Itinerário de Um Filho em Busca do Pai Perdido no Furacão de Timor
Segunda-feira, 18 de Agosto de 2003 (tenente-coronel Maggiolo Gouveia n. 11.10.1929 - morte presumida 28.12.1975) %Adelino Gomes De pé, olhar fixo nas pás que escavam a terra seca, Rui continua à espera da prova definitiva. Uma das técnicas forenses que o acompanham (a médica Cristina? a antropóloga Eugénia? A memória retém apenas os dedos do braço no movimento que lhe há-de fazer chegar o objecto) passa-lhe um relógio. Marca Seiko. À prova de água. Ponteiros parados às 3 horas do dia 15. Reconhece a marca. Sabe que o pai usava um. Olha-o, recolhe-o e guarda-o. Com a mesma atenção, com o mesmo carinho com que trata tudo o que está a ser removido da terra, pareça-lhe ou não pertencente ao homem que o fez atravessar 15 mil quilómetros de mar e suportar um quarto de século de incertezas e angústia. É uma sexta-feira de Junho. Faz calor em Aileu, como é próprio do clima timorense para mais na estação seca do ano. Poucas nuvens no céu e o sol a abrasar a cabeça e os ombros da equipa dos três doutores "malai" (palavra em língua tétum para designar o estrangeiro), que em local aberto, sem árvores nem plantas nem edifícios, se debruçam sobre a terra cada hora mais funda devido ao esforço dos cavadores, cada hora mais escura e húmida, cada momento mais próxima de esclarecer em definitivo a dúvida tantos anos sem resposta. Esta é a segunda vez que Rui Maggioli Gouveia, médico, 45 anos, se desloca a Timor-Leste. A primeira foi há 18 meses, entrava o território na fase final da transição para a independência, dirigida pela ONU. Mas mergulham longe no calendário as primeiras tentativas para que este momento chegasse. Tão longe quanto as ofertas feitas para que ele, as irmãs, a mãe aceitassem deslocar-se ao país então anexado para aí recolherem as ossadas e celebrarem a memória do ente querido. A estas deixou que o silêncio as tornasse inúteis. As circunstâncias especiais que rodearam a morte do pai ensinaram-no a manter-se alerta para as inúmeras tentativas de instrumentalização da sua figura. Tenente-coronel do exército português, duas condecorações e uma promoção por distinção por feitos na guerra em África, Rui Alberto Maggiolo Gouveia (Maggioli na raiz familiar, aportuguesado por exigência do Exército à entrada na Academia mas logo reposto no nome dos filhos) é comandante da PSP e comandante da Defesa de Timor quando é detido e encarcerado durante a guerra civil que ensanguentou Timor-Leste entre Agosto e Dezembro de 1975. A Fretilin acusara-o de colaboração activa com a UDT, partido timorense autor da insurreição de 11 de Agosto, que provocou a retirada para a ilha do Ataúro do governador português Lemos Pires juntamente com o seu estado-maior e com uma companhia de pára-quedistas, única unidade militar operacional integrada apenas por elementos da metrópole. O território mergulha na guerra civil. O apoio da imensa maioria dos soldados e sargentos do contingente local dá, porém, uma vitória rápida à Fretilin. A controlar desde fins de Setembro todo o território que vai de Lospalos, na Ponta Leste, a Balibó, na fronteira com o Timor ocidental, indonésio, este partido, que se apresenta aos timorenses como defensor da independência imediata, mantém centenas de prisioneiros em três centros de detenção - dois em Díli (no Museu e no Quartel-General), e um em Aileu. Entre as centenas de prisioneiros (fala-se em dois mil, boa parte dos quais estariam em Aileu, segundo se diz ao tempo) há vários dirigentes da UDT, que defendem, com várias nuances entre eles, uma fase de transição ligada a Portugal, antes da independência; da Apodeti, integracionistas; e alguns portugueses. Mas é para o antigo chefe da polícia de Timor que as atenções se viram. Maggiolo Gouveia foi tomado como refém pela UDT, logo no início da acção. Pouco tempo depois, contudo (no dia 12, segundo alguns; a 14, segundo outros), a sua voz faz-se ouvir através das antenas da Rádio Díli, numa proclamação dramática em que não pode ser mais claro: "O ex-comandante da Polícia de Segurança Pública informa que aderiu ao movimento da UDT, depois de feito prisioneiro pelas forças operacionais daquele movimento. O ex-comandante da Polícia de Segurança Pública informa que aderiu completamente consciente, certo de que da sua atitude é a única vítima como oficial do exército português, que foi." As suas declarações preocupam os camaradas de armas e enfurecem a Fretilin. Maggiolo previra uma e outra reacções, sem esquecer a da própria família - a mulher, Maria Natália, e quatro filhos, um rapaz, Rui, e três meninas - que havia regressado a Portugal em Junho. "Alguns poder-me-ão considerar traidor; mas um homem só é traidor quando trai a sua consciência. (...) Um homem apenas morre uma vez e a aspiração de todos aqueles que como tal se consideram não pode ser senão a de o fazer em defesa de uma causa que considera justa. (...) Quando o momento de decidir chegou, fi-lo na plena consciência de todas as implicações, e daqui saúdo a minha família que certamente não estranhará a minha atitude, bem como todos aqueles camaradas que comungam com as minhas ideias". Maggiolo tem palavras ainda para defender a ideia da independência, "mas por forma que todos os timorenses não sintam repulsa nem ódio, cada vez que pensem que deram o seu sangue por portugueses e que agora outros filhos dessa mesma pátria nada mais fazem do que assistir passivamente ou até