Suplemento Pública

22-06-2003
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Livro

Segunda-feira, 16 de Junho de 2003 Hillary Clinton As atribulações de uma política nata %Texto Linton Weeks e Tammy Kennon "Não nasci Primeira Dama ou senadora" é a primeira frase do livro de memórias de Hillary Rodham Clinton, "Living History". O resto da história é sobre como acabou por se tornar as duas coisas. No livro, lançado na segunda-feira passada, Hillary escreve sobre a educação de classe media dos subúrbios que teve em Chicago. A mãe, Dorothy, era uma santa; o pai, Hugh, um mestre-de-obras dado a grandes rigores financeiros. Por exemplo, se Hillary ou um dos irmãos deixassem destapado o tubo da pasta de dentes, o pai atirava a tampa pela janela e obrigava as crianças a irem à procura dela, "mesmo que estivesse a nevar". Era a maneira de "ele nos recordar que não devíamos desperdiçar nada". Escreve ela: "Ainda hoje volto a pôr no frasco as azeitonas que não foram comidas, guardo até os mais pequenos pedaços de queijo e sinto-me culpada quando deito fora qualquer coisa". O pressuposto é que nos interessamos por qualquer faceta de Hillary Clinton: pela sua infância, educação, vida amorosa, vida política, família, futuro, momentos felizes, desapontamentos. A julgar pelo espalhafato que precedeu a publicação e pelo interesse manifestado à partida pelos leitores - nas livrarias online Amazon e na Barnes & Noble estava em segundo lugar nas listas de vendas antes do lançamento -, o pressuposto pode muito bem estar correcto. Enquanto escreve a sua vida ao género de e-então-isto-aconteceu-assim, Hillary Clinton raramente deixa passar um deslize ou uma falha sem se referir a isso. Fala do marido com adoração, de maneira protectora e, às vezes, irritada. Perguntam-lhe muitas vezes, escreve, por que é que ficaram juntos apesar de todas as histórias das transgressões dele, especialmente a que envolveu a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky. Em resposta, ela apresenta algumas das experiências e interesses que partilharam e partilharam. Há a revelação de que o casal concordou em submeter-se a um conselheiro matrimonial. E ela diz que enfrentou os problemas conjugais da mesma maneira que o operador de uma empilhadora enfrentaria os seus - levantar-se de manhã e fazer face ao dia. "Acredito que aquilo que o meu marido fez foi moralmente errado. Ele estava a mentir-me e a enganar o povo americano. Mas eu também sabia que a sua fraqueza não constituía uma traição ao povo americano". O relatório do procurador especial Kenneth Starr, afirma, foi "uma compilação de testemunhos em bruto obtidos de testemunhas que nunca foram contra-interrogadas, e foi divulgado ao público sem preocupações de justeza ou equilíbrio". Starr, defende, ignorou a constituição e abusou do seu poder para fins espúrios - derrubar o Presidente. E, no fim do caso Monica? E hoje, como é? "Tudo o que sei é que ninguém me compreende melhor e ninguém me consegue fazer rir como Bill faz. Mesmo ao fim destes anos todos, ele ainda é a pessoa mais interessante, revigoradora e completamente viva que jamais encontrei." Hillary Clinton atribui os seus princípios políticos ao "duelo de valores dos meus pais". A mãe era, em segredo, uma democrata que admitiu à filha ter votado em John F. Kennedy no dia de Novembro de 1963 em que ele foi assassinado. E ela afirma ter papagueado as posições políticas do pai, um republicano conservador, ao mesmo tempo que desenvolvia a sua própria filosofia liberal. A senadora também combate os estereótipos sexuais. Recorda a primeira vez que se sentiu "desvalorizada" pelo facto de ser mulher. Nos anos 60, quando o Presidente Kennedy prometeu colocar um homem na lua, Hillary Clinton enviou por impulso uma carta para a NASA a propor-se como voluntária para astronauta. "Recebi de volta uma carta