Boas Intenções: tradiçao

24-01-2012
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inventam-se tradições, entrega ao domicílioHá um texto muito interessante do Giddens que li há muitos anos onde ele desmontava uma grande parte das tradições ocidentais como invenções recentes (os kilts e os tartans escoceses por exemplo são filhos da revolução industrial) para dizer que isto não tem nada de extraordinário nem lhes retira legitimidade, apenas demonstra a forma como a maioria das tradições são criadas e como curiosamente são, tal como o próprio conceito de tradição, um produto da modernidade. Para lidar com o novo, inventamos o tradicional.Esta reflexão é interessante porque normalmente caímos todos na ratoeira e ainda por cima é muito tentador sugerir que as tradições dos outros são falsas ou artificiais e só as nossas ancoradas verdadeiramente ancoradas na História. Já discuti isto várias vezes com a minha família e é muito interessante ver que metade das nossas tradições familiares têm meia dúzia de anos. Uma delas até só tem um e se calhar é a melhor de todas.Giddens parte daqui para muitas outras coisas - a pós-modernidade, a globalização, o fundamentalismo como resposta a esta última, não garanto que tudo neste mesmo texto - mas há uma parte que me tocou especialmente. Diz ele que, num mundo cada vez mais globalizado e plural, a construção da identidade, também por via da tradição, é mais ativa - nós decidimos em grande parte quais das tradições disponíveis e experimentadas queremos adotar, da mesma forma que compomos os fragmentos da nossa identidade e decidimos como os arranjar (eu por exemplo sou uma minhota de Wedding com uma bicicleta vermelha - nunca se sabe se não me tornarei uma entusiasta lisboeta em 2012, mas até agora nunca me senti lisboeta, embora ache Lisboa uma cidade maravilhosa, tenha gostado muito de lá crescer e esteja muito contente com a perspetiva de para lá voltar).E também eu sou as tradições com que cresci, acrescida dos rituais que adoto. Tomemos por exemplo o Natal: como sempre bacalhau grelhado no almoço de dia 24, acompanhado de azeite minhoto e cebola às rodelas, broa esfarelada e verde tinto (há uns modernistas que bebem vinho de outras proveniências, mas claramente não percebem nada) - faço isto desde sempre. Celebro os adventos, acendo velinhas, convido amigos e canto uma canção - respetivamente tradições de 2005, 2006 e 2011. Vou sempre muitas vezes aos mercados de Natal - uma tradição adotada em 2004 que não tem grande hipótese de sobreviver em Portugal. Vejo o filme Feuerzangenbowle na companhia dos meus amigos enquanto bebemos a epónima Feuerzangenbowle - uma tradição mesmo fresquinha, iniciada só ontem, que gostava de manter. E planeio (portanto uma tradição tão nova que ainda nem foi iniciada) comprar todos os anos um enfeite de Natal para minha árvore, só um mas especial, com uma história.Por isso, da minha parte, podem fazer tudo o que quiserem desde que não incomodem os outros nem lhes tentem impor as vossas tradições. Podem comer perú no Natal, fazer filhoses, comprar calendários do advento de chocolate, ir a festas de Halloween, dançar no rancho, frequentar a missa do galo, ir à discoteca a 25 de Dezembro, servir presunto no Ano Novo, vestir o traje de estudante, comer pipocas no cinema, organizar baby showers e trocar presentes no Dia de S.Valentim.Ter rituais é bom, quente e confortável, como uma mantinha nos joelhos ou um copo de Glühwein. Metade foram inventados ontem, importados do país vizinho ou adicionados à História com cuspo? Não faz mal, a outra metade também.


inventam-se tradições, entrega ao domicílioHá um texto muito interessante do Giddens que li há muitos anos onde ele desmontava uma grande parte das tradições ocidentais como invenções recentes (os kilts e os tartans escoceses por exemplo são filhos da revolução industrial) para dizer que isto não tem nada de extraordinário nem lhes retira legitimidade, apenas demonstra a forma como a maioria das tradições são criadas e como curiosamente são, tal como o próprio conceito de tradição, um produto da modernidade. Para lidar com o novo, inventamos o tradicional.Esta reflexão é interessante porque normalmente caímos todos na ratoeira e ainda por cima é muito tentador sugerir que as tradições dos outros são falsas ou artificiais e só as nossas ancoradas verdadeiramente ancoradas na História. Já discuti isto várias vezes com a minha família e é muito interessante ver que metade das nossas tradições familiares têm meia dúzia de anos. Uma delas até só tem um e se calhar é a melhor de todas.Giddens parte daqui para muitas outras coisas - a pós-modernidade, a globalização, o fundamentalismo como resposta a esta última, não garanto que tudo neste mesmo texto - mas há uma parte que me tocou especialmente. Diz ele que, num mundo cada vez mais globalizado e plural, a construção da identidade, também por via da tradição, é mais ativa - nós decidimos em grande parte quais das tradições disponíveis e experimentadas queremos adotar, da mesma forma que compomos os fragmentos da nossa identidade e decidimos como os arranjar (eu por exemplo sou uma minhota de Wedding com uma bicicleta vermelha - nunca se sabe se não me tornarei uma entusiasta lisboeta em 2012, mas até agora nunca me senti lisboeta, embora ache Lisboa uma cidade maravilhosa, tenha gostado muito de lá crescer e esteja muito contente com a perspetiva de para lá voltar).E também eu sou as tradições com que cresci, acrescida dos rituais que adoto. Tomemos por exemplo o Natal: como sempre bacalhau grelhado no almoço de dia 24, acompanhado de azeite minhoto e cebola às rodelas, broa esfarelada e verde tinto (há uns modernistas que bebem vinho de outras proveniências, mas claramente não percebem nada) - faço isto desde sempre. Celebro os adventos, acendo velinhas, convido amigos e canto uma canção - respetivamente tradições de 2005, 2006 e 2011. Vou sempre muitas vezes aos mercados de Natal - uma tradição adotada em 2004 que não tem grande hipótese de sobreviver em Portugal. Vejo o filme Feuerzangenbowle na companhia dos meus amigos enquanto bebemos a epónima Feuerzangenbowle - uma tradição mesmo fresquinha, iniciada só ontem, que gostava de manter. E planeio (portanto uma tradição tão nova que ainda nem foi iniciada) comprar todos os anos um enfeite de Natal para minha árvore, só um mas especial, com uma história.Por isso, da minha parte, podem fazer tudo o que quiserem desde que não incomodem os outros nem lhes tentem impor as vossas tradições. Podem comer perú no Natal, fazer filhoses, comprar calendários do advento de chocolate, ir a festas de Halloween, dançar no rancho, frequentar a missa do galo, ir à discoteca a 25 de Dezembro, servir presunto no Ano Novo, vestir o traje de estudante, comer pipocas no cinema, organizar baby showers e trocar presentes no Dia de S.Valentim.Ter rituais é bom, quente e confortável, como uma mantinha nos joelhos ou um copo de Glühwein. Metade foram inventados ontem, importados do país vizinho ou adicionados à História com cuspo? Não faz mal, a outra metade também.

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