colaborar activamente no destruir dessa mesma independência". Chega por fim a despedida, dificilmente compreendida por quem não tenha em conta o contexto político-militar que rodeia o processo português entre 25 de Abril de 1974 e o Verão quentíssimo em que os portugueses se envolvem apaixonadamente na disputa de diferentes e antagónicos projectos de sociedade futura: "Viva o Partido Socialista Português! Viva Portugal! Viva Timor!". Como quem não quer deixar a mínima dúvida, identifica-se, pela terceira e última vez na sua proclamação, como ex-oficial do Exército português. A Fretilin - a quem, segundo testemunhas oculares, entre elas Xanana Gusmão, terá humilhado arrastando a respectiva bandeira pelas ruas da cidade - prende-o uma semana depois, e leva-o para uma cela dos anexos do Quartel-General em Taibesse, onde o faz chicotear durante dias seguidos. Quando uma equipa da RTP o visita, na segunda semana de Outubro, Maggiolo diz que foi chicoteado três vezes por dia no início, mas que os maus tratos cessaram, entretanto. Não quer prestar declarações para a câmara. Mas aceita ser filmado a conversar com o repórter num canto do recreio da prisão. Durante a breve troca de palavras confirma a sua declaração radiofónica. Afirma-se apartidário. Diz que a sua tomada de posição se destina a ajudar os timorenses, que o merecem. Reafirma as razões "patrióticas" da sua atitude, motivadas pela enorme preocupação com que olha a evolução dos acontecimentos em Portugal e em Timor. Os vivas ao PS surgiram na decorrência lógica deste olhar sobre o país, cujo destino se discute na "metrópole" com o dedo cada vez mais junto do gatilho. "Só o Partido Socialista poderá salvar Portugal", declara, enfático. A família, em Portugal desde Junho, recebe nesse mês a primeira de quatro cartas. Chegaram através de um elemento da Igreja católica quando Maggiolo se encontrava já hospitalizado devido aos maus tratos. Por elas se percebe que outras terão sido escritas mas nunca foram recebidas, provavelmente retidas pelos carcereiros. Indícios vários levam Rui a concluir, mais tarde, que as cartas foram utilizadas frequentemente nas sessões de tortura, com os carcereiros a tecerem comentários jocosos, lendo-as e queimando-as enquanto o espancavam. ? sorte da guerra começa a mudar entretanto em Timor. Apesar de controlar todo o território, com excepção da pequena povoação fronteiriça de Batugadé, a Fretilin apercebe-se de que o inimigo com quem se confronta militarmente dá pelo nome oficial de MAC (Movimento Anti-Comunista, constituído pela UDT, Apodeti, Kota e Trabalhista) mas é na realidade já a Indonésia. Na noite de 15 de Outubro, navios de guerra, helicópteros e aviões de transporte de pessoal (meios materiais que o MAC, obviamente, não possui) apoiam a infiltração de uma poderosa força que conquista Balibó - onde executa sumariamente cinco jornalistas de dois canais de televisão da Austrália - e Maliana. Os militares indonésios ocupam e não mais largam uma larga faixa que se estende da fronteira pela planície arrozeira de Maliana até Atabai. A verdade no terreno - aliás facilmente apercebida pelo estado-maior de Lemos Pires, refugiado na ilha do Ataúro - mostra que a invasão está em marcha, desmentindo o discurso oficial de Jacarta. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Melo Antunes, ainda aceitará, contudo, as profissões de fé diplomáticas do seu homólogo indonésio, numa cimeira em Roma nos primeiros dias de Novembro. Em desespero de causa, em 28 de Novembro, a Fretilin declara unilateralmente a independência, que Portugal não reconhece. Pouco mais de uma semana depois, perante sinais de compreensão do presidente norte-americano Gerald Ford e do seu secretário de Estado, Henry Kissinger, de visita a Jacarta, as forças armadas indonésias desembarcam em Díli. É o início de uma ocupação que os seus comandantes prevêem demore apenas alguns dias, mas que a resistência dos timorenses acabará por malograr 28 anos e 200 mil mortos depois. ? as vésperas da invasão, a Fretilin decide evacuar os prisioneiros para Aileu, santuário tradicional do movimento, onde se instala a maioria do Comité Central. Apesar da esmagadora superioridade bélica, os militares indonésios conquistam Díli com grande dificuldade. Durante semanas, a vida decorre na pequena cidade montanhosa como aliás em muitas outras partes do interior timorense como se a Fretilin estivesse no poder. Senhora Senhorinha e uma amiga dirigem-se ao antigo quartel português, onde sabem que Maggiolo Gouveia se encontra detido. Tem uma filha de um sargento português e conhece de Díli o ex-comandante da PSP. "Amar Timor é um pecado", diz-lhe Maggiolo. "Se vocês não se unirem Timor vai abaixo". O prisioneiro pede às duas mulheres que lhe levem revistas na próxima visita. " Para passar o tempo". Senhora Senhorinha, que vive com a mãe uns quilómetros mais à frente, numa casa escondida entre palmeiras, não voltará, porém, a vê-lo. "Uma noite ouvimos tiroteio. ' Não me digam que estão a matar os prisioneiros', disse a minha mãe. Um ou dois dias depois, guerrilheiros da Fretilin passam por nossa casa. Dizem que os indonésios estão próximo. Querem evacuar-nos para a montanha para os lados de Maliana, mas nós recusámos. Lembrei-me dos tiros e perguntei-lhes: 'Onde estão o César Mouzinho, o Agapito Morais, e o senhor Maggiolo?'