O novo rosto da polícia

02-11-2002
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Curso

O Novo Rosto da Polícia

Por ANABELA MENDES

Segunda-feira, 28 de Outubro de 2002 Novos tempos, novos polícias. No Instituto Superior de Ciências Policiais preparam-se os agentes da PSP para o século XXI. É um curso superior com vinte anos e cujo impacto na polícia começa agora a tornar-se bem visível. Bruno tem 18 anos e a aflição estampada no rosto. Os olhos estão vermelhos de choro contido, é a imagem perfeita da desolação. É um dos 23 novos cadetes do Instituto Superior de Ciências Policiais e deixa qualquer observador perplexo e a interrogar-se. Estará mesmo talhado para a vida policial? O oficial responsável pelos novos alunos não mostra tanto espanto. Age como se não percebesse nada, mas depois nota-se que colocou Bruno debaixo de uma espécie de asa protectora, quase imperceptível, que o vai guiando subtilmente. E Bruno lá vai avançando, esboça mesmo um sorriso para um colega destas novas andanças. A sós, Bruno confessa-se: não é uma crise de vocação, nem foi para ali obrigado. Empertiga-se na sua certeza de que quer mesmo ser polícia. É a mãe, com saudades, a telefonar-lhe de casa, a dizer-se doente, a agitar-lhe a bandeira da culpa. Anseia por ir a casa, no Alentejo, no fim-de-semana, verificar se está tudo bem, sossegar a mãe, rever a namorada de 16 anos. Desistir? Nunca! Os olhos já lhe brilham de maneira diferente. Quando diz "Quero ser polícia" a voz já não lhe falha. Percebe-se que para ele seria mais fácil trazer a mãe para Lisboa e escondê-la debaixo da cama durante o seu primeiro ano de internato do que abandonar o seu sonho de menino que começa a tomar forma. Ainda por cima tem um herança de família a honrar: o pai é da GNR, o avô era da Guarda Fiscal. Dos novos cadetes que este ano irão frequentar o 19º curso de oficiais do Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna, nove são civis que terminaram o ensino secundário e os restantes já são agentes policiais há pelo menos dois anos. Se os que já são polícias, como é o caso de Nuno Gonçalves, de 27 anos, agente até agora a prestar serviço em Vila Real de Santo António, sabem bem o que é envergar uma farda, para os alunos civis tudo é novidade. Nota-se pelo silêncio reverencial, pela postura hirta. Nuno Gonçalves, como os seus colegas já polícias, está mais à vontade. Para ele, a opção de frequentar este curso superior surge da ambição legítima de subir na carreira. Ter uma vida melhor, ser um bom oficial. Deixou a noiva no Algarve, o ordenado continua a recebê-lo, só a cadeira de Matemática lhe mete algum medo e o deixa apreensivo. Sabe, como todos os alunos, que não pode chumbar a nenhuma cadeira. Isso implica a reprovação de ano, o que só pode acontecer uma vez. À segunda, são excluídos do curso. Sonha em terminar a licenciatura daqui a cinco anos, ser um oficial de serviço operacional, comandar umas Brigadas Anti-Crime ou de Investigação Criminal. É bem melhor do que estar preso numa esquadra atolado em processos burocráticos. Depois do primeiro dia de apresentação, os novos cadetes têm um segundo dia recheado de emoções. Pelo menos os civis. São levados num autocarro à Escola Prática de Polícia, em Torres Novas, para levantar o fardamento. Um rol imenso de peças: bivaques, bonés, dolmans, blusões, calças, camisas, gravatas, camisolas, placas de identificação, sapatos, botas, meias... 