Suplemento Mil Folhas

03-11-2002
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Por CARLOS CÂMARA LEME

Sábado, 26 de Outubro de 2002

José Régio - Itinerário Fotográfico, agora publicada pela Imprensa Nacional- Casa da Moeda/Câmarade Vila do Conde

A recepção da obra de José Régio (1901-1969) na história da literatura portuguesa é das mais complexas. Vamos a factos: na "Phala - Um Século de Poesia" (Assírio e Alvim, 1988), David Mourão-Ferreira nota que "quer se queira quer não (...) o máximo expoente [da poética e prática presencistas] foi indubitavelmente José Régio". Porém, não há um ensaio sobre ele.

Herberto Hélder em "Edoi Lelia Doura - Antologia das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa" (Assírio & Alvim, 1985) numa escolha "ferozmente parcialíssima", como diz o autor de "Poesia Toda", não inclui um único poema de Régio. Não poderia estar o poeta entre os eleitos, como justifica H.H., ou seja, "entregues ao serviço de uma inspiração comum, a uma comum arte do fogo e da noite, ao mesmo patrocínio constelar"?

Noutra opção "pessoalíssima", a de Eugénio de Andrade, "Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa" (Campo das Letras, 2000), Régio tem direito a sete poemas, incluído um dos mais conhecidos, o poderoso "Cântico Negro". Justiça feita, por uma vez.

Mas vamos por outro lado - à 17ª edição da "História da Literatura Portuguesa", de António José Saraiva/Óscar Lopes (Porto Editora, 1996). Nas págs., 1013-1014 (mais concretamente página e meia de texto) passam-se em revista as várias facetas regianas, o que é manifestamente pouco, quando se percebe, pode ler-se, que a fase inicial de Régio, como nos "Poemas de Deus e do Diabo", releva do "achado literário de uma introspecção constante estimulada pela psicanálise vulgarizada [que] dá a Régio uma nova expressão ao tema da incomensurabilidade das aspirações humanas com o mundo". Em relação à área romanesca, destaca-se "A Velha Casa", de carácter autobiográfico, apresentando "um certo ar de apologia" contra o neo-realismo "de doutrinação muito explícita"; na poesia, fala-se da "serenidade lírica", como em "Cântico Suspenso" e, no teatro, sublinha-se o "estilo dialogal muito nobre" ("Três Peças em um Acto" e "Benilde". Perante tamanha multiplicação de géneros, uma próxima edição não deveria tratar o poeta de outra maneira?

"José Régio - Itinerário Fotobiográfico", agora publicada pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda/Câmara Municipal de Vila do Conde, de Isabel Cadete Novais (com prefácio de Eugénio Lisboa, um dos mais lúcidos estudiosos da obra de José Régio, juntamente com Mourão-Ferreira e Eduardo Lourenço), pode, desde já, servir como pedra de toque para apagar o esquecimento - se não mesmo silenciamento - a que foi votado o autor de "Confissão de um Homem Religioso".

Quer Lisboa, quer Cadete Novais, na apresentação, apostam numa outra vertente, também ela importante: "Régio era também um homem e tinha o seu mundo profundamente humano. Ou antes: os seus mundos. Eternamente plural, eternamente dividido, eternamente aflito, eternamente rico." A organizadora, na mesma linha, socorre-se da sabedoria popular: "Por detrás de uma grande obra está sempre um grande homem."

Uma obra desta natureza faz conviver textos, fotografias, desenhos, um aparato de contextualização, que, desde o pioneiro dedicado a Pessoa, está estabelecido. "José Régio - Itinerário Fotobiográfico" vai mais longe. Faz emergir um homem/obra que marcou indelevelmente tudo à sua volta. Ele sabia, como escreve/sente em "Cântico Negro", que não sabia por onde ir. Mas fez girar muito coisa em seu redor. O movimento da "presença", a admiração que Fernando Pessoa tinha por ele, o fascínio que Álvaro Cunhal (sim Cunhal!) também subscrevia (Régio é "um dos mais poderosos e capazes poetas contemporâneos - quanto ao potencial e capacidade de expressão", escreveu Cunhal na "Seara Nova"), Jorge de Sena ("a sua Benilde ficará, desde já, como uma das mais belas interpretações do nosso teatro contemporâneo", exalta na crítica que faz para o "Diário de Lisboa"), Vergílio Ferreira, Eugénio de Andrade e Jacinto do Prado Coelho. Mas há muitos mais.

A multifacetada existência de Régio está excelentemente documentada. Quer nas fotografias, nos autógrafos, na correspondência, nas polémicas, nos desabafos, no sofrimento, na perseguição que a censura lhe movia, ele que tinha uma intervenção não muito frequente mas quando o fazia não lhe doíam as mãos, nos retratos que desenha ou pinta (alguns são fantásticos) noutros que fazem dele. Um "retrato" há que é de citação obrigatória, o de Maria Agustina (é assim que Bessa-Luís assina a 3 de Maio de 1957), quando da morte da mãe do poeta. "Via-o sentado no seu quarto que tem aquele terrível Crucificado a olhar com a sua estranha amabilidade fria um pouco cáustica para todas as coisas."

Já muitas fotobiografias foram publicadas. "José Régio - Itinerário Fotobiográfico" é das mais cuidadas e exaustivas. Venham por aqui. Para conhecer um homem e uma obra que é urgente redescobrir.