a informar-me de que não estavam a aceitar raparigas no programa", escreve. "Foi a primeira vez que encontrei um obstáculo que não podia ser ultrapassado com trabalho e determinação e fiquei indignada." A primeira entrevista como Primeira Dama foi ao "New York Times"; foi sobre o primeiro banquete na Casa Branca. Na fotografia que acompanhava o artigo, Hillary Clinton usava um vestido preto Donna Karan que lhe deixava os ombros à mostra. Alguns críticos acusaram-na de tentar suavizar a sua imagem. Até os amigos não gostaram da entrevista, por entenderem que não a mostrava a uma luz suficientemente séria. "Estava a ficar claro para mim", escreve, "que as pessoas que queriam enfiar-me num certo estereótipo, tradicionalista ou feminista, nunca se sentiriam inteiramente satisfeitas comigo como eu era - quero dizer, com os meus muitos papéis diferentes e às vezes paradoxais". Outra faceta: Hillary Clinton, a advogada. A condição de advogada passa frequentemente pelas páginas, salpicando o relato cronológico dos anos na Casa Branca com refutações, ponto por ponto, de todas as acusações lançadas ao casal Clinton e à Administração. "(O procurador) Starr recomendou que a Comissão Judiciária da Câmara de Representantes apreciasse onze motivos possíveis para a impugnação. Fiquei convencida de que ele tinha excedido a sua autoridade legal." E, a partir daí, dá aos leitores uma pequena lição em lei constitucional. Faz referência à investigação ao "escândalo Whitewater" e depois exprime-se em "clintonês" típico: "Estávamos a ser arrastados por aquilo que o analista legal Jeffrey Toobin mais tarde descreveu como a politização do sistema criminal e a criminalização do sistema político". Há momentos de quase vulnerabilidade, como quando fica presa no terrível trânsito de Washington, sai do carro e corre para Blair House "em ziguezague por entre os automóveis, de saltos altos e um vestido cinzento de algodão, com o meu agente dos serviços secretos atrás de mim". E há o episódio em que vomitou numa limusina em Moscovo a caminho de um encontro com a mulher do Presidente Boris Ieltsin, Naina. Tal como é capaz de separar o homem que é seu marido do homem que era o Presidente, Hillary faz o mesmo consigo, saltando, parágrafo por parágrafo, da mãe para a mulher, da advogada para a Primeira Dama, e finalmente para a política. Descreve a sua vida como uma observadora distante. Os poucos momentos de maior intensidade são para os seus primeiros anos com Bill, para o namoro e o romantismo dos tempos universitários em Berkeley, na Califórnia, e para as viagens por Inglaterra. Discorre com admiração sobre as mãos dele: "são, como o seu dono, maduras mas ainda assim expressivas, atraentes e resistentes". Conta que, em criança, Chelsea ensinou ao pai uma lição sobre os perigos de fazer várias coisas ao mesmo tempo. "Bill estava a ver basquetebol e a pegar na filha. Quando ele não lhe deu atenção, ela mordeu-o no nariz". O interesse do livro está naquilo de que fala mas também naquilo de que não fala. Por exemplo, a Procuradora Geral Janet Reno é mencionada uma mão cheia de vezes, mas apenas de passagem. E Al Gore, o ex-vice-Presidente, não tem um papel de destaque. A par destes momentos de quase desinteresse, há outros mais confessionais e vivos. "Fosse o que fosse que ele tivesse feito - escreve ela sobre o marido -, não creio que pessoa alguma merecesse o tratamento de abuso que ele teve. A privacidade dele, a minha privacidade, a privacidade de Monica Lewinsky e a privacidade das nossas famílias foram invadidas de uma maneira cruel e gratuita". O livro termina quando os Clinton estão a deixar a Casa Branca. Ela dança com o mordomo. "O meu marido aparece e leva-me nos braços; dançamos uma valsa pelo longo corredor. Depois digo adeus à casa onde passei oito anos a viver história". OUTROS TÍTULOS EM PÚBLICA

