Sampaio Contra "Crispação Prematura" na Vida Política Portuguesa
Por JOSÉ MANUEL FERNANDES, nosso enviado em Sydney
Domingo, 26 de Maio de 2002
Presidente termina visita à Austrália
O último dia de Jorge Sampaio em Sydney foi dedicado à comunidade portuguesa, como uma visita ao Bairro Português, uma recepção e uma entrevista onde lançou alguns avisos sobre o rumo da luta política em Portugal
Durante dias Jorge Sampaio fugiu sempre de comentar o que quer que fosse da política interna portuguesa - "não falo das questões domésticas quando estou no exterior", foi repetindo -, mas ao último dia acabou por ceder. Entrevistado em português nos estúdios da SBS - um canal público multilingue que transmite programas para as dezenas de comunidades nacionais que constituem o "melting pot" australiano -, o Presidente da República fez como que um aviso à navegação: "as águas ainda estão tépidas, ainda agora o Governo tomou posse, pelo que acho que a crispação não é solução para os problemas dos portugueses".
Sampaio respondia a uma questão sobre a tempestade política em torno da RTP e, recusando-se a avançar o que vai fazer a diplomas cujo conteúdo disse nem sequer ainda conhecer em detalhe, sugeriu antes "que se encontrem formas de tratar estas coisas sem dar a sensação de que o país vai acabar amanhã". "Há pontos de vista diferentes que devem ser respeitados, tem de haver tolerância na diversidade política, isto não deve ser tudo uma guerra aberta, tem de haver lugar para compromissos", foi acrescentando. "E não me perguntem mais nada sobre a RTP, o canal um ou o canal dois", concluiu.
Pedido inútil. Minutos mais tarde, quando chegou ao Bairro Português de Sydney, Petersham, uma zona onde se concentram cinco mil dos cerca de vinte mil portugueses que vivem nesta cidade, essa era uma das perguntas mais frequentes que os emigrantes lhe faziam. "Senhor presidente, não deixe acabar com a RTP internacional", dirigia-se-lhe uma senhora que até tinha trazido de casa um pequeno cartaz em defesa da estação estatal. "A RTPi é que ainda nos vai mostrando o que se passa em Portugal". Sampaio lá ia dizendo que não se preocupasse enquanto distribuía beijos e abraços pela pequena multidão que, apesar da chuva miudinha, se tinha juntado nas ruas New Canterbury e Audley.
Atrás dele, as deputadas Natália Carrascalão, do PSD, e Ana Benavente, do PS, também iam repetindo que ninguém tinha dito que a RTPi podia acabar. Então, porquê tanto receio? "São aquelas frases que passam por baixo dos apresentadores", respondeu-nos Graça, a senhora do cartaz. "Naqueles rodapés estamos sempre a ler que a RTP vai acabar, que isto e que aquilo. Eu bem sei que deviam olhar para os ordenados de oito mil contos que lá se pagam, mas acabar com a RTPi é que não".
Sem outra forma de aceder ao que se vai passando em Portugal senão os noticiários da própria RTPi, esta emigrante, como tantos outros que ouvimos por estes dias, foram assim criando, via telejornais da RTP, a ideia de que pode acabar um canal cuja extinção ninguém propôs ou anunciou.
Gente sobretudo humilde, muitos vindos da Madeira, portugueses que longe da sua terra recriaram nestas duas ruas o ambiente que deixaram para trás - aqui pode-se comer um pastel de nata, beber uma verdadeira bica, comprar azeite, aguardente ou presunto vindos de Portugal, aqui se faz também um pequeno jornal em português. Muitos não foram capazes de esconder uma lágrima quando o Presidente da República roubou a batuta ao maestro da banda que o esperava e dirigiu ele próprio os últimos acordes de uma marcha tradicional. "São estes momentos tão importantes nas nossas vidas que nos dão o sentimento da unidade do espírito português através do Mundo", diria pouco depois. "Desejo a vocês todos que sejam melhores australianos porque assim serão também melhores portugueses. Intervenham. Façam-no tanto na política australiana como na portuguesa, sejam cidadãos activos".
Dezenas de pequenas bandeiras portuguesas flutuaram então sobre as cabeças dos que preenchiam a enorme tenda que tinha sido montada para a recepção. O Presidente chama ao palco um arborígene e abraça-o enquanto, por trás de si, formando o cenário, vemos uma bandeira portugues, à esquerda a da Austrália, e à direita a da nação arborígene, duas barras horizontais preta e vermelha, um grande círculo amarelo no centro. À sua frente grita-se "Viva Portugal".