43 itens para os homens, 47 para as mulheres. Para os alunos civis, este ritual do fardamento causa impacto visível. No meio de um imenso armazém são chamados um a um. O olho clínico dos que ali trabalham tira-lhes de imediato as medidas. Venham camisas nº x, bonés y, camisolas w...Os cadetes saem zonzos, ajoujados sob a carga de quase mil euros de material. Os civis, claro. Para os que já são polícias, a carga é igual, mas já não há novidade. Luis Martins, com 18 anos, filho de polícia, natural de Faro, reclama umas botas nº 45. Há sorrisos. Mas o armazém não está desprevenido. Com esta nova geração de cadetes já está prevenido com calçado até ao número 47. Luis Martins confidencia que o blusão foi a peça da farda que mais gostou de receber. Sentiu a responsabilidade e percebeu definitivamente que ia mesmo ser polícia. A única coisa que sempre pensou ser. Já o Ricardo, 20 anos, ex-aluno de Direito, natural do Porto, sentiu-se emocionado ao pegar nas duas placas de identificação com o seu nome. Vai levá-las a casa, no fim de semana, para mostrar aos pais, ele comerciante, ela empresária. Eles apoiam a escolha do filho, que será a primeira farda da família. Só este ano Ricardo conseguiu entrar para o Instituto. Falhou a primeira tentativa, por isso frequentou um ano de Direito, mas como conseguiu entrar à segunda, não hesitou em deixar a faculdade. O que quer mesmo é ser polícia. Teresa Pinto, a única mulher civil nesta leva de novos alunos, corou de maneira notória na altura de receber a farda. Com 19 anos, da Póvoa de Santa Iria, trabalha em informática e quer seguir as pisadas de um tio que é da PSP. O boné de cerimónia deixou-a definitivamente embevecida e convencida. Este Instituto Superior de Polícia, criado em 1980, como recorda Germano Marques da Silva, docente da instituição e que integrou a comissão instaladora, nasceu da necessidade de dar corpo a uma nova polícia que se integrasse numa nova sociedade. A ideia era libertar os quadros superiores da PSP de oficiais provenientes do exército, formando oficiais próprios capazes de defenderem os direitos liberdades e garantias dos cidadãos, algo que pela primeira vez foi ensinado numa escola. Há duas décadas eram conceitos ainda a criarem ténues raízes. A meta, na altura, era chegar ao ano 2000 já sem haver oficiais do exército na PSP. Não se conseguiu, mas o objectivo está muito próximo. E, por essa razão, os novos oficiais da PSP são tão novos. Têm por diante uma progressão invejável nas carreiras, só possível devido a este fenómeno de mudança. Germano Marques da Silva, professor de Direito na Universidade Católica, mantém 15 horas anuais de aulas no Instituto. Ética Policial. Uma ligação sentimental, confessa. Viu nascer a instituição, travou algumas guerras por ela, viu-a crescer e consolidar-se. Tem um orgulho evidente. "Entendia-se que um oficial de polícia tinha de ser um agente de mudança na nova sociedade e a criação deste curso superior foi um projecto muito interessante, assim como tem sido o seu crescimento. Foi uma ruptura com o passado e um contributo decisivo para a renovação da PSP", resume Marques da Silva. Para o catedrático, a nova concepção de ordem pública passa necessariamente pelo Instituto Superior de Ciências Policiais e também pela entrada de mulheres desde o primeiro curso. "A abertura da carreira de oficial às mulheres foi excelente, porque obrigou a um novo relacionamento entre os alunos e a um equacionar de novas posturas e novas sensibilidades. Por outro lado, como as mulheres que ali chegavam tinham um nível cultural acima da média, isso obrigou a que os outros se vissem obrigados a esforçarem-se ainda mais para as conseguirem acompanhar", recorda. Manuel Valente, de 32 anos, é um exemplo desses novos oficiais criados pelo Instituto. Actualmente chefe de Gabinete na instituição, começou por querer ser