A Culpa e o Estado Civil (IV)
Por ESTÊVÃO DE MOURA
Segunda-feira, 8 de Abril de 2002
Que factores contribuem para a manutenção do estado de coisas na gestão das pessoas na administração pública? A resposta a esta questão: (i) é fundamental para se compreender porque é que as coisas não evoluem neste domínio; (ii) determina o tipo de acções que seria necessário empreender para mudança de facto nas coisas, tal como elas são descritas e vividas pelos interessados, ou seja, os cidadãos e a administração.
Se o mundo não é perfeito, também a gestão das pessoas na administração não é perfeita. Para o mundo perfeito contribuem pessoas perfeitas. O mundo imperfeito é o resultado da acção de pessoas imperfeitas. Com a gestão das pessoas na administração passa-se uma coisa algo estranha: mundo imperfeito, a gestão das pessoas na administração parece o resultado unicamente de pessoas perfeitas.
Ninguém contribui negativamente para um estado de coisas que muitos classificam como sendo o factor que mais negativamente contribui para o estado de desenvolvimento do país ou mesmo o principal bloqueio à sua evolução.
Esta situação, como é bom de ver, é improvável. De facto, é inverosímil que os actores que dão corpo ao estado de coisas na administração não contribuam eles próprios para essa situação. Coisa que aliás não reconhecem. Milagres, se existem, não têm bafejado a gestão das pessoas na administração. Para os actores, que têm a possibilidade de agir sobre as coisas, o seu estado é tudo menos o resultado da sua acção.
Se há domínio em que, mais do que solteira, a culpa morre todos os dias solteiríssima, é o da gestão das pessoas na administração: responsáveis políticos, sindicalistas, dirigentes, funcionários, parecem actuar como se fossem os outros que deviam agir para mudar as coisas. E atiram para cima dos outros grupos as supostas culpas por um "statu quo" para o qual eles contribuem tanto quanto ou mais do que os outros.
Existem três grupos que deviam rever drasticamente a sua posição sobre o modo como se desenvolve o quadro de gestão das pessoas na administração: os responsáveis políticos, as organizações sindicais e os dirigentes. Esta é a trilogia verdadeiramente responsável pelo estado de coisas a que chegou a gestão das pessoas da administração, por acção e por omissão e, sobretudo, por não saber avaliar o seu próprio papel e as suas limitações na contribuição da resolução dos problemas que assistem à administração.
Neste artigo vamos iniciar a análise do papel que cada um destes agentes desempenha no estado actual da gestão das pessoas na administração. Comecemos, naturalmente, pelos responsáveis políticos.
Os responsáveis políticos que têm tutelado a gestão das pessoas na administração não revelaram nos últimos anos uma grande habilidade para lidar com este tipo de matérias. E se contribuíram para alguma coisa foi para as tornar mais complicadas.
Pegando num referencial fundamental da gestão das pessoas, as KSA ("knowledge", "skills", "abilities", ou conhecimentos, aptidões e capacidades), o que podemos constatar é que os últimos responsáveis políticos pela gestão das pessoas não possuíam nem uma nem outra das características atrás aludidas; ou se as possuíam, possuíam-nas com uma expressão tão diminuta que era como se as não possuíssem.
Este facto remete-nos para uma questão essencial: a de saber se um responsável político que não possui KSA essenciais à gestão das pessoas está em condições de dirigir essa política de modo a que este domínio evolua, ou se, antes pelo contrário, a sua acção em nada contribuirá positivamente para a sua evolução. A resposta não parece difícil. E, no entanto, não deixa de surpreender a insistência em dotar a área de responsáveis que, mesmo antes de se saber o que vão fazer, não augurem alterações significativas ao estado de coisas da gestão das pessoas na administração.
Esta situação leva-nos a colocar a questão de saber se a designação de algumas das últimas tutelas políticas sobre a gestão das pessoas na administração não constituiu por si só uma garantia de que nada iria mudar: tal era a evidência de que nada poderia mudar com aqueles responsáveis?
Estamos a ser injustos para com pessoas que parece que trabalharam muito? Que enfrentaram sindicatos furiosos? Que passaram noites sem dormir em negociações salariais intermináveis? Que aceitaram cumprir missões que poucos queriam? Na política, sabem-no melhor do que ninguém os que se dedicam a ela como meio de vida, nem sempre há tempo para pensar as coisas com o rigor que a sua complexidade exige. A acção política casa mal com coisas que possuem longos ciclos de maturidade e que exigem o desafio de interesses instalados.
Tradicionalmente, os responsáveis políticos procuram agradar a tudo e a todos. E nas poucas vezes em que o não fazem, sabe-se lá porquê, ensaiam um discurso de autoridade que desloca a essência das coisas para a pura propaganda. Muita demagogia e pouca tecnicidade, este parece ter sido o binómio preferido de muitos dos responsáveis que tutelaram a gestão das pessoas na administração pública. Uma herança esclarecedora, não seguida por outros herdeiros, que pode constituir uma excelente lição para o futuro. No próximo artigo continuaremos a tratar deste casamento espúrio, que, apesar dos múltiplos candidatos a noivos, deixa solteira a culpa.
