Toda a Minha Verdade
Segunda-feira, 03 de Novembro de 2003
%Rui Cardoso Martins
Resta-nos, portugueses, olhar para os outros. Se o que o senhor Abdul contou no tribunal for verdadeiro (pelo menos mais verdadeiro do que a sua carta de condução), teremos sorte com esta história.
- Eu quero expressar aquilo que eu tenho dentro de mim, avisou o senhor Abdul.
Dentro do senhor Abdul está um caso de falsificação merecedor da tradição do senhor Alves Reis, o nosso artista principal. Começa no nome. Abdul é, afinal, Adul por baptismo e registo. No entanto, ao usar o verdadeiro nome, que o pai lhe deu na Guiné, estará a mentir às autoridades portuguesas. Mas primeiro a carta:
Em Dezembro de 1999, em Lisboa, um polícia mandou-o parar e pediu-lhe a licença de condução. Achou-a áspera, estranha, achou-a principalmente da Guiné-Bissau. A Judiciária fez um exame científico e concluiu que a carta era falsa. Abdul ficou espantado: jurou, continua a jurar, que tirou a carta em 1991 na Guiné, aproveitando três meses em que lá foi com a morte do pai. Usou-a oito anos nas estradas portuguesas, oito anos em que engordou no pára-arranca e engrossou os óculos. Mostrou-a dezenas de vezes a polícias, quando ia na carrinha montar ferro. Adquiriu por isso uma curiosa filosofia de semáforo. É a metafísica semafórica do senhor Abdul.
- É como dizer que há uma luz verde e uma luz vermelha. A luz está verde, muitas pessoas vêem o verde. E depois alguém diz que afinal era vermelha e não verde, nem nunca fora.
Era mesmo vermelha, falsa. E o senhor Abdul foi acusado de a ter comprado algures e cometer um crime de falsificação de documento.
- Se sempre viveu cá, porque não a tirou cá?, perguntou-lhe a juíza.
Porque o senhor Abdul tinha a certeza de que a sua era verdadeira, já que sempre a aceitaram normalmente. No entanto, até tentou a equivalência, disse ele, mas alguém na Direcção-Geral de Viação aconselhou-o foi tirar a carta numa escola portuguesa, porque havia suspeitas com as outras. O senhor Abdul andava confuso.
Quando desembarcou em Portugal, na primeira vez, o serviço de estrangeiros de Albufeira registou-lhe mal o nome (Adul para Abdul). Fez-lhe como os americanos, que despachavam um António para Tony à sombra da Estátua da Liberdade e, quando tentou corrigir, disseram-lhe que teria que ir a Lisboa e mais valia não complicar. Mais tarde, roubaram-lhe o passaporte nas obras.
Ficou assim a carteira de Abdul: um BI com nome falso e uma carta falsa com nome verdadeiro. E agora estava diante de uma juíza que não acreditava em nada do que dizia. Abdul revelou-se a par de alguns problemas morais e da actualidade do país que o acolheu.
- Tenho a minha consciência limpa. Não há nenhum favorecimento, nunca a comprei, nunca entrei por esse caminho!
E também:
- Eu falo toda a minha verdade. Eu não minto, a senhora é que não me conhece.
- A verdade só Deus a sabe, mas a sua versão não é muito credível. Por que é que nunca tirou a carta portuguesa?
- Mas está aqui!, disse ele, e mostrou-a, uma dessas plastificadas, moderna, recente e portuguesíssima.
Até sabia tirar a carta, e andou oito anos com uma falsa.
- A Guiné é um país, não é?
- Desculpe, senhora juíza... é um Estado abandonado, anda tudo a trabalhar só para comer, o chefe não marca falta ao seu empregado, gemeu. Tem lá quatro filhos menores.
O seu advogado mostrou um certificado guineense, com selo branco, onde dizia que Abdul tirou a carta em 91. Mas até o certificado, acabado de chegar de Bissau, vinha cheio de asneiras e datas impossíveis. O advogado ainda disse:
-Há fundadas suspeitas, em relatórios da PJ e da DGV portuguesas, que estão aí no processo, de que a direcção de viação guineense fabrique cartas falsas. Há quem possa tirar por vias legítimas uma carta e essa carta ser falsa!
Abdul vai pagar 1190 euros de multa.
- Eu sei distinguir o Bem do Mal.
Olhe, eu já não e termino.
