Ao fim de um ano, a figura do ex-presidente ainda ensombra o grupo
Vivendi Decidida a Não Indemnizar Messier
Segunda-feira, 07 de Julho de 2003
Quando a direcção da Vivendi Universal pensava que o pior já tinha passado, um tribunal americano remexeu violentamente com o passado do ex-gigante da comunicação.
Ana Navarro Pedro, Paris
"Estou escandalizado! A decisão do tribunal é indecente!": Jean-René Fourtou perde raramente as estribeiras, mas desta feita, o presidente da Vivendi Universal (VU) está furioso e quer que o mundo inteiro o saiba. A mostarda subiu-lhe ao nariz com uma decisão de um tribunal americano, ordenando à Vivendi Universal que pague uma indemnização de 20,55 milhões de euros ao antigo presidente do grupo, Jean-Marie Messier.
O homem que queria ser "mestre do mundo" e que içara a VU para o lugar do segundo maior grupo de comunicação do mundo, foi despedido em Julho de 2002, deixando a empresa numa situação catastrófica. Fourtou anunciou que vai fazer tudo para não ter de pagar este prémio a Jean-Marie Messier.
No entanto, o jornal económico francês "La Tribune" revelava na sua edição de 4 de Julho que a VU e Fourtou estariam "entalados" pela assinatura de um dos seus responsáveis, o director financeiro Jacques Espinasse, num documento em que a VU se compromete a não contestar a arbitragem do tribunal americano. A situação é tão irritante para os sucessores de Messier, que o conselho de administração da Vivendi Universal, a 1 de Julho, tem apenas duas entradas na agenda do dia: fazer um ponto da situação sobre a indemnização concedida a Messier pelo tribunal de Nova-Iorque, e estabelecer uma apreciação das ofertas recebidas pela secessão da Vivendi Universal Entertainment (VUE), a filial que agrupa os activos americanos do grupo.
Mas nesta data aniversário da crise, os administradores não conseguem evitar as recordações dolorosas. Um ano antes, estavam reunidos à volta da mesma mesa, em pânico, a perguntarem-se se iriam conseguir salvar o grupo. Messier deixava-lhes uma empresa à beira da asfixia financeira, e a quem os bancos recusavam a mais pequena linha de crédito suplementar.
Vivendi é o novo nome dado em 1996 à Compagnie Générale des Eaux (CGE), uma sociedade criada por decreto imperial em 1853, para fornecer e distribuir água na cidade de Lyon. Na segunda metade do século XX, a CGE tornou-se no quarto maior grupo mundial deste sector, abarcando actividades como a recolha de lixo e a produção de energia. Mas quando Messier pega nas rédeas da CGE, em 1996, considera que o grupo não é "suficientemente sexy", apesar de um volume de negócios de 150 mil milhões de francos (cerca de 22 mil milhões de euros), e de lucros da ordem de 1,5 mil milhões de francos (230 milhões de euros).
"J2M", como é alcunhado o novo patrão, muda então o nome da empresa (atolada em escândalos político-financeiros) e inicia uma série de aquisições destinadas a orientar o grupo para o sector da comunicação. O seu sonho torna-se realidade com a compra da Universal, os célebres estúdios de cinema de Hollywood, em 2000. Mas uma megalomania sem equivalência na economia francesa leva Messier a cometer erros estratégicos fatais. Em 2001, o grupo regista prejuízos de 13,6 mil milhões de euros, e só no primeiro semestre de 2002, as perdas já vão em 12 mil milhões de euros. A cotação dos títulos VU perde 45 por cento do seu valor nos primeiros quatro meses de 2002, deixando inúmeros accionistas "de tanga".
Um ano depois, o colapso da companhia foi evitado, mas a Vivendi Universal não conseguiu reconquistar a confiança dos accionistas. O título mantém-se na casa dos 15 a 16 euros, contra 17 euros há um ano, e nenhuma análise do mercado financeiro lhe prediz um salto espectacular.
