Nos últimos anos, o cinema alemão tem sido pródigo na oferta de interessantes ficções sempre sustentadas no real, em particular na situação conturbada que o país viveu durante e após a Segunda Guerra Mundial. "Adeus Lenine!", "A Queda – Hitler e o Fim do Terceiro Reich" ou "Sophie Scholl - Os Últimos Dias" são alguns dos exemplos mais mediáticos, a que se vem juntar "As Vidas dos Outros" (Das Leben der Anderen), de Florian Henckel von Donnersmarck, vencedor do Óscar de Melhor Filme em Língua Não-Inglesa.A acção tem início poucos anos antes da queda do muro de Berlim, situando-se na República Democrática Alemã e desenvolvendo uma claustrofóbica teia narrativa ancorada num sistema repressor e totalitário, que envolve os cidadãos numa sociedade de contornos orwellianos. É aí que um dos agentes da Stasi, a polícia política, tem como missão mais recente vigiar e reportar os acontecimentos que marcam o dia-a-dia de um escritor e da sua esposa, cuja conduta os colocou como suspeitos de sabotagem ao regime.Contudo, à medida que vai conhecendo as vidas do casal que observa e escuta, o solitário oficial vê colocadas em causa as suas convicções e começa a questionar os pressupostos do sistema a que obedece, adquirindo uma familiariedade e empatia crescentes com os dois artistas e a dedicação destes às suas obras.Abordando de forma complexa e sóbria um contexto facilmente dado a pontos de vista tendenciosos e maniqueístas, "As Vidas dos Outros" alia características do thriller e do drama para consolidar um objecto rigoro e inquietante, que pacientemente vai mergulhando o espectador numa espiral de medo, suspeita e intimidação. Se nos primeiros minutos a atmosfera não difere muito da de uma competente, mas indistinta série televisiva histórica, o filme consegue ir desenhando personagens densas, longe de uma função meramente simbólica, assim como usar a seu favor uma realização despojada e clínica, vincada por uma fotografia de apropriados tons acinzentados e lúgubres.Embora quase sempre lacónica, à semelhança da postura do agente voyeur, a película nunca se torna fria ou mecânica, uma vez que há suficientes sequências de forte carga emocional construídas com uma sensibilidade digna de registo. As cenas com o casal são particularmente memoráveis, emanando um intimismo caloroso que, mesmo assim, não consegue fugir à interferência e controlo de um regime opressivo. Não menos meritória é a direcção de actores, já que o elenco exibe uma solidez uniforme e é essencial para que a narrativa se desenvolva de forma tão credível.Há alguns detalhes menos convincentes, como a relativamente rápida mudança de atitude do polícia que vigia o duo de artistas - não muito provável na carreira de um veterano tão obstinado e inflexível -, ou o desenlace do filme, que se arrasta em demasia e apresenta uma solução mais confortável. Estes elementos não chegam, no entanto, para comprometer a consistência de uma obra inspirada e pungente, como "As Vidas dos Outros" claramente é.E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM
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Nos últimos anos, o cinema alemão tem sido pródigo na oferta de interessantes ficções sempre sustentadas no real, em particular na situação conturbada que o país viveu durante e após a Segunda Guerra Mundial. "Adeus Lenine!", "A Queda – Hitler e o Fim do Terceiro Reich" ou "Sophie Scholl - Os Últimos Dias" são alguns dos exemplos mais mediáticos, a que se vem juntar "As Vidas dos Outros" (Das Leben der Anderen), de Florian Henckel von Donnersmarck, vencedor do Óscar de Melhor Filme em Língua Não-Inglesa.A acção tem início poucos anos antes da queda do muro de Berlim, situando-se na República Democrática Alemã e desenvolvendo uma claustrofóbica teia narrativa ancorada num sistema repressor e totalitário, que envolve os cidadãos numa sociedade de contornos orwellianos. É aí que um dos agentes da Stasi, a polícia política, tem como missão mais recente vigiar e reportar os acontecimentos que marcam o dia-a-dia de um escritor e da sua esposa, cuja conduta os colocou como suspeitos de sabotagem ao regime.Contudo, à medida que vai conhecendo as vidas do casal que observa e escuta, o solitário oficial vê colocadas em causa as suas convicções e começa a questionar os pressupostos do sistema a que obedece, adquirindo uma familiariedade e empatia crescentes com os dois artistas e a dedicação destes às suas obras.Abordando de forma complexa e sóbria um contexto facilmente dado a pontos de vista tendenciosos e maniqueístas, "As Vidas dos Outros" alia características do thriller e do drama para consolidar um objecto rigoro e inquietante, que pacientemente vai mergulhando o espectador numa espiral de medo, suspeita e intimidação. Se nos primeiros minutos a atmosfera não difere muito da de uma competente, mas indistinta série televisiva histórica, o filme consegue ir desenhando personagens densas, longe de uma função meramente simbólica, assim como usar a seu favor uma realização despojada e clínica, vincada por uma fotografia de apropriados tons acinzentados e lúgubres.Embora quase sempre lacónica, à semelhança da postura do agente voyeur, a película nunca se torna fria ou mecânica, uma vez que há suficientes sequências de forte carga emocional construídas com uma sensibilidade digna de registo. As cenas com o casal são particularmente memoráveis, emanando um intimismo caloroso que, mesmo assim, não consegue fugir à interferência e controlo de um regime opressivo. Não menos meritória é a direcção de actores, já que o elenco exibe uma solidez uniforme e é essencial para que a narrativa se desenvolva de forma tão credível.Há alguns detalhes menos convincentes, como a relativamente rápida mudança de atitude do polícia que vigia o duo de artistas - não muito provável na carreira de um veterano tão obstinado e inflexível -, ou o desenlace do filme, que se arrasta em demasia e apresenta uma solução mais confortável. Estes elementos não chegam, no entanto, para comprometer a consistência de uma obra inspirada e pungente, como "As Vidas dos Outros" claramente é.E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM