Mandra Brasa: A fábula de ano-novo do cachaceiro

01-07-2011
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Se você parar para escutá-los, eles sempre terão uma boa história pra contarEu já devia saber que toda vez que o Mandra Móvel é elogiado, acaba quebrando por causa do mau olhado. Mhuahaha. Ontem estava sendo admirado por dois comentaristas deste blog: Fred e Lowsky. Nesta manhã de quinta-feira acabei fazendo uma visitinha forçada ao Bairro dos Coelhos, onde vive e trabalha o meu mecânico. Dirigi os três quilômetros do percurso apenas na segunda marcha - o problema foi justamente no câmbio.Não fico mais surpreso em perceber que até os problemas mais sérios do Mandra Móvel custam barato. Manoel, o mecânico, deu o diagnóstico e o preço da bronca: "coxins e não-sei-que da caixa de marcha. Quinze contos das peças mais vinte de mão-de-obra. E só tou cobrando porque são quarenta minutos de serviço", me disse o tricolor convicto, do alto da sua humildade de terceira divisão. Autorizei e ele foi numa bicicleta comprar as peças do carro no centro do Recife.Manoel demoraria uns 20 minutos para voltar com as peças, por isso fiquei por ali papeando com os moradores mais veteranos dos Coelhos. Um deles eu já conhecia de tanto encontrar na frente da oficina. Gabriel é o nome de batismo na água benta; mas ficou conhecido no bairro como Galbi, no batismo da cachaça. Sempre o achei parecido com um preto velho estampando uma imensa barba de matusalém, até que um dia ele raspou completamente o rosto porque o seu (nosso!) time do coração havia ganho o campeonato estadual e, de quebra, subira para a primeira divisão do nacional. Depois dessa passei a chamá-lo apenas de Rubro-Negro.Hoje fiz a saudação e começamos a falar de futebol. Bêbado como um gambá criado em alambique, Galbi me contou que começou a beber na copa de 1958, aos 13 anos, e que foi por causa da cachaça que havia levado a maior surra da infância. "Depois daquele dia, nunca parei de gostar de futebol e de beber", disse.Ele contou que até já broxou por causa de um jogo do Brasil, numa copa dessas antigas quando a Seleção perdera de 1 x 0. "Nesse dia minha galega quis fazer amor comigo e eu disse que não ia fazer de jeito nenhum porque o Brasil tinha perdido", justificou.Peguei o mote no ar e perguntei pela galega. "Ela me bancava. Comprava o pão, duas Antarcticas e uma garrafa de Serra Limpa todo dia... Ehehehe, ela me bancava mesmo", viajou no passado, o velho ébrio. E continuou: "Ela era doida por mim. Também pudera! Eu era uma lapa de negão, pesava 78 quilos - hoje peso 46 - a gente vivia num amor danado. Era cachaça e pêia (termo em pernambuquês para "fazer amor gostoso") o dia todo. Heheheh. Ela me bancava!".Contou ainda que apesar da broxada da copa anterior, foi à forra na vitória de 1970 e fez tudo que pôde com a sua amada de cabelos dourados. Depois do relato, o velho bêbado pensou por um segundo e suspirou de saudade da galega. "Que fim teve ela?", perguntei. "Quase a joguei da ponte velha, aí um taxista me segurou. Jurei ela de morte se ela se atrevesse a botar os pés no bairro outra vez. Depois desse dia nunca mais ela voltou", explicou Galbi."Foi ciúme. Ciúme é amor, tá sabendo?. A turma falam (sic) que amor não existe, mas existe sim. Ciúme é amor", continuou espontaneamente.Um velho desocupado (sóbrio) que estava filando a Folha de Pernambuco (jornal popular) do mecânico, não se conteve: "Levasse foi GAIA, admita!". O bêbado soltou uma gargalhada e carimbou o recibo: "FOI GAIA MESMO!! FOI UMA GAIA BEM ROCHEDA!!!!!! HAHAHAHA!!!! NÃO RIA NÃO 'SEU MARCO', NÃO RIA NÃO 'SEU MARCO'".Pois é, desandei a rir como um alucinado, nada me fazia parar. Não lembro de ter rido tanto assim como hoje cedo. Mais engraçado era Galbi me censurando (mas também rindo): "NÃO RIA NÃO, 'SEU MARCO'".:: coxins e sei-lá-o-que da caixa de marcha do Versailles: R$ 15,00; lavagem das peças com querosene e mão-de-obra de instalação: R$ 20,00; escrever uma boa história baseada em fatos reais, dar gargalhadas durante e depois: não tem preço.


