EDITORIAL
A Florida da Europa?
Por JOSÉ MANUEL FERNANDES
Terça-feira, 9 de Julho de 2002 A discussão é recorrente, as conclusões são quase sempre decepcionantes: No futuro, o que vai ser Portugal? Qual a nossa especialização? O que é podemos fazer melhor do que os outros? Como vamos conseguir, sem ajudas externas, crescer mais depressa? As previsões do Banco de Portugal divulgadas a semana passada deviam ajudar-nos a recolocar neste ponto o centro das discussões. A verdade, nua e crua, tal como a circunspecta e prudente instituição a desenhou, é que este ano e no próximo - tal como no ano passado e no anterior - vamos empobrecer por comparação com os nossos vizinhos e, de uma forma geral, com a média da União Europeia. Quando era o contrário o que devia suceder (lembram-se dos cartazes eleitorais do PSD?). Na verdade, nos últimos anos, mesmo nos de euforia, e para utilizar uma expressão que ouvi a um economista, temos andado a fazer vida de rico empobrecendo alegremente. Por outras palavras: endividando-nos. O modelo de desenvolvimento que vigorou assentou no aumento do consumo público e privado e no... cimento. Construíram-se autoestradas e muitas casas, mas onde estão as novas indústrias? E quantas foram remodeladas e modernizadas? Que marcas portuguesas se afirmaram nos mercados externos? E que investimentos estrangeiros significativos conseguimos captar para além da Auto-Europa, em Palmela? O que se passou com boa parte dos famosos "clusters" de especialização do senhor Porter, que nos haveriam de guiar por novos caminhos de desenvolvimento? Tragicamente, quando olhamos para trás, não encontramos boas respostas para estas perguntas. Nem quando imaginamos o que temos pela frente. Por isso, quando hoje os deputados discutirem o "Estado na Nação", era bom que reflectissem um pouco sobre esta realidade: uma realidade que nos coloca uma parede pela frente e nos deixa encuralados. Ora nós estamos onde estamos por razões antigas - já em 1900 éramos o povo mais iletrado e menos preparado da Europa... -, por causa das nossas idiossincrasias - padecemos de crónica falta de iniciativa, somos avessos ao risco, invejamos quem tem sucesso e adoramos um Estado paternalista -, e por erros recentes. Para o aperto que vivemos há dois factores que se conjugam de forma poderosa. O primeiro é o peso dos gastos públicos: nos últimos 25 anos, o Estado, que em 1974 consumia menos de um quinto da riqueza gerada no país, engordou e passou a consumir quase metade. Mas sem superar as crónicas ineficiências. Hoje, por exemplo, "investimos" em percentagem do PIB o mesmo em saúde ou em educação do que países que, com o mesmo dinheiro, obtêm resultados que são duas vezes melhores, de acordo com critérios internacionais de aferição. O que quer dizer que o nosso desperdício é enorme. O segundo e mais forte estrangulamento é a nossa baixa produtividade. Ela tem ora a ver com a própria ineficiência do Estado, sobretudo com a sua burocracia e o mau funcionamento da Justiça, ora com a má organização das empresas e falta de novos investimentos tecnológicos, ora ainda com taxas de absentismo elevadíssimas, muita falta de brio no trabalho e baixos níveis de formação no mercado laboral. Quer isto dizer que, se quisermos dar a volta por cima, temos de conseguir reduzir o peso do Estado na economia e, ao mesmo tempo, criar condições para que os agentes económicos actuem com mais liberdade, mais responsabilidade e maior capacidade de assumir riscos. Por outras palavras: o Estado tem de libertar recursos, que gasta mal, permitindo que estes regressem aos circuitos económicos de criação de riqueza. Os empresários têm de romper com atavismos seculares. E os trabalhadores têm de entender que vivem numa economia em permanente mudança e cada vez mais exigente. Não sendo eu dos que acreditam que cabe ao Estado "empurrar" os empresários para os famosos "clusters" ou guiá-los pela via do sucesso - acredito antes nas virtudes das sociedades e mercados abertos -, parece-me absolutamente crucial cumprir metas de disciplina orçamental, mesmo que dolorosas, e flexibilizar as leis laborais, mesmo que isso seja polémico (mais do que criticar a alegada "arrogância" dos empresários alemães, devíamos ouvi-los: é que, no essencial, eles têm razão). Acho isso muito mais importante para abrir espaço ao investimento e à criação saudável de riqueza, do que insistir na