. Responderam: 'Foram mortos'. Longos meses passarão, no entanto, até que uma carta chegue às mãos da família com as primeiras informações sobre o destino de Maggiolo Gouveia. Traz a data de 10 de Março de 1976, mas a destinatária, Maria Natália Gouveia, só a recebe em fins de Maio. Vem de Timor, via Vaticano, e é assinada por José Joaquim Ribeiro, ao tempo bispo de Timor. Maggiolo Gouveia, escreve o bispo, foi um "dos mais de mil prisioneiros executados pela Fretilin no altar do ódio a Deus, à Família e à Pátria". O relato da execução ouviu-a "da boca de um dos presos de Aileu, o Administrador do Concelho de Maubesse, Lúcio da Encarnação, que a ouviu por sua vez dos próprios soldados-algozes". Tudo terá acontecido "entre 9 e 15 de Dezembro", junto de uma vala "previamente aberta" ao lado da estrada Aileu-Maubisse, por onde um grupo de "cerca de 50 a 60 homens" foi forçado a marchar. "É-lhes então dito que todos vão, ali, ser fuzilados. Há um momento de consternação e de estremecimento colectivo. As milícias põem a arma à cara. É então que o tenente-coronel Maggiolo Gouveia levanta a voz e diz: 'senhores, deixem-nos rezar o terço'. E todo o grupo, de joelhos em terra, reza o terço a Nª Senhora (...), após o que o oficial português se dirige aos companheiros: "Irmãos, breve vamos comparecer na presença do nosso Deus e Pai. Façamos o nosso acto de contrição, o nosso acto de amor". O relato prossegue dizendo que o grupo se encomenda a Deus "em silêncio entrecortado de lágrimas", após o que Maggiolo se põe de pé e se dirige ao pelotão de execução: "Irmãos, nós estamos já preparados para comparecer no Tribunal de Deus, lá vos esperamos também a vós. O meu único crime foi o de não renegar a minha fé e o de amar Timor. Morro por Timor. Morro pela minha Pátria e pela minha fé católica. Podeis disparar". Os timorenses, escreve o bispo, "ficam como que petrificados, não se movem, não se atrevem a pôr a arma à cara. É um estrangeiro que rompe o silêncio destes primeiros instantes e quebra a indecisão daqueles soldados nativos: põe ele a arma à cara e dispara contra o tenente-coronel Maggiolo Gouveia". O bispo encarrega-se da "deveras dolorosa missão" consolando a viúva: "Seu extremoso marido (...) deu a sua vida pela fé e pela Pátria, morreu como um autêntico cristão, como um Homem inteiriço, como um militar da têmpera desses militares de antanho que são orgulho e exemplo da nossa gloriosa História". [Testemunhos posteriores não confirmam alguns dos dados fornecidos na narrativa do bispo: o número de executados em Aileu terá sido dez vezes inferior; a morte do grupo em que Maggiolo se integrava terá ocorrido em finais de Dezembro; não havia qualquer estrangeiro no pelotão de fuzilamento; e terá havido algum exagero, a crer na confissão de alguém ainda vivo que dele fez parte (ver PÚBLICO da passada quarta-feira), no tom epopeico-religioso que o mais alto dignitário da igreja católica timorense usou na carta.] A aguerrida imprensa mais conservadora do tempo divulga a carta na íntegra. Maggiolo Gouveia torna-se um ícone da luta anti-comunista. A extrema-direita promove-lhe homenagens religiosas ao mesmo tempo que fustiga o 25 de Abril, apontado como a raiz dos males que afligem o país, agora reduzido à sua dimensão europeia. Embaraçada, a esquerda opta pelo silêncio, deixando passar em claro a contradição dos que aclamam como herói nacional um homem que morreu de pé em defesa das suas convicções serem os mesmos que apelidam de traidores os que, em nome de ideais que consideravam igualmente justos e nobres, se recusaram a combater ou desertaram das Forças Armadas - como foi o caso do deputado socialista Manuel Alegre, um dos mais visados. A instituição militar não se mostra menos embaraçada pela atitude de Maggiolo Gouveia. No Ataúro, para onde seguiram já depois de sua detenção, camaradas de armas atribuem o comportamento do oficial a uma situação de extremo cansaço físico e psicológico de alguém que se encontrava claramente doente. Querem assim evitar a pena de demissão que o Governador e comandante-chefe de Timor, Lemos Pires, decidira aplicar-lhe. O Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas reduz a pena a uma suspensão até à conclusão do processo respectivo, que o vem a considerar como "desaparecido em condições de grande perigosidade e de ameaça à ordem pública". Uma década depois a família requer judicialmente a sua morte presumida. A viúva recebe, desde 1992, uma pensão de sobrevivência e de preço de sangue. O nome de Maggiolo Gouveia figura em último lugar na extensa lista que compõe o memorial em Belém de homenagem aos ex-Combatentes do Ultramar. A inclusão do seu nome fora pedida numa carta enviada em 12 de Junho de 2 000 à Liga dos Combatentes pelo coronel Manuel Amaro Bernardo (autor, juntamente com o antigo chefe do Estado-Maior da Força Aérea, Morais da Silva, do livro "Timor, Abandono e Tragédia", Prefácio-Edições de Livros e Revistas) sustentando que a proclamação radiofónica "resultou da indecisão do comandante-chefe de Timor na resolução da sublevação da UDT (...) e de terem ocorrido ameaças de bombardeamento do acampamento da UDT, onde se encontravam mulheres, velhos e crianças". ? retirada indonésia de Timor, em Outubro de 1999, oferece uma oportunidade que a família de Maggiolo Gouveia não quer perder. Através dos coronéis José Pais, Manuel Bernardo, Morais da Silva e Nuno Roque, Rui Maggioli chega ao Comissário para o Apoio à Transição de Timor-Leste, Vítor Melícias, que lhe viabiliza uma primeira deslocação ao