padre. Frequentou o Seminário Menor de Resende e o Maior de Lamego, até que um dia percebeu que não queria acabar como alguns dos seus professores, a apregoar uma coisa e a fazer outra. Não deixou de ser católico, como diz, reza todos os dias, mas a Igreja deixou-a de lado. Já na Faculdade de Letras de Lisboa e com uma licenciatura por concluir, concorreu ao Instituto e ali se formou. Comandou a Esquadra de Campo de Ourique, sendo responsável pela secção de Informações, Operações, pelo Piquete Operacional, bem como Oficial Operacional, sempre na 4ª Divisão da PSP de Lisboa. Em 1997, recorda, sentiu necessidade de conhecer novas pessoas e novas maneiras de pensar, de aprofundar os seus conhecimentos. Inscreveu-se em Direito na Universidade Católica de Lisboa, estando a acabar a licenciatura e já a pensar num doutoramento em Salamanca na área do Direito Penal. Além de ser Chefe de Gabinete no Instituto Superior de Ciências Policiais, onde também dá aulas, é docente na Universidade Moderna, sendo coordenador da pós-graduação em Ciências Criminais, escreve livros e mesmo poesia, dizendo-se um apaixonado pela obra de Sofia de Mello Breyner Anderson e Miguel Torga. Viciado em trabalho, afirma acreditar que só será um polícia melhor se for um homem melhor. Também extenso é o currículo do actual sub-director do Instituto. José Leitão, 36 anos, saiu do ensino secundário para ingressar directamente no curso de oficiais de polícia. Não se esquece que na altura ainda tinha a ideia de uma PSP muito militarizada, o que o levou a rapar o cabelo antes de começarem as aulas. Um erro crasso, como percebeu depois. Depois de licenciado foi dar aulas para a Escola Prática da PSP em Torres Novas, comandou a esquadra de Angra do Heroísmo, nos Açores, e posteriormente, em 1992, foi assessor da Presidência da Comunidade Europeia. Nomeado para o Gabinete de Estudos da Cooperação Internacional do Comando-Geral da PSP, diz que foi aí que percebeu que a polícia estava a apostar, na altura, em soluções já esgotadas. Operacional por vocação, acompanhou uma missão da ONU em Moçambique, para depois ser o responsável pela elaboração do plano de evacuação do contingente da CIFPOL no mesmo país. Esgotada a missão, regressou de novo ao Comando-Geral e aos dossiers, até que em 1996 foi convidado para integrar o corpo docente do Instituto, onde recentemente foi promovido a sub-director. Convicto de que a polícia está em processo de reforma e que a escola de oficiais está finalmente a cumprir os seus desígnios - pois os alunos ali licenciados estão por fim a chegar aos postos onde os cidadãos perceberão essa mudança -, diz que, como tudo na vida, a actuação policial tem de se pautar pelo bom senso. A sua fórmula é: "Dosear os objectivos definidos pela lei e conjugá-los com as necessidades das populações". Gostaria de ver a licenciatura ser reformulada e mais adequada aos novos tempos. Como exemplo, fala da criação de uma cadeira sobre delinquência juvenil. Projectar o trabalho da escola para fora, nomeadamente as teses dos alunos, também é um dos projectos, bem como abrir as portas a pós-graduações de licenciados em outras faculdades. Na sua óptica, o instituto tem um papel cada vez mais preponderante, pois parte do problema que a PSP ainda vive hoje em dia tem a ver directamente com a taxa de enquadramento de oficiais. Ou seja, num corpo de 20 mil agentes só cerca de três por cento são oficiais, o que dá um para cada 600 homens. Actualmente, já só cerca de 4,7 por cento destes oficiais ainda são provenientes do exército. A leste destes números está Stélyo Araújo, um dos novos cadetes deste ano. É o primeiro aluno