prioridade às obras públicas e na "política do cimento" como solução milagrosa de todos os males. Veja-se a Irlanda, que tem apenas uma mísera autoestrada mas níveis de crescimento "estratosféricos" quando comparados com os nossos. A receita que aplicou, no quadro de um pacto de regime, data dos anos 80 e permitiu-lhe pôr ordem nas contas públicas e abrir o seu mercado laboral. Foi assim que conseguiu beneficiar de ser um país de língua inglesa e de ter melhores níveis de educação, pelo que os resultados estão à vista. Nós, que desperdiçámos todos estes anos sem fazer qualquer real esforço para arrumarmos a casa, e que preferimos deliciar-nos com o "fontismo" serôdio deste ou daquele Governo, estamos em vias de nos transformar, na melhor das hipóteses, numa espécie de Flórida da Europa rasca, refúgio solarengo de reformados remediados a que serviremos alegremente as nossas sardinhas assadas e levaremos, num tiro, até ao Algarve por uma autoestrada a brilhar de nova. Por mim, gostava que o meu país tivesse outro futuro. E que hoje ouvisse alguém falar dele em São Bento. P.S. - Vital Moreira, colunista e por certo leitor do PÚBLICO, deve seguramente ter reparado que os editoriais do jornal são sempre assinados e, como se escreve no Livro de Estilo, reflectem "a opinião do autor sobre a matéria em causa". São, como todo o jornal, um espaço plural e personalizado, não uma coluna de fracção ou de partido. É uma opção matricial do PÚBLICO que permite aí se defendam não apenas consensos frouxos, mas opiniões fortes, mesmo que às vezes minoritárias ou "politicamente incorrectas". O nosso Estatuto Editorial também, no seu primeiro ponto, estabelece que o PÚBLICO não tem "qualquer dependência ideológica". É um espaço de liberdade. Talvez muitos preferissem que assim não fosse, mas é. OUTROS TÍTULOS EM DESTAQUE Uma nação em estado laranja
Sampaio preocupado com tribunais militares
EDITORIAL A Florida da Europa?
O país visto de São Bento
PS quer explicações sobre obras públicas
O regresso dos pacotes da era cavaquista
Governo promete aos municípios não suspender a lei das finanças locais
Ímpeto de reformas justifica problemas com a Constituição
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EDITORIAL
A Florida da Europa?
Por JOSÉ MANUEL FERNANDES
Terça-feira, 9 de Julho de 2002 A discussão é recorrente, as conclusões são quase sempre decepcionantes: No futuro, o que vai ser Portugal? Qual a nossa especialização? O que é podemos fazer melhor do que os outros? Como vamos conseguir, sem ajudas externas, crescer mais depressa? As previsões do Banco de Portugal divulgadas a semana passada deviam ajudar-nos a recolocar neste ponto o centro das discussões. A verdade, nua e crua, tal como a circunspecta e prudente instituição a desenhou, é que este ano e no próximo - tal como no ano passado e no anterior - vamos empobrecer por comparação com os nossos vizinhos e, de uma forma geral, com a média da União Europeia. Quando era o contrário o que devia suceder (lembram-se dos cartazes eleitorais do PSD?). Na verdade, nos últimos anos, mesmo nos de euforia, e para utilizar uma expressão que ouvi a um economista, temos andado a fazer vida de rico empobrecendo alegremente. Por outras palavras: endividando-nos. O modelo de desenvolvimento que vigorou assentou no aumento do consumo público e privado e no... cimento. Construíram-se autoestradas e muitas casas, mas onde estão as novas indústrias? E quantas foram remodeladas e modernizadas? Que marcas portuguesas se afirmaram nos mercados externos? E que investimentos estrangeiros significativos conseguimos captar para além da Auto-Europa, em Palmela? O que se passou com boa parte dos famosos "clusters" de especialização do senhor Porter, que nos haveriam de guiar por novos caminhos de desenvolvimento? Tragicamente, quando olhamos para trás, não encontramos boas respostas para estas perguntas. Nem quando imaginamos o que temos pela frente. Por isso, quando hoje os deputados discutirem o "Estado na Nação", era bom que reflectissem um pouco sobre esta realidade: uma realidade que nos coloca uma parede pela frente e nos deixa encuralados. Ora nós estamos onde estamos por razões antigas - já em 1900 éramos o povo mais iletrado e menos preparado da Europa... -, por causa das nossas idiossincrasias - padecemos de crónica falta de iniciativa, somos avessos ao risco, invejamos quem tem sucesso