território em Janeiro de 2002. O objectivo principal é determinar com exactidão o sítio mais provável onde se encontram os restos mortais do pai. Em Timor, o médico português inicia as diligências burocráticas necessárias junto da ONU, que lidera a transição e cujos representantes se comprometem a resolver o problema após despacho judicial favorável. Alegando que o seu mandato se refere apenas aos crimes posteriores a 1999, acaba, no entanto, por se recusar a intervir. É então que o Estado português, através do Ministério da Defesa Nacional, resolve assumir o processo. Em fins de Junho passado, obtido o acordo das autoridades timorenses, Rui Maggioli junta-se a duas técnicas designadas pelo Instituto de Medicina Legal (INML) - a médica legista Cristina Mendonça e a antropóloga forense Eugénia Cunha - com as quais se encontra pela primeira vez já no aeroporto de Lisboa, na hora da partida para Díli. Acompanhada de Rui Fonseca e do major Ochoa, adidos social e militar, respectivamente, da embaixada de Portugal em Timor-Leste, a equipa parte para Aileu. No primeiro dia, em contraste com a atitude cooperante das autoridades tradicionais, a polícia local mostra-se inflexível e não permite o início das escavações, que só se iniciam a 26, após a remoção pelo exército português da estrutura de cimento que cobre a vala comum, situada junto da ribeira de Aisirimou, nos arredores da cidade. Em ordem a aproveitar ao máximo a luz do dia, os trabalhos começam às oito e prolongam-se até ao pôr do sol, cerca das 19 horas, com breve pausa para almoço. Está vedado um levantamento exaustivo da vala. A intervenção pericial deve dirigir-se apenas aos restos mortais de Maggiolo Gouveia. Rui faz de tudo um pouco, excepto escavação: fotografa, transporta, etiqueta, acondiciona o material recolhido. Desde a abertura da sepultura os dias parecem-lhe séculos. Causam-lhe uma profunda tristeza os sinais palpáveis e evidentes dos momentos violentos partilhados por todos aqueles cujos restos mortais vão surgindo. À certeza de estar a fazer o que é certo e justo sucede-se a incerteza. A alegria alterna com momentos de profunda tristeza. Durante a estada acaba por cruzar-se com familiares de outras vítimas das execuções. Fala-lhes do que está a tentar fazer. Fica com a impressão de que persistem os receios e de que é pouca a abertura política para a resolução do problema. Nunca sentiu que estivesse perante alguém que tivesse tido responsabilidades na morte do pai, nem tal perspectiva lhe causa particular angústia. Não o movem sentimentos de vingança. Em países democráticos, a tortura e o assassinato são crimes objecto de julgamento. A Fretilin, hoje governo de um país democrático, acusa e bem, pública e repetidamente, a Indonésia de nada fazer em relação aos responsáveis por crimes cometidos em Timor. Fazer-se justiça neste caso é para ele em primeiro lugar conhecer e esclarecer os actos e quem os praticou. Acha que em segundo lugar não faria mal um pedido de desculpa às vítimas e às suas famílias. Como atitude de arrependimento e de reconciliação e como exemplo de mudança política no que respeita à impunidade de que os crimes de Direitos Humanos continuam a gozar. São muito pouco sinceros ainda, acha, o discurso e a prática política sobre Direitos Humanos em Timor-Leste. Rui mal teve tempo para acomodar o relógio Seiko que um dos membros da equipa lhe passou. Junto a um crânio, acabam de surgir duas próteses dentárias completas que sabe de ciência certa serem do pai, juntamente com pedaços de uma farda número 2 do Exército, sapatos e meias militares, restos de um terço e uma medalha de Nossa Senhora de Fátima. É então que tem a certeza, pela primeira vez em 28 anos. O seu pai estava morto e ali. Do hotel onde se hospeda, em Díli, fala noite alta para a mãe em Portugal, que se mostra preocupada com a dureza da experiência por que ele passa. Antes do regresso, participa numa cerimónia presidida pelo padre Juvito - breves palavras, oração pelos mortos e momentos de recolhimento - que marca o encerramento da sepultura com terra. Todo o espólio dos mortos locais (ossadas e objectos não pertencentes a Maggiolo Gouveia) é colocado em frascos e três urnas que os presentes são convidados a verificarem antes de enterradas no mesmo local. Voa para Portugal, onde fica a aguardar a chegada dos restos mortais do pai, enviados por mala diplomática especial. Feitas as imprescindíveis provas periciais no IML de Coimbra, o funeral, está decidido, será em Mação. Pela proximidade do local de residência da mãe. É também aí que está toda a sua família da linha materna e onde sua mãe deseja ser sepultada. Na cerimónia, marcada para amanhã, segunda-feira 18, às quatro da tarde, estarão presentes o Ministro da Defesa, Paulo Portas, e o CEME, Valença Pinto. Para além da família e dos amigos, dispõe-se a receber nela todos aqueles que forem por bem. Quer que o enterro signifique acima de tudo um momento simbólico de reencontro, reflexão e paz em torno da memória do pai. O fim de um projecto difícil e complexo com que sonhou e em que participou, mas que só foi tornado possível pela colaboração de muitos. Na campa, um pequeno poema escrito pela mãe para o pai, que se fosse vivo teria hoje 73 e nove netos: "Pai, és como uma árvore que se enfeitou de flores na Primavera, deu frutos no Verão e no Outono e vive de pé nas neves do Inverno, sorrindo contra os ventos". OUTROS TÍTULOS EM PÚBLICA
