"Estive Muito Perto de Me Demitir"
Segunda-feira, 20 de Maio de 2002 As promessas de resolução dos problemas financeiros da RTP e o facto de achar que a demissão podia ser visto como fuga às responsabilidades terão mantido Arons de Carvalho em funções. O ex-secretário de Estado fala ainda da contratação de Emídio Rangel P - Percebe-se, em mais do que uma passagem do seu livro, que esteve muitas vezes isolado no seio do Governo. R - É errada essa tese. Eu tive sempre com os ministros Jorge Coelho, Sócrates, Oliveira Martins e Santos Silva uma ampla margem de manobra para desenvolver o trabalho que entendi em todas as áreas e também, embora menos, logicamente, porque era um "dossier" mais pesado, na questão da RTP. P- Discordou da redução da publicidade. R - Não foi uma ideia minha, mas dei a cara por ela. A medida aliás tinha justificação face às dificuldades dos privados, nomeadamente da TVI. E eu pensei que o facto de o primeiro-ministro e de o ministro da tutela de então estarem preocupados com a situação e se terem envolvido directamente nesse "dossier" seria bom. Pensei que as pessoas não se esqueceriam que aquilo aconteceu. Simplesmente, porventura na altura em que isso devia ter acontecido, outras prioridades houve na política financeira que levaram a que a indemnização compensatória da RTP não fosse nunca, praticamente, aquilo que estava estipulado. P - Com um dos ministros teve menos autonomia, não referiu um deles... R - No período em que o ministro foi Armando Vara, ele entendeu chamar a si a competência total da tutela das empresas públicas. P - Foi na fase da criação da Portugal Global, de que discordou. R - Sim, na fase da criação da Portugal Global, do anúncio de medidas de ordem financeira que depois não foram concretizadas. P - Se houve medidas de que discordou, por que é que não se demitiu? R - Houve uma ou duas circunstâncias em que pensei que isso se tornaria inevitável. E estive muito perto de o fazer. Mas entendi que não o deveria fazer, por várias razões. Primeiro, porque me foi garantido que a questão fundamental [saneamento financeiro da RTP] que eu colocava se resolveria em breve. Em segundo lugar, porque entendi, às tantas, que a saída poderia ser uma forma de demonstrar falta de coragem, de não arcar com as responsabilidades. Finalmente, porque a questão da RTP não era a única questão em cima da mesa. Eu tinha entre mãos projectos como a imprensa regional, o porte pago, os incentivos às rádios locais, a rádio digital, a televisão digital terrestre, a tutela da RDP e da Lusa. Além disso, tive sempre esperança que a questão do saneamento financeiro da RTP seria resolvida. Estou convencido que se o PS tivesse tido tempo de terminar o seu mandato de oito anos, a questão do financiamento da RTP teria sido resolvida de uma maneira ou doutra. P - O seu livro é um conjunto de cartas. Não falta uma a Emídio Rangel e outra ao antigo primeiro-ministro... R - Não creio. Tive da parte do primeiro-ministro sempre provas de grande amizade e solidariedade. Em relação a Emídio Rangel, eu falo o suficiente de Rangel no texto. P - Mas a contratação de Emídio Rangel foi difícil de digerir. Teve que fazer um grande golpe de rins. R - Não porque, por sorte minha, uns meses antes, numa entrevista, eu tinha dito que em Portugal havia duas pessoas que tinham provas dadas de dirigir uma estação de televisão com sucesso, e que eram o José Eduardo Moniz e o Emídio Rangel. E os critérios de escolha das pessoas para cargos na estrutura da RTP não têm que ter a ver com o facto de ter havido boa ou má relação pessoal em determinada circunstância. É claro que quando o presidente da RTP me voltou a referir as hipóteses do José Eduardo Moniz ou do Emídio Rangel, a questão motivou da minha parte grande reflexão. Não foi uma coisa fácil, sabíamos as consequências que isso tinha. Mas eu creio que no momento em que ela foi decidida, na circunstância em que estava a RTP, há mais de um ano sem director-geral, depois de uma série de convites a pessoas que, por várias razões, não aceitaram; na circunstância em que foi, eu creio que a RTP precisava de uma pessoa com a liderança, com a experiência e com as qualidades profissionais de Rangel. P - No caso da RDP, a intenção de privatizar a Antena 3 também chegou a ser ponderada. R - Não, não creio que tivesse sido ponderada... P - O ministro Santos Silva, logo que tomou posse, colocou a questão da Antena 3 R - Não, ele formulou uma dúvida. Colocou a questão do interesse da Antena 3. Se a Antena 3 for um canal igual aquilo que é a oferta comercial não faz sentido. E a Antena 3 não tem a mesma oferta, tem dado um ênfase especial à música portuguesa, toda a gente que a ouve garante que tem hoje diferenças em relação à oferta dos operadores comerciais. Portanto, a sua privatização é um erro a dois níveis. Primeiro, porque coloca no mercado comercial uma estação com uma rede muito boa num mercado comercial que não é elástico, e que vai dificultar a situação dos operadores já existentes. Segundo, porque neste momento a Antena 3 tem uma atitude de promoção da língua, da música portuguesa. Agora uma coisa completamente absurda da parte do PSD é estar a pensar na hipótese de mexer na Antena 2. OUTROS TÍTULOS EM MEDIA Entrevista com Arons de Carvalho
"Estive muito perto de me demitir"
