Suplemento Mil Folhas

06-02-2004
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Os Melhores de 2003

Por %JOÃO PAULO MATEUS

Sábado, 03 de Janeiro de 2004 Abel Barros Baptista Suponho que este ano não li três livros deste ano. Assim, vou pelo excesso e menciono, não livros, mas grupos de livros. No primeiro, três livros sobre a universidade editados em final do ano pela Angelus Novus de Coimbra: «Missão da Universidade», de Ortega y Gasset, «A Universidade em ruínas», de Bill Readings, e sobretudo «A Universidade sem Condição», de Jacques Derrida. O debate público sobre a universidade é urgente, mas tem entre nós poucos meios. Estes valem por isso, e mais do que isso. O segundo grupo é o dos clássicos, em acepção larga, ambos na Cotovia e ambos com dispensa de qualquer justificação: a tradução da «Odisseia» por Frederico Lourenço e «Memorial de Aires», de Machado de Assis. O terceiro grupo, enfim, é o brasileiro, e do melhor que se pode ler da literatura brasileira contemporânea: a«Obra Poética» de Ferreira Gullar (Quasi) e «Mongólia», de Bernardo de Carvalho (Cotovia). Aproveito e peço licença para mencionar um livro a que estou ligado, por ter organizado a edição (mas não me estorva o pudor, já que, para a respectiva importância, como se compreende, o meu mérito é positivamente nenhum): refiro-me a «Respiração Assistida» (Assírio & Alvim), de Fernando Assis Pacheco, que rouba ao esquecimento um grande poeta e é sem dúvida um dos grandes livros de poesia do ano. Cláudia Clemente 1 - "Les particules élémentaires" do Michel Houellebecq ("As Partículas Elementares", Temas e Debates) Este livro marcou-me pelo seu tom de provocação e pela sua enorme dureza (chega por vezes a ser quase insuportável). É uma excelente crítica a duas gerações, a que viveu em França o Maio de 68, e a dos seus filhos. Um autêntico "murro no estômago". 2 - "Talking is over" do Julian Barnes (foi traduzido como "Amor & etc", Asa, vá-se lá saber porquê). O segredo deste livro, em que intervêm, na prática, apenas três personagens, está na forma original como é narrado, que consegue tranformar a história clássica de um triângulo amoroso numa autêntica obra-prima. 3 - Escolhi "Seda", de Alessandro Baricco (Difel) e "Narciso e Goldmundo" de Hermann Hesse pela sua beleza, mas não resisti a referir "Margarita e o Mestre" de Michail Bulgakov (Colecção Mil Folhas, PÚBLICO) porque é um livro vertiginoso, hilariante, e simultaneamente uma brilhante crítica social. Margarida Rebelo Pinto "A Vida de Pi", Yann Martel (Difel) Foi o único livro pelo qual me apaixonei desde a primeira linha. Porque tem tudo o que, quanto a mim, pode fazer um bom livro: um "plot" surpreendente, aventura, humor, personagens construídos com rigor e textura e reflexões sobre a condição humana feitas de forma irónica e certeira. Naveguei com o Pi pela aventura das religiões e depois acompanhei-o na sua luta pela sobrevivência e no seu domínio crescente sobre Richard Parker. "A Vida de Pi" é a visão fascinante e hiper-realista de um mundo absurdo e de uma aventura impossível e Yann Martel revelou um enorme talento ao contar a história do rapaz franzino que se transforma num herói indómito. Se é ou não plágio, se Martel leu apenas a sinopse ou foi mais longe, não é para aqui relevante, porque o trabalho final é notável. "A Euforia Perpétua", de Pascal Bruckner (Editorial Notícias) Embora tenha sido publicado em 2002, só em 2003 é que o li. Aos bocados, saltando aleatoriamente de capítulo, sublinhando muito, de uma forma quase obsessiva. Há livros que são como estaladas na cara, que nos fazem pensar muito mais do que outros. Para uma ficcionista como eu, com tendência a pintar o mundo à minha volta com as cores que mais me agradam, "A Euforia Perpétua" é como um combate de boxe permanente com muito mais assaltos do que aqueles que julgamos aguentar. É um livro que literalmente desfaz a utopia anestesiante em que a sociedade ocidental mergulhou na busca infantil da felicidade permanente. Dostoievski, um sonhador que nunca perdeu a noção da realidade, terminou as "Noites Brancas" proclamando: "Ah, um minuto de felicidade! Não basta isso para encher a vida de um homem?" Bruckner propõe a mesma verdade, a celebração dos estados de graça temporários encarados desde o início como finitos em vez do dever da felicidade permanente. Para ler, reler, sublinhar, comentar, discutir, arrumar a cabeça e reordenar a realidade. Indispensável. "The Dying Animal", de Philip Roth (Vintage) Se há escritores exactos, cirúrgicos, que conseguem convencer o leitor da sua mestria a cada frase, Philip Roth é um deles. E também é a prova viva que a idade faz aos escritores o mesmo que o tempo faz ao vinho; aperfeiçoa os bons e condena os maus. Um professor quase moribundo que se envolve com as alunas como cliché, não pode ser mais cliché nem mais americano. Mas o retrato à lupa dos sentimentos que o envolvem e da solidão a que se sente - e está - condenado pela idade são feitos ao mesmo tempo com uma sensibilidade tocante e uma crueza chocante. E o cliché transforma-se numa experiência única. Mas Roth tem outra qualidade; ele fala de sexo envolvendo esta realidade incontornável da existência humana com doçura, quase me arriscaria a dizer com amor. Ou, pelo menos, encarando-a com humildade, respeitando o que há de divino e inexplicável nela. Numa sociedade em que só os tolos é que se atrevem a unir estas duas ideias - porque quanto mais se fala de amor e de sexo, menos se praticam um e outro -, "The Dying Animal" é envolvente e intrigante, porque nos mostra onde pode estar a luz através das mais tristes sombras. Mário Cláudio O ano velho foi marcado por seis romances, cinco recentes ou recentíssimos, um em homenagem àqueles que um dia nos esquecemos de ler. António Lobo Antunes confirmou-se-me com "Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo" como o maior escritor português vivo, mestre indiscutível dos que andamos a escrever, e até desses que necessitam de o contestar para se sentirem razoavelmente originais. Mafalda Ivo Cruz ofereceu-me em "Vermelho" a lição de como a escrita mais inovadora renasce da preservação de uma continuidade, de como se torna corrosiva e dilacerante a palavra que jorra do talento, e não da preocupação de provar a existência dele. "Equador", de Miguel Sousa Tavares, demonstrou-me em definitivo em que termos se logra realizar a dificílima coincidência da criação de grande qualidade com a divulgação do prazer da leitura, restituindo-me essa espécie de festa, saboreada pelos da minha geração que aos catorze anos se afoitavam aos "Maias" ou à "Brasileira de Prazins". O italiano Giuseppe Bonaviri entusiasmou-me com "Il Dormeveglia", esplêndido voo sem rede, executado entre a volúpia da análise literária e o fascínio da análise científica, operado nessa dimensão hipnagógica onde o relativo que somos se conjuga com o absoluto para que tendemos. O espanhol Enrique Vila-Matas falou-me em "El Mal de Montano" de uma embriaguez do literário, comparável à loucura de Deus em que respiram os padres do deserto, capaz de conduzir à perpetração de todos os malefícios, mas susceptível de aceder às redenções supremas. Fui buscar a "Adam Bede", de George Eliot, o reachamento da magnitude do romance oitocentista, expressa aqui por uma pena que dilucida mistérios como um feiticeiro egípcio, e que nos brinda com o pungente encontro dos amantes na floresta de enredos do Norte profundo. Três ensaios de matéria afim, se existem afinidades nos infinitos rostos do Rosto, assinalaram-me o ano que findou. Colm Tóibín em "The Sign of the Cross: Travels in Catholic Europe" empreendeu um ajuste de contas empolgante com a crença comum, esclarecedora de um punhado de dúvidas eternas e conducente a um ramalhete de precárias certezas. Geza Vermes em "Enquête sur l'Identité de Jésus: Nouvelles Interprétations" sugeriu-me múltiplos ângulos de percepção, diversas sendas de estudo, outros motivos de fé. "Le Soufisme Coeur de l'Islam", do Cheikh Khaled Bentounès, exaltou-me com a descoberta de uma via lustral, reconciliante para além de todos os confrontos a que a história sujeita os homens, onde se engastam lucilações cristãs, hindus e zoroastrianas, falando-me do imperscrutável diálogo entre mestre e discípulo. 2003 fica ungido no seu final pela manifestação definitiva da "Poesia", de Daniel Faria, prefaciada por Vera Vouga, uma das pedras angulares, nada menos do que isso, da lírica portuguesa do segundo milénio. Soubesse eu destes percursos, quando conheci o poeta dois anos antes da sua morte, andaria ele pelos seus vinte e seis e o autor destas linhas pelos cinquenta e seis, teria guardado no mais reverente dos silêncios a consciência da indignidade de sequer lhe desatar a correia das sandálias. José Agostinho Baptista 1- "Alguns Motetos", de José Bento (selecção e prólogo de José Tolentino Mendonça) A emoção de ler um poeta de corpo inteiro,luminoso, profundo, herdeiro do saber e da grande poesia que os tempos do fútil e do imediato parecem querer destruir. 2- "Trece Poetas Del Mundo Azteca", organizado por Miguel Leon-Portilla Porque no princípio era o verbo e porque esta é a poesia dos universos mágicos, da relação cósmica que une o homem às coisas da terra, dos deuses e das estrelas, fazendo de cada verso um apogeu dos sentidos e de cada sentido uma poética de intensos sinais. 3- "María Del Alma" (un melodrama novelado de la vida de Agustín Lara) de Pilar Tafur e Daniel Samper Pizano Divertido, sensível, didáctico, sobre a vida e a obra míticas do grande autor mexicano de Noche de Ronda, Piensa en Mí, Solamente una Vez, Granada, etc. Aventuras e desventuras, paixões, amores, cicatrizes, pianos da noite. O prazer de viajar pela música e pelas realidades e ficções de quem a fez tão genialmente. Leveza, un poco de sol en nuestras vidas. Para isso também servem os livros. Vasco Graça Moura "Odisseia", tradução de Frederico Lourenço: finalmente uma magnífica versão de um dos textos fundadores da civilização ocidental, numa prosódia que reinventa em português as condições da frescura rude e original do texto. Para quando a "Ilíada"? "Equador", de Miguel Sousa Tavares: suficientemente poderoso para resistir a alguns defeitos de escrita e construção, é um grande romance que nos dá uma espécie de alegoria da Ilha dos Amores do avesso: onde, na primeira, os portugueses alcançavam o prémio glorioso dos seus feitos de alcance universal, nesta têm a tragédia irrisória e degradante de um fim do tempo português no mundo e em Portugal. "Estudos portugueses", de Esther de Lemos: um notabilíssimo e sugestivo conjunto de textos sobre grandes vultos da cultura portuguesa, sem perder de vista a compreensão das condições de vida em que foram produzidos. Gostaria ainda de mencionar mais dois livros lidos este ano: o excelente "Portugal e a herança clássica e outros textos", de Maria Helena da Rocha Pereira, que, como o anterior, "Temas clássicos na poesia portuguesa" (1988), passa a ser referência obrigatória no estudo de alguns dos nossos autores; e também uma obra de 1943 que não consigo encontrar nos alfarrabistas e só pude ler por empréstimo: "Processo e história de uma atoarda. O retrato de Damião de Góis por Alberto Dürer", de Mário de Sampayo Ribeiro, uma investigação erudita, tão modelar quanto esquecida, sobre um tópico de história da arte e da cultura. Richard Zimler 1) "Paulo Rego's Map of Memory" por Maria Manuel Lisboa. Um livro fascinante em que a autora, uma professora em Cambridge, investiga as ligações entre a política e a literatura portuguesas e a obra de Paula Rego. Uma obra séria, cativante, e muito bem escrita (nada hermética). 