do curso de oficiais proveniente de Timor. Ao abrigo de protocolos de cooperação esta escola forma, desde 1988, oficiais de polícia de países estrangeiros de língua oficial portuguesa, nomeadamente de Cabo Verde, Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Este ano, pela primeira vez, abriu as portas a Timor. Com 24 anos, Stélyo Araújo fazia parte do corpo de segurança pessoal do Presidente Xanana Gusmão. Mas o facto de ser recomendado para esta licenciatura, conta ele, nada teve a ver com esta tarefa que desempenhava e sim com o facto de falar correctamente português. Ele viveu durante 14 anos em Portugal, com um tio, só tendo regressado a Timor depois da independência. Para ele, o pior é deixar outra vez para trás a família, que durante tanto tempo não viu, mas sossega-o o facto de o seu ordenado, 85 dólares, ser entregue todos os meses à mãe, para ajudar a criar os seis irmãos, agora que o pai faleceu. Para José Vaz Cabral, natural de Cabo Verde, este curso é a possibilidade de uma vida melhor, mas igualmente um grande sacrifício. Tem por diante cinco anos de separação da família. Da mulher e das duas filhas, uma de cinco e outra de um ano. Com 25 anos, este agente de 2ª classe pertencia ao corpo de intervenção da Cidade da Praia, onde espera poder voltar já como oficial. Justiano Gomes Moreno, de 27 anos, seu conterrâneo, também agente de 2ª classe, mas da Brigada de Trânsito da Cidade da Praia, tem sonhos e angústias iguais. Para trás também deixou a mulher e uma filha com quatro anos e encara esta licenciatura como a grande oportunidade para uma vida melhor. Só tem medo da saudade. Os ordenados dos dois também serão entregues às respectivas famílias e durante os cinco anos do curso receberão um subsídio mensal de 120 euros, com que terão de sobreviver. A Rogério Soares, sub-comissário responsável pelo Corpo de Alunos, cabe a tarefa de orientar e acompanhar todos estes cadetes. É um primeiro ano particularmente duro, pois é feito em regime de internato, só havendo ordem de saída aos fins-de-semana, e isso para os que têm família próximo. Licenciado pelo Instituto, com uma pós-graduação em Ciências Criminais, este oficial foi até há um ano comandante da Esquadra de Investigação Criminal da 3ª Divisão da PSP de Lisboa, onde se manteve três anos. No Instituto ministra a cadeira de Táctica das Forças de Segurança aos alunos do 4º ano, além de dar aulas de investigação criminal no Centro de Instrução de Oeiras. Para ele, ser polícia foi uma opção tomada na adolescência, à semelhança dos alunos que agora tem à sua responsabilidade. Por isso, quer fazer deles melhores homens, para que sejam bons polícias. "Profissionais que saibam consolidar a vertente teórica articulando-a com a experiência prática, sabendo agir na hora certa, mas também percebendo que os homens que vão comandar precisam do seu apoio e da sua atenção, para que possam prestar um melhor serviço à comunidade", explica. Luis Silva, com 30 anos, é um dos futuros oficiais que para o ano irá deixar o Instituto. No último ano, prepara um trabalho sobre Cultura Organizacional, enquanto vai estagiando pelos diversos serviços da PSP. Tendo prestado serviço, enquanto agente, em Matosinhos e em São Mamede de Infesta, pretende voltar ao Comando Metropolitano do Porto. Diz que em Lisboa um polícia enfrenta um ambiente mais hostil por parte da população. Para ele, a licenciatura que está a terminar, sendo o segundo melhor aluno do seu curso, é a ideal. Um ensino orientado que responde às necessidades reais de um oficial da PSP. O resto, será a prática a ensinar. Fotografias: Pedro Cunha OUTROS TÍTULOS EM PÚBLICA

