Os Mesmos Sonhos
Sábado, 09 de Novembro de 2002
%Jorge Silva Melo
Sonhei, confesso, com a princesa Margarida a ser chicoteada. É que, palerma, sonho sempre com o que acabo de ler. E como leio os diários de Kenneth Tynan, onde, em tantos jantares, surge a princesa e onde, página sim página não, há chicotadas no rabo de uma tal Nicole, olhem, misturei tudo e acordei temendo que outros transpirassem no mesmo iconoclasta sobressalto. (Karl Valentin: "Tive um sonho horrível", diz alguém. "Conte lá, a ver se não tive o mesmo.")
É que, no outro dia, descobri que o último livro que lera a escritora-light fora "The Dying Animal", de Philip Roth, que eu nessa noite concluíra, e sonhara com belas cubanas com botão a menos na blusa de seda); e sei que o Luís Miguel vai fazer "A Vida É Sonho" que tanto, com ele, tentei (e sonhei com "hipogrifos violentos" a correrem "parelhas com o vento"); e sei que o José Manuel Durão Barroso tem o Rui Serra que eu quis - e na sede do PSD há-de haver um, pois reconheci na TV os flúor-traços desse artista de quem aqui tenho pequeno quadrinho; e, sábado, aí já mesmo furioso, li, no "Mil Folhas", que o Pacheco Pereira já acabou "The Biographer's Tale" de A. S. Byatt, quando eu só vou na página 87. (Mas arranjei desculpa: ele anda mais de avião, terá tido o tempo que não tive.) Pois é, "burgueses somos nós todos/gatos e cães".
Não deixa de ser estranha tanta leitura comum, tanto sonho talvez igual: é que nada disto é moda-moda, nem Rui Serra é Graça Morais. Estivéssemos todos a ler as ficções porteiro-da-noite do Vasco Graça Moura (eu não!) e ainda se compreendia a coincidência entre tanta gente que não se vê, se fala ou sequer se conhece. E então eu, anquilosado no meu sessentaeoitismo católico, a pensar-me o único a saber de que fala o João Bénard quando vem com a Raïssa Maritain, envelhecido esquerdista, "fora do mercado", "à esquerda do possível", verifico que nesta "real-kultur", ele há quem o não diga, mas andamos todos ao mesmo, a ler as mesmas coisas, quando "nem os sonhos são privados", como friamente escreveu Heiner Müller.
Claro que, mais coisa menos coisa, todos nós, até o Diogo Pires Aurélio (qual dos livros que leio lerá ele hoje, qual dos meus sonhos - eu que já representei o Espinosa que ele traduziu - estará ele a ter esta madrugada?), fomos formados naquilo que o "Diário da Manhã" chamava a Konsommolskaya das terças-feiras, o "Juvenil" do "Diário de Lisboa", dentro da pedagogia neo-sergiana do Mário Castrim. Claro que apostaram em nós, quiseram-nos elite. E o Mário então. Católico que fora e comunista que seria! E é claro que somos a elite, para isso fomos formados, em conversas intermináveis, Saldanha abaixo, nesta aldeola que imaginávamos cidade, neste país que presumíamos possível, sentados no patamar aqui de casa até às tantas discutindo a "Electronicolirica" do Herberto, "O Diário de Édipo", Thomas Mann e Abelaira, Lucien Goldmann, Hitchcock e Eduardo Prado Coelho (já então!), Yevtuchenko, Fiama ou Guillevic que sabíamos de cor. Sempre com o "La Bohème" do Aznavour em 45rpm.
E, mais velhos agora, sem conversa nem devaneio a pé, sem saber dos outros, sem querermos saber sequer, lamentando vidas que não tivemos (eu sim, tu não?), sem tempo para ter a que prometêramos, uns contentes outros menos, mais constipados uns, mais surdos ou reumáticos, esquecidos os telefones que tocavam a qualquer hora, cá andamos sozinhos a ler em inglês entre aviões, átrios, renegações, assembleias, ensaios ou aulas: somos a elite.
Já o sabíamos quando nos carteávamos e insistíamos em heterodoxias esquecidas ou, como se vê, nem tanto. Mas somos os que vamos ser exterminados, até nos sonhos (que bem podem ter sido os mesmos esta noite).
Ou não vejo, transcrita de debate na Assembleia, a frase medonha do deputado Gonçalo Capitão (ai a imunidade parlamentar!) que afirma ser o actual Governo quem poderá "fazer guerra ao elitismo e dar paz ao povo português"?