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A Culpa e o Estado Civil (IV)
Por ESTÊVÃO DE MOURA
Segunda-feira, 8 de Abril de 2002
Que factores contribuem para a manutenção do estado de coisas na gestão das pessoas na administração pública? A resposta a esta questão: (i) é fundamental para se compreender porque é que as coisas não evoluem neste domínio; (ii) determina o tipo de acções que seria necessário empreender para mudança de facto nas coisas, tal como elas são descritas e vividas pelos interessados, ou seja, os cidadãos e a administração.
Se o mundo não é perfeito, também a gestão das pessoas na administração não é perfeita. Para o mundo perfeito contribuem pessoas perfeitas. O mundo imperfeito é o resultado da acção de pessoas imperfeitas. Com a gestão das pessoas na administração passa-se uma coisa algo estranha: mundo imperfeito, a gestão das pessoas na administração parece o resultado unicamente de pessoas perfeitas.
Ninguém contribui negativamente para um estado de coisas que muitos classificam como sendo o factor que mais negativamente contribui para o estado de desenvolvimento do país ou mesmo o principal bloqueio à sua evolução.
Esta situação, como é bom de ver, é improvável. De facto, é inverosímil que os actores que dão corpo ao estado de coisas na administração não contribuam eles próprios para essa situação. Coisa que aliás não reconhecem. Milagres, se existem, não têm bafejado a gestão das pessoas na administração. Para os actores, que têm a possibilidade de agir sobre as coisas, o seu estado é tudo menos o resultado da sua acção.
Se há domínio em que, mais do que solteira, a culpa morre todos os dias solteiríssima, é o da gestão das pessoas na administração: responsáveis políticos, sindicalistas, dirigentes, funcionários, parecem actuar como se fossem os outros que deviam agir para mudar as coisas. E atiram para cima dos outros grupos as supostas culpas por um "statu quo" para o qual eles contribuem tanto quanto ou mais do que os outros.
Existem três grupos que deviam rever drasticamente a sua posição sobre o modo como se desenvolve o quadro de gestão das pessoas na administração: os responsáveis políticos, as organizações sindicais e os dirigentes. Esta é a trilogia verdadeiramente responsável pelo estado de coisas a que chegou a gestão das pessoas da administração, por acção e por omissão e, sobretudo, por não saber avaliar o seu próprio papel e as suas limitações na contribuição da resolução dos problemas que assistem à administração.
Neste artigo vamos iniciar a análise do papel que cada um destes agentes desempenha no estado actual da gestão das pessoas na administração. Comecemos, naturalmente, pelos responsáveis políticos.
Os responsáveis políticos que têm tutelado a gestão das pessoas na administração não revelaram nos últimos anos uma grande habilidade para lidar com este tipo de matérias. E se contribuíram para alguma coisa foi para as tornar mais complicadas.
Pegando num referencial fundamental da gestão das pessoas, as KSA ("knowledge", "skills", "abilities", ou conhecimentos, aptidões e capacidades), o que podemos constatar é que os últimos responsáveis políticos pela gestão das pessoas não possuíam nem uma nem outra das características atrás aludidas; ou se as possuíam, possuíam-nas com uma expressão tão diminuta que era como se as não possuíssem.
Este facto remete-nos para uma questão essencial: a de saber se um responsável político que não possui KSA essenciais à gestão das pessoas está em condições de dirigir essa política de modo a que este domínio evolua, ou se, antes pelo contrário, a sua acção em nada contribuirá positivamente para a sua evolução. A resposta não parece difícil. E, no entanto, não deixa de surpreender a insistência em dotar a área de responsáveis que, mesmo antes de se saber o que vão fazer, não augurem alterações significativas ao estado de coisas da gestão das pessoas na administração.
Esta situação leva-nos a colocar a questão de saber se a designação de algumas das últimas tutelas políticas sobre a gestão das pessoas na administração não constituiu por si só uma garantia de que nada iria mudar: tal era a evidência de que nada poderia mudar com aqueles responsáveis?
Estamos a ser injustos para com pessoas que parece que trabalharam muito? Que enfrentaram sindicatos furiosos? Que passaram noites sem dormir em negociações salariais intermináveis? Que aceitaram cumprir missões que poucos queriam? Na política, sabem-no melhor do que ninguém os que se dedicam a ela como meio de vida, nem sempre há tempo para pensar as coisas com o rigor que a sua complexidade exige. A acção política casa mal com coisas que possuem longos ciclos de maturidade e que exigem o desafio de interesses instalados.
Tradicionalmente, os responsáveis políticos procuram agradar a tudo e a todos. E nas poucas vezes em que o não fazem, sabe-se lá porquê, ensaiam um discurso de autoridade que desloca a essência das coisas para a pura propaganda. Muita demagogia e pouca tecnicidade, este parece ter sido o binómio preferido de muitos dos responsáveis que tutelaram a gestão das pessoas na administração pública. Uma herança esclarecedora, não seguida por outros herdeiros, que pode constituir uma excelente lição para o futuro. No próximo artigo continuaremos a tratar deste casamento espúrio, que, apesar dos múltiplos candidatos a noivos, deixa solteira a culpa.