gonn1000: A LEI DO DESEJO

30-06-2011
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Cineasta polémico devido ao seu olhar frequentemente incisivo, directo e por vezes áspero das sociedades urbanas contemporâneas (particularmente as norte-americanas), Spike Lee tem sedimentado, ao longo dos últimos anos, uma filmografia que, mesmo não sendo consensual, exibe personalidade, carisma e relevância, com obras que tem sempre algo a dizer.“Ela Odeia-me” (She Hate Me), o novo joint, é mais um concentrado de múltiplas bases para discussão acerca de temáticas já habituais no percurso do realizador, abordando, entre outras, a cultura empresarial, a sexualidade, os novos tipos de família, a xenofobia ou as desigualdades sociais, elementos que nem sempre são suficientemente desenvolvidos e que se interconectam de forma desregrada num filme com tanto de desafiante como de irregular.O mote da película evidencia logo que este é um projecto arriscado e de difícil catalogação, centrando-se em John Henry, um jovem executivo de uma empresa forte que, ao tomar conhecimento de alguns actos ilegais que envolvem a mesma, decide denunciá-la, acabando não só por ser despedido mas por ser acusado de encetar essas práticas pouco lícitas.Partindo desta situação, “Ela Odeia-me” colocará depois o seu protagonista a participar em negócios duvidosos, recebendo avultadas quantias para engravidar a sua ex-namorada, a companheira desta, e muitas outras lésbicas que lhe pagam para serem mães sem recorrerem à inseminação artificial.Estas experiências trarão novos problemas a John, que entretanto se relacionará também com elementos da Máfia e terá de enfrentar os habituais dilemas da sua família, com quem mantém uma relação algo distante.Lee conta aqui com um argumento singular e até mesmo inventivo, mas também desequilibrado, uma vez que a mescla de denúncia dos podres das grandes corporações, comédia burlesca, drama familiar, thriller político e filme de tribunal gera um resultado que tanto oferece momentos de antologia (quando foca as dificuldades dos relacionamentos e a aceitação – ou rejeição – das orientações sexuais) como cenas embaraçosas devido à gritante falta de subtileza (o desenlace banal e demagógico no julgamento, com uma forçada ligação ao caso Watergate).A alternância entre a irreverência e a suposta seriedade não é muito conseguida, mas tal não implica que “Ela Odeia-me” seja um filme falhado, longe disso. Lee volta a apresentar um absorvente trabalho de realização, sendo capaz de criar as múltiplas atmosferas que o argumento exige, recorrendo a um brilhante trabalho de fotografia e a uma montagem fluida e dinâmica.O elenco é, como se esperaria, igualmente sólido, confirmando que Anthony Mackie, depois de participações em títulos como “8 Mile” ou “Million Dollar Baby – Sonhos Vencidos”, é capaz de carregar um filme às costas (e se ele não estivesse à altura “Ela Odeia-me” não se aguentaria), compondo um protagonista apropriadamente ambíguo e carismático. Woody Harrelson, John Turturro, Monica Bellucci ou Kerry Washington, entre outros, asseguram também um consistente núcleo de secundários.Mesmo não estando ao nível de algumas das últimas obras do realizador - como o habitualmente referido “A Última Hora” ou o mais esquecido, mas não menos interessante “Verão Escaldante” -, “Ela Odeia-me” ainda é um filme que se situa bem acima da média, e apesar de nem sempre acertar no alvo tem o mérito de tentar inovar, evitando lógicas formatadas e previsíveis.Só é pena que não seja a obra-prima que alguns dos seus momentos sugerem, mas não deixa de constar entre as recomendáveis experiências cinematográficas de 2005. E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM


Cineasta polémico devido ao seu olhar frequentemente incisivo, directo e por vezes áspero das sociedades urbanas contemporâneas (particularmente as norte-americanas), Spike Lee tem sedimentado, ao longo dos últimos anos, uma filmografia que, mesmo não sendo consensual, exibe personalidade, carisma e relevância, com obras que tem sempre algo a dizer.“Ela Odeia-me” (She Hate Me), o novo joint, é mais um concentrado de múltiplas bases para discussão acerca de temáticas já habituais no percurso do realizador, abordando, entre outras, a cultura empresarial, a sexualidade, os novos tipos de família, a xenofobia ou as desigualdades sociais, elementos que nem sempre são suficientemente desenvolvidos e que se interconectam de forma desregrada num filme com tanto de desafiante como de irregular.O mote da película evidencia logo que este é um projecto arriscado e de difícil catalogação, centrando-se em John Henry, um jovem executivo de uma empresa forte que, ao tomar conhecimento de alguns actos ilegais que envolvem a mesma, decide denunciá-la, acabando não só por ser despedido mas por ser acusado de encetar essas práticas pouco lícitas.Partindo desta situação, “Ela Odeia-me” colocará depois o seu protagonista a participar em negócios duvidosos, recebendo avultadas quantias para engravidar a sua ex-namorada, a companheira desta, e muitas outras lésbicas que lhe pagam para serem mães sem recorrerem à inseminação artificial.Estas experiências trarão novos problemas a John, que entretanto se relacionará também com elementos da Máfia e terá de enfrentar os habituais dilemas da sua família, com quem mantém uma relação algo distante.Lee conta aqui com um argumento singular e até mesmo inventivo, mas também desequilibrado, uma vez que a mescla de denúncia dos podres das grandes corporações, comédia burlesca, drama familiar, thriller político e filme de tribunal gera um resultado que tanto oferece momentos de antologia (quando foca as dificuldades dos relacionamentos e a aceitação – ou rejeição – das orientações sexuais) como cenas embaraçosas devido à gritante falta de subtileza (o desenlace banal e demagógico no julgamento, com uma forçada ligação ao caso Watergate).A alternância entre a irreverência e a suposta seriedade não é muito conseguida, mas tal não implica que “Ela Odeia-me” seja um filme falhado, longe disso. Lee volta a apresentar um absorvente trabalho de realização, sendo capaz de criar as múltiplas atmosferas que o argumento exige, recorrendo a um brilhante trabalho de fotografia e a uma montagem fluida e dinâmica.O elenco é, como se esperaria, igualmente sólido, confirmando que Anthony Mackie, depois de participações em títulos como “8 Mile” ou “Million Dollar Baby – Sonhos Vencidos”, é capaz de carregar um filme às costas (e se ele não estivesse à altura “Ela Odeia-me” não se aguentaria), compondo um protagonista apropriadamente ambíguo e carismático. Woody Harrelson, John Turturro, Monica Bellucci ou Kerry Washington, entre outros, asseguram também um consistente núcleo de secundários.Mesmo não estando ao nível de algumas das últimas obras do realizador - como o habitualmente referido “A Última Hora” ou o mais esquecido, mas não menos interessante “Verão Escaldante” -, “Ela Odeia-me” ainda é um filme que se situa bem acima da média, e apesar de nem sempre acertar no alvo tem o mérito de tentar inovar, evitando lógicas formatadas e previsíveis.Só é pena que não seja a obra-prima que alguns dos seus momentos sugerem, mas não deixa de constar entre as recomendáveis experiências cinematográficas de 2005. E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

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