As tecnologias ao serviço da saúde

10-06-2003
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Telemedicina foi tema de debate na Fundação Gulbenkian, em Lisboa

As Tecnologias ao Serviço da Saúde

Por ISABEL GORJÃO SANTOS

Segunda-feira, 19 de Maio de 2003

A forma como as tecnologias podem melhorar a relação dos cidadãos com o sistema de saúde e a reestruturação necessária para que a telemedicina passe a ser uma prática corrente foram os temas principais de uma conferência realizada, na passada semana, na Fundação Gulbenkian, em Lisboa. O seminário, com o título E-Saúde, foi organizado pela Associação para a Promoção e Desenvolvimento da Sociedade da Informação (APDSI) e pela Associação para o Desenvolvimento da Telemedicina (ADT). Segundo a organização, esta conferência foi apenas o primeiro passo para um conjunto de diversas iniciativas na área da telemedicina.

A forma como as tecnologias de informação e comunicação (TIC) poderão contribuir para melhorar o sistema de saúde será o tema de um estudo a concretizar na sequência desta conferência. José Dias Coelho, presidente da APDSI, explicou que esse foi um dos propósitos do seminário. Uma equipa de 15 pessoas foi já constituída e o objectivo do documento será "dar um conjunto de pistas sobre a área da telemedicina e fazer comparações com projectos internacionais". Para já, "a conferência mostrou que a telemedicina em Portugal é mais significativa do que se costuma pensar, contribuindo para o melhoramento dos cuidados de saúde prestados e para a diminuição das filas de espera".

Adão Silva, secretário de Estado adjunto do ministro da Saúde, considerou, durante a conferência, que a telemedicina ocupa um espaço cada vez mais importante mas não deixou de referir alguns dos entraves ao desenvolvimento de novos projectos. Afinal, "todos os governantes recém-chegados ficam fascinados com o tema mas acabam por se ver confrontados com os problemas do dia-a-dia" - problemas que poderão encontrar resposta "na legislação e nas boas práticas", tendo aí as TIC "um papel muito importante".

Como co-organizadora da conferência, a Associação para o Desenvolvimento da Telemedicina (ADT) trouxe também a debate as dificuldades com que se têm deparado os projectos de telemedicina. João Nunes Abreu, presidente da Associação (ver entrevista na pág. ao lado), referiu que "o caminho da telemedicina tem sido muito difícil, pois não tem havido apoio institucional". Por isso, "a ADT pretende apoiar as várias iniciativas nesta área".

A HP Portugal foi uma das empresas da área tecnológica a participar na conferência E-Saúde, tendo explicado, a uma audiência sobretudo composta por médicos, como funciona o seu programa e-DOCtor. Álvaro Gomez Meana, da HP Portugal, considerou que há muitos aspectos em que as tecnologias podem ajudar a simplificar os processos e a melhorar o desempenho dos médicos. A gravação e o armazenamento da informação relativa aos doentes - dos diagnósticos aos exames ou sinais vitais - são apenas alguns dos exemplos do que o e-DOCtor permite fazer.

"Há muita informação em papel que tem que ser transferida para formato digital e é exactamente esse o objectivo do e-DOCtor". Sem recorrer a uma explicação demasiado técnica ou pormenorizada, Álvaro Meana referiu que a solução da HP proporciona aos hospitais, clínicas ou centros de saúde uma ferramenta para disponibilizar a informação onde quer que o utilizador necessite dela.

Raul Junqueiro, ex-presidente da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC) e consultor na área das TIC, considerou que muitas das respostas para os problemas do sector da saúde estão no aumento da eficiência, da eficácia e da produtividade. "A reforma da Saúde tem que passar por um forte investimento em tecnologias de informação e comunicação", disse, sem deixar de referir que as principais vantagens da telemedicina - ou, como se lhe referiu, da saúde electrónica - são a redução das despesas e o aumento da transparência e da eficiência.

"É necessário investir fortemente na forma como os serviços são prestados", considerou Raul Junqueiro. Afinal, a disponibilização de acessos de banda larga e uma reorganização assente nas TIC "poderão trazer uma eficácia acrescida aos serviços de saúde". Esse é o motivo que leva Raul Junqueiro a considerar que "webizar" as diferentes unidades e a generalidade do sistema, dotar os profissionais de saúde das ferramentas necessárias e motivá-los para esta mudança é a forma de "responder à necessidade de se fazer mais e melhor no sector da saúde".

Para além das associações, das empresas ou mesmo das perspectivas governamentais, o seminário E-Saúde contou com a participação de quem trabalha diariamente com os projectos de telemedicina. É o caso de Madalena Teles de Araújo, do serviço de neurologia do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, que explicou como funciona a teleconsulta nesta especialidade. Trata-se de uma consulta efectuada através de um sistema de videoconferência, "o qual permite uma maior acessibilidade e qualidade dos serviços prestados". Muitas vezes, explica Madalena Araújo, é essa teleconsulta que possibilita que os cuidados médicos necessários sejam prestados atempadamente.

