O Badalo da Moda
Segunda-feira, 03 de Novembro de 2003
%Ioli Campos
Nunca reparou numas fitinhas coloridas que os jovens costumam usar ao pescoço com as chaves do carro e de casa? É uma moda que já tem alguns anos, mas que tem vindo a ganhar cada vez mais adeptos.
Os surfistas foram os primeiros a usar este acessório. Guardar as chaves com eles era uma "necessidade". Quando iam para a praia "apanhar ondas", não havia ninguém que ficasse a tomar conta dos seus pertences. Então arranjaram a forma quase ideal para não serem roubados: guardar tudo o que tinham com eles. Passaram a deixar as roupas nos carros e a guardar a chave do carro ao pescoço com uma fita que põem por baixo dos fatos enquanto estão a surfar. Depois teriam começado a usar a fita todos os dias propagando esta moda a várias camadas sociais.
Os seres humanos têm necessidade de se identificar com um grupo, faz parte da socialização. "Os símbolos, como as bandeiras ou estas fitas, ajudam a materializar essa intenção", explica Nelson Lima, neuro-psicólogo. "Os objectos da moda facilitam a integração num certo grupo".
Este novo porta-chaves está hoje amplamente difundido entre os jovens. Luís Penin, estudante e surfista de 26 anos, acha que actualmente as fitinhas são usadas por jovens de quase todos os grupos. Mas ainda continuam a ser uma moda sobretudo dos "betos e surfistas". "Estamos numa sociedade multifacetada e multicolorida", descreve Nelson Lima. Há variados tribalismos urbanos, diversos grupos de jovens que se juntam em função de certas crenças, convicções e valores. Os acessórios dizem aos outros quem eles são e ajudam à própria auto-identificação.
Luís é um exemplo do grupo que inicialmente adoptou esta moda. Usou a primeira fita quando começou a surfar, há 8 anos. Hoje já não usa regularmente as fitas, só quando vai para dentro de água. Os surfistas ainda continuam a usá-las mas Nelson Lima explica que quando as fronteiras de uma moda se alargam, "o grupo inicial é o primeiro a abdicar desse objecto". Eles consideram que houve uma adulteração do objectivo inicial e tendem a substituir esse objecto por outro que cumpra as mesmas funções.
Sobre este fenómeno de propagação dos acessórios, Nelson Lima defende que os jovens são as vítimas mais fáceis da pressão da moda por causa das características do seu próprio desenvolvimento. Estão mais abertos à inovação, à descoberta, não têm um espírito muito crítico em relação ao consumo. "Os jovens ainda estão dispostos a experimentar outros estilos de vida e a destrui-los " enquanto os adultos e os idosos são mais conservadores porque já têm o seu estilo de vida bem definido".
As fronteiras das fitas alargaram-se de tal forma que hoje já não são só os jovens de diferentes grupos a usar as fitas, os mais pequenos também põem as chaves ao pescoço para não as perder, aliviando algumas das preocupações dos pais. As crianças aspiram a ser mais crescidas e, por isso, é natural que haja uma tendência para copiar as modas dos jovens.
Quem desempenhou um papel também crucial na propagação desta moda foram as empresas de publicidade e marketing que rapidamente se aperceberam do potencial das fitinhas e aproveitaram a ideia para as suas campanhas. Mas estas só tiveram sucesso porque os jovens não declinaram a ideia. "Se os jovens rejeitassem, não havia máquina de marketing que conseguisse impor um produto" refere Nelson Lima.
Na perspectiva publicitária é um veículo de comunicação inovador. As pessoas usam as fitas e trocam-nas como quem muda de peça de roupa. Há uma renovação constante. A nível de custos é bastante compensatório porque está à vista de todos durante todo o dia, esclarece Philippe Dewerbe, director de contas de uma empresa de marketing e publicidade, "Mais Mercado".
Um exemplo dos tentáculos da publicidade é o David Rodrigues que colecciona todas as fitinhas que lhe oferecem. Este estudante de 22 anos nunca comprou nenhuma, todas as que tem, são precisamente fruto do marketing. Quando a primeira fita lhe veio parar às mãos, apercebeu-se da sua utilidade e para além de começar a usá-las no seu dia-a-dia, passou também a guardá-las.
"Para pessoas despassaradas é o melhor" confessa Cláudia Dias, uma estudante de 22 anos. Ela apenas põe a fita ao pescoço quando está a carregar as coisas do carro para casa. Diz que não a costuma usar durante o dia. Acha que é mais prático e útil do que outro porta-chaves qualquer.
Será que a adopção de um certo acessório de moda é feita conscientemente? "Há jovens mais 'seguidistas', que copiam tudo, e há outros que têm o carácter de líder mais vincado fazendo as coisas de uma forma mais consciente", diz Nelson Lima.
Quase todos os jovens deram a mesma explicação de Cláudia Dias: é mais prático. Raros foram os que assumiram usar as fitas por ser uma moda. Será por inibição que não assumem fazer parte da moda? Ou será que é de facto mais funcional?