Ideias Fortes Capoulas Santos Comissão Europeia não conseguirá fazer a reforma que a agricultura portuguesa necessita

O sociólogo a que chamam engenheiro

Livro

Objectivo 2008?

A mulher arco-íris na crise dos quarenta

CRÓNICAS

Fronteiras Perdidas

Levante-se o réu

COCKTAIL

Cocktails de Verão

RECEITA

Receitas de Verão

CARTAS DA MAYA

Cartas da Maya

DESAFIOS

Desafios

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Segunda-feira, 16 de Junho de 2003 Hillary Clinton As atribulações de uma política nata %Texto Linton Weeks e Tammy Kennon "Não nasci Primeira Dama ou senadora" é a primeira frase do livro de memórias de Hillary Rodham Clinton, "Living History". O resto da história é sobre como acabou por se tornar as duas coisas. No livro, lançado na segunda-feira passada, Hillary escreve sobre a educação de classe media dos subúrbios que teve em Chicago. A mãe, Dorothy, era uma santa; o pai, Hugh, um mestre-de-obras dado a grandes rigores financeiros. Por exemplo, se Hillary ou um dos irmãos deixassem destapado o tubo da pasta de dentes, o pai atirava a tampa pela janela e obrigava as crianças a irem à procura dela, "mesmo que estivesse a nevar". Era a maneira de "ele nos recordar que não devíamos desperdiçar nada". Escreve ela: "Ainda hoje volto a pôr no frasco as azeitonas que não foram comidas, guardo até os mais pequenos pedaços de queijo e sinto-me culpada quando deito fora qualquer coisa". O pressuposto é que nos interessamos por qualquer faceta de Hillary Clinton: pela sua infância, educação, vida amorosa, vida política, família, futuro, momentos felizes, desapontamentos. A julgar pelo espalhafato que precedeu a publicação e pelo interesse manifestado à partida pelos leitores - nas livrarias online Amazon e na Barnes & Noble estava em segundo lugar nas listas de vendas antes do lançamento -, o pressuposto pode muito bem estar correcto. Enquanto escreve a sua vida ao género de e-então-isto-aconteceu-assim, Hillary Clinton raramente deixa passar um deslize ou uma falha sem se referir a isso. Fala do marido com adoração, de maneira protectora e, às vezes, irritada. Perguntam-lhe muitas vezes, escreve, por que é que ficaram juntos apesar de todas as histórias das transgressões dele, especialmente a que envolveu a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky. Em resposta, ela apresenta algumas das experiências e interesses que partilharam e partilharam. Há a revelação de que o casal concordou em submeter-se a um conselheiro matrimonial. E ela diz que enfrentou os problemas conjugais da mesma maneira que o operador de uma empilhadora enfrentaria os seus - levantar-se de manhã e fazer face ao dia. "Acredito que aquilo que o meu marido fez foi moralmente errado. Ele estava a mentir-me e a enganar o povo americano. Mas eu também sabia que a sua fraqueza não constituía uma traição ao povo americano". O relatório do procurador especial Kenneth Starr, afirma, foi "uma compilação de testemunhos em bruto obtidos de testemunhas que nunca foram contra-interrogadas, e foi divulgado ao público sem preocupações de justeza ou equilíbrio". Starr, defende, ignorou a constituição e abusou do seu poder para fins espúrios - derrubar o Presidente. E, no fim do caso Monica? E hoje, como é? "Tudo o que sei é que ninguém me compreende melhor e ninguém me consegue fazer rir como Bill faz. Mesmo ao fim destes anos todos, ele ainda é a pessoa mais interessante, revigoradora e completamente viva que jamais encontrei." Hillary Clinton atribui os seus princípios políticos ao "duelo de valores dos meus pais". A mãe era, em segredo, uma democrata que admitiu à filha ter votado em John F. Kennedy no dia de Novembro de 1963 em que ele foi assassinado. E ela afirma ter papagueado as posições políticas do pai, um republicano conservador, ao mesmo tempo que desenvolvia a sua própria filosofia liberal. A senadora também combate os estereótipos sexuais. Recorda a primeira vez que se sentiu "desvalorizada" pelo facto de ser mulher. Nos anos 60, quando o Presidente Kennedy prometeu colocar um homem na lua, Hillary Clinton