2) "O Leopardo" (penso que é o título português), por Lampedusa. Um romance histórico sobre as mudanças na sociedade siciliana (e italiana) provocadas pela unificação de Itália. Cheio de humor subtil e perspicácia. 3) "Death in Slow Motion" por Eleanor Cooney. A autora fala da morte lenta da sua mãe provocada pela doença de Alzheimer. Um grande livro sobre sofrimento pessoal em que Cooney ultiza humor negro para afastar os demónios e manter a sua saúde mental. António Mega Ferreira "Os Papéis de K." e "Os Livros", de Manuel António Pina - Primeira incursão do excelente poeta que é Manuel António Pina no domínio da ficção, "Os Papéis de K." é uma narrativa curta, elegante e poética, que tem a densidade de um poema e a expansividade contida de uma novela. Um caligrama. "Os Livros" é uma magnífica recolha de poemas, ou poemas sobre e de poemas, que ecoam vozes, distinguem afinidades, apuram desencantos. Precioso. "O Livro das Ilusões", de Paul Auster - O melhor romance de Auster desde "Leviathan", publicado em 1992. Uma extraordinária digressão pelos territórios austerianos da dissolução e do desaparecimento, um "tour de force" narrativo (as descrições dos filmes são absolutamente prodigiosas), uma fome de contar, até ao ínfimo pormenor, evitando constantemente os alçapões da facilidade que a imaginação doentiamente transbordante do autor vai estendendo à própria narração. Quase no final de 2003, Auster reincidiu, com "Oracle Night", um livro de histórias que ficam incompletas, para que se possa completar a descida aos infernos do narrador. Um patamar abaixo do "Livro das Ilusões". "Rayuela", de Julio Cortázar - Publicado em 1963, este romance luminosamente moderno (então e agora), mostra, à distância de vinte anos, o que distingue um grande escritor de todos os escritores menores (alguns muito respeitáveis) que andaram (alguns ainda andam) a experimentar com a escrita, como se o futuro do mundo dependesse de mais palavrão ou menos pontuação. Porque Mallarmé dizia que tudo o que existe há-de ir parar a um livro, Cortázar faz-lhe a vontade: cabe lá tudo, desde uma brevíssima história do jazz até falsamente eruditas reflexões sobre filosofias orientais. Uma obra-prima, salvo erro nunca publicada em Portugal. Também da Argentina, li em 2003 outro grande romance, este convencional e encantatório, "Bomarzo", de Manuel Mujica Lainez, que há mais de vinte anos dormitava nas minhas estantes. Nunca foi publicado entre nós. João Lobo Antunes O monumental livro de Jacques Barzun "From Dawn to Decadence" agora editado pela Gradiva ("Da Alvorada à Decadência ") acompanhou-me durante o ano. "Lessons of the Masters" de George Steiner foi uma leitura preciosa e remeteu-me para uma obra-prima de Philip Roth que me escapara "The Human Stain". O terceiro foi uma antologia de poesia, "A book of luminous things" reunida por Czeslaw Milosz, uma colectânea admirável de poemas luminosos. Manuel António Pina Na minha memória, 2003 parece algo já muito distante e, talvez por isso, são livros lidos recentemente os que, posta a questão deste inquérito, me ocorrem: "Respiração assistida", de Fernando Assis Pacheco (organização de Abel Barros Baptista, Assírio & Alvim); "Ditos e feitos dos padres do deserto", organização de Cristina Campo e Piero Draghi (tradução de Armando da Silva Carvalho, Assírio & Alvim); e "O gueto", de Tâmara Kamenszain, pequeno volume distribuído com "Inimigo rumor" nº 14 (tradução de Carlito Azevedo e Paloma Vidal). A de Fernando Assis Pacheco é uma das mais fortes e "irregulares" poesias portuguesas nossas contemporâneas, tanto no seu andamento conversado, no seu tom dir-se-ia que familiar, quase privado (acho que é Eliot quem fala dessa parte do prazer da leitura de poesia que consiste na impressão de lermos algo que não nos é destinado; e Bloom quem vislumbra na poesia a fala de alguém consigo mesmo, escutando ao mesmo tempo furtivamente essa fala), como naquilo que Manuel Gusmão, no posfácio do livro, observa ser o "ethos" de uma poesia que busca manter-se à margem do "vozear do mercado ... da 'comunicação' ou da instituição literária", intenção que, em Assis Pacheco é um "gesto de poética" e não, como em casos que conhecemos, mera afectação. Se a recolha de Cristina Campo e Piero Draghi de algumas das palavras que, como "bólides dirigidos a um céu insondável", romperam o silêncio e a solidão dos padres do deserto dos primeiros séculos e chegaram até nós apenas questionasse as formas mundanas e mais ou menos hipócritas ou desviantes do cristianismo, pouco me interessaria. Mas essas palavras têm a força e a radicalidade poética dos grandes momentos fundadores capazes de inquietar a relação de cada um de nós consigo mesmo. Por fim, o livro da argentina Tâmara Kamenszain, que foi para mim a descoberta de um grande poeta (num ano em que descobri ainda a italiana Cristina Campo e a brasileira Maria Ângela Alvim). A poesia das três tem consanguinidades onde confluem os meus próprios desassossegos, mas esse é assunto de que não vem ao caso falar aqui. Inês Pedrosa Não gosto de pódios nem de numerações - sobretudo em questões de arte. Para escolhermos apenas três livros, num ano inteiro, era preciso termos lido muito pouco ou muito mal. Assinalemos dois magistrais serviços públicos de tradução: "Em Busca do Tempo Perdido", por Pedro Tamen e "Odisseia", por Frederico Lourenço. E dois romances de génio: "Os Espaços em Branco", de Agustina Bessa-Luís e "Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina", de Mário de Carvalho. Sobre estes livros fui escrevendo noutros espaços, pelo que aproveito esta oportunidade para destacar três outras obras de grande fôlego. "O Estado dos Campos" de Nuno Júdice, um poeta que alia um muito original fulgor lírico ao desarmante rigor da inteligência do mundo. Dialogando intensamente com outras escritas e outras artes, os seus poemas escangalham os lugares-comuns do amor, da sabedoria e, em particular, da poesia, conduzindo-nos aos campos luminosos em que "saímos da moldura, para dentro da vida". Se me é permitido acrescentar uma alínea a esta escolha, não percam também " A Ideia de Amor e Outros Contos", do mesmo autor, em particular os contos morais ( e muito acutilantes) da secção "Contos para Crianças Grandes". No romance, aconselho vivamente " O Suicida Feliz" de Paulo Nogueira, arguta e muito divertida reflexão sobre o sonho da fama e a solidão dela, numa história muito bem arquitectada, com personagens inesquecíveis, não só pela consistência das suas fragilidades mas sobretudo por essa tão humana (e esquecida) capacidade de ultrapassar a cobardia quotidiana em minimais e imprevisíveis actos de coragem. Finalmente, destaco a investigação pioneira e exaustiva de Helena Matos sobre a forma como Salazar construiu a sua imagem e o seu poder, através da imprensa. Mais do que o retrato de uma época, estes dois volumes, num total de mais de 800 páginas (saiu já "Salazar - A Construção do Mito" , o 2º volume, "Salazar - A Propaganda" será publicado em Janeiro), constituem um verdadeiro tratado sobre a relação entre media e Poder - uma relação perigosa que não diz respeito apenas à mecânica das ditaduras. Pedro Rosa Mendes 1.(Por exemplo, um melhor livro:) "Random Family - Love, Drugs, Trouble, and Coming of Age in the Bronx", Adriane Nicole LeBlanc (Scribner, 2003). LeBlanc acompanhou duas adolescentes do Bronx, Jessica e Coco, durante dez anos. O resultado é esta soberba reportagem - factual e objectiva -, narrada com a melhor escrita ficcional - apaixonada, poderosa, visceral. 2. "From the Land of Green Ghosts", Pascal Khoo Thwe (HarperCollins, 2002). Em 1988, John Casey, um catedrático de Cambridge, ouviu falar de um jovem estudante em Mandalay, Birmânia, entusiasta da obra de James Joyce e empregado de um restaurante chinês. O encontro mudou a vida de ambos. Pascal é originário da pequena tribo dos Kayan Padaung, um grupo que mistura influências animistas e budistas com o catolicismo deixado por missionários italianos. Esse é o mundo dos "fantasmas verdes", um país de sonho e magia, memória e narrativa, contado por Pascal, após a sua fuga para a Inglaterra. Político e poético, "o melhor livro de memórias para ler este ano", como disse um dos muitos críticos que se rendeu à beleza absoluta deste livro. 3. "Yesterday, Tomorrow. Voices from the Somali Diaspora", de Nuruddin Farah (Cassell, 2000). O que acontece quando o mais fino - e implacável - romancista africano decide - porque a vida lhe impôs - investigar os percursos do exílio do seu povo (quando ele deixou de existir)? Com Farah, teria de acontecer algo como este livro, uma viagem intensa, crua, lírica, sábia pela condição dos exilados, da Somália, de África - e pelo espelho da Europa. Clara Pinto Correia Gostei especialmente do "Feitos e ditos dos padres do deserto", porque me remete para o mundo com que eu empatizo mais profundamente - e é bom saber, no meio desta confusão, que ainda há quem se dedique à recolha de fragmentos de um tempo e um espírito que estamos a perder depressa demais. Dei a mim própria grande satisfação de ler finalmente, do princípio ao fim, o "Underworld" do Don De Lillo que é um verdadeiro prodígio literário e uma maratona de escrita sólida e consistente que só os grandes corredores de fundo conseguem vencer. E pronto, assim caído de pára-quedas no meio da confusão pré-natalícia, foi um alívio e uma alegria ler a "Fantasia para dois coronéis e uma piscina" do Mário de Carvalho. Escreve cada vez melhor, o raio do homem. É tão bom, ler coisas boas. Mário de Carvalho Parece-me importante assinalar ( e se me pedem três livros, eu, obediente, apenas indico três...) os grandes acontecimentos que foram a tradução da "Odisseia" por Frederico Lourenço, a tradução das tragédias de Sófocles por Maria Helena da Rocha Pereira, José Ribeiro Ferreira, e Maria do Céu Fialho, e a nova tradução da "Eneida" por um conjunto de professores da Faculdade de Letras de Lisboa. Por óbvia negligência do Estado Português que há muito nos deve e nunca mais corrige, estamos privados de traduções fidedignas de centenas de clássicos. Não se encontram, não há, ninguém quer saber. Já experimentaram procurar uma boa edição bilingue de "As Metamorfoses "de Ovídio? E no entanto é com a tradição clássica que as literaturas que se prezam devem