação, a oportunidade de comprovar os méritos ou de frustrar as expectativas criadas em torno do seu nome.
Há um ponto, no entanto, que o ministro da Presidência marcou já a seu favor. Ao assumir, na SIC-Notícias, em entrevista a Maria João Avillez, que foi toxicodependente, Morais Sarmento tomou uma atitude pouco comum e que o dignifica como homem e como político. Não deve ser fácil para alguém que acaba de ser nomeado ministro dar público conhecimento de comportamentos pessoais desviantes que diminuem a sua imagem e podem tornar-se um estigma fatal para quem tem a ambição de uma carreira com tal grau de visibilidade. Pode-se dizer que foi «política» esta opção: os rumores sobre essa parte do seu passado corriam há muito nos bastidores e Morais Sarmento terá pretendido evitar que eles saltassem para as páginas dos jornais, apanhando-o desprevenido e obrigando-o a explicar-se na defensiva. Mas nem por isso a confissão tem menos valor. São raros os momentos na vida pública em que alguém toma a iniciativa de revelar, por sua iniciativa, uma fraqueza deste tipo, correndo o risco de ficar para sempre sob vigilância apertada. Deve-se, pois, sublinhar a seriedade do gesto, assim como a preocupação de transparência que ele traduz.
E a propósito de transparência, ainda que num plano completamente distinto, ocorre, por contraponto, a atitude de Isaltino Morais, que, também chamado para o Governo, decide apenas suspender o mandato de presidente da Câmara de Oeiras, para o qual foi eleito em Dezembro, em vez de apresentar a renúncia. Não é caso único, como se sabe. Também o socialista Narciso Miranda teve o cuidado de assegurar o regresso à Câmara de Matosinhos - e o seu controlo efectivo, enquanto estivesse ausente -, para o caso de ser demasiado efémero o cargo de secretário de Estado no Ministério do Equipamento Social, experiência que, na realidade, veio a revelar-se curta.
Não se questiona, como é óbvio, a legalidade do acto; o que se lamenta, precisamente, é que a lei o permita, consentindo, na prática, que o mesmo cidadão seja titular de dois cargos públicos em simultâneo. E que, por razões da sua conveniência particular - garantir um lugar de retaguarda -, esse cidadão não veja, ou não queira ver, que a sua opção apenas contribui para alimentar uma ideia de promiscuidade que prejudica tanto a imagem do ministro como a do autarca.
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