O novo presidente, Jean-René Fourtou, tentou abrir o cerco financeiro mediante concessões dolorosas aos bancos - que lhe impuseram taxas de juros, comissões e hipotecas dignas de usurários - e uma cascata de secessões de activos. O grupo separou-se assim da sua filial de edição e de todas as actividades de imprensa, renunciou à sua participação no pólo histórico da companhia, a Vivendi Environnement, e abdicou da expansão internacional da televisão por assinatura Canal +. Estas vendas foram feitas à pressa, ditadas pelas exigências financeiras ao longo dos meses, e em detrimento de um projecto estratégico.
Em contrapartida, Jean-René Fourtou conseguiu preservar (e até aumentar para 70 por cento do capital) a participação da VU na companhia de telecomunicações Cegetel, que constitui hoje o pólo mais rentável do grupo. A batalha foi tão mais rude quanto a Cegetel foi violentamente cobiçada pela Vodafone. Em Março último, a Vivendi anunciava prejuízos de 23 mil milhões de euros em 2002, e decretava que o pior já tinha passado: o grupo conseguiu assegurar o seu financiamento até finais de 2004 e está bem assente no seu pólo de telecomunicações, podendo assim projectar uma estratégia industrial.
O primeiro sinal desta mudança veio na semana passada, quando a Vivendi Universal descartou uma das candidaturas à compra da Vivendi Universal Entertainment: a oferta de Martin Davis pareceu-lhe "insuficiente" em comparação com as dos outros cinco candidatos - Liberty Media, MGM, Edgar Bronfman, Viacom e General Electric. No mesmo dia, a administração da VU decidiu retirar o "pólo música" da venda da Vivendi Universal Entertainment, por considerar que as ofertas minoravam em demasia esta actividade no grupo. Embora o montante e o teor das ofertas não tenha sido revelado, a venda dos estúdios de cinema Universal, dos parques temáticos e das cadeias de televisão que constituem a VUE deverá permitir o pagamento das dívidas do grupo, que se elevam a 19 mil milhões de euros.
Ao fim de um ano, a figura do ex-presidente ainda ensombra o grupo
Vivendi Decidida a Não Indemnizar Messier
Segunda-feira, 07 de Julho de 2003
Quando a direcção da Vivendi Universal pensava que o pior já tinha passado, um tribunal americano remexeu violentamente com o passado do ex-gigante da comunicação.
Ana Navarro Pedro, Paris
"Estou escandalizado! A decisão do tribunal é indecente!": Jean-René Fourtou perde raramente as estribeiras, mas desta feita, o presidente da Vivendi Universal (VU) está furioso e quer que o mundo inteiro o saiba. A mostarda subiu-lhe ao nariz com uma decisão de um tribunal americano, ordenando à Vivendi Universal que pague uma indemnização de 20,55 milhões de euros ao antigo presidente do grupo, Jean-Marie Messier.
O homem que queria ser "mestre do mundo" e que içara a VU para o lugar do segundo maior grupo de comunicação do mundo, foi despedido em Julho de 2002, deixando a empresa numa situação catastrófica. Fourtou anunciou que vai fazer tudo para não ter de pagar este prémio a Jean-Marie Messier.
No entanto, o jornal económico francês "La Tribune" revelava na sua edição de 4 de Julho que a VU e Fourtou estariam "entalados" pela assinatura de um dos seus responsáveis, o director financeiro Jacques Espinasse, num documento em que a VU se compromete a não contestar a arbitragem do tribunal americano. A situação é tão irritante para os sucessores de Messier, que o conselho de administração da Vivendi Universal, a 1 de Julho, tem apenas duas entradas na agenda do dia: fazer um ponto da situação sobre a indemnização concedida a Messier pelo tribunal de Nova-Iorque, e estabelecer uma apreciação das ofertas recebidas pela secessão da Vivendi Universal Entertainment (VUE), a filial que agrupa os activos americanos do grupo.