confrontar-se. Transfigurando recriando ou rejeitando. Mas sempre com uma perspectiva que vai até ao princípio dos tempos. Se querem lixo literário, façam favor, refocilem. Mas tenham algum respeito por aqueles de nós que preferem não refocilar. Gonçalo M. Tavares "O salteador", de Robert Walser (Relógio d'Água). Uma desconstrução permanente do texto e uma personagem estranha, indefinida: boazinha e má. "Gostamos todos mais da comodidade. Ninguém gosta que o outro o considere como que sagrado, porque isso o obriga a ser um modelo. Ser um modelo, ser um paradigma é uma grande maçada, como bem se percebe." "Os sete sábios", Roberto Arlt (Cavalo de Ferro). De um escritor argentino pouco conhecido, mas muito bom. Um romance que faz lembrar Cossery. Alguém que rouba dinheiro numa empresa e depois decide entrar numa espécie de conspiração mundial com objectivos pouco definidos. Cada página diz coisas fortes, nenhuma página é desperdiçável. "Outro tempo", W. H. Auden (Relógio d'Água) - "Law, say the gardeners, is the sun". Também gostei muito (no meio de bastante poesia boa, portuguesa e estrangeira) dos livros de poesia de Rui Pires Cabral - "Praças e quintais" (Averno) e José Miguel Silva "Vista para um pátio" seguido de "Desordem" (Relógio d'Água). Frederico Lourenço Neste ano de 2003, comemorativo de Petrarca, os parabéns vão antes de mais para Vasco Graça Moura. Quanto ao campo que, enquanto romancista, mais me diz respeito, parece-me evidente que três dos maiores cultores actuais do romance em Portugal publicaram livros excepcionais: Mário Cláudio "Oríon" Dom Quixote Mário Cláudio é o nosso romancista dos cinco sentidos. Uma escrita sempre caleidoscópica, saborosa, sonora, táctil, aromática. "Oríon" amassa e faz levedar de novo temas da "Peregrinação de Barnabé das Índias", trazendo-nos uma pasta verbal ricamente temperada, que concilia (como só Mário Cláudio sabe) o castiço e o amaneirado. Para quando uma revisitação, adaptada ao séc. XXI, da "Quinta das Virtudes"? Mário de Carvalho "Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina" Caminho Puro prazer. Tanto pela tão apregoada ironia (aqui mais orgânica, parece-me, que nalguns livros anteriores do autor), como pela qualidade absolutamente superlativa da escrita. Ainda se escreve português assim: parabéns, Portugal. António Lobo Antunes "Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo" Dom Quixote Como falar deste livro que se lê com um misto de fascínio e incómodo? Que ao mesmo tempo provoca em nós comovida adesão e activa repugnância? Que em nada transige para que o leiamos sem intolerável mal-estar próprio, mas que no entanto está imbuído de um feitiço estranho, que repetidamente nos compele a pegar nele depois de termos decidido abandoná-lo? O romance português contemporâneo não "mexe" com os portugueses? Mexe... e de que maneira. José Eduardo Agualusa 1. "Ex Votos", poesia, de Paula Tavares (Editorial Caminho) Porque é um livro belíssimo, que confirma a angolana Ana Paula Tavares, ao lado de Rui Duarte de Carvalho, como a voz mais interessante e refinada da actual poesia africana escrita em português. "Ex Votos" continua uma obra inteiramente dedicada ao universo feminino. Paula Tavares trabalha a sabedoria e as tradições dos povos rurais do extremo sul de Angola, região de onde é natural, para construir uma poesia moderna, evitando as armadilhas do folclore ou do nativismo. 2. "Boa tarde às coisas aqui em baixo", romance, de António Lobo Antunes (Publicações Dom Quixote) Porque é o novo romance de António Lobo Antunes e bastaria isso. Mas também porque representa um regresso a Angola, à do passado, sim, mas também à conturbada Angola do presente, a dele, escritor, é claro, na certeza, como diz um dos personagens do livro, que Angola não termina nunca. 3. "Diário de um fescenino", romance, de Rubem Fonseca (Campo das Letras) Porque mesmo não estando na sua melhor forma, Rubem Fonseca consegue sempre agarrar o leitor, através de uma intriga policial, muito bem amarrada, e de um estilo seco, brutal, que fez escola no Brasil. Não consigo compreender porque em Portugal não se transformou ainda num enorme sucesso em termos de vendas. Mas é óbvio que, mais tarde ou mais cedo, isso irá acontecer. Possidónio Cachapa Abençoadas as livrarias que nos deixam remexer, ler primeiras páginas, tomar o pulso à prosa ou poesia. E decidir sem comprar. Ou decidir comprar apenas o que nos interessa. Os quilos de entulho que esta benesse do Portugal moderno nos poupa... Sendo assim, limito-me a referir as "trouvailles". Gostei de encontrar em promoção (10 ?, restos de edição...) "Fogo do Céu", de Mary Renault. O primeiro volume da trilogia dedicada a Alexandre da Macedónia (toda ela recomendável) relembra-nos que existem livros que apetece ficar a degustar durante centenas de páginas. E que Yourcenar não foi a única a escrever com uma elegância rigorosa. Para mergulhadores de fôlego. Yann Martel com a sua "Vida de Pi" provou-me que um tigre, um náufrago e um oceano infindável são mais do que suficientes para construir uma narrativa que apetece seguir até que o autor se decida a parar. Compreendendo que esta tirania da sedução formal, ou do enredo romanesco, aborreça a ala cogito-depressiva, refiro ainda o "Equador", de Miguel Sousa Tavares. É um primeiro romance. Com o que isso implica de bom e de menos interessante. Mas conseguiu criar uma história de fundo português (a ideia de metrópole e de colónia mítica que rapidamente tresanda ao suor das coisas como elas eram) de uma extensão surpreendentemente longa e consistente. Que suportámos com alegria. Li-o nas férias e ainda bem. Outros houve, nos restantes dias do ano, de que me não lembro. Perdoarão. O peso da idade, o "carpe diem" e a memória fraca são condições assassinas para estas listagens... Maria Filomena Mónica 1- "The Diary of Adam and Eve", de Mark Twain (Hesperus). Trata-se de uma colecção de artigos. O melhor é indiscutivelmente o primeiro, o diário de Adão. Deliciosamente misógino, Twain fala-nos dos sentimentos desse eremita constantemente apreensivo diante do ser, a Eva, tão parecida mas, ao mesmo tempo, tão diferente dele. O humor é soberbo, a prosa robusta, a concisão exemplar. 2- Todo o jornalismo de Orwell ( "The Collected Essays, Journalism and Letters of George Orwell", Penguin, 4 volumes). Acima de tudo, aprecio a sua honestidade pessoal, a sua liberdade de pensamento e o seu pressentimento de que algumas das piores tiranias da História estavam para vir. Orwell foi capaz de olhar a verdade de frente, mesmo quando a ocasião lhe fez inimigos à esquerda. Reconhecia que o socialismo albergava tendências autoritárias, mas esperou que viria a ser possível conciliá-las com a liberdade . 3- Este ano e sempre "O Livro de Cesário Verde" ( que possuo na colecção da Portugália). Com ele, tudo encontro alegremente exacto, lavo, refresco, limpo os meus sentidos e tangem-me, excitados, sacudidos, o tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto. É tão bom, ao fim da tarde, descer a Rua das Trinas, onde ele morou, no nº 50 ( actualmente o nº 36) e recitar devagarinho, entre o casario de azulejo, as portas minúsculas e o Tejo, algumas linhas dos seus poemas. Carlos Fiolhais Em 2003 houve um notável acontecimento na edição: no "top-ten" internacional de livros de ciência estiveram em simultâneo dois tomos de autores portugueses: "Mais Rápido do que a Luz", de João Magueijo (edição portuguesa da Gradiva, na incontornável colecção "Ciência Aberta"), e "Ao Encontro de Espinosa", de António Damásio (edição portuguesa da Europa-América). Foram dois livros que gostei muito de ler. Os dois tratam de temas actuais e apelativos, nas fronteiras da ciência: um a origem do nosso Universo e o outro a origem das emoções e sentimentos no nosso cérebro. E tratam-nos de uma maneira que cativa o leitor, o primeiro pela novidade e pela coragem (é salutar para o país e para a ciência nacional que seja um jovem de Évora a questionar Einstein!) e o segundo pela apropriação que as modernas neurociências fazem de Espinosa, um filósofo que no seu tempo foi incompreendido e proscrito. Se acrescentarmos que Einstein era um fervoroso admirador de Espinosa fechamos o círculo virtuoso que liga os dois livros. Mas haverá mais a unir os dois livros: ou será por acaso que os nossos dois cientistas actualmente mais lidos estejam emigrados, tal como emigrada esteve a família de Espinosa (o pai era da Vidigueira)? Também gostei de um grande livro sobre o tempo saído há pouco e que reúne as saborosas crónicas do autor na "Pública": "História do Tempo em Portugal", de Fernando Correia de Oliveira (Edições Diamantouro). O autor é um jornalista que faz, com a meticulosidade de um cientista, o relato da nossa relação com o tempo dos relógios. Os relógios sempre foram instrumentos de modernidade: Espinosa é contemporâneo dos primeiros relógios de pêndulo e Einstein é contemporâneo dos primeiros relógios atómicos. Nós, se somos um país em vários aspectos atrasado, não é porque aqui o tempo corra mais devagar, mas pura e simplesmente porque nos recusamos a olhar para os relógios. Maria Filomena Molder De filosofia e ensaio teórico, publicaram-se excelentes obras: Fernando Gil, "A Convicção", Campo das Letras; António Marques, "O Interior. Linguagem e Mente em Wittgenstein", Fundação Calouste Gulbenkian; Rui Romão, "Quid? Estudos sobre Francisco Sanches", Campo das Letras; José Gil, "A Profundidade e a Superfície. Ensaio sobre 'O Principezinho' de Saint-Exupéry", Relógio d'Água; Silvina Rodrigues Lopes, "A Inocência do Devir", Edições Vendaval; João Barrento, "O Jogo das Nuvens", Assírio & Alvim. As minhas preferências supremas vão, no entanto, para "Os Espaços em Branco" de Agustina Bessa-Luís (Guimarães Editora); "Jardim das Amoreiras" de João Miguel Fernandes Jorge (Relógio d'Água) e a tradução de Joaquim Manuel Magalhães de "Poemas" de Juan Panero (Relógio d'Água). Livros ligados entre si, embora não o estejam: em cada um deles age poderosamente a experiência do anónimo, daquele que se senta ao nosso lado e não é nosso convidado, o vazio que segura tudo aquilo em que tocamos, esse que tendo parecença com a morte, e mesmo provindo dela, não se confunde com ela: nós obedecemos-lhe, e nessa obediência revela-se a forma mais sublime de liberdade. Miguel Sousa Tavares "Navegantes do Deserto", de Théodore Monod (Publicações Europa-América): um extraordinário relato de viagens no deserto arábico, nos anos 20 e 30, por um autor falecido recentemente. "O Império Marítimo Português: 1415-1825", de C. R. Boxer (Edições 70): um livro imparcial e isento sobre as virtudes e os abusos da descoberta e da criação do império português. "O Enigma de Zulmira", de Vasco Graça Moura (Quetzal). Jorge Buescu 1. "Mais rápido que a luz", de João Magueijo (Gradiva) Existem grandes cientistas portugueses. João Magueijo é um deles. Neste livro conta como fez vingar na comunidade científica a sua teoria, que contradiz um dos postulados da Relatividade de Einstein. Não foi fácil, e os obstáculos surpreendentes. Magueijo não é meigo com pessoas nem instituições; o editor da prestigiada "Nature" sentiu-se insultado e ameaçou processar os editores. Resultado: a edição inglesa, já depois de impressa, foi para o lixo para ser "revista". Mas a americana é integral. A tradução (excelente) é da edição americana, pelo que o leitor tem acesso ao "author's cut": todos os insultos e adjectivos (mais do que) coloridos. 