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Segunda-feira, 18 de Agosto de 2003 (tenente-coronel Maggiolo Gouveia n. 11.10.1929 - morte presumida 28.12.1975) %Adelino Gomes De pé, olhar fixo nas pás que escavam a terra seca, Rui continua à espera da prova definitiva. Uma das técnicas forenses que o acompanham (a médica Cristina? a antropóloga Eugénia? A memória retém apenas os dedos do braço no movimento que lhe há-de fazer chegar o objecto) passa-lhe um relógio. Marca Seiko. À prova de água. Ponteiros parados às 3 horas do dia 15. Reconhece a marca. Sabe que o pai usava um. Olha-o, recolhe-o e guarda-o. Com a mesma atenção, com o mesmo carinho com que trata tudo o que está a ser removido da terra, pareça-lhe ou não pertencente ao homem que o fez atravessar 15 mil quilómetros de mar e suportar um quarto de século de incertezas e angústia. É uma sexta-feira de Junho. Faz calor em Aileu, como é próprio do clima timorense para mais na estação seca do ano. Poucas nuvens no céu e o sol a abrasar a cabeça e os ombros da equipa dos três doutores "malai" (palavra em língua tétum para designar o estrangeiro), que em local aberto, sem árvores nem plantas nem edifícios, se debruçam sobre a terra cada hora mais funda devido ao esforço dos cavadores, cada hora mais escura e húmida, cada momento mais próxima de esclarecer em definitivo a dúvida tantos anos sem resposta. Esta é a segunda vez que Rui Maggioli Gouveia, médico, 45 anos, se desloca a Timor-Leste. A primeira foi há 18 meses, entrava o território na fase final da transição para a independência, dirigida pela ONU. Mas mergulham longe no calendário as primeiras tentativas para que este momento chegasse. Tão longe quanto as ofertas feitas para que ele, as irmãs, a mãe aceitassem deslocar-se ao país então anexado para aí recolherem as ossadas e celebrarem a memória do ente querido. A estas deixou que o silêncio as tornasse inúteis. As circunstâncias especiais que rodearam a morte do pai ensinaram-no a manter-se alerta para as inúmeras tentativas de instrumentalização da sua figura. Tenente-coronel do exército português, duas condecorações e uma promoção por distinção por feitos na guerra em África, Rui Alberto Maggiolo Gouveia (Maggioli na raiz familiar, aportuguesado por exigência do Exército à entrada na Academia mas logo reposto no nome dos filhos) é comandante da PSP e comandante da Defesa de Timor quando é detido e encarcerado durante a guerra civil que ensanguentou Timor-Leste entre Agosto e Dezembro de 1975. A Fretilin acusara-o de colaboração activa com a UDT, partido timorense autor da insurreição de 11 de Agosto, que provocou a retirada para a ilha do Ataúro do governador português Lemos Pires juntamente com o seu estado-maior e com uma companhia de pára-quedistas, única unidade militar operacional integrada apenas por elementos da metrópole. O território mergulha na guerra civil. O apoio da imensa maioria dos soldados e sargentos do contingente local dá, porém, uma vitória rápida à Fretilin. A controlar desde fins de Setembro todo o território que vai de Lospalos, na Ponta Leste, a Balibó, na fronteira com o Timor ocidental, indonésio, este partido, que se apresenta aos timorenses como defensor da independência imediata, mantém centenas de prisioneiros em três centros de detenção - dois em Díli (no Museu e no Quartel-General), e um em Aileu. Entre as centenas de prisioneiros (fala-se em dois mil, boa parte dos quais estariam em Aileu, segundo se diz ao tempo) há vários dirigentes da UDT, que defendem, com várias nuances entre eles, uma fase de transição ligada a Portugal, antes da independência; da Apodeti, integracionistas; e alguns portugueses. Mas é para o antigo chefe da polícia de Timor que as atenções se viram. Maggiolo Gouveia foi tomado como refém pela UDT, logo no início da acção. Pouco tempo depois, contudo (no dia 12, segundo alguns; a 14, segundo outros), a sua voz faz-se ouvir através das antenas da Rádio Díli, numa proclamação dramática em que não pode ser mais claro: "O ex-comandante da Polícia de Segurança Pública informa que aderiu ao movimento da UDT, depois de feito prisioneiro pelas forças operacionais daquele movimento. O ex-comandante da Polícia de Segurança Pública informa que aderiu completamente consciente, certo de que da sua atitude é a única vítima como oficial do exército português, que foi." As suas declarações preocupam os camaradas de armas e enfurecem a Fretilin. Maggiolo previra uma e outra reacções, sem esquecer a da própria família - a mulher, Maria Natália, e quatro filhos, um rapaz, Rui, e três meninas - que havia regressado a Portugal em Junho. "Alguns poder-me-ão considerar traidor; mas um homem só é traidor quando trai a sua consciência. (...) Um homem apenas morre uma vez e a aspiração de todos aqueles que como tal se consideram não pode ser senão a de o fazer em defesa de uma causa que considera justa. (...) Quando o momento de decidir chegou, fi-lo na plena consciência de todas as implicações, e daqui saúdo a minha família que certamente não estranhará a minha atitude, bem como todos aqueles camaradas que comungam com as minhas ideias". Maggiolo tem palavras ainda para defender a ideia da independência, "mas por forma que todos os timorenses não sintam repulsa nem ódio, cada vez que pensem que deram o seu sangue por portugueses e que agora outros filhos dessa mesma pátria nada mais fazem do que assistir passivamente ou até colaborar activamente no destruir