e adoramos um Estado paternalista -, e por erros recentes. Para o aperto que vivemos há dois factores que se conjugam de forma poderosa. O primeiro é o peso dos gastos públicos: nos últimos 25 anos, o Estado, que em 1974 consumia menos de um quinto da riqueza gerada no país, engordou e passou a consumir quase metade. Mas sem superar as crónicas ineficiências. Hoje, por exemplo, "investimos" em percentagem do PIB o mesmo em saúde ou em educação do que países que, com o mesmo dinheiro, obtêm resultados que são duas vezes melhores, de acordo com critérios internacionais de aferição. O que quer dizer que o nosso desperdício é enorme. O segundo e mais forte estrangulamento é a nossa baixa produtividade. Ela tem ora a ver com a própria ineficiência do Estado, sobretudo com a sua burocracia e o mau funcionamento da Justiça, ora com a má organização das empresas e falta de novos investimentos tecnológicos, ora ainda com taxas de absentismo elevadíssimas, muita falta de brio no trabalho e baixos níveis de formação no mercado laboral. Quer isto dizer que, se quisermos dar a volta por cima, temos de conseguir reduzir o peso do Estado na economia e, ao mesmo tempo, criar condições para que os agentes económicos actuem com mais liberdade, mais responsabilidade e maior capacidade de assumir riscos. Por outras palavras: o Estado tem de libertar recursos, que gasta mal, permitindo que estes regressem aos circuitos económicos de criação de riqueza. Os empresários têm de romper com atavismos seculares. E os trabalhadores têm de entender que vivem numa economia em permanente mudança e cada vez mais exigente. Não sendo eu dos que acreditam que cabe ao Estado "empurrar" os empresários para os famosos "clusters" ou guiá-los pela via do sucesso - acredito antes nas virtudes das sociedades e mercados abertos -, parece-me absolutamente crucial cumprir metas de disciplina orçamental, mesmo que dolorosas, e flexibilizar as leis laborais, mesmo que isso seja polémico (mais do que criticar a alegada "arrogância" dos empresários alemães, devíamos ouvi-los: é que, no essencial, eles têm razão). Acho isso muito mais importante para abrir espaço ao investimento e à criação saudável de riqueza, do que insistir na prioridade às obras públicas e na "política do cimento" como solução milagrosa de todos os males. Veja-se a Irlanda, que tem apenas uma mísera autoestrada mas níveis de crescimento "estratosféricos" quando comparados com os nossos. A receita que aplicou, no quadro de um pacto de regime, data dos anos 80 e permitiu-lhe pôr ordem nas contas públicas e abrir o seu mercado laboral. Foi assim que conseguiu beneficiar de ser um país de língua inglesa e de ter melhores níveis de educação, pelo que os resultados estão à vista. Nós, que desperdiçámos todos estes anos sem fazer qualquer real esforço para arrumarmos a casa, e que preferimos deliciar-nos com o "fontismo" serôdio deste ou daquele Governo, estamos em vias de nos transformar, na melhor das hipóteses, numa espécie de Flórida da Europa rasca, refúgio solarengo de reformados remediados a que serviremos alegremente as nossas sardinhas assadas e levaremos, num tiro, até ao Algarve por uma autoestrada a brilhar de nova. Por mim, gostava que o meu país tivesse outro futuro. E que hoje ouvisse alguém falar dele em São Bento. P.S. - Vital Moreira, colunista e por certo leitor do PÚBLICO, deve seguramente ter reparado que os editoriais do jornal são sempre assinados e, como se escreve no Livro de Estilo, reflectem "a opinião do autor sobre a matéria em causa". São, como todo o jornal, um espaço plural e personalizado, não uma coluna de fracção ou de partido. É uma opção matricial do PÚBLICO que permite aí se defendam não apenas consensos frouxos, mas opiniões fortes, mesmo que às vezes minoritárias ou "politicamente incorrectas". O nosso Estatuto Editorial também, no seu primeiro ponto, estabelece que o PÚBLICO não tem "qualquer dependência ideológica". É um espaço de liberdade. Talvez muitos preferissem que assim não fosse, mas é. OUTROS TÍTULOS EM DESTAQUE Uma nação em estado laranja
Sampaio preocupado com tribunais militares
EDITORIAL A Florida da Europa?
O país visto de São Bento
PS quer explicações sobre obras públicas
O regresso dos pacotes da era cavaquista
Governo promete aos municípios não suspender a lei das finanças locais
Ímpeto de reformas justifica problemas com a Constituição