2. "Vernon Little, o bode expiatório", de D.B.C. Pierre (Gradiva) Há vinte anos um grande amigo ofereceu-me um livro extraordinário: "The catcher in the rye", de James Salinger. O "herói" Holden Caulfield, um adolescente de quinze anos, vive situações cada vez mais bizarras tomando, em cada instante, as piores decisões. Mas é um livro exaltante, apesar de datado (1951). Vernon Little é o Holden Caulfield do século XXI e da geração "dah!". Desprende-se das páginas de Pierre exactamente o mesmo crescendo magnético do que das de Salinger, tornando impossível parar a leitura. Esperemos que o autor do Booker Prize 2003, ao contrário de Salinger, continue a escrever. 3. "Koba o Terrível", de Martin Amis (Teorema). "Toda a gente sabe de Auschwitz e Belsen. Ninguém sabe de Vorkuta e Solovetski. Toda a gente conhece Himmler e Eichmann. Ninguém conhece Iejov e Dzejinski. Toda a gente sabe dos 6 milhões do Holocausto. Ninguém sabe dos 6 milhões do Terror-Fome". Martin Amis tem aqui uma inesperada incursão por terrenos históricos: Koba é Estaline; o livro descreve os hediondos crimes contra a humanidade do estalinismo. Não faltam episódios mais pessoais, como as discussões com o seu pai Kingsley e Robert Conquest, que ajudam a compreender a cegueira do Ocidente. Não é um romance nem tem pretensões a "scholarship", mas é profundamente inquietante e comovente. Pedro Tamen Impõem-se, antes de mais, duas observações: a primeira é que sou de memória fraca e que, portanto, ao procurar agora, no fim do ano, três livros que me tenham impressionado, alguns certamente me terão escapado, ocasionando injustiças que me penalizam; a segunda tem que ver com o facto de andar com leituras atrasadas e de, por conseguinte, ter ainda por ler muitos livros que presumo interessantes saídos nos últimos meses. Começo por uma tradução (já que "a nobreza obriga"...): é a da "Odisseia", que nos surge agora em português rítmico e em versão rigorosa, e não já aproximada. Devo a Frederico Lourenço um novo regresso ao poema de Homero - novo porque repetido e novo porque pleno de descobertas que já não julgava possíveis. A sua belíssima tradução é um serviço que só lhe agradeceremos deveras se deveras fruirmos deste canto longínquo sobre o qual se construiu aquilo que hoje somos. Receio resvalar para o lugar-comum dizendo que João Rui de Sousa é um poeta discreto. O facto de o ser por não se alçar constantemente nos bicos dos pés para que o vejam (como tantos e tantos indiscretos por aí fazem) conjugou-se com a preguiça e com a "falta de olhinhos" da chamada crítica - e é assim que quem não pretende a todo o custo dar nas vistas acaba de facto por não dar nas vistas de quem as não tem. Ora a publicação em finais de 2002 da sua "Obra Poética" foi uma oportunidade para iluminar alguns dias deste ano de 2003 com um percurso poético admirável. Por isso cometo o pecado de citar num balanço de leituras de 2003 um livro do ano passado. Porque o ano é passado, mas o livro é presente. Refiro por fim o último Mário de Carvalho ("Fantasia Para Dois Coronéis e Uma Piscina"), que me confirmou no intenso prazer de o ler, num encantamento amargo mas sorridente. Ao contrário de grande parte dos livros que por aí pululam (e falo particularmente dos romances), que na verdade não servem para nada, este, para além do óbvio deslumbramento de nos fazer mergulhar num português criativo e por isso surpreendente, serve para algo de muito sério e mais do que nunca necessário: revela-nos a nós mesmos. Helena Matos "Odisseia" de Homero, tradução de Frederico Lourenço (Livros Cotovia). Muito do que lemos está marcado por este texto e muito do que somos prende-nos a Ulisses. A tradução de Frederico Lourenço da "Odisseia" de Homero funciona como o fio que nos leva até um dos textos matriciais da nossa humana condição e traz-nos os versos que intuíamos existirem na "Odisseia" mas que não sabíamos encontrar em português: "E Ulisses, criado por Zeus, contou-lhe os sofrimentos/ que infligira a outros, assim como aqueles que ele próprio/ padecera. E ela deleitou-se ao ouvi-lo, e o sono/ não lhe caiu sobre as pálpebras até que tivesse tudo dito." "Fica Comigo Esta Noite", Inês Pedrosa (Publicações Dom Quixote). "Talvez para morrer eu precise do amor e da família. Mas para acabar de viver, só precido de ti, desta febre azul a que os outros chamam só sexo." - É esta a frase final dum dos contos deste livro. Dum romance gosta-se ou não. Com um livro de contos a relação é mais caprichosa. Criam-se tensões internas que levam a que, como acontece neste livro de Inês Pedrosa, uma vez reaberto, ele mesmo nos conduza a certos contos, como este intitulado "Só Sexo". E claro às páginas cúmplices de "Conversa de café", desconcertantes de "A Cabeleireira" e dolorosamente avassaladoras de "Europa, Plano Nocturno". São histórias que nos chegam através dum fino exercício do monólogo, jogo da verdade do eu consigo mesmo. "Impasses, seguido de Coisas Vistas, Coisa Ouvidas", Fernando Gil, Paulo Tunhas e Danièle Cohn (Publicações Europa-América). Avisam os autores no prefácio que escreveram este livro sem prazer. Os sentimentos que sobressaem deste livro são efectivamente doutra ordem que não a do prazer. Página a página, econtramos sim o espanto e a perplexidade perante aquilo que os autores designam como "uma aparente perda de confiança do Ocidente em si mesmo (ou pelo menos de parte da sua "intelligentzia") (...) e um ressentimento anti-ocidental." Uma leitura perturbante das grelhas com que se filtra o mundo. Imma Turbau "Correcções" Jonathan Franzen Ed. Dom Quixote A família Lambert está a cair aos bocados: o pai alheia-se da realidade, invadido por um Parkinson, e a sua esposa Enid teima em reunir os três filhos, de vidas tão diferentes quanto confusas, para a Consoada que imagina que será a última que irão passar os cinco juntos. O livro apaixonou-me da primeira página, é pesado, mas como imagino que foi pesado no seu momento "Crime e castigo" de Dostoievski, por exemplo; personagens cheias de defeitos, como toda a gente, mas tão bem escritas que não só se fica a gostar delas como no fim chora-se por mais. O pesadelo americano em vésperas de Natal. Dicionário Infernal Collin de Plancy Trad. Ana Hatherly Ed. Cavalo de Ferro Livro editado pela primeira vez em 1818 e reeditado em incontáveis ocasiões, muitas delas clandestinas, esta pequena jóia vai além do que seria um dicionário de diabos e bestas híbridas e variadas; nele encontramos, ordenados alfabeticamente, os nomes, os feitos e as histórias daqueles que moram nas zonas mais tenebrosas do Averno, e, ainda pior, nas gretas ocultas dos homens. Belissimamente ilustrado com reproduções de gravuras do início do século XIX, esta obra deliciosamente livre de preconceitos faz-nos reflectir sobre as nossas taras e as do mundo, e ao mesmo tempo diverte-nos imenso. CONTOS COMPLETOS, VOL I Vladimir Nabokov Ed. Teorema Ler contos é condensar o prazer da leitura em doses de emergência; nesse sentido, este livro é tão indispensável em qualquer casa como as caixas de aspirina e os metros de gaze enrolada, um remédio para a alma quando precisa de se curar. Nabokov desvenda-nos o seu mundo de uma forma subtil e quase oculta, e transforma estes 39 contos em 39 janelas onde os olhos repousam ao ler sobre a nostalgia da adolescência, das lendas dos bosques, da lentidão do tempo que não há-de voltar... mas sempre há qualquer coisa ali, escondida, que nos prende a respiração. E quando aparece, é o milagre da literatura e a razão pela qual sempre lemos. João Magueijo 1. "Somebody Else: Arthur Rimbaud in Africa 1880-91" Charles Nicholl (University of Chicago Press) Uma biografia de Rimbaud, não do grande poeta adolescente que todos adoram e ninguém compreendeu enquanto vivo, mas do adulto, traficante de armas em África, que nunca mais escreveu um único poema, com uma deliciosa total falta de lógica que ainda hoje ninguém compreende. O título provém de um dos seus poemas ("J'est an autre") que se poderia traduzir em português, Eu é um outro. Todos nós são um outro. 2. "An artist of the floating world", Kazuo Ishiguro (Vintage) Detesto dizer que gostei de um livro por causa da maneira como está escrito (que intelectual, não é ?) mas neste caso tem que ser. Mas há muito mais. É um livro sobre a facilidade com que o indivíduo pode ser corrompido pela História, neste caso o Japão Imperial, mas podia ser a Alemanha de Hitler, ou Portugal fascista, ou mesmo os Estados Unidos de hoje. Todos nós às vezes somos preguiçosos, por conveniência pessoal ou até porque ser inconformista faz mal ao coração. Nos momentos errados isso pode ser criminoso. 3. "30 Days in Sydney : A Wildly Distorted Account" Peter Carey Bloomsbury O canguru cultural que resulta de um país ter começado como uma colónia penal (os criminosos escolhiam entre a Austrália e a prisão perpétua), seguido de um quase bem sucedido genocídio da raça indígena, seguido de vagas de emigração asiática, grega, italiana, etc., etc., seguido de pretensões a Estado-providência e paraíso de surfistas, seguido de etc., etc., etc.. Claro que há cicatrizes por todo o lado, o assunto deste livro. O facto de o autor estar cada vez mais ordinário face aos políticos adiciona especiarias a um já bastante apimentado relato. Rui Nunes No país de "sempre os mesmos", há os "outros": os que escrevem contra a omissão, essa forma subtil e eficaz de censura; os que vivem indiferentes à pornografia desolada da propaganda. São deles os livros que para mim dizem a verdade da literatura: "À Procura da Cidade Sob a Luz Artificial", de Luís Cláudio Ribeiro (Black Sun); "Lá em Cima, na Montanha", de António Modesto Navarro; e "Nuez", de Rui Baião e Paulo Nozolino (Frenesi). Li outros livros, com prazer, mas esses não precisam de chamada de atenção. Fernando Campos Assoberbado com a escrita do meu último romance, cujo protagonista é o grande escritor do século XVII, clássico das línguas portuguesa e castelhana, D. Francisco Manuel de Melo, é bem de ver que as minhas leituras se limitaram, melhor, se ilimitaram a conhecer as obras do maior polígrafo daquele século ou outras que com ele se relacionam: 1. Francisco Manuel de Melo, "Carta de Guia de Casados", edição de Camilo Castelo Branco, que dele fala no prefácio. 2. Francisco Manuel de Melo, "Guerra de Cataluña", edição de Joan Estruch Tobella, Clássicos Castalia, Madrid, 1996. 3. Jean Colomès, "Le Dialogue 'Hospital das Letras' de D. Francisco Manuel de Melo", Paris, 1970. OUTROS TÍTULOS EM MIL FOLHAS Os melhores de 2003