enviou por impulso uma carta para a NASA a propor-se como voluntária para astronauta. "Recebi de volta uma carta a informar-me de que não estavam a aceitar raparigas no programa", escreve. "Foi a primeira vez que encontrei um obstáculo que não podia ser ultrapassado com trabalho e determinação e fiquei indignada." A primeira entrevista como Primeira Dama foi ao "New York Times"; foi sobre o primeiro banquete na Casa Branca. Na fotografia que acompanhava o artigo, Hillary Clinton usava um vestido preto Donna Karan que lhe deixava os ombros à mostra. Alguns críticos acusaram-na de tentar suavizar a sua imagem. Até os amigos não gostaram da entrevista, por entenderem que não a mostrava a uma luz suficientemente séria. "Estava a ficar claro para mim", escreve, "que as pessoas que queriam enfiar-me num certo estereótipo, tradicionalista ou feminista, nunca se sentiriam inteiramente satisfeitas comigo como eu era - quero dizer, com os meus muitos papéis diferentes e às vezes paradoxais". Outra faceta: Hillary Clinton, a advogada. A condição de advogada passa frequentemente pelas páginas, salpicando o relato cronológico dos anos na Casa Branca com refutações, ponto por ponto, de todas as acusações lançadas ao casal Clinton e à Administração. "(O procurador) Starr recomendou que a Comissão Judiciária da Câmara de Representantes apreciasse onze motivos possíveis para a impugnação. Fiquei convencida de que ele tinha excedido a sua autoridade legal." E, a partir daí, dá aos leitores uma pequena lição em lei constitucional. Faz referência à investigação ao "escândalo Whitewater" e depois exprime-se em "clintonês" típico: "Estávamos a ser arrastados por aquilo que o analista legal Jeffrey Toobin mais tarde descreveu como a politização do sistema criminal e a criminalização do sistema político". Há momentos de quase vulnerabilidade, como quando fica presa no terrível trânsito de Washington, sai do carro e corre para Blair House "em ziguezague por entre os automóveis, de saltos altos e um vestido cinzento de algodão, com o meu agente dos serviços secretos atrás de mim". E há o episódio em que vomitou numa limusina em Moscovo a caminho de um encontro com a mulher do Presidente Boris Ieltsin, Naina. Tal como é capaz de separar o homem que é seu marido do homem que era o Presidente, Hillary faz o mesmo consigo, saltando, parágrafo por parágrafo, da mãe para a mulher, da advogada para a Primeira Dama, e finalmente para a política. Descreve a sua vida como uma observadora distante. Os poucos momentos de maior intensidade são para os seus primeiros anos com Bill, para o namoro e o romantismo dos tempos universitários em Berkeley, na Califórnia, e para as viagens por Inglaterra. Discorre com admiração sobre as mãos dele: "são, como o seu dono, maduras mas ainda assim expressivas, atraentes e resistentes". Conta que, em criança, Chelsea ensinou ao pai uma lição sobre os perigos de fazer várias coisas ao mesmo tempo. "Bill estava a ver basquetebol e a pegar na filha. Quando ele não lhe deu atenção, ela mordeu-o no nariz". O interesse do livro está naquilo de que fala mas também naquilo de que não fala. Por exemplo, a Procuradora Geral Janet Reno é mencionada uma mão cheia de vezes, mas apenas de passagem. E Al Gore, o ex-vice-Presidente, não tem um papel de destaque. A par destes momentos de quase desinteresse, há outros mais confessionais e vivos. "Fosse o que fosse que ele tivesse feito - escreve ela sobre o marido -, não creio que pessoa alguma merecesse o tratamento de abuso que ele teve. A privacidade dele, a minha privacidade, a privacidade de Monica Lewinsky e a privacidade das nossas famílias foram invadidas de uma maneira cruel e gratuita". O livro termina quando os Clinton estão a deixar a Casa Branca. Ela dança com o mordomo. "O meu marido aparece e leva-me nos braços; dançamos uma valsa pelo longo corredor. Depois digo adeus à casa onde passei oito anos a viver história". OUTROS TÍTULOS EM PÚBLICA

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Fronteiras Perdidas

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