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"Estive Muito Perto de Me Demitir"
Segunda-feira, 20 de Maio de 2002 As promessas de resolução dos problemas financeiros da RTP e o facto de achar que a demissão podia ser visto como fuga às responsabilidades terão mantido Arons de Carvalho em funções. O ex-secretário de Estado fala ainda da contratação de Emídio Rangel P - Percebe-se, em mais do que uma passagem do seu livro, que esteve muitas vezes isolado no seio do Governo. R - É errada essa tese. Eu tive sempre com os ministros Jorge Coelho, Sócrates, Oliveira Martins e Santos Silva uma ampla margem de manobra para desenvolver o trabalho que entendi em todas as áreas e também, embora menos, logicamente, porque era um "dossier" mais pesado, na questão da RTP. P- Discordou da redução da publicidade. R - Não foi uma ideia minha, mas dei a cara por ela. A medida aliás tinha justificação face às dificuldades dos privados, nomeadamente da TVI. E eu pensei que o facto de o primeiro-ministro e de o ministro da tutela de então estarem preocupados com a situação e se terem envolvido directamente nesse "dossier" seria bom. Pensei que as pessoas não se esqueceriam que aquilo aconteceu. Simplesmente, porventura na altura em que isso devia ter acontecido, outras prioridades houve na política financeira que levaram a que a indemnização compensatória da RTP não fosse nunca, praticamente, aquilo que estava estipulado. P - Com um dos ministros teve menos autonomia, não referiu um deles... R - No período em que o ministro foi Armando Vara, ele entendeu chamar a si a competência total da tutela das empresas públicas. P - Foi na fase da criação da Portugal Global, de que discordou. R - Sim, na fase da criação da Portugal Global, do anúncio de medidas de ordem financeira que depois não foram concretizadas. P - Se houve medidas de que discordou, por que é que não se demitiu? R - Houve uma ou duas circunstâncias em que pensei que isso se tornaria inevitável. E estive muito perto de o fazer. Mas entendi que não o deveria fazer, por várias razões. Primeiro, porque me foi garantido que a questão fundamental [saneamento financeiro da RTP] que eu colocava se resolveria em breve. Em segundo lugar, porque entendi, às tantas, que a saída poderia ser uma forma de demonstrar falta de coragem, de não arcar com as responsabilidades. Finalmente, porque a questão da RTP não era a única questão em cima da mesa. Eu tinha entre mãos projectos como a imprensa regional, o porte pago, os incentivos às rádios locais, a rádio digital, a televisão digital terrestre, a tutela da RDP e da Lusa. Além disso, tive sempre esperança que a questão do saneamento financeiro da RTP seria resolvida. Estou convencido que se o PS tivesse tido tempo de terminar o seu mandato de oito anos, a questão do financiamento da RTP teria sido resolvida de uma maneira ou doutra. P - O seu livro é um conjunto de cartas. Não falta uma a Emídio Rangel e outra ao antigo primeiro-ministro... R - Não creio. Tive da parte do primeiro-ministro sempre provas de grande amizade e solidariedade. Em relação a Emídio Rangel, eu falo o suficiente de Rangel no texto. P - Mas a contratação de Emídio Rangel foi difícil de digerir. Teve que fazer um grande golpe de rins. R - Não porque, por sorte minha, uns meses antes, numa entrevista, eu tinha dito que em Portugal havia duas pessoas que tinham provas dadas de dirigir uma estação de televisão com sucesso, e que eram o José Eduardo Moniz e o Emídio Rangel. E os critérios de escolha das pessoas para cargos na estrutura da RTP não têm que ter a ver com o facto de ter havido boa ou má relação pessoal em determinada circunstância. É claro que quando o presidente da RTP me voltou a referir as hipóteses do José Eduardo Moniz ou do Emídio Rangel, a questão motivou da minha parte grande reflexão. Não foi uma coisa fácil, sabíamos as consequências que isso tinha. Mas eu creio que no momento em que ela foi decidida, na circunstância em que estava a RTP, há mais de um ano sem director-geral, depois de uma série de convites a pessoas que, por várias razões, não aceitaram; na circunstância em que foi, eu creio que a RTP precisava de uma pessoa com a liderança, com a experiência e com as qualidades profissionais de Rangel. P - No caso da RDP, a intenção de privatizar a Antena 3 também chegou a ser ponderada. R - Não, não creio que tivesse sido ponderada... P - O ministro Santos Silva, logo que tomou posse, colocou a questão da Antena 3 R - Não, ele formulou uma dúvida. Colocou a questão do interesse da Antena 3. Se a Antena 3 for um canal igual aquilo que é a oferta comercial não faz sentido. E a Antena 3 não tem a mesma oferta, tem dado um ênfase especial à música portuguesa, toda a gente que a ouve garante que tem hoje diferenças em relação à oferta dos operadores comerciais. Portanto, a sua privatização é um erro a dois níveis. Primeiro, porque coloca no mercado comercial uma estação com uma rede muito boa num mercado comercial que não é elástico, e que vai dificultar a situação dos operadores já existentes. Segundo, porque neste momento a Antena 3 tem uma atitude de promoção da língua, da música portuguesa. Agora uma coisa completamente absurda da parte do PSD é estar a pensar na hipótese de mexer na Antena 2. OUTROS TÍTULOS EM MEDIA Entrevista com Arons de Carvalho
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