Ana Rosa Fernandes, presidente do conselho de administração da Administração Regional de Saúde (ARS) do Alentejo, referiu-se à prática da telemedicina naquela região do país e, em particular, à evolução que se tem verificado nos últimos meses. Se, em 2002, foram efectuadas cerca de 2000 teleconsultas nos hospitais do Alentejo, neste ano, o número deverá ser bastante superior, pois, só no primeiro trimestre de 2003, já foram realizadas cerca de 1200 teleconsultas.

A diminuição das listas de espera, a redução da ansiedade e a diminuição dos incómodos para os doentes - bem como o ganho em rapidez e a redução dos gastos em transportes - são algumas das razões por que Ana Rosa Fernandes considera que se deverá continuar a investir na telemedicina: "Dizem que o tempo muda as coisas mas, na realidade, somos nós que temos que as mudar."

"Há alguém que possa duvidar destas tecnologias e do apoio que estas podem dar aos doentes?", perguntou António Carrilho, do Ministério da Saúde, que apelou às entidades organizadoras da conferência, a ADT e a APDSI, "para se mobilizarem e seguirem em frente com este desafio".

Também António Carrilho destacou as principais vantagens do recurso à telemedicina, como um melhor acesso aos cuidados de saúde e à qualidade do atendimento, a diminuição dos custos, por outro lado, e o facto de se minimizar o isolamento a que estão sujeitos alguns profissionais. "A telemedicina pode até ser um bom motivo para fixar médicos no interior do país", disse Carrilho, para quem as novas TIC tornam mais aliciantes as condições de trabalho dos médicos.

"Não é o doente que deve transportar a bola", disse Manuel Delgado, presidente da Associação dos Administradores Hospitalares e administrador do Hospital de Santo António dos Capuchos, em Lisboa, referindo o facto de as tecnologias deverem ser aproveitadas para melhorar a forma como a informação circula nas instituições de saúde. "Mas a informação não deve circular de forma aberta, devendo-se atender às questões de segurança". A informação médica "deve ser fiável e actualizada, para efeitos de acompanhamento do doente, e este não deverá ser obrigado a circular pelos hospitais de papéis na mão", referiu Manuel Delgado.

Luís Cunha Ribeiro, presidente do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), não deixou de se mostrar preocupado com algumas das questões colocadas pela telemedicina. Grande parte dessas questões estarão relacionadas com a mudança da própria relação entre o médico e o doente: "Será que o doente confia no monitor? Será que queremos uma sociedade de tecnicização dos afectos? Como é que vamos tratar os mais idosos?", perguntou o presidente do INEM, para quem a vertente humana da telemedicina "tem também que ser abordada, de uma forma clara e inequívoca".

Telemedicina foi tema de debate na Fundação Gulbenkian, em Lisboa

As Tecnologias ao Serviço da Saúde

Por ISABEL GORJÃO SANTOS

Segunda-feira, 19 de Maio de 2003

A forma como as tecnologias podem melhorar a relação dos cidadãos com o sistema de saúde e a reestruturação necessária para que a telemedicina passe a ser uma prática corrente foram os temas principais de uma conferência realizada, na passada semana, na Fundação Gulbenkian, em Lisboa. O seminário, com o título E-Saúde, foi organizado pela Associação para a Promoção e Desenvolvimento da Sociedade da Informação (APDSI) e pela Associação para o Desenvolvimento da Telemedicina (ADT). Segundo a organização, esta conferência foi apenas o primeiro passo para um conjunto de diversas iniciativas na área da telemedicina.

A forma como as tecnologias de informação e comunicação (TIC) poderão contribuir para melhorar o sistema de saúde será o tema de um estudo a concretizar na sequência desta conferência. José Dias Coelho, presidente da APDSI, explicou que esse foi um dos propósitos do seminário. Uma equipa de 15 pessoas foi já constituída e o objectivo do documento será "dar um conjunto de pistas sobre a área da telemedicina e fazer comparações com projectos internacionais". Para já, "a conferência mostrou que a telemedicina em Portugal é mais significativa do que se costuma pensar, contribuindo para o melhoramento dos cuidados de saúde prestados e para a diminuição das filas de espera".

Adão Silva, secretário de Estado adjunto do ministro da Saúde, considerou, durante a conferência, que a telemedicina ocupa um espaço cada vez mais importante mas não deixou de referir alguns dos entraves ao desenvolvimento de novos projectos. Afinal, "todos os governantes recém-chegados ficam fascinados com o tema mas acabam por se ver confrontados com os problemas do dia-a-dia" - problemas que poderão encontrar resposta "na legislação e nas boas práticas", tendo aí as TIC "um papel muito importante".

Como co-organizadora da conferência, a Associação para o Desenvolvimento da Telemedicina (ADT) trouxe também a debate as dificuldades com que se têm deparado os projectos de telemedicina. João Nunes Abreu, presidente da Associação (ver entrevista na pág. ao lado), referiu que "o caminho da telemedicina tem sido muito difícil, pois não tem havido apoio institucional". Por isso, "a ADT pretende apoiar as várias iniciativas nesta área".