dessa mesma independência". Chega por fim a despedida, dificilmente compreendida por quem não tenha em conta o contexto político-militar que rodeia o processo português entre 25 de Abril de 1974 e o Verão quentíssimo em que os portugueses se envolvem apaixonadamente na disputa de diferentes e antagónicos projectos de sociedade futura: "Viva o Partido Socialista Português! Viva Portugal! Viva Timor!". Como quem não quer deixar a mínima dúvida, identifica-se, pela terceira e última vez na sua proclamação, como ex-oficial do Exército português. A Fretilin - a quem, segundo testemunhas oculares, entre elas Xanana Gusmão, terá humilhado arrastando a respectiva bandeira pelas ruas da cidade - prende-o uma semana depois, e leva-o para uma cela dos anexos do Quartel-General em Taibesse, onde o faz chicotear durante dias seguidos. Quando uma equipa da RTP o visita, na segunda semana de Outubro, Maggiolo diz que foi chicoteado três vezes por dia no início, mas que os maus tratos cessaram, entretanto. Não quer prestar declarações para a câmara. Mas aceita ser filmado a conversar com o repórter num canto do recreio da prisão. Durante a breve troca de palavras confirma a sua declaração radiofónica. Afirma-se apartidário. Diz que a sua tomada de posição se destina a ajudar os timorenses, que o merecem. Reafirma as razões "patrióticas" da sua atitude, motivadas pela enorme preocupação com que olha a evolução dos acontecimentos em Portugal e em Timor. Os vivas ao PS surgiram na decorrência lógica deste olhar sobre o país, cujo destino se discute na "metrópole" com o dedo cada vez mais junto do gatilho. "Só o Partido Socialista poderá salvar Portugal", declara, enfático. A família, em Portugal desde Junho, recebe nesse mês a primeira de quatro cartas. Chegaram através de um elemento da Igreja católica quando Maggiolo se encontrava já hospitalizado devido aos maus tratos. Por elas se percebe que outras terão sido escritas mas nunca foram recebidas, provavelmente retidas pelos carcereiros. Indícios vários levam Rui a concluir, mais tarde, que as cartas foram utilizadas frequentemente nas sessões de tortura, com os carcereiros a tecerem comentários jocosos, lendo-as e queimando-as enquanto o espancavam. ? sorte da guerra começa a mudar entretanto em Timor. Apesar de controlar todo o território, com excepção da pequena povoação fronteiriça de Batugadé, a Fretilin apercebe-se de que o inimigo com quem se confronta militarmente dá pelo nome oficial de MAC (Movimento Anti-Comunista, constituído pela UDT, Apodeti, Kota e Trabalhista) mas é na realidade já a Indonésia. Na noite de 15 de Outubro, navios de guerra, helicópteros e aviões de transporte de pessoal (meios materiais que o MAC, obviamente, não possui) apoiam a infiltração de uma poderosa força que conquista Balibó - onde executa sumariamente cinco jornalistas de dois canais de televisão da Austrália - e Maliana. Os militares indonésios ocupam e não mais largam uma larga faixa que se estende da fronteira pela planície arrozeira de Maliana até Atabai. A verdade no terreno - aliás facilmente apercebida pelo estado-maior de Lemos Pires, refugiado na ilha do Ataúro - mostra que a invasão está em marcha, desmentindo o discurso oficial de Jacarta. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Melo Antunes, ainda aceitará, contudo, as profissões de fé diplomáticas do seu homólogo indonésio, numa cimeira em Roma nos primeiros dias de Novembro. Em desespero de causa, em 28 de Novembro, a Fretilin declara unilateralmente a independência, que Portugal não reconhece. Pouco mais de uma semana depois, perante sinais de compreensão do presidente norte-americano Gerald Ford e do seu secretário de Estado, Henry Kissinger, de visita a Jacarta, as forças armadas indonésias desembarcam em Díli. É o início de uma ocupação que os seus comandantes prevêem demore apenas alguns dias, mas que a resistência dos timorenses acabará por malograr 28 anos e 200 mil mortos depois. ? as vésperas da invasão, a Fretilin decide evacuar os prisioneiros para Aileu, santuário tradicional do movimento, onde se instala a maioria do Comité Central. Apesar da esmagadora superioridade bélica, os militares indonésios conquistam Díli com grande dificuldade. Durante semanas, a vida decorre na pequena cidade montanhosa como aliás em muitas outras partes do interior timorense como se a Fretilin estivesse no poder. Senhora Senhorinha e uma amiga dirigem-se ao antigo quartel português, onde sabem que Maggiolo Gouveia se encontra detido. Tem uma filha de um sargento português e conhece de Díli o ex-comandante da PSP. "Amar Timor é um pecado", diz-lhe Maggiolo. "Se vocês não se unirem Timor vai abaixo". O prisioneiro pede às duas mulheres que lhe levem revistas na próxima visita. " Para passar o tempo". Senhora Senhorinha, que vive com a mãe uns quilómetros mais à frente, numa casa escondida entre palmeiras, não voltará, porém, a vê-lo. "Uma noite ouvimos tiroteio. ' Não me digam que estão a matar os prisioneiros', disse a minha mãe. Um ou dois dias depois, guerrilheiros da Fretilin passam por nossa casa. Dizem que os indonésios estão próximo. Querem evacuar-nos para a montanha para os lados de Maliana, mas nós recusámos. Lembrei-me dos tiros e perguntei-lhes: 'Onde estão o César Mouzinho, o Agapito Morais, e o senhor Maggiolo?'