O Badalo da Moda
Segunda-feira, 03 de Novembro de 2003
%Ioli Campos
Nunca reparou numas fitinhas coloridas que os jovens costumam usar ao pescoço com as chaves do carro e de casa? É uma moda que já tem alguns anos, mas que tem vindo a ganhar cada vez mais adeptos.
Os surfistas foram os primeiros a usar este acessório. Guardar as chaves com eles era uma "necessidade". Quando iam para a praia "apanhar ondas", não havia ninguém que ficasse a tomar conta dos seus pertences. Então arranjaram a forma quase ideal para não serem roubados: guardar tudo o que tinham com eles. Passaram a deixar as roupas nos carros e a guardar a chave do carro ao pescoço com uma fita que põem por baixo dos fatos enquanto estão a surfar. Depois teriam começado a usar a fita todos os dias propagando esta moda a várias camadas sociais.
Os seres humanos têm necessidade de se identificar com um grupo, faz parte da socialização. "Os símbolos, como as bandeiras ou estas fitas, ajudam a materializar essa intenção", explica Nelson Lima, neuro-psicólogo. "Os objectos da moda facilitam a integração num certo grupo".
Este novo porta-chaves está hoje amplamente difundido entre os jovens. Luís Penin, estudante e surfista de 26 anos, acha que actualmente as fitinhas são usadas por jovens de quase todos os grupos. Mas ainda continuam a ser uma moda sobretudo dos "betos e surfistas". "Estamos numa sociedade multifacetada e multicolorida", descreve Nelson Lima. Há variados tribalismos urbanos, diversos grupos de jovens que se juntam em função de certas crenças, convicções e valores. Os acessórios dizem aos outros quem eles são e ajudam à própria auto-identificação.
Luís é um exemplo do grupo que inicialmente adoptou esta moda. Usou a primeira fita quando começou a surfar, há 8 anos. Hoje já não usa regularmente as fitas, só quando vai para dentro de água. Os surfistas ainda continuam a usá-las mas Nelson Lima explica que quando as fronteiras de uma moda se alargam, "o grupo inicial é o primeiro a abdicar desse objecto". Eles consideram que houve uma adulteração do objectivo inicial e tendem a substituir esse objecto por outro que cumpra as mesmas funções.
Sobre este fenómeno de propagação dos acessórios, Nelson Lima defende que os jovens são as vítimas mais fáceis da pressão da moda por causa das características do seu próprio desenvolvimento. Estão mais abertos à inovação, à descoberta, não têm um espírito muito crítico em relação ao consumo. "Os jovens ainda estão dispostos a experimentar outros estilos de vida e a destrui-los " enquanto os adultos e os idosos são mais conservadores porque já têm o seu estilo de vida bem definido".
As fronteiras das fitas alargaram-se de tal forma que hoje já não são só os jovens de diferentes grupos a usar as fitas, os mais pequenos também põem as chaves ao pescoço para não as perder, aliviando algumas das preocupações dos pais. As crianças aspiram a ser mais crescidas e, por isso, é natural que haja uma tendência para copiar as modas dos jovens.
Quem desempenhou um papel também crucial na propagação desta moda foram as empresas de publicidade e marketing que rapidamente se aperceberam do potencial das fitinhas e aproveitaram a ideia para as suas campanhas. Mas estas só tiveram sucesso porque os jovens não declinaram a ideia. "Se os jovens rejeitassem, não havia máquina de marketing que conseguisse impor um produto" refere Nelson Lima.
Na perspectiva publicitária é um veículo de comunicação inovador. As pessoas usam as fitas e trocam-nas como quem muda de peça de roupa. Há uma renovação constante. A nível de custos é bastante compensatório porque está à vista de todos durante todo o dia, esclarece Philippe Dewerbe, director de contas de uma empresa de marketing e publicidade, "Mais Mercado".
Um exemplo dos tentáculos da publicidade é o David Rodrigues que colecciona todas as fitinhas que lhe oferecem. Este estudante de 22 anos nunca comprou nenhuma, todas as que tem, são precisamente fruto do marketing. Quando a primeira fita lhe veio parar às mãos, apercebeu-se da sua utilidade e para além de começar a usá-las no seu dia-a-dia, passou também a guardá-las.
"Para pessoas despassaradas é o melhor" confessa Cláudia Dias, uma estudante de 22 anos. Ela apenas põe a fita ao pescoço quando está a carregar as coisas do carro para casa. Diz que não a costuma usar durante o dia. Acha que é mais prático e útil do que outro porta-chaves qualquer.
Será que a adopção de um certo acessório de moda é feita conscientemente? "Há jovens mais 'seguidistas', que copiam tudo, e há outros que têm o carácter de líder mais vincado fazendo as coisas de uma forma mais consciente", diz Nelson Lima.
Quase todos os jovens deram a mesma explicação de Cláudia Dias: é mais prático. Raros foram os que assumiram usar as fitas por ser uma moda. Será por inibição que não assumem fazer parte da moda? Ou será que é de facto mais funcional?