Os álbuns de BD do ano

O despertar dos heróis

Escolhas 2003 - infanto-juvenil

PLANO GERAL

João Magueijo em Portugal

Alexandria chega ao século XXI

FICÇÃO

Dezoito anos debaixo de terra

Antes do bem e do mal

CRÓNICA

BABEL, ADEUS

Um anjo de vidro que descia pelas paredes

O nascimento do circo

MÚSICA CLÁSSICA

Escolhas

Concertos

Os melhores DVD

Escolhas discos

Escolhas 2003

Escolha de concertos

Escolhas de discos

As escolhas de concertos

Concertos e CDs 2003

JAZZ

Balanço do ano

ARTES PLÁSTICAS

Bacon e Cabrita Reis

Uma comunidade sem nome

Espírito do tempo

Espírito do tempo

%Margarida Medeiros

Inauguram

ARQUITECTURA

Um Ano Hard Lead

Arquitectura em Serralves

Coimbra, que futuro?

Os Melhores de 2003

Por %JOÃO PAULO MATEUS

Sábado, 03 de Janeiro de 2004 Abel Barros Baptista Suponho que este ano não li três livros deste ano. Assim, vou pelo excesso e menciono, não livros, mas grupos de livros. No primeiro, três livros sobre a universidade editados em final do ano pela Angelus Novus de Coimbra: «Missão da Universidade», de Ortega y Gasset, «A Universidade em ruínas», de Bill Readings, e sobretudo «A Universidade sem Condição», de Jacques Derrida. O debate público sobre a universidade é urgente, mas tem entre nós poucos meios. Estes valem por isso, e mais do que isso. O segundo grupo é o dos clássicos, em acepção larga, ambos na Cotovia e ambos com dispensa de qualquer justificação: a tradução da «Odisseia» por Frederico Lourenço e «Memorial de Aires», de Machado de Assis. O terceiro grupo, enfim, é o brasileiro, e do melhor que se pode ler da literatura brasileira contemporânea: a«Obra Poética» de Ferreira Gullar (Quasi) e «Mongólia», de Bernardo de Carvalho (Cotovia). Aproveito e peço licença para mencionar um livro a que estou ligado, por ter organizado a edição (mas não me estorva o pudor, já que, para a respectiva importância, como se compreende, o meu mérito é positivamente nenhum): refiro-me a «Respiração Assistida» (Assírio & Alvim), de Fernando Assis Pacheco, que rouba ao esquecimento um grande poeta e é sem dúvida um dos grandes livros de poesia do ano. Cláudia Clemente 1 - "Les particules élémentaires" do Michel Houellebecq ("As Partículas Elementares", Temas e Debates) Este livro marcou-me pelo seu tom de provocação e pela sua enorme dureza (chega por vezes a ser quase insuportável). É uma excelente crítica a duas gerações, a que viveu em França o Maio de 68, e a dos seus filhos. Um autêntico "murro no estômago". 2 - "Talking is over" do Julian Barnes (foi traduzido como "Amor & etc", Asa, vá-se lá saber porquê). O segredo deste livro, em que intervêm, na prática, apenas três personagens, está na forma original como é narrado, que consegue tranformar a história clássica de um triângulo amoroso numa autêntica obra-prima. 3 - Escolhi "Seda", de Alessandro Baricco (Difel) e "Narciso e Goldmundo" de Hermann Hesse pela sua beleza, mas não resisti a referir "Margarita e o Mestre" de Michail Bulgakov (Colecção Mil Folhas, PÚBLICO) porque é um livro vertiginoso, hilariante, e simultaneamente uma brilhante crítica social. Margarida Rebelo Pinto "A Vida de Pi", Yann Martel (Difel) Foi o único livro pelo qual me apaixonei desde a primeira linha. Porque tem tudo o que, quanto a mim, pode fazer um bom livro: um "plot" surpreendente, aventura, humor, personagens construídos com rigor e textura e reflexões sobre a condição humana feitas de forma irónica e certeira. Naveguei com o Pi pela aventura das religiões e depois acompanhei-o na sua luta pela sobrevivência e no seu domínio crescente sobre Richard Parker. "A Vida de Pi" é a visão fascinante e hiper-realista de um mundo absurdo e de uma aventura impossível e Yann Martel revelou um enorme talento ao contar a história do rapaz franzino que se transforma num herói indómito. Se é ou não plágio, se Martel leu apenas a sinopse ou foi mais longe, não é para aqui relevante, porque o trabalho final é notável. "A Euforia Perpétua", de Pascal Bruckner (Editorial Notícias) Embora tenha sido publicado em 2002, só em 2003 é que o li. Aos bocados, saltando aleatoriamente de capítulo, sublinhando muito, de uma forma quase obsessiva. Há livros que são como estaladas na cara, que nos fazem pensar muito mais do que outros. Para uma ficcionista como eu, com tendência a pintar o mundo à minha volta com as cores que mais me agradam, "A Euforia Perpétua" é como um combate de boxe permanente com muito mais assaltos do que aqueles que julgamos aguentar. É um livro que literalmente desfaz a utopia anestesiante em que a sociedade ocidental mergulhou na busca infantil da felicidade permanente. Dostoievski, um sonhador que nunca perdeu a noção da realidade, terminou as "Noites Brancas" proclamando: "Ah, um minuto de felicidade! Não basta isso para encher a vida de um homem?" Bruckner propõe a mesma verdade, a celebração dos estados de graça temporários encarados desde o início como finitos em vez do dever da felicidade permanente. Para ler, reler, sublinhar, comentar, discutir, arrumar a cabeça e reordenar a realidade. Indispensável. "The Dying Animal", de Philip Roth (Vintage) Se há escritores exactos, cirúrgicos, que conseguem convencer o leitor da sua mestria a cada frase, Philip Roth é um deles. E também é a prova viva que a idade faz aos escritores o mesmo que o tempo faz ao vinho; aperfeiçoa os bons e condena os maus. Um professor quase moribundo que se envolve com as alunas como cliché, não pode ser mais cliché nem mais americano. Mas o retrato à lupa dos sentimentos que o envolvem e da solidão a que se sente - e está - condenado pela idade são feitos ao mesmo tempo com uma sensibilidade tocante e uma crueza chocante. E o cliché transforma-se numa experiência única. Mas Roth tem outra qualidade; ele fala de sexo envolvendo esta realidade incontornável da existência humana com doçura, quase me arriscaria a dizer com amor. Ou, pelo menos, encarando-a com humildade, respeitando o que há de divino e inexplicável nela. Numa sociedade em que só os tolos é que se atrevem a unir estas duas ideias - porque quanto mais se fala de amor e de sexo, menos se praticam um e outro -, "The Dying Animal" é envolvente e intrigante, porque nos mostra onde pode estar a luz através das mais tristes sombras. Mário Cláudio O ano velho foi marcado por seis romances, cinco recentes ou recentíssimos, um em homenagem àqueles que um dia nos esquecemos de ler. António Lobo Antunes confirmou-se-me com "Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo" como o maior escritor português vivo, mestre indiscutível dos que andamos a escrever, e até desses que necessitam de o contestar para se sentirem razoavelmente originais. Mafalda Ivo Cruz ofereceu-me em "Vermelho" a lição de como a escrita mais inovadora renasce da preservação de uma continuidade, de como se torna corrosiva e dilacerante a palavra que jorra do talento, e não da preocupação de provar a existência dele. "Equador", de Miguel Sousa Tavares, demonstrou-me em definitivo em que termos se logra realizar a dificílima coincidência da criação de grande qualidade com a divulgação do prazer da leitura, restituindo-me essa espécie de festa, saboreada pelos da minha geração que aos catorze anos se afoitavam aos "Maias" ou à "Brasileira de Prazins". O italiano Giuseppe Bonaviri entusiasmou-me com "Il Dormeveglia", esplêndido voo sem rede, executado entre a volúpia da análise literária e o fascínio da análise científica, operado nessa dimensão hipnagógica onde o relativo que somos se conjuga com o absoluto para que tendemos. O espanhol Enrique Vila-Matas falou-me em "El Mal de Montano" de uma embriaguez do literário, comparável à loucura de Deus em que respiram os padres do deserto, capaz de conduzir à perpetração de todos os malefícios, mas susceptível de aceder às redenções supremas. Fui buscar a "Adam Bede", de George Eliot, o reachamento da magnitude do romance oitocentista, expressa aqui por uma pena que dilucida mistérios como um feiticeiro egípcio, e que nos brinda com o pungente encontro dos amantes na floresta de enredos do Norte profundo. Três ensaios de matéria afim, se existem afinidades nos infinitos rostos do Rosto, assinalaram-me o ano que findou. Colm Tóibín em "The Sign of the Cross: Travels in Catholic Europe" empreendeu um ajuste de contas empolgante com a crença comum, esclarecedora de um punhado de dúvidas eternas e conducente a um ramalhete de precárias certezas. Geza Vermes em "Enquête sur l'Identité de Jésus: Nouvelles Interprétations" sugeriu-me múltiplos ângulos de percepção, diversas sendas de estudo, outros motivos de fé. "Le Soufisme Coeur de l'Islam", do Cheikh Khaled Bentounès, exaltou-me com a descoberta de uma via lustral, reconciliante para além de todos os confrontos a que a história sujeita os homens, onde se engastam lucilações cristãs, hindus e zoroastrianas, falando-me do imperscrutável diálogo entre mestre e discípulo. 2003 fica ungido no seu final pela manifestação definitiva da "Poesia", de Daniel Faria, prefaciada por Vera Vouga, uma das pedras angulares, nada menos do que isso, da lírica portuguesa do segundo milénio. Soubesse eu destes percursos, quando conheci o poeta dois anos antes da sua morte, andaria ele pelos seus vinte e seis e o autor destas linhas pelos cinquenta e seis, teria guardado no mais reverente dos silêncios a consciência da indignidade de sequer lhe desatar a correia das sandálias. José Agostinho Baptista 1- "Alguns Motetos", de José Bento (selecção e prólogo de José Tolentino Mendonça) A emoção de ler um poeta de corpo inteiro,luminoso, profundo, herdeiro do saber e da grande poesia que os tempos do fútil e do imediato parecem querer destruir. 2- "Trece Poetas Del Mundo Azteca", organizado por Miguel Leon-Portilla Porque no princípio era o verbo e porque esta é a poesia dos universos mágicos, da relação cósmica que une o homem às coisas da terra, dos deuses e das estrelas, fazendo de cada verso um apogeu dos sentidos e de cada sentido uma poética de intensos sinais. 3- "María Del Alma" (un melodrama novelado de la vida de Agustín Lara) de Pilar Tafur e Daniel Samper Pizano Divertido, sensível, didáctico, sobre a vida e a obra míticas do grande autor mexicano de Noche de Ronda, Piensa en Mí, Solamente una Vez, Granada, etc. Aventuras e desventuras, paixões, amores, cicatrizes, pianos da noite. O prazer de viajar pela música e pelas realidades e ficções de quem a fez tão genialmente. Leveza, un poco de sol en nuestras vidas. Para isso também servem os livros. Vasco Graça Moura "Odisseia", tradução de Frederico Lourenço: finalmente uma magnífica versão de um dos textos fundadores da civilização ocidental, numa prosódia que reinventa em português as condições da frescura rude e original do texto. Para quando a "Ilíada"? "Equador", de Miguel Sousa Tavares: suficientemente poderoso para resistir a alguns defeitos de escrita e construção, é um grande romance que nos dá uma espécie de alegoria da Ilha dos Amores do avesso: onde, na primeira, os portugueses alcançavam o prémio glorioso dos seus feitos de alcance universal, nesta têm a tragédia irrisória e degradante de um fim do tempo português no mundo e em Portugal. "Estudos portugueses", de Esther de Lemos: um notabilíssimo e sugestivo conjunto de textos sobre grandes vultos da cultura portuguesa, sem perder de vista a compreensão das condições de vida em que foram produzidos. Gostaria ainda de mencionar mais dois livros lidos este ano: o excelente "Portugal e a herança clássica e outros textos", de Maria Helena da Rocha Pereira, que, como o anterior, "Temas clássicos na poesia portuguesa" (1988), passa a ser referência obrigatória no estudo de alguns dos nossos autores; e também uma obra de 1943 que não consigo encontrar nos alfarrabistas e só pude ler por empréstimo: "Processo e história de uma atoarda. O retrato de Damião de Góis por Alberto Dürer", de Mário de Sampayo Ribeiro, uma investigação erudita, tão modelar quanto esquecida, sobre um tópico de história da arte e da cultura. Richard Zimler 1) "Paulo Rego's Map of Memory" por Maria Manuel Lisboa. Um livro fascinante em que a autora, uma professora em Cambridge, investiga as ligações entre a política e a literatura portuguesas e a obra de Paula Rego. Uma obra séria, cativante, e muito bem escrita (nada hermética). 