Vou para El Norte à procura da minha mãe*

Explicação de uma reportagem

Jorge Mendoza, chefe de gang

O movimento dos homens-estátuas

O homem que seduziu o tempo

O novo rosto da polícia

Em 700 candidatos foram admitidos 24

A subcomissária Monteiro

CRÓNICAS

Distracção massiva

O homem dos tectos falsos

A invenção da memória

HISTÓRIAS DE AMOR

Cirurgias

COCKTAIL

Gin and Tonic

RECEITA

Pudim de manga e pêssego

CARTAS DA MAYA

Cartas da Maya

DESAFIOS

Bodas de diamante

Curso

O Novo Rosto da Polícia

Por ANABELA MENDES

Segunda-feira, 28 de Outubro de 2002 Novos tempos, novos polícias. No Instituto Superior de Ciências Policiais preparam-se os agentes da PSP para o século XXI. É um curso superior com vinte anos e cujo impacto na polícia começa agora a tornar-se bem visível. Bruno tem 18 anos e a aflição estampada no rosto. Os olhos estão vermelhos de choro contido, é a imagem perfeita da desolação. É um dos 23 novos cadetes do Instituto Superior de Ciências Policiais e deixa qualquer observador perplexo e a interrogar-se. Estará mesmo talhado para a vida policial? O oficial responsável pelos novos alunos não mostra tanto espanto. Age como se não percebesse nada, mas depois nota-se que colocou Bruno debaixo de uma espécie de asa protectora, quase imperceptível, que o vai guiando subtilmente. E Bruno lá vai avançando, esboça mesmo um sorriso para um colega destas novas andanças. A sós, Bruno confessa-se: não é uma crise de vocação, nem foi para ali obrigado. Empertiga-se na sua certeza de que quer mesmo ser polícia. É a mãe, com saudades, a telefonar-lhe de casa, a dizer-se doente, a agitar-lhe a bandeira da culpa. Anseia por ir a casa, no Alentejo, no fim-de-semana, verificar se está tudo bem, sossegar a mãe, rever a namorada de 16 anos. Desistir? Nunca! Os olhos já lhe brilham de maneira diferente. Quando diz "Quero ser polícia" a voz já não lhe falha. Percebe-se que para ele seria mais fácil trazer a mãe para Lisboa e escondê-la debaixo da cama durante o seu primeiro ano de internato do que abandonar o seu sonho de menino que começa a tomar forma. Ainda por cima tem um herança de família a honrar: o pai é da GNR, o avô era da Guarda Fiscal. Dos novos cadetes que este ano irão frequentar o 19º curso de oficiais do Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna, nove são civis que terminaram o ensino secundário e os restantes já são agentes policiais há pelo menos dois anos. Se os que já são polícias, como é o caso de Nuno Gonçalves, de 27 anos, agente até agora a prestar serviço em Vila Real de Santo António, sabem bem o que é envergar uma farda, para os alunos civis tudo é novidade. Nota-se pelo silêncio reverencial, pela postura hirta. Nuno Gonçalves, como os seus colegas já polícias, está mais à vontade. Para ele, a opção de frequentar este curso superior surge da ambição legítima de subir na carreira. Ter uma vida melhor, ser um bom oficial. Deixou a noiva no Algarve, o ordenado continua a recebê-lo, só a cadeira de Matemática lhe mete algum medo e o deixa apreensivo. Sabe, como todos os alunos, que não pode chumbar a nenhuma cadeira. Isso implica a reprovação de ano, o que só pode acontecer uma vez. À segunda, são excluídos do curso. Sonha em terminar a licenciatura daqui a cinco anos, ser um oficial de serviço operacional, comandar umas Brigadas Anti-Crime ou de Investigação Criminal. É bem melhor do que estar preso numa esquadra atolado em processos burocráticos. Depois do primeiro dia de apresentação, os novos cadetes têm um segundo dia recheado de emoções. Pelo menos os civis. São levados num autocarro à Escola Prática de Polícia, em Torres Novas, para levantar o fardamento. Um rol imenso de peças: bivaques, bonés, dolmans, blusões, calças, camisas, gravatas, camisolas, placas de identificação, sapatos, botas, meias... 