Se você parar para escutá-los, eles sempre terão uma boa história pra contarEu já devia saber que toda vez que o Mandra Móvel é elogiado, acaba quebrando por causa do mau olhado. Mhuahaha. Ontem estava sendo admirado por dois comentaristas deste blog: Fred e Lowsky. Nesta manhã de quinta-feira acabei fazendo uma visitinha forçada ao Bairro dos Coelhos, onde vive e trabalha o meu mecânico. Dirigi os três quilômetros do percurso apenas na segunda marcha - o problema foi justamente no câmbio.Não fico mais surpreso em perceber que até os problemas mais sérios do Mandra Móvel custam barato. Manoel, o mecânico, deu o diagnóstico e o preço da bronca: "coxins e não-sei-que da caixa de marcha. Quinze contos das peças mais vinte de mão-de-obra. E só tou cobrando porque são quarenta minutos de serviço", me disse o tricolor convicto, do alto da sua humildade de terceira divisão. Autorizei e ele foi numa bicicleta comprar as peças do carro no centro do Recife.Manoel demoraria uns 20 minutos para voltar com as peças, por isso fiquei por ali papeando com os moradores mais veteranos dos Coelhos. Um deles eu já conhecia de tanto encontrar na frente da oficina. Gabriel é o nome de batismo na água benta; mas ficou conhecido no bairro como Galbi, no batismo da cachaça. Sempre o achei parecido com um preto velho estampando uma imensa barba de matusalém, até que um dia ele raspou completamente o rosto porque o seu (nosso!) time do coração havia ganho o campeonato estadual e, de quebra, subira para a primeira divisão do nacional. Depois dessa passei a chamá-lo apenas de Rubro-Negro.Hoje fiz a saudação e começamos a falar de futebol. Bêbado como um gambá criado em alambique, Galbi me contou que começou a beber na copa de 1958, aos 13 anos, e que foi por causa da cachaça que havia levado a maior surra da infância. "Depois daquele dia, nunca parei de gostar de futebol e de beber", disse.Ele contou que até já broxou por causa de um jogo do Brasil, numa copa dessas antigas quando a Seleção perdera de 1 x 0. "Nesse dia minha galega quis fazer amor comigo e eu disse que não ia fazer de jeito nenhum porque o Brasil tinha perdido", justificou.Peguei o mote no ar e perguntei pela galega. "Ela me bancava. Comprava o pão, duas Antarcticas e uma garrafa de Serra Limpa todo dia... Ehehehe, ela me bancava mesmo", viajou no passado, o velho ébrio. E continuou: "Ela era doida por mim. Também pudera! Eu era uma lapa de negão, pesava 78 quilos - hoje peso 46 - a gente vivia num amor danado. Era cachaça e pêia (termo em pernambuquês para "fazer amor gostoso") o dia todo. Heheheh. Ela me bancava!".Contou ainda que apesar da broxada da copa anterior, foi à forra na vitória de 1970 e fez tudo que pôde com a sua amada de cabelos dourados. Depois do relato, o velho bêbado pensou por um segundo e suspirou de saudade da galega. "Que fim teve ela?", perguntei. "Quase a joguei da ponte velha, aí um taxista me segurou. Jurei ela de morte se ela se atrevesse a botar os pés no bairro outra vez. Depois desse dia nunca mais ela voltou", explicou Galbi."Foi ciúme. Ciúme é amor, tá sabendo?. A turma falam (sic) que amor não existe, mas existe sim. Ciúme é amor", continuou espontaneamente.Um velho desocupado (sóbrio) que estava filando a Folha de Pernambuco (jornal popular) do mecânico, não se conteve: "Levasse foi GAIA, admita!". O bêbado soltou uma gargalhada e carimbou o recibo: "FOI GAIA MESMO!! FOI UMA GAIA BEM ROCHEDA!!!!!! HAHAHAHA!!!! NÃO RIA NÃO 'SEU MARCO', NÃO RIA NÃO 'SEU MARCO'".Pois é, desandei a rir como um alucinado, nada me fazia parar. Não lembro de ter rido tanto assim como hoje cedo. Mais engraçado era Galbi me censurando (mas também rindo): "NÃO RIA NÃO, 'SEU MARCO'".:: coxins e sei-lá-o-que da caixa de marcha do Versailles: R$ 15,00; lavagem das peças com querosene e mão-de-obra de instalação: R$ 20,00; escrever uma boa história baseada em fatos reais, dar gargalhadas durante e depois: não tem preço.

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