2) "O Leopardo" (penso que é o título português), por Lampedusa. Um romance histórico sobre as mudanças na sociedade siciliana (e italiana) provocadas pela unificação de Itália. Cheio de humor subtil e perspicácia. 3) "Death in Slow Motion" por Eleanor Cooney. A autora fala da morte lenta da sua mãe provocada pela doença de Alzheimer. Um grande livro sobre sofrimento pessoal em que Cooney ultiza humor negro para afastar os demónios e manter a sua saúde mental. António Mega Ferreira "Os Papéis de K." e "Os Livros", de Manuel António Pina - Primeira incursão do excelente poeta que é Manuel António Pina no domínio da ficção, "Os Papéis de K." é uma narrativa curta, elegante e poética, que tem a densidade de um poema e a expansividade contida de uma novela. Um caligrama. "Os Livros" é uma magnífica recolha de poemas, ou poemas sobre e de poemas, que ecoam vozes, distinguem afinidades, apuram desencantos. Precioso. "O Livro das Ilusões", de Paul Auster - O melhor romance de Auster desde "Leviathan", publicado em 1992. Uma extraordinária digressão pelos territórios austerianos da dissolução e do desaparecimento, um "tour de force" narrativo (as descrições dos filmes são absolutamente prodigiosas), uma fome de contar, até ao ínfimo pormenor, evitando constantemente os alçapões da facilidade que a imaginação doentiamente transbordante do autor vai estendendo à própria narração. Quase no final de 2003, Auster reincidiu, com "Oracle Night", um livro de histórias que ficam incompletas, para que se possa completar a descida aos infernos do narrador. Um patamar abaixo do "Livro das Ilusões". "Rayuela", de Julio Cortázar - Publicado em 1963, este romance luminosamente moderno (então e agora), mostra, à distância de vinte anos, o que distingue um grande escritor de todos os escritores menores (alguns muito respeitáveis) que andaram (alguns ainda andam) a experimentar com a escrita, como se o futuro do mundo dependesse de mais palavrão ou menos pontuação. Porque Mallarmé dizia que tudo o que existe há-de ir parar a um livro, Cortázar faz-lhe a vontade: cabe lá tudo, desde uma brevíssima história do jazz até falsamente eruditas reflexões sobre filosofias orientais. Uma obra-prima, salvo erro nunca publicada em Portugal. Também da Argentina, li em 2003 outro grande romance, este convencional e encantatório, "Bomarzo", de Manuel Mujica Lainez, que há mais de vinte anos dormitava nas minhas estantes. Nunca foi publicado entre nós. João Lobo Antunes O monumental livro de Jacques Barzun "From Dawn to Decadence" agora editado pela Gradiva ("Da Alvorada à Decadência ") acompanhou-me durante o ano. "Lessons of the Masters" de George Steiner foi uma leitura preciosa e remeteu-me para uma obra-prima de Philip Roth que me escapara "The Human Stain". O terceiro foi uma antologia de poesia, "A book of luminous things" reunida por Czeslaw Milosz, uma colectânea admirável de poemas luminosos. Manuel António Pina Na minha memória, 2003 parece algo já muito distante e, talvez por isso, são livros lidos recentemente os que, posta a questão deste inquérito, me ocorrem: "Respiração assistida", de Fernando Assis Pacheco (organização de Abel Barros Baptista, Assírio & Alvim); "Ditos e feitos dos padres do deserto", organização de Cristina Campo e Piero Draghi (tradução de Armando da Silva Carvalho, Assírio & Alvim); e "O gueto", de Tâmara Kamenszain, pequeno volume distribuído com "Inimigo rumor" nº 14 (tradução de Carlito Azevedo e Paloma Vidal). A de Fernando Assis Pacheco é uma das mais fortes e "irregulares" poesias portuguesas nossas contemporâneas, tanto no seu andamento conversado, no seu tom dir-se-ia que familiar, quase privado (acho que é Eliot quem fala dessa parte do prazer da leitura de poesia que consiste na impressão de lermos algo que não nos é destinado; e Bloom quem vislumbra na poesia a fala de alguém consigo mesmo, escutando ao mesmo tempo furtivamente essa fala), como naquilo que Manuel Gusmão, no posfácio do livro, observa ser o "ethos" de uma poesia que busca manter-se à margem do "vozear do mercado ... da 'comunicação' ou da instituição literária", intenção que, em Assis Pacheco é um "gesto de poética" e não, como em casos que conhecemos, mera afectação. Se a recolha de Cristina Campo e Piero Draghi de algumas das palavras que, como "bólides dirigidos a um céu insondável", romperam o silêncio e a solidão dos padres do deserto dos primeiros séculos e chegaram até nós apenas questionasse as formas mundanas e mais ou menos hipócritas ou desviantes do cristianismo, pouco me interessaria. Mas essas palavras têm a força e a radicalidade poética dos grandes momentos fundadores capazes de inquietar a relação de cada um de nós consigo mesmo. Por fim, o livro da argentina Tâmara Kamenszain, que foi para mim a descoberta de um grande poeta (num ano em que descobri ainda a italiana Cristina Campo e a brasileira Maria Ângela Alvim). A poesia das três tem consanguinidades onde confluem os meus próprios desassossegos, mas esse é assunto de que não vem ao caso falar aqui. Inês Pedrosa Não gosto de pódios nem de numerações - sobretudo em questões de arte. Para escolhermos apenas três livros, num ano inteiro, era preciso termos lido muito pouco ou muito mal. Assinalemos dois magistrais serviços públicos de tradução: "Em Busca do Tempo Perdido", por Pedro Tamen e "Odisseia", por Frederico Lourenço. E dois romances de génio: "Os Espaços em Branco", de Agustina Bessa-Luís e "Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina", de Mário de Carvalho. Sobre estes livros fui escrevendo noutros espaços, pelo que aproveito esta oportunidade para destacar três outras obras de grande fôlego. "O Estado dos Campos" de Nuno Júdice, um poeta que alia um muito original fulgor lírico ao desarmante rigor da inteligência do mundo. Dialogando intensamente com outras escritas e outras artes, os seus poemas escangalham os lugares-comuns do amor, da sabedoria e, em particular, da poesia, conduzindo-nos aos campos luminosos em que "saímos da moldura, para dentro da vida". Se me é permitido acrescentar uma alínea a esta escolha, não percam também " A Ideia de Amor e Outros Contos", do mesmo autor, em particular os contos morais ( e muito acutilantes) da secção "Contos para Crianças Grandes". No romance, aconselho vivamente " O Suicida Feliz" de Paulo Nogueira, arguta e muito divertida reflexão sobre o sonho da fama e a solidão dela, numa história muito bem arquitectada, com personagens inesquecíveis, não só pela consistência das suas fragilidades mas sobretudo por essa tão humana (e esquecida) capacidade de ultrapassar a cobardia quotidiana em minimais e imprevisíveis actos de coragem. Finalmente, destaco a investigação pioneira e exaustiva de Helena Matos sobre a forma como Salazar construiu a sua imagem e o seu poder, através da imprensa. Mais do que o retrato de uma época, estes dois volumes, num total de mais de 800 páginas (saiu já "Salazar - A Construção do Mito" , o 2º volume, "Salazar - A Propaganda" será publicado em Janeiro), constituem um verdadeiro tratado sobre a relação entre media e Poder - uma relação perigosa que não diz respeito apenas à mecânica das ditaduras. Pedro Rosa Mendes 1.(Por exemplo, um melhor livro:) "Random Family - Love, Drugs, Trouble, and Coming of Age in the Bronx", Adriane Nicole LeBlanc (Scribner, 2003). LeBlanc acompanhou duas adolescentes do Bronx, Jessica e Coco, durante dez anos. O resultado é esta soberba reportagem - factual e objectiva -, narrada com a melhor escrita ficcional - apaixonada, poderosa, visceral. 2. "From the Land of Green Ghosts", Pascal Khoo Thwe (HarperCollins, 2002). Em 1988, John Casey, um catedrático de Cambridge, ouviu falar de um jovem estudante em Mandalay, Birmânia, entusiasta da obra de James Joyce e empregado de um restaurante chinês. O encontro mudou a vida de ambos. Pascal é originário da pequena tribo dos Kayan Padaung, um grupo que mistura influências animistas e budistas com o catolicismo deixado por missionários italianos. Esse é o mundo dos "fantasmas verdes", um país de sonho e magia, memória e narrativa, contado por Pascal, após a sua fuga para a Inglaterra. Político e poético, "o melhor livro de memórias para ler este ano", como disse um dos muitos críticos que se rendeu à beleza absoluta deste livro. 3. "Yesterday, Tomorrow. Voices from the Somali Diaspora", de Nuruddin Farah (Cassell, 2000). O que acontece quando o mais fino - e implacável - romancista africano decide - porque a vida lhe impôs - investigar os percursos do exílio do seu povo (quando ele deixou de existir)? Com Farah, teria de acontecer algo como este livro, uma viagem intensa, crua, lírica, sábia pela condição dos exilados, da Somália, de África - e pelo espelho da Europa. Clara Pinto Correia Gostei especialmente do "Feitos e ditos dos padres do deserto", porque me remete para o mundo com que eu empatizo mais profundamente - e é bom saber, no meio desta confusão, que ainda há quem se dedique à recolha de fragmentos de um tempo e um espírito que estamos a perder depressa demais. Dei a mim própria grande satisfação de ler finalmente, do princípio ao fim, o "Underworld" do Don De Lillo que é um verdadeiro prodígio literário e uma maratona de escrita sólida e consistente que só os grandes corredores de fundo conseguem vencer. E pronto, assim caído de pára-quedas no meio da confusão pré-natalícia, foi um alívio e uma alegria ler a "Fantasia para dois coronéis e uma piscina" do Mário de Carvalho. Escreve cada vez melhor, o raio do homem. É tão bom, ler coisas boas. Mário de Carvalho Parece-me importante assinalar ( e se me pedem três livros, eu, obediente, apenas indico três...) os grandes acontecimentos que foram a tradução da "Odisseia" por Frederico Lourenço, a tradução das tragédias de Sófocles por Maria Helena da Rocha Pereira, José Ribeiro Ferreira, e Maria do Céu Fialho, e a nova tradução da "Eneida" por um conjunto de professores da Faculdade de Letras de Lisboa. Por óbvia negligência do Estado Português que há muito nos deve e nunca mais corrige, estamos privados de traduções fidedignas de centenas de clássicos. Não se encontram, não há, ninguém quer saber. Já experimentaram procurar uma boa edição bilingue