Boas Intenções: museumswohnung hellersdorf

21-01-2012
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um bocadinho de berlim por dia nem sabe o bem que lhe fazia IIIMuitas pessoas me perguntam se vale a pena o Museu da DDR, um museu privado sobre a vida quotidiana da República Democrática Alemã que abriu no centro e onde podem sentar-se dentro de um Trabi, desvendar alguns detalhes do dia a dia deste país desaparecido, perder-se no kitsch dos anos 70 ou até descobrir um pouco sobre a oposição ao regime e a espionagem massiva do cidadão comum. E eu digo que sim: apesar do museu ser bastante pequeno e superficial, mais para o caro e estar sempre cheio, pode ser uma boa opção para quem que ver a DDR em versão compacta.Mas a versão ideal é outra e implica algumas visitas políticas mais impressionantes (lá chegaremos), um pequeno mas exemplar percurso arquitetónico com paragem para admirar o bigode de José Estaline (também lá iremos) e um saltinho à casa de que vos vou falar hoje, a Museumswohnung Hellersdorf, que fica no extremo da cidade.Quem andar por Berlim alguns dias vai aperceber-se certamente de que a maioria dos prédios é relativamente baixa e que há muitos de construção antiga, tetos altos e fachadas trabalhadas. No centro de Berlim, os arranha céus podem contar-se pelos dedos. A cidade tem muito espaço mas pouca luz, o que torna a construção em altura francamente desnecessária. Mas saindo do centro, e especialmente saindo do centro para leste, começam a encontrar muitos prédios construídos em bloco para responder às necessidades agudas do pós guerra. Na sua grande maioria foram construídos em placa, pelo que são genericamente referidos como Plattenbau, um termo que tal como Neubau (construção nova) é quase um insulto numa cidade apaixonada pelas casas antigas. Ah, Berlim, sempre à procura do seu passado glorioso...O apartamento que vamos ver a Hellersdorf demorava exatamente dezoito horas a montar e foi mantido intacto e até algo desarrumado, como se os dons estivessem quase a voltar (alguns móveis foram no entanto recuperados de outras casas e o papel de parede, aplicado diretamente por cima do betão, também). Tem duas assoalhadas, pelo que podia ser atribuído ou a um casal com uma criança ou a um profissional que precisasse de um escritório em casa (um professor, por exemplo). A casa era muito barata - custava 109 marcos por mês para um salário médio nacional de 900 marcos, sendo que a renda inclui água, eletricidade e aquecimento e que era regra os dois membros do casal trabalharem (não comecem a fazer a conversão, que acho que este salário médio continua a ser superior ao salário mínimo português não sei quantos anos depois). A comida também era muito barata.No entanto, objetos de luxo como um telefone, um gravador ou uma televisão eram difíceis de arranjar e caros e o mesmo se aplica a móveis, candeeiros e outros elementos decorativos - a televisão desta sala custava 6000 marcos e este fabuloso armário de parede não ficava por menos de 4000.A decoração propriamente dita não é muito diferente do que eram os anos 70 do outro lado da fronteira (nalguns casos as paredes de betão foram deixadas à vista para vermos a construção, não ficavam assim):Mas há detalhes muito próprios nos brinquedos das crianças, nas marcas e no design dos produtos (as especiarias em francês?) e embalagens (face à ausência de concorrência, Autoclismo 930 é um nome tão bom como outro qualquer) ou na cor originalíssima deste papel higiénico reciclado. Já o espelho reflete a intrépida repórter com o mesmo aspeto que tinha do outro lado da fronteira, o que demonstra bem as dificuldades da criação do homem novo no socialismo:No entanto para mim a parte mais interessante foi quando comecei a abrir armários e a investigar o seu conteúdo. Havia jogos lúdicos, discos da Amiga, a editora discográfica da DDR e por fim muitos livros:Eu, com a sorte para pescar as coisas certas que me caracteriza, abri ao calhas dois muito bem escolhidos. Num deles, "A Nossa Família", um capítulo versava sobre o direito à separação entre o sexo como atividade de realização humana e a sua função biológica e detalhava de seguida a importância fundamental do orgasmo feminino para a vida do casal, sugerindo estratégias para o atingir caso falhasse. Este era um tema fundamental na educação sexual da República Democrática Alemã (tenho de ir ver se cheguei há uns anos a falar-vos de um excelente documentário que vi no Arte) e até hoje as estatísticas mostram as mulheres de Leste mais satisfeitas com a sua vida sexual do que as suas concidadãs da Alemanha Ocidental.Outro livro que decidi abrir foi o "Dicionário Político" que, com a tal sorte, se abriu logo na letra O: oposição. Dificilmente poderia ter escolhido uma entrada mais simbólica, mas a anterior afinal ainda era melhor - duas páginas inteiras sobre um conceito central da ciência política, o oportunismo, definido como uma corrente burguesa no movimento dos trabalhadores. Também abri uma agenda, que assinalava num só dia a a assinatura dos Acordos de Potsdam e o aniversário da morte de Diderot e Engels.A casa fica na Hellersdorferstr. 179 (U5 - Cottbusser Platz) e está aberta todos os domingos das duas às quatro, mas também se pode telefonar com dois ou três dias de antecedência para marcar uma visita noutra hora. O número direto do senhor é o 0151 1611 4447, mas o senhor só fala alemão - claro que podem visitar a casa mesmo que não percebam alemão, mas as explicações e histórias dele valem mesmo a pena. A visita é gratuita.