43 itens para os homens, 47 para as mulheres. Para os alunos civis, este ritual do fardamento causa impacto visível. No meio de um imenso armazém são chamados um a um. O olho clínico dos que ali trabalham tira-lhes de imediato as medidas. Venham camisas nº x, bonés y, camisolas w...Os cadetes saem zonzos, ajoujados sob a carga de quase mil euros de material. Os civis, claro. Para os que já são polícias, a carga é igual, mas já não há novidade. Luis Martins, com 18 anos, filho de polícia, natural de Faro, reclama umas botas nº 45. Há sorrisos. Mas o armazém não está desprevenido. Com esta nova geração de cadetes já está prevenido com calçado até ao número 47. Luis Martins confidencia que o blusão foi a peça da farda que mais gostou de receber. Sentiu a responsabilidade e percebeu definitivamente que ia mesmo ser polícia. A única coisa que sempre pensou ser. Já o Ricardo, 20 anos, ex-aluno de Direito, natural do Porto, sentiu-se emocionado ao pegar nas duas placas de identificação com o seu nome. Vai levá-las a casa, no fim de semana, para mostrar aos pais, ele comerciante, ela empresária. Eles apoiam a escolha do filho, que será a primeira farda da família. Só este ano Ricardo conseguiu entrar para o Instituto. Falhou a primeira tentativa, por isso frequentou um ano de Direito, mas como conseguiu entrar à segunda, não hesitou em deixar a faculdade. O que quer mesmo é ser polícia. Teresa Pinto, a única mulher civil nesta leva de novos alunos, corou de maneira notória na altura de receber a farda. Com 19 anos, da Póvoa de Santa Iria, trabalha em informática e quer seguir as pisadas de um tio que é da PSP. O boné de cerimónia deixou-a definitivamente embevecida e convencida. Este Instituto Superior de Polícia, criado em 1980, como recorda Germano Marques da Silva, docente da instituição e que integrou a comissão instaladora, nasceu da necessidade de dar corpo a uma nova polícia que se integrasse numa nova sociedade. A ideia era libertar os quadros superiores da PSP de oficiais provenientes do exército, formando oficiais próprios capazes de defenderem os direitos liberdades e garantias dos cidadãos, algo que pela primeira vez foi ensinado numa escola. Há duas décadas eram conceitos ainda a criarem ténues raízes. A meta, na altura, era chegar ao ano 2000 já sem haver oficiais do exército na PSP. Não se conseguiu, mas o objectivo está muito próximo. E, por essa razão, os novos oficiais da PSP são tão novos. Têm por diante uma progressão invejável nas carreiras, só possível devido a este fenómeno de mudança. Germano Marques da Silva, professor de Direito na Universidade Católica, mantém 15 horas anuais de aulas no Instituto. Ética Policial. Uma ligação sentimental, confessa. Viu nascer a instituição, travou algumas guerras por ela, viu-a crescer e consolidar-se. Tem um orgulho evidente. "Entendia-se que um oficial de polícia tinha de ser um agente de mudança na nova sociedade e a criação deste curso superior foi um projecto muito interessante, assim como tem sido o seu crescimento. Foi uma ruptura com o passado e um contributo decisivo para a renovação da PSP", resume Marques da Silva. Para o catedrático, a nova concepção de ordem pública passa necessariamente pelo Instituto Superior de Ciências Policiais e também pela entrada de mulheres desde o primeiro curso. "A abertura da carreira de oficial às mulheres foi excelente, porque obrigou a um novo relacionamento entre os alunos e a um equacionar de novas posturas e novas sensibilidades. Por outro lado, como as mulheres que ali chegavam tinham um nível cultural acima da média, isso obrigou a que os outros se vissem obrigados a esforçarem-se ainda mais para as conseguirem acompanhar", recorda. Manuel Valente, de 32 anos, é um exemplo desses novos oficiais criados pelo Instituto. Actualmente chefe de Gabinete na instituição, começou por querer ser padre. Frequentou o Seminário Menor de Resende e o Maior de Lamego, até