de "As Metamorfoses "de Ovídio? E no entanto é com a tradição clássica que as literaturas que se prezam devem confrontar-se. Transfigurando recriando ou rejeitando. Mas sempre com uma perspectiva que vai até ao princípio dos tempos. Se querem lixo literário, façam favor, refocilem. Mas tenham algum respeito por aqueles de nós que preferem não refocilar. Gonçalo M. Tavares "O salteador", de Robert Walser (Relógio d'Água). Uma desconstrução permanente do texto e uma personagem estranha, indefinida: boazinha e má. "Gostamos todos mais da comodidade. Ninguém gosta que o outro o considere como que sagrado, porque isso o obriga a ser um modelo. Ser um modelo, ser um paradigma é uma grande maçada, como bem se percebe." "Os sete sábios", Roberto Arlt (Cavalo de Ferro). De um escritor argentino pouco conhecido, mas muito bom. Um romance que faz lembrar Cossery. Alguém que rouba dinheiro numa empresa e depois decide entrar numa espécie de conspiração mundial com objectivos pouco definidos. Cada página diz coisas fortes, nenhuma página é desperdiçável. "Outro tempo", W. H. Auden (Relógio d'Água) - "Law, say the gardeners, is the sun". Também gostei muito (no meio de bastante poesia boa, portuguesa e estrangeira) dos livros de poesia de Rui Pires Cabral - "Praças e quintais" (Averno) e José Miguel Silva "Vista para um pátio" seguido de "Desordem" (Relógio d'Água). Frederico Lourenço Neste ano de 2003, comemorativo de Petrarca, os parabéns vão antes de mais para Vasco Graça Moura. Quanto ao campo que, enquanto romancista, mais me diz respeito, parece-me evidente que três dos maiores cultores actuais do romance em Portugal publicaram livros excepcionais: Mário Cláudio "Oríon" Dom Quixote Mário Cláudio é o nosso romancista dos cinco sentidos. Uma escrita sempre caleidoscópica, saborosa, sonora, táctil, aromática. "Oríon" amassa e faz levedar de novo temas da "Peregrinação de Barnabé das Índias", trazendo-nos uma pasta verbal ricamente temperada, que concilia (como só Mário Cláudio sabe) o castiço e o amaneirado. Para quando uma revisitação, adaptada ao séc. XXI, da "Quinta das Virtudes"? Mário de Carvalho "Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina" Caminho Puro prazer. Tanto pela tão apregoada ironia (aqui mais orgânica, parece-me, que nalguns livros anteriores do autor), como pela qualidade absolutamente superlativa da escrita. Ainda se escreve português assim: parabéns, Portugal. António Lobo Antunes "Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo" Dom Quixote Como falar deste livro que se lê com um misto de fascínio e incómodo? Que ao mesmo tempo provoca em nós comovida adesão e activa repugnância? Que em nada transige para que o leiamos sem intolerável mal-estar próprio, mas que no entanto está imbuído de um feitiço estranho, que repetidamente nos compele a pegar nele depois de termos decidido abandoná-lo? O romance português contemporâneo não "mexe" com os portugueses? Mexe... e de que maneira. José Eduardo Agualusa 1. "Ex Votos", poesia, de Paula Tavares (Editorial Caminho) Porque é um livro belíssimo, que confirma a angolana Ana Paula Tavares, ao lado de Rui Duarte de Carvalho, como a voz mais interessante e refinada da actual poesia africana escrita em português. "Ex Votos" continua uma obra inteiramente dedicada ao universo feminino. Paula Tavares trabalha a sabedoria e as tradições dos povos rurais do extremo sul de Angola, região de onde é natural, para construir uma poesia moderna, evitando as armadilhas do folclore ou do nativismo. 2. "Boa tarde às coisas aqui em baixo", romance, de António Lobo Antunes (Publicações Dom Quixote) Porque é o novo romance de António Lobo Antunes e bastaria isso. Mas também porque representa um regresso a Angola, à do passado, sim, mas também à conturbada Angola do presente, a dele, escritor, é claro, na certeza, como diz um dos personagens do livro, que Angola não termina nunca. 3. "Diário de um fescenino", romance, de Rubem Fonseca (Campo das Letras) Porque mesmo não estando na sua melhor forma, Rubem Fonseca consegue sempre agarrar o leitor, através de uma intriga policial, muito bem amarrada, e de um estilo seco, brutal, que fez escola no Brasil. Não consigo compreender porque em Portugal não se transformou ainda num enorme sucesso em termos de vendas. Mas é óbvio que, mais tarde ou mais cedo, isso irá acontecer. Possidónio Cachapa Abençoadas as livrarias que nos deixam remexer, ler primeiras páginas, tomar o pulso à prosa ou poesia. E decidir sem comprar. Ou decidir comprar apenas o que nos interessa. Os quilos de entulho que esta benesse do Portugal moderno nos poupa... Sendo assim, limito-me a referir as "trouvailles". Gostei de encontrar em promoção (10 ?, restos de edição...) "Fogo do Céu", de Mary Renault. O primeiro volume da trilogia dedicada a Alexandre da Macedónia (toda ela recomendável) relembra-nos que existem livros que apetece ficar a degustar durante centenas de páginas. E que Yourcenar não foi a única a escrever com uma elegância rigorosa. Para mergulhadores de fôlego. Yann Martel com a sua "Vida de Pi" provou-me que um tigre, um náufrago e um oceano infindável são mais do que suficientes para construir uma narrativa que apetece seguir até que o autor se decida a parar. Compreendendo que esta tirania da sedução formal, ou do enredo romanesco, aborreça a ala cogito-depressiva, refiro ainda o "Equador", de Miguel Sousa Tavares. É um primeiro romance. Com o que isso implica de bom e de menos interessante. Mas conseguiu criar uma história de fundo português (a ideia de metrópole e de colónia mítica que rapidamente tresanda ao suor das coisas como elas eram) de uma extensão surpreendentemente longa e consistente. Que suportámos com alegria. Li-o nas férias e ainda bem. Outros houve, nos restantes dias do ano, de que me não lembro. Perdoarão. O peso da idade, o "carpe diem" e a memória fraca são condições assassinas para estas listagens... Maria Filomena Mónica 1- "The Diary of Adam and Eve", de Mark Twain (Hesperus). Trata-se de uma colecção de artigos. O melhor é indiscutivelmente o primeiro, o diário de Adão. Deliciosamente misógino, Twain fala-nos dos sentimentos desse eremita constantemente apreensivo diante do ser, a Eva, tão parecida mas, ao mesmo tempo, tão diferente dele. O humor é soberbo, a prosa robusta, a concisão exemplar. 2- Todo o jornalismo de Orwell ( "The Collected Essays, Journalism and Letters of George Orwell", Penguin, 4 volumes). Acima de tudo, aprecio a sua honestidade pessoal, a sua liberdade de pensamento e o seu pressentimento de que algumas das piores tiranias da História estavam para vir. Orwell foi capaz de olhar a verdade de frente, mesmo quando a ocasião lhe fez inimigos à esquerda. Reconhecia que o socialismo albergava tendências autoritárias, mas esperou que viria a ser possível conciliá-las com a liberdade . 3- Este ano e sempre "O Livro de Cesário Verde" ( que possuo na colecção da Portugália). Com ele, tudo encontro alegremente exacto, lavo, refresco, limpo os meus sentidos e tangem-me, excitados, sacudidos, o tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto. É tão bom, ao fim da tarde, descer a Rua das Trinas, onde ele morou, no nº 50 ( actualmente o nº 36) e recitar devagarinho, entre o casario de azulejo, as portas minúsculas e o Tejo, algumas linhas dos seus poemas. Carlos Fiolhais Em 2003 houve um notável acontecimento na edição: no "top-ten" internacional de livros de ciência estiveram em simultâneo dois tomos de autores portugueses: "Mais Rápido do que a Luz", de João Magueijo (edição portuguesa da Gradiva, na incontornável colecção "Ciência Aberta"), e "Ao Encontro de Espinosa", de António Damásio (edição portuguesa da Europa-América). Foram dois livros que gostei muito de ler. Os dois tratam de temas actuais e apelativos, nas fronteiras da ciência: um a origem do nosso Universo e o outro a origem das emoções e sentimentos no nosso cérebro. E tratam-nos de uma maneira que cativa o leitor, o primeiro pela novidade e pela coragem (é salutar para o país e para a ciência nacional que seja um jovem de Évora a questionar Einstein!) e o segundo pela apropriação que as modernas neurociências fazem de Espinosa, um filósofo que no seu tempo foi incompreendido e proscrito. Se acrescentarmos que Einstein era um fervoroso admirador de Espinosa fechamos o círculo virtuoso que liga os dois livros. Mas haverá mais a unir os dois livros: ou será por acaso que os nossos dois cientistas actualmente mais lidos estejam emigrados, tal como emigrada esteve a família de Espinosa (o pai era da Vidigueira)? Também gostei de um grande livro sobre o tempo saído há pouco e que reúne as saborosas crónicas do autor na "Pública": "História do Tempo em Portugal", de Fernando Correia de Oliveira (Edições Diamantouro). O autor é um jornalista que faz, com a meticulosidade de um cientista, o relato da nossa relação com o tempo dos relógios. Os relógios sempre foram instrumentos de modernidade: Espinosa é contemporâneo dos primeiros relógios de pêndulo e Einstein é contemporâneo dos primeiros relógios atómicos. Nós, se somos um país em vários aspectos atrasado, não é porque aqui o tempo corra mais devagar, mas pura e simplesmente porque nos recusamos a olhar para os relógios. Maria Filomena Molder De filosofia e ensaio teórico, publicaram-se excelentes obras: Fernando Gil, "A Convicção", Campo das Letras; António Marques, "O Interior. Linguagem e Mente em Wittgenstein", Fundação Calouste Gulbenkian; Rui Romão, "Quid? Estudos sobre Francisco Sanches", Campo das Letras; José Gil, "A Profundidade e a Superfície. Ensaio sobre 'O Principezinho' de Saint-Exupéry", Relógio d'Água; Silvina Rodrigues Lopes, "A Inocência do Devir", Edições Vendaval; João Barrento, "O Jogo das Nuvens", Assírio & Alvim. As minhas preferências supremas vão, no entanto, para "Os Espaços em Branco" de Agustina Bessa-Luís (Guimarães Editora); "Jardim das Amoreiras" de João Miguel Fernandes Jorge (Relógio d'Água) e a tradução de Joaquim Manuel Magalhães de "Poemas" de Juan Panero (Relógio d'Água). Livros ligados entre si, embora não o estejam: em cada um deles age poderosamente a experiência do anónimo, daquele que se senta ao nosso lado e não é nosso convidado, o vazio que segura tudo aquilo em que tocamos, esse que tendo parecença com a morte, e mesmo provindo dela, não se confunde com ela: nós obedecemos-lhe, e nessa obediência revela-se a forma mais sublime de liberdade. Miguel Sousa Tavares "Navegantes do Deserto", de Théodore Monod (Publicações Europa-América): um extraordinário relato de viagens no deserto arábico, nos anos 20 e 30, por um autor falecido recentemente. "O Império Marítimo Português: 1415-1825", de C. R. Boxer (Edições 70): um livro imparcial e isento sobre as virtudes e os abusos da descoberta e da criação do império português. "O Enigma de Zulmira", de Vasco Graça Moura (Quetzal). Jorge Buescu 1. "Mais rápido que a luz", de João Magueijo (Gradiva) Existem grandes cientistas portugueses. João Magueijo é um deles. Neste livro conta como fez vingar na comunidade científica a sua teoria, que contradiz um dos postulados da Relatividade de Einstein. Não foi fácil, e os obstáculos surpreendentes. Magueijo não é meigo com pessoas nem instituições; o editor da prestigiada "Nature" sentiu-se insultado e ameaçou processar os editores. Resultado: a edição inglesa, já depois de impressa, foi para o lixo para ser "revista". Mas a americana é integral. A tradução (excelente) é da edição americana, pelo que o leitor tem acesso ao "author's cut": todos os insultos e adjectivos (mais do que) coloridos. 