A HP Portugal foi uma das empresas da área tecnológica a participar na conferência E-Saúde, tendo explicado, a uma audiência sobretudo composta por médicos, como funciona o seu programa e-DOCtor. Álvaro Gomez Meana, da HP Portugal, considerou que há muitos aspectos em que as tecnologias podem ajudar a simplificar os processos e a melhorar o desempenho dos médicos. A gravação e o armazenamento da informação relativa aos doentes - dos diagnósticos aos exames ou sinais vitais - são apenas alguns dos exemplos do que o e-DOCtor permite fazer.

"Há muita informação em papel que tem que ser transferida para formato digital e é exactamente esse o objectivo do e-DOCtor". Sem recorrer a uma explicação demasiado técnica ou pormenorizada, Álvaro Meana referiu que a solução da HP proporciona aos hospitais, clínicas ou centros de saúde uma ferramenta para disponibilizar a informação onde quer que o utilizador necessite dela.

Raul Junqueiro, ex-presidente da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC) e consultor na área das TIC, considerou que muitas das respostas para os problemas do sector da saúde estão no aumento da eficiência, da eficácia e da produtividade. "A reforma da Saúde tem que passar por um forte investimento em tecnologias de informação e comunicação", disse, sem deixar de referir que as principais vantagens da telemedicina - ou, como se lhe referiu, da saúde electrónica - são a redução das despesas e o aumento da transparência e da eficiência.

"É necessário investir fortemente na forma como os serviços são prestados", considerou Raul Junqueiro. Afinal, a disponibilização de acessos de banda larga e uma reorganização assente nas TIC "poderão trazer uma eficácia acrescida aos serviços de saúde". Esse é o motivo que leva Raul Junqueiro a considerar que "webizar" as diferentes unidades e a generalidade do sistema, dotar os profissionais de saúde das ferramentas necessárias e motivá-los para esta mudança é a forma de "responder à necessidade de se fazer mais e melhor no sector da saúde".

Para além das associações, das empresas ou mesmo das perspectivas governamentais, o seminário E-Saúde contou com a participação de quem trabalha diariamente com os projectos de telemedicina. É o caso de Madalena Teles de Araújo, do serviço de neurologia do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, que explicou como funciona a teleconsulta nesta especialidade. Trata-se de uma consulta efectuada através de um sistema de videoconferência, "o qual permite uma maior acessibilidade e qualidade dos serviços prestados". Muitas vezes, explica Madalena Araújo, é essa teleconsulta que possibilita que os cuidados médicos necessários sejam prestados atempadamente.

Ana Rosa Fernandes, presidente do conselho de administração da Administração Regional de Saúde (ARS) do Alentejo, referiu-se à prática da telemedicina naquela região do país e, em particular, à evolução que se tem verificado nos últimos meses. Se, em 2002, foram efectuadas cerca de 2000 teleconsultas nos hospitais do Alentejo, neste ano, o número deverá ser bastante superior, pois, só no primeiro trimestre de 2003, já foram realizadas cerca de 1200 teleconsultas.

A diminuição das listas de espera, a redução da ansiedade e a diminuição dos incómodos para os doentes - bem como o ganho em rapidez e a redução dos gastos em transportes - são algumas das razões por que Ana Rosa Fernandes considera que se deverá continuar a investir na telemedicina: "Dizem que o tempo muda as coisas mas, na realidade, somos nós que temos que as mudar."

"Há alguém que possa duvidar destas tecnologias e do apoio que estas podem dar aos doentes?", perguntou António Carrilho, do Ministério da Saúde, que apelou às entidades organizadoras da conferência, a ADT e a APDSI, "para se mobilizarem e seguirem em frente com este desafio".

Também António Carrilho destacou as principais vantagens do recurso à telemedicina, como um melhor acesso aos cuidados de saúde e à qualidade do atendimento, a diminuição dos custos, por outro lado, e o facto de se minimizar o isolamento a que estão sujeitos alguns profissionais. "A telemedicina pode até ser um bom motivo para fixar médicos no interior do país", disse Carrilho, para quem as novas TIC tornam mais aliciantes as condições de trabalho dos médicos.

"Não é o doente que deve transportar a bola", disse Manuel Delgado, presidente da Associação dos Administradores Hospitalares e administrador do Hospital de Santo António dos Capuchos, em Lisboa, referindo o facto de as tecnologias deverem ser aproveitadas para melhorar a forma como a informação circula nas instituições de saúde. "Mas a informação não deve circular de forma aberta, devendo-se atender às questões de segurança". A informação médica "deve ser fiável e actualizada, para efeitos de acompanhamento do doente, e este não deverá ser obrigado a circular pelos hospitais de papéis na mão", referiu Manuel Delgado.

Luís Cunha Ribeiro, presidente do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), não deixou de se mostrar preocupado com algumas das questões colocadas pela telemedicina. Grande parte dessas questões estarão relacionadas com a mudança da própria relação entre o médico e o doente: "Será que o doente confia no monitor? Será que queremos uma sociedade de tecnicização dos afectos? Como é que vamos tratar os mais idosos?", perguntou o presidente do INEM, para quem a vertente humana da telemedicina "tem também que ser abordada, de uma forma clara e inequívoca".

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