que um dia percebeu que não queria acabar como alguns dos seus professores, a apregoar uma coisa e a fazer outra. Não deixou de ser católico, como diz, reza todos os dias, mas a Igreja deixou-a de lado. Já na Faculdade de Letras de Lisboa e com uma licenciatura por concluir, concorreu ao Instituto e ali se formou. Comandou a Esquadra de Campo de Ourique, sendo responsável pela secção de Informações, Operações, pelo Piquete Operacional, bem como Oficial Operacional, sempre na 4ª Divisão da PSP de Lisboa. Em 1997, recorda, sentiu necessidade de conhecer novas pessoas e novas maneiras de pensar, de aprofundar os seus conhecimentos. Inscreveu-se em Direito na Universidade Católica de Lisboa, estando a acabar a licenciatura e já a pensar num doutoramento em Salamanca na área do Direito Penal. Além de ser Chefe de Gabinete no Instituto Superior de Ciências Policiais, onde também dá aulas, é docente na Universidade Moderna, sendo coordenador da pós-graduação em Ciências Criminais, escreve livros e mesmo poesia, dizendo-se um apaixonado pela obra de Sofia de Mello Breyner Anderson e Miguel Torga. Viciado em trabalho, afirma acreditar que só será um polícia melhor se for um homem melhor. Também extenso é o currículo do actual sub-director do Instituto. José Leitão, 36 anos, saiu do ensino secundário para ingressar directamente no curso de oficiais de polícia. Não se esquece que na altura ainda tinha a ideia de uma PSP muito militarizada, o que o levou a rapar o cabelo antes de começarem as aulas. Um erro crasso, como percebeu depois. Depois de licenciado foi dar aulas para a Escola Prática da PSP em Torres Novas, comandou a esquadra de Angra do Heroísmo, nos Açores, e posteriormente, em 1992, foi assessor da Presidência da Comunidade Europeia. Nomeado para o Gabinete de Estudos da Cooperação Internacional do Comando-Geral da PSP, diz que foi aí que percebeu que a polícia estava a apostar, na altura, em soluções já esgotadas. Operacional por vocação, acompanhou uma missão da ONU em Moçambique, para depois ser o responsável pela elaboração do plano de evacuação do contingente da CIFPOL no mesmo país. Esgotada a missão, regressou de novo ao Comando-Geral e aos dossiers, até que em 1996 foi convidado para integrar o corpo docente do Instituto, onde recentemente foi promovido a sub-director. Convicto de que a polícia está em processo de reforma e que a escola de oficiais está finalmente a cumprir os seus desígnios - pois os alunos ali licenciados estão por fim a chegar aos postos onde os cidadãos perceberão essa mudança -, diz que, como tudo na vida, a actuação policial tem de se pautar pelo bom senso. A sua fórmula é: "Dosear os objectivos definidos pela lei e conjugá-los com as necessidades das populações". Gostaria de ver a licenciatura ser reformulada e mais adequada aos novos tempos. Como exemplo, fala da criação de uma cadeira sobre delinquência juvenil. Projectar o trabalho da escola para fora, nomeadamente as teses dos alunos, também é um dos projectos, bem como abrir as portas a pós-graduações de licenciados em outras faculdades. Na sua óptica, o instituto tem um papel cada vez mais preponderante, pois parte do problema que a PSP ainda vive hoje em dia tem a ver directamente com a taxa de enquadramento de oficiais. Ou seja, num corpo de 20 mil agentes só cerca de três por cento são oficiais, o que dá um para cada 600 homens. Actualmente, já só cerca de 4,7 por cento destes oficiais ainda são provenientes do exército. A leste destes números está Stélyo Araújo, um dos novos cadetes deste ano. É o primeiro aluno do curso de oficiais proveniente de Timor. Ao abrigo de protocolos de cooperação esta escola forma, desde 1988, oficiais de polícia de países estrangeiros de língua oficial portuguesa, nomeadamente de Cabo Verde, Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Este ano, pela primeira vez, abriu as