2. "Vernon Little, o bode expiatório", de D.B.C. Pierre (Gradiva) Há vinte anos um grande amigo ofereceu-me um livro extraordinário: "The catcher in the rye", de James Salinger. O "herói" Holden Caulfield, um adolescente de quinze anos, vive situações cada vez mais bizarras tomando, em cada instante, as piores decisões. Mas é um livro exaltante, apesar de datado (1951). Vernon Little é o Holden Caulfield do século XXI e da geração "dah!". Desprende-se das páginas de Pierre exactamente o mesmo crescendo magnético do que das de Salinger, tornando impossível parar a leitura. Esperemos que o autor do Booker Prize 2003, ao contrário de Salinger, continue a escrever. 3. "Koba o Terrível", de Martin Amis (Teorema). "Toda a gente sabe de Auschwitz e Belsen. Ninguém sabe de Vorkuta e Solovetski. Toda a gente conhece Himmler e Eichmann. Ninguém conhece Iejov e Dzejinski. Toda a gente sabe dos 6 milhões do Holocausto. Ninguém sabe dos 6 milhões do Terror-Fome". Martin Amis tem aqui uma inesperada incursão por terrenos históricos: Koba é Estaline; o livro descreve os hediondos crimes contra a humanidade do estalinismo. Não faltam episódios mais pessoais, como as discussões com o seu pai Kingsley e Robert Conquest, que ajudam a compreender a cegueira do Ocidente. Não é um romance nem tem pretensões a "scholarship", mas é profundamente inquietante e comovente. Pedro Tamen Impõem-se, antes de mais, duas observações: a primeira é que sou de memória fraca e que, portanto, ao procurar agora, no fim do ano, três livros que me tenham impressionado, alguns certamente me terão escapado, ocasionando injustiças que me penalizam; a segunda tem que ver com o facto de andar com leituras atrasadas e de, por conseguinte, ter ainda por ler muitos livros que presumo interessantes saídos nos últimos meses. Começo por uma tradução (já que "a nobreza obriga"...): é a da "Odisseia", que nos surge agora em português rítmico e em versão rigorosa, e não já aproximada. Devo a Frederico Lourenço um novo regresso ao poema de Homero - novo porque repetido e novo porque pleno de descobertas que já não julgava possíveis. A sua belíssima tradução é um serviço que só lhe agradeceremos deveras se deveras fruirmos deste canto longínquo sobre o qual se construiu aquilo que hoje somos. Receio resvalar para o lugar-comum dizendo que João Rui de Sousa é um poeta discreto. O facto de o ser por não se alçar constantemente nos bicos dos pés para que o vejam (como tantos e tantos indiscretos por aí fazem) conjugou-se com a preguiça e com a "falta de olhinhos" da chamada crítica - e é assim que quem não pretende a todo o custo dar nas vistas acaba de facto por não dar nas vistas de quem as não tem. Ora a publicação em finais de 2002 da sua "Obra Poética" foi uma oportunidade para iluminar alguns dias deste ano de 2003 com um percurso poético admirável. Por isso cometo o pecado de citar num balanço de leituras de 2003 um livro do ano passado. Porque o ano é passado, mas o livro é presente. Refiro por fim o último Mário de Carvalho ("Fantasia Para Dois Coronéis e Uma Piscina"), que me confirmou no intenso prazer de o ler, num encantamento amargo mas sorridente. Ao contrário de grande parte dos livros que por aí pululam (e falo particularmente dos romances), que na verdade não servem para nada, este, para além do óbvio deslumbramento de nos fazer mergulhar num português criativo e por isso surpreendente, serve para algo de muito sério e mais do que nunca necessário: revela-nos a nós mesmos. Helena Matos "Odisseia" de Homero, tradução de Frederico Lourenço (Livros Cotovia). Muito do que lemos está marcado por este texto e muito do que somos prende-nos a Ulisses. A tradução de Frederico Lourenço da "Odisseia" de Homero funciona como o fio que nos leva até um dos textos matriciais da nossa humana condição e traz-nos os versos que intuíamos existirem na "Odisseia" mas que não sabíamos encontrar em português: "E Ulisses, criado por Zeus, contou-lhe os sofrimentos/ que infligira a outros, assim como aqueles que ele próprio/ padecera. E ela deleitou-se ao ouvi-lo, e o sono/ não lhe caiu sobre as pálpebras até que tivesse tudo dito." "Fica Comigo Esta Noite", Inês Pedrosa (Publicações Dom Quixote). "Talvez para morrer eu precise do amor e da família. Mas para acabar de viver, só precido de ti, desta febre azul a que os outros chamam só sexo." - É esta a frase final dum dos contos deste livro. Dum romance gosta-se ou não. Com um livro de contos a relação é mais caprichosa. Criam-se tensões internas que levam a que, como acontece neste livro de Inês Pedrosa, uma vez reaberto, ele mesmo nos conduza a certos contos, como este intitulado "Só Sexo". E claro às páginas cúmplices de "Conversa de café", desconcertantes de "A Cabeleireira" e dolorosamente avassaladoras de "Europa, Plano Nocturno". São histórias que nos chegam através dum fino exercício do monólogo, jogo da verdade do eu consigo mesmo. "Impasses, seguido de Coisas Vistas, Coisa Ouvidas", Fernando Gil, Paulo Tunhas e Danièle Cohn (Publicações Europa-América). Avisam os autores no prefácio que escreveram este livro sem prazer. Os sentimentos que sobressaem deste livro são efectivamente doutra ordem que não a do prazer. Página a página, econtramos sim o espanto e a perplexidade perante aquilo que os autores designam como "uma aparente perda de confiança do Ocidente em si mesmo (ou pelo menos de parte da sua "intelligentzia") (...) e um ressentimento anti-ocidental." Uma leitura perturbante das grelhas com que se filtra o mundo. Imma Turbau "Correcções" Jonathan Franzen Ed. Dom Quixote A família Lambert está a cair aos bocados: o pai alheia-se da realidade, invadido por um Parkinson, e a sua esposa Enid teima em reunir os três filhos, de vidas tão diferentes quanto confusas, para a Consoada que imagina que será a última que irão passar os cinco juntos. O livro apaixonou-me da primeira página, é pesado, mas como imagino que foi pesado no seu momento "Crime e castigo" de Dostoievski, por exemplo; personagens cheias de defeitos, como toda a gente, mas tão bem escritas que não só se fica a gostar delas como no fim chora-se por mais. O pesadelo americano em vésperas de Natal. Dicionário Infernal Collin de Plancy Trad. Ana Hatherly Ed. Cavalo de Ferro Livro editado pela primeira vez em 1818 e reeditado em incontáveis ocasiões, muitas delas clandestinas, esta pequena jóia vai além do que seria um dicionário de diabos e bestas híbridas e variadas; nele encontramos, ordenados alfabeticamente, os nomes, os feitos e as histórias daqueles que moram nas zonas mais tenebrosas do Averno, e, ainda pior, nas gretas ocultas dos homens. Belissimamente ilustrado com reproduções de gravuras do início do século XIX, esta obra deliciosamente livre de preconceitos faz-nos reflectir sobre as nossas taras e as do mundo, e ao mesmo tempo diverte-nos imenso. CONTOS COMPLETOS, VOL I Vladimir Nabokov Ed. Teorema Ler contos é condensar o prazer da leitura em doses de emergência; nesse sentido, este livro é tão indispensável em qualquer casa como as caixas de aspirina e os metros de gaze enrolada, um remédio para a alma quando precisa de se curar. Nabokov desvenda-nos o seu mundo de uma forma subtil e quase oculta, e transforma estes 39 contos em 39 janelas onde os olhos repousam ao ler sobre a nostalgia da adolescência, das lendas dos bosques, da lentidão do tempo que não há-de voltar... mas sempre há qualquer coisa ali, escondida, que nos prende a respiração. E quando aparece, é o milagre da literatura e a razão pela qual sempre lemos. João Magueijo 1. "Somebody Else: Arthur Rimbaud in Africa 1880-91" Charles Nicholl (University of Chicago Press) Uma biografia de Rimbaud, não do grande poeta adolescente que todos adoram e ninguém compreendeu enquanto vivo, mas do adulto, traficante de armas em África, que nunca mais escreveu um único poema, com uma deliciosa total falta de lógica que ainda hoje ninguém compreende. O título provém de um dos seus poemas ("J'est an autre") que se poderia traduzir em português, Eu é um outro. Todos nós são um outro. 2. "An artist of the floating world", Kazuo Ishiguro (Vintage) Detesto dizer que gostei de um livro por causa da maneira como está escrito (que intelectual, não é ?) mas neste caso tem que ser. Mas há muito mais. É um livro sobre a facilidade com que o indivíduo pode ser corrompido pela História, neste caso o Japão Imperial, mas podia ser a Alemanha de Hitler, ou Portugal fascista, ou mesmo os Estados Unidos de hoje. Todos nós às vezes somos preguiçosos, por conveniência pessoal ou até porque ser inconformista faz mal ao coração. Nos momentos errados isso pode ser criminoso. 3. "30 Days in Sydney : A Wildly Distorted Account" Peter Carey Bloomsbury O canguru cultural que resulta de um país ter começado como uma colónia penal (os criminosos escolhiam entre a Austrália e a prisão perpétua), seguido de um quase bem sucedido genocídio da raça indígena, seguido de vagas de emigração asiática, grega, italiana, etc., etc., seguido de pretensões a Estado-providência e paraíso de surfistas, seguido de etc., etc., etc.. Claro que há cicatrizes por todo o lado, o assunto deste livro. O facto de o autor estar cada vez mais ordinário face aos políticos adiciona especiarias a um já bastante apimentado relato. Rui Nunes No país de "sempre os mesmos", há os "outros": os que escrevem contra a omissão, essa forma subtil e eficaz de censura; os que vivem indiferentes à pornografia desolada da propaganda. São deles os livros que para mim dizem a verdade da literatura: "À Procura da Cidade Sob a Luz Artificial", de Luís Cláudio Ribeiro (Black Sun); "Lá em Cima, na Montanha", de António Modesto Navarro; e "Nuez", de Rui Baião e Paulo Nozolino (Frenesi). Li outros livros, com prazer, mas esses não precisam de chamada de atenção. Fernando Campos Assoberbado com a escrita do meu último romance, cujo protagonista é o grande escritor do século XVII, clássico das línguas portuguesa e castelhana, D. Francisco Manuel de Melo, é bem de ver que as minhas leituras se limitaram, melhor, se ilimitaram a conhecer as obras do maior polígrafo daquele século ou outras que com ele se relacionam: 1. Francisco Manuel de Melo, "Carta de Guia de Casados", edição de Camilo Castelo Branco, que dele fala no prefácio. 2. Francisco Manuel de Melo, "Guerra de Cataluña", edição de Joan Estruch Tobella, Clássicos Castalia, Madrid, 1996. 3. Jean Colomès, "Le Dialogue 'Hospital das Letras' de D. Francisco Manuel de Melo", Paris, 1970. OUTROS TÍTULOS EM MIL FOLHAS Os melhores de 2003

Os álbuns de BD do ano

O despertar dos heróis

Escolhas 2003 - infanto-juvenil

PLANO GERAL

João Magueijo em Portugal

Alexandria chega ao século XXI

FICÇÃO

Dezoito anos debaixo de terra

Antes do bem e do mal

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Um anjo de vidro que descia pelas paredes

O nascimento do circo

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