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Sampaio Contra "Crispação Prematura" na Vida Política Portuguesa
Por JOSÉ MANUEL FERNANDES, nosso enviado em Sydney
Domingo, 26 de Maio de 2002
Presidente termina visita à Austrália
O último dia de Jorge Sampaio em Sydney foi dedicado à comunidade portuguesa, como uma visita ao Bairro Português, uma recepção e uma entrevista onde lançou alguns avisos sobre o rumo da luta política em Portugal
Durante dias Jorge Sampaio fugiu sempre de comentar o que quer que fosse da política interna portuguesa - "não falo das questões domésticas quando estou no exterior", foi repetindo -, mas ao último dia acabou por ceder. Entrevistado em português nos estúdios da SBS - um canal público multilingue que transmite programas para as dezenas de comunidades nacionais que constituem o "melting pot" australiano -, o Presidente da República fez como que um aviso à navegação: "as águas ainda estão tépidas, ainda agora o Governo tomou posse, pelo que acho que a crispação não é solução para os problemas dos portugueses".
Sampaio respondia a uma questão sobre a tempestade política em torno da RTP e, recusando-se a avançar o que vai fazer a diplomas cujo conteúdo disse nem sequer ainda conhecer em detalhe, sugeriu antes "que se encontrem formas de tratar estas coisas sem dar a sensação de que o país vai acabar amanhã". "Há pontos de vista diferentes que devem ser respeitados, tem de haver tolerância na diversidade política, isto não deve ser tudo uma guerra aberta, tem de haver lugar para compromissos", foi acrescentando. "E não me perguntem mais nada sobre a RTP, o canal um ou o canal dois", concluiu.
Pedido inútil. Minutos mais tarde, quando chegou ao Bairro Português de Sydney, Petersham, uma zona onde se concentram cinco mil dos cerca de vinte mil portugueses que vivem nesta cidade, essa era uma das perguntas mais frequentes que os emigrantes lhe faziam. "Senhor presidente, não deixe acabar com a RTP internacional", dirigia-se-lhe uma senhora que até tinha trazido de casa um pequeno cartaz em defesa da estação estatal. "A RTPi é que ainda nos vai mostrando o que se passa em Portugal". Sampaio lá ia dizendo que não se preocupasse enquanto distribuía beijos e abraços pela pequena multidão que, apesar da chuva miudinha, se tinha juntado nas ruas New Canterbury e Audley.
Atrás dele, as deputadas Natália Carrascalão, do PSD, e Ana Benavente, do PS, também iam repetindo que ninguém tinha dito que a RTPi podia acabar. Então, porquê tanto receio? "São aquelas frases que passam por baixo dos apresentadores", respondeu-nos Graça, a senhora do cartaz. "Naqueles rodapés estamos sempre a ler que a RTP vai acabar, que isto e que aquilo. Eu bem sei que deviam olhar para os ordenados de oito mil contos que lá se pagam, mas acabar com a RTPi é que não".
Sem outra forma de aceder ao que se vai passando em Portugal senão os noticiários da própria RTPi, esta emigrante, como tantos outros que ouvimos por estes dias, foram assim criando, via telejornais da RTP, a ideia de que pode acabar um canal cuja extinção ninguém propôs ou anunciou.
Gente sobretudo humilde, muitos vindos da Madeira, portugueses que longe da sua terra recriaram nestas duas ruas o ambiente que deixaram para trás - aqui pode-se comer um pastel de nata, beber uma verdadeira bica, comprar azeite, aguardente ou presunto vindos de Portugal, aqui se faz também um pequeno jornal em português. Muitos não foram capazes de esconder uma lágrima quando o Presidente da República roubou a batuta ao maestro da banda que o esperava e dirigiu ele próprio os últimos acordes de uma marcha tradicional. "São estes momentos tão importantes nas nossas vidas que nos dão o sentimento da unidade do espírito português através do Mundo", diria pouco depois. "Desejo a vocês todos que sejam melhores australianos porque assim serão também melhores portugueses. Intervenham. Façam-no tanto na política australiana como na portuguesa, sejam cidadãos activos".
Dezenas de pequenas bandeiras portuguesas flutuaram então sobre as cabeças dos que preenchiam a enorme tenda que tinha sido montada para a recepção. O Presidente chama ao palco um arborígene e abraça-o enquanto, por trás de si, formando o cenário, vemos uma bandeira portugues, à esquerda a da Austrália, e à direita a da nação arborígene, duas barras horizontais preta e vermelha, um grande círculo amarelo no centro. À sua frente grita-se "Viva Portugal".