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Os Mesmos Sonhos
Sábado, 09 de Novembro de 2002
%Jorge Silva Melo
Sonhei, confesso, com a princesa Margarida a ser chicoteada. É que, palerma, sonho sempre com o que acabo de ler. E como leio os diários de Kenneth Tynan, onde, em tantos jantares, surge a princesa e onde, página sim página não, há chicotadas no rabo de uma tal Nicole, olhem, misturei tudo e acordei temendo que outros transpirassem no mesmo iconoclasta sobressalto. (Karl Valentin: "Tive um sonho horrível", diz alguém. "Conte lá, a ver se não tive o mesmo.")
É que, no outro dia, descobri que o último livro que lera a escritora-light fora "The Dying Animal", de Philip Roth, que eu nessa noite concluíra, e sonhara com belas cubanas com botão a menos na blusa de seda); e sei que o Luís Miguel vai fazer "A Vida É Sonho" que tanto, com ele, tentei (e sonhei com "hipogrifos violentos" a correrem "parelhas com o vento"); e sei que o José Manuel Durão Barroso tem o Rui Serra que eu quis - e na sede do PSD há-de haver um, pois reconheci na TV os flúor-traços desse artista de quem aqui tenho pequeno quadrinho; e, sábado, aí já mesmo furioso, li, no "Mil Folhas", que o Pacheco Pereira já acabou "The Biographer's Tale" de A. S. Byatt, quando eu só vou na página 87. (Mas arranjei desculpa: ele anda mais de avião, terá tido o tempo que não tive.) Pois é, "burgueses somos nós todos/gatos e cães".
Não deixa de ser estranha tanta leitura comum, tanto sonho talvez igual: é que nada disto é moda-moda, nem Rui Serra é Graça Morais. Estivéssemos todos a ler as ficções porteiro-da-noite do Vasco Graça Moura (eu não!) e ainda se compreendia a coincidência entre tanta gente que não se vê, se fala ou sequer se conhece. E então eu, anquilosado no meu sessentaeoitismo católico, a pensar-me o único a saber de que fala o João Bénard quando vem com a Raïssa Maritain, envelhecido esquerdista, "fora do mercado", "à esquerda do possível", verifico que nesta "real-kultur", ele há quem o não diga, mas andamos todos ao mesmo, a ler as mesmas coisas, quando "nem os sonhos são privados", como friamente escreveu Heiner Müller.
Claro que, mais coisa menos coisa, todos nós, até o Diogo Pires Aurélio (qual dos livros que leio lerá ele hoje, qual dos meus sonhos - eu que já representei o Espinosa que ele traduziu - estará ele a ter esta madrugada?), fomos formados naquilo que o "Diário da Manhã" chamava a Konsommolskaya das terças-feiras, o "Juvenil" do "Diário de Lisboa", dentro da pedagogia neo-sergiana do Mário Castrim. Claro que apostaram em nós, quiseram-nos elite. E o Mário então. Católico que fora e comunista que seria! E é claro que somos a elite, para isso fomos formados, em conversas intermináveis, Saldanha abaixo, nesta aldeola que imaginávamos cidade, neste país que presumíamos possível, sentados no patamar aqui de casa até às tantas discutindo a "Electronicolirica" do Herberto, "O Diário de Édipo", Thomas Mann e Abelaira, Lucien Goldmann, Hitchcock e Eduardo Prado Coelho (já então!), Yevtuchenko, Fiama ou Guillevic que sabíamos de cor. Sempre com o "La Bohème" do Aznavour em 45rpm.
E, mais velhos agora, sem conversa nem devaneio a pé, sem saber dos outros, sem querermos saber sequer, lamentando vidas que não tivemos (eu sim, tu não?), sem tempo para ter a que prometêramos, uns contentes outros menos, mais constipados uns, mais surdos ou reumáticos, esquecidos os telefones que tocavam a qualquer hora, cá andamos sozinhos a ler em inglês entre aviões, átrios, renegações, assembleias, ensaios ou aulas: somos a elite.
Já o sabíamos quando nos carteávamos e insistíamos em heterodoxias esquecidas ou, como se vê, nem tanto. Mas somos os que vamos ser exterminados, até nos sonhos (que bem podem ter sido os mesmos esta noite).
Ou não vejo, transcrita de debate na Assembleia, a frase medonha do deputado Gonçalo Capitão (ai a imunidade parlamentar!) que afirma ser o actual Governo quem poderá "fazer guerra ao elitismo e dar paz ao povo português"?