um bocadinho de berlim por dia nem sabe o bem que lhe fazia IIIMuitas pessoas me perguntam se vale a pena o Museu da DDR, um museu privado sobre a vida quotidiana da República Democrática Alemã que abriu no centro e onde podem sentar-se dentro de um Trabi, desvendar alguns detalhes do dia a dia deste país desaparecido, perder-se no kitsch dos anos 70 ou até descobrir um pouco sobre a oposição ao regime e a espionagem massiva do cidadão comum. E eu digo que sim: apesar do museu ser bastante pequeno e superficial, mais para o caro e estar sempre cheio, pode ser uma boa opção para quem que ver a DDR em versão compacta.Mas a versão ideal é outra e implica algumas visitas políticas mais impressionantes (lá chegaremos), um pequeno mas exemplar percurso arquitetónico com paragem para admirar o bigode de José Estaline (também lá iremos) e um saltinho à casa de que vos vou falar hoje, a Museumswohnung Hellersdorf, que fica no extremo da cidade.Quem andar por Berlim alguns dias vai aperceber-se certamente de que a maioria dos prédios é relativamente baixa e que há muitos de construção antiga, tetos altos e fachadas trabalhadas. No centro de Berlim, os arranha céus podem contar-se pelos dedos. A cidade tem muito espaço mas pouca luz, o que torna a construção em altura francamente desnecessária. Mas saindo do centro, e especialmente saindo do centro para leste, começam a encontrar muitos prédios construídos em bloco para responder às necessidades agudas do pós guerra. Na sua grande maioria foram construídos em placa, pelo que são genericamente referidos como Plattenbau, um termo que tal como Neubau (construção nova) é quase um insulto numa cidade apaixonada pelas casas antigas. Ah, Berlim, sempre à procura do seu passado glorioso...O apartamento que vamos ver a Hellersdorf demorava exatamente dezoito horas a montar e foi mantido intacto e até algo desarrumado, como se os dons estivessem quase a voltar (alguns móveis foram no entanto recuperados de outras casas e o papel de parede, aplicado diretamente por cima do betão, também). Tem duas assoalhadas, pelo que podia ser atribuído ou a um casal com uma criança ou a um profissional que precisasse de um escritório em casa (um professor, por exemplo). A casa era muito barata - custava 109 marcos por mês para um salário médio nacional de 900 marcos, sendo que a renda inclui água, eletricidade e aquecimento e que era regra os dois membros do casal trabalharem (não comecem a fazer a conversão, que acho que este salário médio continua a ser superior ao salário mínimo português não sei quantos anos depois). A comida também era muito barata.No entanto, objetos de luxo como um telefone, um gravador ou uma televisão eram difíceis de arranjar e caros e o mesmo se aplica a móveis, candeeiros e outros elementos decorativos - a televisão desta sala custava 6000 marcos e este fabuloso armário de parede não ficava por menos de 4000.A decoração propriamente dita não é muito diferente do que eram os anos 70 do outro lado da fronteira (nalguns casos as paredes de betão foram deixadas à vista para vermos a construção, não ficavam assim):Mas há detalhes muito próprios nos brinquedos das crianças, nas marcas e no design dos produtos (as especiarias em francês?) e embalagens (face à ausência de concorrência, Autoclismo 930 é um nome tão bom como outro qualquer) ou na cor originalíssima deste papel higiénico reciclado. Já o espelho reflete a intrépida repórter com o mesmo aspeto que tinha do outro lado da fronteira, o que demonstra bem as dificuldades da criação do homem novo no socialismo:No entanto para mim a parte mais interessante foi quando comecei a abrir armários e a investigar o seu conteúdo. Havia jogos lúdicos, discos da Amiga, a editora discográfica da DDR e por fim muitos livros:Eu, com a sorte para pescar as coisas certas que me caracteriza, abri ao calhas dois muito bem escolhidos. Num deles, "A Nossa Família", um capítulo versava sobre o direito à separação entre o sexo como atividade de realização humana e a sua função biológica e detalhava de seguida a importância fundamental do orgasmo feminino para a vida do casal, sugerindo estratégias para o atingir caso falhasse. Este era um tema fundamental na educação sexual da República Democrática Alemã (tenho de ir ver se cheguei há uns anos a falar-vos de um excelente documentário que vi no Arte) e até hoje as estatísticas mostram as mulheres de Leste mais satisfeitas com a sua vida sexual do que as suas concidadãs da Alemanha Ocidental.Outro livro que decidi abrir foi o "Dicionário Político" que, com a tal sorte, se abriu logo na letra O: oposição. Dificilmente poderia ter escolhido uma entrada mais simbólica, mas a anterior afinal ainda era melhor - duas páginas inteiras sobre um conceito central da ciência política, o oportunismo, definido como uma corrente burguesa no movimento dos trabalhadores. Também abri uma agenda, que assinalava num só dia a a assinatura dos Acordos de Potsdam e o aniversário da morte de Diderot e Engels.A casa fica na Hellersdorferstr. 179 (U5 - Cottbusser Platz) e está aberta todos os domingos das duas às quatro, mas também se pode telefonar com dois ou três dias de antecedência para marcar uma visita noutra hora. O número direto do senhor é o 0151 1611 4447, mas o senhor só fala alemão - claro que podem visitar a casa mesmo que não percebam alemão, mas as explicações e histórias dele valem mesmo a pena. A visita é gratuita.

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