portas a Timor. Com 24 anos, Stélyo Araújo fazia parte do corpo de segurança pessoal do Presidente Xanana Gusmão. Mas o facto de ser recomendado para esta licenciatura, conta ele, nada teve a ver com esta tarefa que desempenhava e sim com o facto de falar correctamente português. Ele viveu durante 14 anos em Portugal, com um tio, só tendo regressado a Timor depois da independência. Para ele, o pior é deixar outra vez para trás a família, que durante tanto tempo não viu, mas sossega-o o facto de o seu ordenado, 85 dólares, ser entregue todos os meses à mãe, para ajudar a criar os seis irmãos, agora que o pai faleceu. Para José Vaz Cabral, natural de Cabo Verde, este curso é a possibilidade de uma vida melhor, mas igualmente um grande sacrifício. Tem por diante cinco anos de separação da família. Da mulher e das duas filhas, uma de cinco e outra de um ano. Com 25 anos, este agente de 2ª classe pertencia ao corpo de intervenção da Cidade da Praia, onde espera poder voltar já como oficial. Justiano Gomes Moreno, de 27 anos, seu conterrâneo, também agente de 2ª classe, mas da Brigada de Trânsito da Cidade da Praia, tem sonhos e angústias iguais. Para trás também deixou a mulher e uma filha com quatro anos e encara esta licenciatura como a grande oportunidade para uma vida melhor. Só tem medo da saudade. Os ordenados dos dois também serão entregues às respectivas famílias e durante os cinco anos do curso receberão um subsídio mensal de 120 euros, com que terão de sobreviver. A Rogério Soares, sub-comissário responsável pelo Corpo de Alunos, cabe a tarefa de orientar e acompanhar todos estes cadetes. É um primeiro ano particularmente duro, pois é feito em regime de internato, só havendo ordem de saída aos fins-de-semana, e isso para os que têm família próximo. Licenciado pelo Instituto, com uma pós-graduação em Ciências Criminais, este oficial foi até há um ano comandante da Esquadra de Investigação Criminal da 3ª Divisão da PSP de Lisboa, onde se manteve três anos. No Instituto ministra a cadeira de Táctica das Forças de Segurança aos alunos do 4º ano, além de dar aulas de investigação criminal no Centro de Instrução de Oeiras. Para ele, ser polícia foi uma opção tomada na adolescência, à semelhança dos alunos que agora tem à sua responsabilidade. Por isso, quer fazer deles melhores homens, para que sejam bons polícias. "Profissionais que saibam consolidar a vertente teórica articulando-a com a experiência prática, sabendo agir na hora certa, mas também percebendo que os homens que vão comandar precisam do seu apoio e da sua atenção, para que possam prestar um melhor serviço à comunidade", explica. Luis Silva, com 30 anos, é um dos futuros oficiais que para o ano irá deixar o Instituto. No último ano, prepara um trabalho sobre Cultura Organizacional, enquanto vai estagiando pelos diversos serviços da PSP. Tendo prestado serviço, enquanto agente, em Matosinhos e em São Mamede de Infesta, pretende voltar ao Comando Metropolitano do Porto. Diz que em Lisboa um polícia enfrenta um ambiente mais hostil por parte da população. Para ele, a licenciatura que está a terminar, sendo o segundo melhor aluno do seu curso, é a ideal. Um ensino orientado que responde às necessidades reais de um oficial da PSP. O resto, será a prática a ensinar. Fotografias: Pedro Cunha OUTROS TÍTULOS EM PÚBLICA

Vou para El Norte à procura da minha mãe*

Explicação de uma reportagem

Jorge Mendoza, chefe de gang

O movimento dos homens-estátuas

O homem que seduziu o tempo

O novo rosto da polícia

Em 700 candidatos foram admitidos 24

A subcomissária Monteiro

CRÓNICAS

Distracção massiva

O homem dos tectos falsos

A invenção da memória

HISTÓRIAS DE AMOR

Cirurgias

COCKTAIL

Gin and Tonic

RECEITA

Pudim de manga e pêssego

CARTAS DA MAYA

Cartas da Maya

DESAFIOS

Bodas de diamante

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