Quando Álvaro se indignou: “Não somos ratos de laboratório”

13-05-2014
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Quando Álvaro se indignou: “Não somos ratos de laboratório”

Luís Reis Pires e Lígia Simões

Ontem 00:05

Perante as propostas do FMI de há um ano para reforma do mercado laboral, o então ministro levantou a voz à troika.

O mercado de trabalho foi, desde o início do programa, motivo de choques constantes entre o Governo e autoridades internacionais. Mas no Verão do ano passado, no meio de manifestações populares e a semanas da crise política, a coisa atingiu uma outra dimensão: o FMI trouxe um novo pacote de medidas e tentou forçar a sua aplicação, que foi travada pelo então ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira.

"Não somos ratos de laboratório"! Fez-se silêncio por momentos, ninguém espera uma reacção tão forte, um grito daqueles, de alguém tão calmo como o ministro da Economia.

Era Junho de 2013 e, num fim de semana, Governo e ‘troika' realizavam mais uma reunião de preparação para a sétima avaliação ao programa, que estava suspensa à espera das medidas compensatórias a mais um chumbo do Tribunal Constitucional. Os encontros eram quase sempre no Ministério das Finanças, mas naquele dia, por causa das manifestações, a reunião tinha sido mudada para a Avenida 5 de Outubro.

O FMI trazia novamente na bagagem a insistência nas reformas laborais e pedia, entre outras coisas, a descida do salário mínimo para os jovens. "Basicamente, era a liberalização total do mercado de trabalho", conta fonte próxima do processo, "um conjunto de medidas que nunca passariam no Constitucional".

A equipa do Governo, com Pedro Roque, Mota Soares e Carlos Moedas, era liderada por Álvaro Santos Pereira, que apresentou um ‘power point' com a evolução do mercado de trabalho e explicou que as medidas não eram viáveis. "Portugal é um país, não um modelo", frisou o ministro, acrescentando que o que estava a ser proposto era inconstitucional.

Do outro lado, a equipa da troika era liderada ainda por Abebe Selassie, que retorquiu que estavam a exigir aquilo para não terem de regressar com mais dinheiro daí a dois anos. A conversa azedou e os técnicos nacionais chegaram a dizer que "só falta pedirem a descida do salário por raça, é tão inconstitucional como o que estão s pedir".

Mota Soares tentou, no meio das acusações, apresentar um gráfico que mostrava uma redução de salários no privado. "Então afinal há 23% de trabalhadores inconstitucionais", ironizou de imediato Selassie. O ministro da Segurança Social ainda rebateu que eram negociações entre trabalhadores e respectivas empresas, não uma coisa colectiva, mas já nem era preciso.

"Não somos ratos de laboratório, não vamos aceitar isso", disse Álvaro. Carlos Moedas ainda tentou apaziguar e dizer que se poderiam voltar a analisar as medidas e os números entre técnicos nacionais e internacionais na semana seguinte, mas a reunião tinha acabado. "Faça, as reuniões que quiserem, mas a reposta é não a tudo", disse Álvaro. A reunião terminou e as medidas não avançaram. Meses mais tarde, depois da crise política, o ministro da Economia deixou o Governo, sendo substituído por Pires de Lima.

Quando Álvaro se indignou: “Não somos ratos de laboratório”

Luís Reis Pires e Lígia Simões

Ontem 00:05

Perante as propostas do FMI de há um ano para reforma do mercado laboral, o então ministro levantou a voz à troika.

O mercado de trabalho foi, desde o início do programa, motivo de choques constantes entre o Governo e autoridades internacionais. Mas no Verão do ano passado, no meio de manifestações populares e a semanas da crise política, a coisa atingiu uma outra dimensão: o FMI trouxe um novo pacote de medidas e tentou forçar a sua aplicação, que foi travada pelo então ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira.

"Não somos ratos de laboratório"! Fez-se silêncio por momentos, ninguém espera uma reacção tão forte, um grito daqueles, de alguém tão calmo como o ministro da Economia.

Era Junho de 2013 e, num fim de semana, Governo e ‘troika' realizavam mais uma reunião de preparação para a sétima avaliação ao programa, que estava suspensa à espera das medidas compensatórias a mais um chumbo do Tribunal Constitucional. Os encontros eram quase sempre no Ministério das Finanças, mas naquele dia, por causa das manifestações, a reunião tinha sido mudada para a Avenida 5 de Outubro.

O FMI trazia novamente na bagagem a insistência nas reformas laborais e pedia, entre outras coisas, a descida do salário mínimo para os jovens. "Basicamente, era a liberalização total do mercado de trabalho", conta fonte próxima do processo, "um conjunto de medidas que nunca passariam no Constitucional".

A equipa do Governo, com Pedro Roque, Mota Soares e Carlos Moedas, era liderada por Álvaro Santos Pereira, que apresentou um ‘power point' com a evolução do mercado de trabalho e explicou que as medidas não eram viáveis. "Portugal é um país, não um modelo", frisou o ministro, acrescentando que o que estava a ser proposto era inconstitucional.

Do outro lado, a equipa da troika era liderada ainda por Abebe Selassie, que retorquiu que estavam a exigir aquilo para não terem de regressar com mais dinheiro daí a dois anos. A conversa azedou e os técnicos nacionais chegaram a dizer que "só falta pedirem a descida do salário por raça, é tão inconstitucional como o que estão s pedir".

Mota Soares tentou, no meio das acusações, apresentar um gráfico que mostrava uma redução de salários no privado. "Então afinal há 23% de trabalhadores inconstitucionais", ironizou de imediato Selassie. O ministro da Segurança Social ainda rebateu que eram negociações entre trabalhadores e respectivas empresas, não uma coisa colectiva, mas já nem era preciso.

"Não somos ratos de laboratório, não vamos aceitar isso", disse Álvaro. Carlos Moedas ainda tentou apaziguar e dizer que se poderiam voltar a analisar as medidas e os números entre técnicos nacionais e internacionais na semana seguinte, mas a reunião tinha acabado. "Faça, as reuniões que quiserem, mas a reposta é não a tudo", disse Álvaro. A reunião terminou e as medidas não avançaram. Meses mais tarde, depois da crise política, o ministro da Economia deixou o Governo, sendo substituído por Pires de Lima.

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