Venham por Aqui

Por CARLOS CÂMARA LEME

Sábado, 26 de Outubro de 2002

José Régio - Itinerário Fotográfico, agora publicada pela Imprensa Nacional- Casa da Moeda/Câmarade Vila do Conde

A recepção da obra de José Régio (1901-1969) na história da literatura portuguesa é das mais complexas. Vamos a factos: na "Phala - Um Século de Poesia" (Assírio e Alvim, 1988), David Mourão-Ferreira nota que "quer se queira quer não (...) o máximo expoente [da poética e prática presencistas] foi indubitavelmente José Régio". Porém, não há um ensaio sobre ele.

Herberto Hélder em "Edoi Lelia Doura - Antologia das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa" (Assírio & Alvim, 1985) numa escolha "ferozmente parcialíssima", como diz o autor de "Poesia Toda", não inclui um único poema de Régio. Não poderia estar o poeta entre os eleitos, como justifica H.H., ou seja, "entregues ao serviço de uma inspiração comum, a uma comum arte do fogo e da noite, ao mesmo patrocínio constelar"?

Noutra opção "pessoalíssima", a de Eugénio de Andrade, "Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa" (Campo das Letras, 2000), Régio tem direito a sete poemas, incluído um dos mais conhecidos, o poderoso "Cântico Negro". Justiça feita, por uma vez.

Mas vamos por outro lado - à 17ª edição da "História da Literatura Portuguesa", de António José Saraiva/Óscar Lopes (Porto Editora, 1996). Nas págs., 1013-1014 (mais concretamente página e meia de texto) passam-se em revista as várias facetas regianas, o que é manifestamente pouco, quando se percebe, pode ler-se, que a fase inicial de Régio, como nos "Poemas de Deus e do Diabo", releva do "achado literário de uma introspecção constante estimulada pela psicanálise vulgarizada [que] dá a Régio uma nova expressão ao tema da incomensurabilidade das aspirações humanas com o mundo". Em relação à área romanesca, destaca-se "A Velha Casa", de carácter autobiográfico, apresentando "um certo ar de apologia" contra o neo-realismo "de doutrinação muito explícita"; na poesia, fala-se da "serenidade lírica", como em "Cântico Suspenso" e, no teatro, sublinha-se o "estilo dialogal muito nobre" ("Três Peças em um Acto" e "Benilde". Perante tamanha multiplicação de géneros, uma próxima edição não deveria tratar o poeta de outra maneira?

"José Régio - Itinerário Fotobiográfico", agora publicada pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda/Câmara Municipal de Vila do Conde, de Isabel Cadete Novais (com prefácio de Eugénio Lisboa, um dos mais lúcidos estudiosos da obra de José Régio, juntamente com Mourão-Ferreira e Eduardo Lourenço), pode, desde já, servir como pedra de toque para apagar o esquecimento - se não mesmo silenciamento - a que foi votado o autor de "Confissão de um Homem Religioso".

Quer Lisboa, quer Cadete Novais, na apresentação, apostam numa outra vertente, também ela importante: "Régio era também um homem e tinha o seu mundo profundamente humano. Ou antes: os seus mundos. Eternamente plural, eternamente dividido, eternamente aflito, eternamente rico." A organizadora, na mesma linha, socorre-se da sabedoria popular: "Por detrás de uma grande obra está sempre um grande homem."

Uma obra desta natureza faz conviver textos, fotografias, desenhos, um aparato de contextualização, que, desde o pioneiro dedicado a Pessoa, está estabelecido. "José Régio - Itinerário Fotobiográfico" vai mais longe. Faz emergir um homem/obra que marcou indelevelmente tudo à sua volta. Ele sabia, como escreve/sente em "Cântico Negro", que não sabia por onde ir. Mas fez girar muito coisa em seu redor. O movimento da "presença", a admiração que Fernando Pessoa tinha por ele, o fascínio que Álvaro Cunhal (sim Cunhal!) também subscrevia (Régio é "um dos mais poderosos e capazes poetas contemporâneos - quanto ao potencial e capacidade de expressão", escreveu Cunhal na "Seara Nova"), Jorge de Sena ("a sua Benilde ficará, desde já, como uma das mais belas interpretações do nosso teatro contemporâneo", exalta na crítica que faz para o "Diário de Lisboa"), Vergílio Ferreira, Eugénio de Andrade e Jacinto do Prado Coelho. Mas há muitos mais.

A multifacetada existência de Régio está excelentemente documentada. Quer nas fotografias, nos autógrafos, na correspondência, nas polémicas, nos desabafos, no sofrimento, na perseguição que a censura lhe movia, ele que tinha uma intervenção não muito frequente mas quando o fazia não lhe doíam as mãos, nos retratos que desenha ou pinta (alguns são fantásticos) noutros que fazem dele. Um "retrato" há que é de citação obrigatória, o de Maria Agustina (é assim que Bessa-Luís assina a 3 de Maio de 1957), quando da morte da mãe do poeta. "Via-o sentado no seu quarto que tem aquele terrível Crucificado a olhar com a sua estranha amabilidade fria um pouco cáustica para todas as coisas."

Já muitas fotobiografias foram publicadas. "José Régio - Itinerário Fotobiográfico" é das mais cuidadas e exaustivas. Venham por aqui. Para conhecer um homem e uma obra que é urgente redescobrir.

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