Conversa em volta de um livro

09-05-2004
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Conversa em Volta de Um Livro

Por MÁRCIA OLIVEIRA

Sábado, 31 de Janeiro de 2004

"Nem sei se vai haver lugar para todos", eram as palavras que se iam ouvindo no "hall" da renovada Casa de Serralves, onde ia decorrer o primeiro encontro da "Comunidade de Leitores" promovida pela fundação portuense e com orientação de Maria João Seixas.

Dos trinta participantes previstos, cedo as inscrições ultrapassaram a meia centena. Perfil: a paixão pelos livros. Um número recorde que assustou a organizadora da iniciativa mas que, ao mesmo tempo, a estimulou. Habituada a estas comunidades que se reúnem em torno de um livro, a animadora falou da "pulsação que se sente" nos encontros. "Fiquei comovida pela presença, pelo entusiasmo e pela atenção dos participantes".

Mais que a luz fosca e amarela que iluminava a sala, sobressaíam volumes distintos, encadernações antigas, gastas pelo uso, ou novas, muito novas, como as leituras que por eles terão passado. Em volta, um braço segurava "Antígona" com orgulho e, dentro da obra, uma marcação fazia adivinhar as frases preferidas que viriam a ser lidas durante a sessão.

Sem tema definido, esta comunidade está aberta às diversas leituras de um livro, seja ele uma tragédia grega, as "Cartas de Uma Religiosa Portuguesa", a "Hora da Estrela", de Clarice Lispector ou o "Reino da Dinamarca", de Alexandre O'Neill.

Maria João Seixas surgiu com um amigo de discussão literária, João Pedro Serra. A condizer com a sua intensa narrativa, a "Antígona" de Sófocles nunca gerou consenso entre os que estavam ali para partilhar uma leitura em voz alta, uma opinião, uma paixão, um ódio ou outro qualquer sentimento activado pela literatura.

De "Antígona" ficou a eterna actualidade das obras intemporais: a força dos clássicos que atravessam o tempo. Conflito, mais do que a tragédia em si, podia perfeitamente ser a palavra mais usada nesta conversa plural. A acusação de que a protagonista do livro seria considerada uma "personagem menor", muitas vezes sufocada por leituras feministas, teve uma resposta vinda do interior do texto de Sófocles: "Não nasci para odiar mas sim para amar", disse Antígona, em Serralves, dois mil anos depois, enquanto Creonte, Rei de Tebas, afirmava: " Enquanto viver não será uma mulher quem dá ordens." "Misógino", foi a palavra que Maria Aurora, leitora da comunidade, encontrou para definir a personagem.

Mas a obra de Sófocles, mais do que sobre uma mulher na Antiga Grécia, que pode também ser uma mulher dos dias de hoje, é sobre o conflito entre homens e a mulheres, entre o interesse do cidadão individual e o do Estado e também sobre a mortalidade presente no gesto humano no momento da decisão. Por esta altura, as duas horas reservadas à sessão de leitura já iam longas. Agora, vêm as "Cartas de Uma Religiosa Portuguesa", que vão ser lidas na íntegra e em voz alta.

Conversa em Volta de Um Livro

Por MÁRCIA OLIVEIRA

Sábado, 31 de Janeiro de 2004

"Nem sei se vai haver lugar para todos", eram as palavras que se iam ouvindo no "hall" da renovada Casa de Serralves, onde ia decorrer o primeiro encontro da "Comunidade de Leitores" promovida pela fundação portuense e com orientação de Maria João Seixas.

Dos trinta participantes previstos, cedo as inscrições ultrapassaram a meia centena. Perfil: a paixão pelos livros. Um número recorde que assustou a organizadora da iniciativa mas que, ao mesmo tempo, a estimulou. Habituada a estas comunidades que se reúnem em torno de um livro, a animadora falou da "pulsação que se sente" nos encontros. "Fiquei comovida pela presença, pelo entusiasmo e pela atenção dos participantes".

Mais que a luz fosca e amarela que iluminava a sala, sobressaíam volumes distintos, encadernações antigas, gastas pelo uso, ou novas, muito novas, como as leituras que por eles terão passado. Em volta, um braço segurava "Antígona" com orgulho e, dentro da obra, uma marcação fazia adivinhar as frases preferidas que viriam a ser lidas durante a sessão.

Sem tema definido, esta comunidade está aberta às diversas leituras de um livro, seja ele uma tragédia grega, as "Cartas de Uma Religiosa Portuguesa", a "Hora da Estrela", de Clarice Lispector ou o "Reino da Dinamarca", de Alexandre O'Neill.

Maria João Seixas surgiu com um amigo de discussão literária, João Pedro Serra. A condizer com a sua intensa narrativa, a "Antígona" de Sófocles nunca gerou consenso entre os que estavam ali para partilhar uma leitura em voz alta, uma opinião, uma paixão, um ódio ou outro qualquer sentimento activado pela literatura.

De "Antígona" ficou a eterna actualidade das obras intemporais: a força dos clássicos que atravessam o tempo. Conflito, mais do que a tragédia em si, podia perfeitamente ser a palavra mais usada nesta conversa plural. A acusação de que a protagonista do livro seria considerada uma "personagem menor", muitas vezes sufocada por leituras feministas, teve uma resposta vinda do interior do texto de Sófocles: "Não nasci para odiar mas sim para amar", disse Antígona, em Serralves, dois mil anos depois, enquanto Creonte, Rei de Tebas, afirmava: " Enquanto viver não será uma mulher quem dá ordens." "Misógino", foi a palavra que Maria Aurora, leitora da comunidade, encontrou para definir a personagem.

Mas a obra de Sófocles, mais do que sobre uma mulher na Antiga Grécia, que pode também ser uma mulher dos dias de hoje, é sobre o conflito entre homens e a mulheres, entre o interesse do cidadão individual e o do Estado e também sobre a mortalidade presente no gesto humano no momento da decisão. Por esta altura, as duas horas reservadas à sessão de leitura já iam longas. Agora, vêm as "Cartas de Uma Religiosa Portuguesa", que vão ser lidas na íntegra e em voz alta.

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