. Responderam: 'Foram mortos'. Longos meses passarão, no entanto, até que uma carta chegue às mãos da família com as primeiras informações sobre o destino de Maggiolo Gouveia. Traz a data de 10 de Março de 1976, mas a destinatária, Maria Natália Gouveia, só a recebe em fins de Maio. Vem de Timor, via Vaticano, e é assinada por José Joaquim Ribeiro, ao tempo bispo de Timor. Maggiolo Gouveia, escreve o bispo, foi um "dos mais de mil prisioneiros executados pela Fretilin no altar do ódio a Deus, à Família e à Pátria". O relato da execução ouviu-a "da boca de um dos presos de Aileu, o Administrador do Concelho de Maubesse, Lúcio da Encarnação, que a ouviu por sua vez dos próprios soldados-algozes". Tudo terá acontecido "entre 9 e 15 de Dezembro", junto de uma vala "previamente aberta" ao lado da estrada Aileu-Maubisse, por onde um grupo de "cerca de 50 a 60 homens" foi forçado a marchar. "É-lhes então dito que todos vão, ali, ser fuzilados. Há um momento de consternação e de estremecimento colectivo. As milícias põem a arma à cara. É então que o tenente-coronel Maggiolo Gouveia levanta a voz e diz: 'senhores, deixem-nos rezar o terço'. E todo o grupo, de joelhos em terra, reza o terço a Nª Senhora (...), após o que o oficial português se dirige aos companheiros: "Irmãos, breve vamos comparecer na presença do nosso Deus e Pai. Façamos o nosso acto de contrição, o nosso acto de amor". O relato prossegue dizendo que o grupo se encomenda a Deus "em silêncio entrecortado de lágrimas", após o que Maggiolo se põe de pé e se dirige ao pelotão de execução: "Irmãos, nós estamos já preparados para comparecer no Tribunal de Deus, lá vos esperamos também a vós. O meu único crime foi o de não renegar a minha fé e o de amar Timor. Morro por Timor. Morro pela minha Pátria e pela minha fé católica. Podeis disparar". Os timorenses, escreve o bispo, "ficam como que petrificados, não se movem, não se atrevem a pôr a arma à cara. É um estrangeiro que rompe o silêncio destes primeiros instantes e quebra a indecisão daqueles soldados nativos: põe ele a arma à cara e dispara contra o tenente-coronel Maggiolo Gouveia". O bispo encarrega-se da "deveras dolorosa missão" consolando a viúva: "Seu extremoso marido (...) deu a sua vida pela fé e pela Pátria, morreu como um autêntico cristão, como um Homem inteiriço, como um militar da têmpera desses militares de antanho que são orgulho e exemplo da nossa gloriosa História". [Testemunhos posteriores não confirmam alguns dos dados fornecidos na narrativa do bispo: o número de executados em Aileu terá sido dez vezes inferior; a morte do grupo em que Maggiolo se integrava terá ocorrido em finais de Dezembro; não havia qualquer estrangeiro no pelotão de fuzilamento; e terá havido algum exagero, a crer na confissão de alguém ainda vivo que dele fez parte (ver PÚBLICO da passada quarta-feira), no tom epopeico-religioso que o mais alto dignitário da igreja católica timorense usou na carta.] A aguerrida imprensa mais conservadora do tempo divulga a carta na íntegra. Maggiolo Gouveia torna-se um ícone da luta anti-comunista. A extrema-direita promove-lhe homenagens religiosas ao mesmo tempo que fustiga o 25 de Abril, apontado como a raiz dos males que afligem o país, agora reduzido à sua dimensão europeia. Embaraçada, a esquerda opta pelo silêncio, deixando passar em claro a contradição dos que aclamam como herói nacional um homem que morreu de pé em defesa das suas convicções serem os mesmos que apelidam de traidores os que, em nome de ideais que consideravam igualmente justos e nobres, se recusaram a combater ou desertaram das Forças Armadas - como foi o caso do deputado socialista Manuel Alegre, um dos mais visados. A instituição militar não se mostra menos embaraçada pela atitude de Maggiolo Gouveia. No Ataúro, para onde seguiram já depois de sua detenção, camaradas de armas atribuem o comportamento do oficial a uma situação de extremo cansaço físico e psicológico de alguém que se encontrava claramente doente. Querem assim evitar a pena de demissão que o Governador e comandante-chefe de Timor, Lemos Pires, decidira aplicar-lhe. O Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas reduz a pena a uma suspensão até à conclusão do processo respectivo, que o vem a considerar como "desaparecido em condições de grande perigosidade e de ameaça à ordem pública". Uma década depois a família requer judicialmente a sua morte presumida. A viúva recebe, desde 1992, uma pensão de sobrevivência e de preço de sangue. O nome de Maggiolo Gouveia figura em último lugar na extensa lista que compõe o memorial em Belém de homenagem aos ex-Combatentes do Ultramar. A inclusão do seu nome fora pedida numa carta enviada em 12 de Junho de 2 000 à Liga dos Combatentes pelo coronel Manuel Amaro Bernardo (autor, juntamente com o antigo chefe do Estado-Maior da Força Aérea, Morais da Silva, do livro "Timor, Abandono e Tragédia", Prefácio-Edições de Livros e Revistas) sustentando que a proclamação radiofónica "resultou da indecisão do comandante-chefe de Timor na resolução da sublevação da UDT (...) e de terem ocorrido ameaças de bombardeamento do acampamento da UDT, onde se encontravam mulheres, velhos e crianças". ? retirada indonésia de Timor, em Outubro de 1999, oferece uma oportunidade que a família de Maggiolo Gouveia não quer perder. Através dos coronéis José Pais, Manuel Bernardo, Morais da Silva e Nuno Roque, Rui Maggioli chega ao Comissário para o Apoio à Transição de Timor-Leste, Vítor Melícias, que lhe viabiliza uma primeira deslocação ao território em Janeiro de 2002. O objectivo