Mas nesta data aniversário da crise, os administradores não conseguem evitar as recordações dolorosas. Um ano antes, estavam reunidos à volta da mesma mesa, em pânico, a perguntarem-se se iriam conseguir salvar o grupo. Messier deixava-lhes uma empresa à beira da asfixia financeira, e a quem os bancos recusavam a mais pequena linha de crédito suplementar.
Vivendi é o novo nome dado em 1996 à Compagnie Générale des Eaux (CGE), uma sociedade criada por decreto imperial em 1853, para fornecer e distribuir água na cidade de Lyon. Na segunda metade do século XX, a CGE tornou-se no quarto maior grupo mundial deste sector, abarcando actividades como a recolha de lixo e a produção de energia. Mas quando Messier pega nas rédeas da CGE, em 1996, considera que o grupo não é "suficientemente sexy", apesar de um volume de negócios de 150 mil milhões de francos (cerca de 22 mil milhões de euros), e de lucros da ordem de 1,5 mil milhões de francos (230 milhões de euros).
"J2M", como é alcunhado o novo patrão, muda então o nome da empresa (atolada em escândalos político-financeiros) e inicia uma série de aquisições destinadas a orientar o grupo para o sector da comunicação. O seu sonho torna-se realidade com a compra da Universal, os célebres estúdios de cinema de Hollywood, em 2000. Mas uma megalomania sem equivalência na economia francesa leva Messier a cometer erros estratégicos fatais. Em 2001, o grupo regista prejuízos de 13,6 mil milhões de euros, e só no primeiro semestre de 2002, as perdas já vão em 12 mil milhões de euros. A cotação dos títulos VU perde 45 por cento do seu valor nos primeiros quatro meses de 2002, deixando inúmeros accionistas "de tanga".
Um ano depois, o colapso da companhia foi evitado, mas a Vivendi Universal não conseguiu reconquistar a confiança dos accionistas. O título mantém-se na casa dos 15 a 16 euros, contra 17 euros há um ano, e nenhuma análise do mercado financeiro lhe prediz um salto espectacular.
O novo presidente, Jean-René Fourtou, tentou abrir o cerco financeiro mediante concessões dolorosas aos bancos - que lhe impuseram taxas de juros, comissões e hipotecas dignas de usurários - e uma cascata de secessões de activos. O grupo separou-se assim da sua filial de edição e de todas as actividades de imprensa, renunciou à sua participação no pólo histórico da companhia, a Vivendi Environnement, e abdicou da expansão internacional da televisão por assinatura Canal +. Estas vendas foram feitas à pressa, ditadas pelas exigências financeiras ao longo dos meses, e em detrimento de um projecto estratégico.
Em contrapartida, Jean-René Fourtou conseguiu preservar (e até aumentar para 70 por cento do capital) a participação da VU na companhia de telecomunicações Cegetel, que constitui hoje o pólo mais rentável do grupo. A batalha foi tão mais rude quanto a Cegetel foi violentamente cobiçada pela Vodafone. Em Março último, a Vivendi anunciava prejuízos de 23 mil milhões de euros em 2002, e decretava que o pior já tinha passado: o grupo conseguiu assegurar o seu financiamento até finais de 2004 e está bem assente no seu pólo de telecomunicações, podendo assim projectar uma estratégia industrial.
O primeiro sinal desta mudança veio na semana passada, quando a Vivendi Universal descartou uma das candidaturas à compra da Vivendi Universal Entertainment: a oferta de Martin Davis pareceu-lhe "insuficiente" em comparação com as dos outros cinco candidatos - Liberty Media, MGM, Edgar Bronfman, Viacom e General Electric. No mesmo dia, a administração da VU decidiu retirar o "pólo música" da venda da Vivendi Universal Entertainment, por considerar que as ofertas minoravam em demasia esta actividade no grupo. Embora o montante e o teor das ofertas não tenha sido revelado, a venda dos estúdios de cinema Universal, dos parques temáticos e das cadeias de televisão que constituem a VUE deverá permitir o pagamento das dívidas do grupo, que se elevam a 19 mil milhões de euros.