Castelo de Montemor-o-Velho

03-04-2015
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Nos primeiros dias de Janeiro de 1355, o D. Afonso IV reuniu com os seus principais conselheiros nos paços reais do Castelo de Montemor-o-Velho. Discutia-se o facto do infante D. Pedro, após o falecimento de sua mulher, D. Constança, viver maritalmente com D. Inês de Castro, uma dama castelhana de quem tinha inclusivamente quatro filhos (além de D. Fernando, que lhe viria a suceder no trono).

O problema desta união residia na enorme influência que os dois irmãos de D. Inês, Árvaro Pires de Castro e Fernando Castro, exerciam sobre D. Pedro, conseguindo mesmo que o infante se intrometesse nas lutas entre os próprios castelhanos. E, afirmavam os conselheiros, entre os quais Pêro Coelho, Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes Pacheco, que não era de todo impossível que algo acontecesse ao jovem D. Fernando, filho de D. Pedro e D. Constança - e, portanto, legítimo sucessor do justiceiro -, no sentido de que viesse a ser rei um dos filhos bastardos do infante.

Tratava-se, assim, de uma razão de Estado. D. Afonso IV deixou-se convencer naquela reunião em Montemor e D. Inês morreria degolada a 7 de Janeiro desse mesmo ano. A região entre o Douro e o Mondego conheceu, nos séculos X e XI, alternativas de domínio, ora cristão ora muçulmano. O poderoso Almançor tomou Montemor, mas por pouco tempo.

Nova investida árabe se seguiu até que, em 1064, Fernando Magno reconquistou-a em definitivo. E seria o seu sucessor, Afonso VI, o primeiro cristão a modificar e ampliar o castelo. Os primeiros reis portugueses muito nele trabalharam, tanto mais que constituía um dos pontos nevrálgicos da defesa de Coimbra.

O Castelo de Montemor, que se ergue a uma altitude máxima de 51 metros, é um dos maiores e mais antigos do país. A estrutura actual, após sucessivos restauros, demolições e reconstruções, pouco se assemelha à fortificação primitiva. O que hoje ali vemos divide-se em cinco partes: o castelo, a cerca principal, a barbacã envolvente, a cerca norte e o reduto inferior ligado a esta cerca. São possivelmente já do século XIV, durante o reinado de D. Pedro I, as edificações da barbacã e da cerca norte.

O castelejo é um reduto construído no espaço angular entre a torre de menagem e a cortina norte. A torre, em cuja base se nota a presença de aparelho romano, quadrada e seguida de um muro com mais quatro torres. Na cerca principal existem ainda mais cinco. A barbacã e um muro baixo, sem torres. A cerca norte desce para o vale e nele se encontram as ruínas da capela que a tradição atribui ao celebre Abade João, que foi alcaide do castelo.

Dentro do castelejo, além das paredes do antigos pagos reais, ergue-se a igreja de Santa Maria da Alcáçova, de construção medieval. Foi reedificada no século XVI pelo bispo-conde de Coimbra D. Jorge de Almeida, que aproveitou para as alvenarias o material da demolição, empregando inclusivamente num dos arcos uma lapide fúnebre de 1230. O estilo arquitectónico corresponde ao da época: o manuelino da primeira fase, simples e naturalista.

Entra-se no castelo pela Porta da Peste, voltada a nascente, e do lado contrário subsiste a do Rosário, ou do Sol. Montemor só ficou conhecido por o Velho depois de D. Sancho I ter tornado aos mouros o Novo, no Alentejo.

In Portugal Eterno ,2002 (Público)

Nos primeiros dias de Janeiro de 1355, o D. Afonso IV reuniu com os seus principais conselheiros nos paços reais do Castelo de Montemor-o-Velho. Discutia-se o facto do infante D. Pedro, após o falecimento de sua mulher, D. Constança, viver maritalmente com D. Inês de Castro, uma dama castelhana de quem tinha inclusivamente quatro filhos (além de D. Fernando, que lhe viria a suceder no trono).

O problema desta união residia na enorme influência que os dois irmãos de D. Inês, Árvaro Pires de Castro e Fernando Castro, exerciam sobre D. Pedro, conseguindo mesmo que o infante se intrometesse nas lutas entre os próprios castelhanos. E, afirmavam os conselheiros, entre os quais Pêro Coelho, Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes Pacheco, que não era de todo impossível que algo acontecesse ao jovem D. Fernando, filho de D. Pedro e D. Constança - e, portanto, legítimo sucessor do justiceiro -, no sentido de que viesse a ser rei um dos filhos bastardos do infante.

Tratava-se, assim, de uma razão de Estado. D. Afonso IV deixou-se convencer naquela reunião em Montemor e D. Inês morreria degolada a 7 de Janeiro desse mesmo ano. A região entre o Douro e o Mondego conheceu, nos séculos X e XI, alternativas de domínio, ora cristão ora muçulmano. O poderoso Almançor tomou Montemor, mas por pouco tempo.

Nova investida árabe se seguiu até que, em 1064, Fernando Magno reconquistou-a em definitivo. E seria o seu sucessor, Afonso VI, o primeiro cristão a modificar e ampliar o castelo. Os primeiros reis portugueses muito nele trabalharam, tanto mais que constituía um dos pontos nevrálgicos da defesa de Coimbra.

O Castelo de Montemor, que se ergue a uma altitude máxima de 51 metros, é um dos maiores e mais antigos do país. A estrutura actual, após sucessivos restauros, demolições e reconstruções, pouco se assemelha à fortificação primitiva. O que hoje ali vemos divide-se em cinco partes: o castelo, a cerca principal, a barbacã envolvente, a cerca norte e o reduto inferior ligado a esta cerca. São possivelmente já do século XIV, durante o reinado de D. Pedro I, as edificações da barbacã e da cerca norte.

O castelejo é um reduto construído no espaço angular entre a torre de menagem e a cortina norte. A torre, em cuja base se nota a presença de aparelho romano, quadrada e seguida de um muro com mais quatro torres. Na cerca principal existem ainda mais cinco. A barbacã e um muro baixo, sem torres. A cerca norte desce para o vale e nele se encontram as ruínas da capela que a tradição atribui ao celebre Abade João, que foi alcaide do castelo.

Dentro do castelejo, além das paredes do antigos pagos reais, ergue-se a igreja de Santa Maria da Alcáçova, de construção medieval. Foi reedificada no século XVI pelo bispo-conde de Coimbra D. Jorge de Almeida, que aproveitou para as alvenarias o material da demolição, empregando inclusivamente num dos arcos uma lapide fúnebre de 1230. O estilo arquitectónico corresponde ao da época: o manuelino da primeira fase, simples e naturalista.

Entra-se no castelo pela Porta da Peste, voltada a nascente, e do lado contrário subsiste a do Rosário, ou do Sol. Montemor só ficou conhecido por o Velho depois de D. Sancho I ter tornado aos mouros o Novo, no Alentejo.

In Portugal Eterno ,2002 (Público)

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