principal é determinar com exactidão o sítio mais provável onde se encontram os restos mortais do pai. Em Timor, o médico português inicia as diligências burocráticas necessárias junto da ONU, que lidera a transição e cujos representantes se comprometem a resolver o problema após despacho judicial favorável. Alegando que o seu mandato se refere apenas aos crimes posteriores a 1999, acaba, no entanto, por se recusar a intervir. É então que o Estado português, através do Ministério da Defesa Nacional, resolve assumir o processo. Em fins de Junho passado, obtido o acordo das autoridades timorenses, Rui Maggioli junta-se a duas técnicas designadas pelo Instituto de Medicina Legal (INML) - a médica legista Cristina Mendonça e a antropóloga forense Eugénia Cunha - com as quais se encontra pela primeira vez já no aeroporto de Lisboa, na hora da partida para Díli. Acompanhada de Rui Fonseca e do major Ochoa, adidos social e militar, respectivamente, da embaixada de Portugal em Timor-Leste, a equipa parte para Aileu. No primeiro dia, em contraste com a atitude cooperante das autoridades tradicionais, a polícia local mostra-se inflexível e não permite o início das escavações, que só se iniciam a 26, após a remoção pelo exército português da estrutura de cimento que cobre a vala comum, situada junto da ribeira de Aisirimou, nos arredores da cidade. Em ordem a aproveitar ao máximo a luz do dia, os trabalhos começam às oito e prolongam-se até ao pôr do sol, cerca das 19 horas, com breve pausa para almoço. Está vedado um levantamento exaustivo da vala. A intervenção pericial deve dirigir-se apenas aos restos mortais de Maggiolo Gouveia. Rui faz de tudo um pouco, excepto escavação: fotografa, transporta, etiqueta, acondiciona o material recolhido. Desde a abertura da sepultura os dias parecem-lhe séculos. Causam-lhe uma profunda tristeza os sinais palpáveis e evidentes dos momentos violentos partilhados por todos aqueles cujos restos mortais vão surgindo. À certeza de estar a fazer o que é certo e justo sucede-se a incerteza. A alegria alterna com momentos de profunda tristeza. Durante a estada acaba por cruzar-se com familiares de outras vítimas das execuções. Fala-lhes do que está a tentar fazer. Fica com a impressão de que persistem os receios e de que é pouca a abertura política para a resolução do problema. Nunca sentiu que estivesse perante alguém que tivesse tido responsabilidades na morte do pai, nem tal perspectiva lhe causa particular angústia. Não o movem sentimentos de vingança. Em países democráticos, a tortura e o assassinato são crimes objecto de julgamento. A Fretilin, hoje governo de um país democrático, acusa e bem, pública e repetidamente, a Indonésia de nada fazer em relação aos responsáveis por crimes cometidos em Timor. Fazer-se justiça neste caso é para ele em primeiro lugar conhecer e esclarecer os actos e quem os praticou. Acha que em segundo lugar não faria mal um pedido de desculpa às vítimas e às suas famílias. Como atitude de arrependimento e de reconciliação e como exemplo de mudança política no que respeita à impunidade de que os crimes de Direitos Humanos continuam a gozar. São muito pouco sinceros ainda, acha, o discurso e a prática política sobre Direitos Humanos em Timor-Leste. Rui mal teve tempo para acomodar o relógio Seiko que um dos membros da equipa lhe passou. Junto a um crânio, acabam de surgir duas próteses dentárias completas que sabe de ciência certa serem do pai, juntamente com pedaços de uma farda número 2 do Exército, sapatos e meias militares, restos de um terço e uma medalha de Nossa Senhora de Fátima. É então que tem a certeza, pela primeira vez em 28 anos. O seu pai estava morto e ali. Do hotel onde se hospeda, em Díli, fala noite alta para a mãe em Portugal, que se mostra preocupada com a dureza da experiência por que ele passa. Antes do regresso, participa numa cerimónia presidida pelo padre Juvito - breves palavras, oração pelos mortos e momentos de recolhimento - que marca o encerramento da sepultura com terra. Todo o espólio dos mortos locais (ossadas e objectos não pertencentes a Maggiolo Gouveia) é colocado em frascos e três urnas que os presentes são convidados a verificarem antes de enterradas no mesmo local. Voa para Portugal, onde fica a aguardar a chegada dos restos mortais do pai, enviados por mala diplomática especial. Feitas as imprescindíveis provas periciais no IML de Coimbra, o funeral, está decidido, será em Mação. Pela proximidade do local de residência da mãe. É também aí que está toda a sua família da linha materna e onde sua mãe deseja ser sepultada. Na cerimónia, marcada para amanhã, segunda-feira 18, às quatro da tarde, estarão presentes o Ministro da Defesa, Paulo Portas, e o CEME, Valença Pinto. Para além da família e dos amigos, dispõe-se a receber nela todos aqueles que forem por bem. Quer que o enterro signifique acima de tudo um momento simbólico de reencontro, reflexão e paz em torno da memória do pai. O fim de um projecto difícil e complexo com que sonhou e em que participou, mas que só foi tornado possível pela colaboração de muitos. Na campa, um pequeno poema escrito pela mãe para o pai, que se fosse vivo teria hoje 73 e nove netos: "Pai, és como uma árvore que se enfeitou de flores na Primavera, deu frutos no Verão e no Outono e vive de pé nas neves do Inverno, sorrindo contra os ventos". OUTROS TÍTULOS EM PÚBLICA
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