Toda a Minha Verdade
Segunda-feira, 03 de Novembro de 2003
%Rui Cardoso Martins
Resta-nos, portugueses, olhar para os outros. Se o que o senhor Abdul contou no tribunal for verdadeiro (pelo menos mais verdadeiro do que a sua carta de condução), teremos sorte com esta história.
- Eu quero expressar aquilo que eu tenho dentro de mim, avisou o senhor Abdul.
Dentro do senhor Abdul está um caso de falsificação merecedor da tradição do senhor Alves Reis, o nosso artista principal. Começa no nome. Abdul é, afinal, Adul por baptismo e registo. No entanto, ao usar o verdadeiro nome, que o pai lhe deu na Guiné, estará a mentir às autoridades portuguesas. Mas primeiro a carta:
Em Dezembro de 1999, em Lisboa, um polícia mandou-o parar e pediu-lhe a licença de condução. Achou-a áspera, estranha, achou-a principalmente da Guiné-Bissau. A Judiciária fez um exame científico e concluiu que a carta era falsa. Abdul ficou espantado: jurou, continua a jurar, que tirou a carta em 1991 na Guiné, aproveitando três meses em que lá foi com a morte do pai. Usou-a oito anos nas estradas portuguesas, oito anos em que engordou no pára-arranca e engrossou os óculos. Mostrou-a dezenas de vezes a polícias, quando ia na carrinha montar ferro. Adquiriu por isso uma curiosa filosofia de semáforo. É a metafísica semafórica do senhor Abdul.
- É como dizer que há uma luz verde e uma luz vermelha. A luz está verde, muitas pessoas vêem o verde. E depois alguém diz que afinal era vermelha e não verde, nem nunca fora.
Era mesmo vermelha, falsa. E o senhor Abdul foi acusado de a ter comprado algures e cometer um crime de falsificação de documento.
- Se sempre viveu cá, porque não a tirou cá?, perguntou-lhe a juíza.
Porque o senhor Abdul tinha a certeza de que a sua era verdadeira, já que sempre a aceitaram normalmente. No entanto, até tentou a equivalência, disse ele, mas alguém na Direcção-Geral de Viação aconselhou-o foi tirar a carta numa escola portuguesa, porque havia suspeitas com as outras. O senhor Abdul andava confuso.
Quando desembarcou em Portugal, na primeira vez, o serviço de estrangeiros de Albufeira registou-lhe mal o nome (Adul para Abdul). Fez-lhe como os americanos, que despachavam um António para Tony à sombra da Estátua da Liberdade e, quando tentou corrigir, disseram-lhe que teria que ir a Lisboa e mais valia não complicar. Mais tarde, roubaram-lhe o passaporte nas obras.
Ficou assim a carteira de Abdul: um BI com nome falso e uma carta falsa com nome verdadeiro. E agora estava diante de uma juíza que não acreditava em nada do que dizia. Abdul revelou-se a par de alguns problemas morais e da actualidade do país que o acolheu.
- Tenho a minha consciência limpa. Não há nenhum favorecimento, nunca a comprei, nunca entrei por esse caminho!
E também:
- Eu falo toda a minha verdade. Eu não minto, a senhora é que não me conhece.
- A verdade só Deus a sabe, mas a sua versão não é muito credível. Por que é que nunca tirou a carta portuguesa?
- Mas está aqui!, disse ele, e mostrou-a, uma dessas plastificadas, moderna, recente e portuguesíssima.
Até sabia tirar a carta, e andou oito anos com uma falsa.
- A Guiné é um país, não é?
- Desculpe, senhora juíza... é um Estado abandonado, anda tudo a trabalhar só para comer, o chefe não marca falta ao seu empregado, gemeu. Tem lá quatro filhos menores.
O seu advogado mostrou um certificado guineense, com selo branco, onde dizia que Abdul tirou a carta em 91. Mas até o certificado, acabado de chegar de Bissau, vinha cheio de asneiras e datas impossíveis. O advogado ainda disse:
-Há fundadas suspeitas, em relatórios da PJ e da DGV portuguesas, que estão aí no processo, de que a direcção de viação guineense fabrique cartas falsas. Há quem possa tirar por vias legítimas uma carta e essa carta ser falsa!
Abdul vai pagar 1190 euros de multa.
- Eu sei distinguir o Bem do Mal.
Olhe, eu já não e termino.