Se eu fosse...

24-08-2004
marcar artigo

Se Eu Fosse...

Por CARLOS CRUZ

Segunda-feira, 05 de Julho de 2004

Se eu fosse analista político do género de alguns que por aí andam, e me pedissem para escrever sobre a final do Euro 2004, sublinharia logo o facto de terem sido os dois países com os índices económicos mais fracos, da União Europeia dos 15, que resistiram até ao fim. Coincidência? Que relação terá a economia com uma final de um Europeu de Futebol?

Se fosse de esquerda, desde logo diria que o futebol serve exactamente para disfarçar os erros da governação. Incapaz de resolver os verdadeiros problemas do povo, o Governo usa e abusa do fenómeno futebolístico para desviar as atenções dos problemas do país. Não é verdade que, depois das vitórias da nossa selecção, os políticos até aparecem na zona da "flash interview" para serem entrevistados? É o "pão e circo". Sem pão.

Se fosse de direita, naturalmente diria que esta caminhada vitoriosa da selecção das quinas até à sua primeira final de uma grande competição sénior, se deve à atenção que o Governo tem dado ao desporto em geral e ao futebol em particular, apesar da situação que herdou do Governo anterior que nem estádios construiu. Assim se reuniu Portugal à volta dos seus governantes e do símbolo maior que é a bandeira, como forma de mostrar à Oposição que o país acredita na retoma. Os aplausos nas bancadas são disso prova. E denunciaria como baixa manobra da esquerda o facto de uma revista semanal, conotada com a oposição, ter oferecido aos seus leitores um CD com o Hino Nacional. Trata-se de mais uma iniciativa de mau gosto para insinuar que nas escolas portuguesas não se ensina o Hino. Ora, pode falar-se mal o português. Mas todos sabemos a Portuguesa! Sublinharia ainda o mau gosto do CD ter uma faixa instrumental. Parece uma lamentável sugestão para se usar o Hino num qualquer concurso de karaoke.

Poderia escolher a terceira via. Na peugada do meu analista-ídolo, talvez escrevesse qualquer coisa como: "Portugal está de parabéns! E está de parabéns por três razões. Primeiro porque finalmente se nota que temos uma bandeira; segundo porque também é indiscutível que estamos na final; e terceiro porque foi muito bem planeada, pelo senhor Scolari, aquela derrota com a Grécia. Por dois tipos de razões: primeiro porque conseguimos pôr os gregos na final e isso é bom; e segundo porque enganámos toda a gente. Os nossos adversários convenceram-se que, perdendo com a Grécia, perdíamos com qualquer um. Estão portanto de parabéns os jogadores e o sr. Scolari, o país e a bandeira nacional. E o Governo.

Uma nota final: ainda bem que Felipe Scolari é brasileiro. Se fosse europeu, já pensaram que se corria o risco de ele ser convidado para a Comissão Europeia? E quem é que nos treinava para o Mundial de 2006?"

Poderia escrever tudo isto, se fosse analista de um destes três géneros. Mas não sou. Felizmente. Sou apenas um cidadão português que, como muitos outros, andou entusiasmado com o comportamento de Portugal no Euro 2004. Não apenas o da selecção. O do país. Todo.

Sublinhei muitas vezes, a argumentar junto dos membros da UEFA, a capacidade de realização dos portugueses, a nossa hospitalidade, a tranquilidade e segurança e a enorme paixão pelo futebol. Felizmente a realidade não traíu as minhas convicções. E prometi ao senhor Johansson, com aquela inconsciência provocada pelo entusiasmo, que este seria o melhor Europeu de sempre. Disse-lho logo a seguir à decisão de Aachen. Mas também o fiz porque me recordei que, muitas vezes, nas reuniões com o Eng. Sócrates, o Dr. Miranda Calha e o o Dr. Madaíl, um de nós dizia: "Se ganharmos, vamos mostrar a estes tipos que fazemos o melhor europeu de sempre!"

Sou portanto, repito, apenas um cidadão português, entusiasmado e orgulhoso com a selecção e com "este" país. Mesmo tendo perdido a final, continuarei a aplaudir e a fazer votos para que este espírito tenha deixado raizes. Mas não esquecerei os outros "futebóis" de Portugal. Exactamente em nome desse espírito.

Se Eu Fosse...

Por CARLOS CRUZ

Segunda-feira, 05 de Julho de 2004

Se eu fosse analista político do género de alguns que por aí andam, e me pedissem para escrever sobre a final do Euro 2004, sublinharia logo o facto de terem sido os dois países com os índices económicos mais fracos, da União Europeia dos 15, que resistiram até ao fim. Coincidência? Que relação terá a economia com uma final de um Europeu de Futebol?

Se fosse de esquerda, desde logo diria que o futebol serve exactamente para disfarçar os erros da governação. Incapaz de resolver os verdadeiros problemas do povo, o Governo usa e abusa do fenómeno futebolístico para desviar as atenções dos problemas do país. Não é verdade que, depois das vitórias da nossa selecção, os políticos até aparecem na zona da "flash interview" para serem entrevistados? É o "pão e circo". Sem pão.

Se fosse de direita, naturalmente diria que esta caminhada vitoriosa da selecção das quinas até à sua primeira final de uma grande competição sénior, se deve à atenção que o Governo tem dado ao desporto em geral e ao futebol em particular, apesar da situação que herdou do Governo anterior que nem estádios construiu. Assim se reuniu Portugal à volta dos seus governantes e do símbolo maior que é a bandeira, como forma de mostrar à Oposição que o país acredita na retoma. Os aplausos nas bancadas são disso prova. E denunciaria como baixa manobra da esquerda o facto de uma revista semanal, conotada com a oposição, ter oferecido aos seus leitores um CD com o Hino Nacional. Trata-se de mais uma iniciativa de mau gosto para insinuar que nas escolas portuguesas não se ensina o Hino. Ora, pode falar-se mal o português. Mas todos sabemos a Portuguesa! Sublinharia ainda o mau gosto do CD ter uma faixa instrumental. Parece uma lamentável sugestão para se usar o Hino num qualquer concurso de karaoke.

Poderia escolher a terceira via. Na peugada do meu analista-ídolo, talvez escrevesse qualquer coisa como: "Portugal está de parabéns! E está de parabéns por três razões. Primeiro porque finalmente se nota que temos uma bandeira; segundo porque também é indiscutível que estamos na final; e terceiro porque foi muito bem planeada, pelo senhor Scolari, aquela derrota com a Grécia. Por dois tipos de razões: primeiro porque conseguimos pôr os gregos na final e isso é bom; e segundo porque enganámos toda a gente. Os nossos adversários convenceram-se que, perdendo com a Grécia, perdíamos com qualquer um. Estão portanto de parabéns os jogadores e o sr. Scolari, o país e a bandeira nacional. E o Governo.

Uma nota final: ainda bem que Felipe Scolari é brasileiro. Se fosse europeu, já pensaram que se corria o risco de ele ser convidado para a Comissão Europeia? E quem é que nos treinava para o Mundial de 2006?"

Poderia escrever tudo isto, se fosse analista de um destes três géneros. Mas não sou. Felizmente. Sou apenas um cidadão português que, como muitos outros, andou entusiasmado com o comportamento de Portugal no Euro 2004. Não apenas o da selecção. O do país. Todo.

Sublinhei muitas vezes, a argumentar junto dos membros da UEFA, a capacidade de realização dos portugueses, a nossa hospitalidade, a tranquilidade e segurança e a enorme paixão pelo futebol. Felizmente a realidade não traíu as minhas convicções. E prometi ao senhor Johansson, com aquela inconsciência provocada pelo entusiasmo, que este seria o melhor Europeu de sempre. Disse-lho logo a seguir à decisão de Aachen. Mas também o fiz porque me recordei que, muitas vezes, nas reuniões com o Eng. Sócrates, o Dr. Miranda Calha e o o Dr. Madaíl, um de nós dizia: "Se ganharmos, vamos mostrar a estes tipos que fazemos o melhor europeu de sempre!"

Sou portanto, repito, apenas um cidadão português, entusiasmado e orgulhoso com a selecção e com "este" país. Mesmo tendo perdido a final, continuarei a aplaudir e a fazer votos para que este espírito tenha deixado raizes. Mas não esquecerei os outros "futebóis" de Portugal. Exactamente em nome desse espírito.

marcar artigo