Já imaginou o que será viver com 30% do seu salário?
Marta Marques Silva
00:05
A reforma do sistema é uma inevitabilidade. As soluções existem mas são necessárias decisões políticas e uma atitude didáctica.
O problema da sustentabilidade do sistema de pensões nacional não é novo. Na verdade é até bastante velho. Segundo José Veiga Sarmento, presidente da Associação Portuguesa de Fundos de Investimento, Pensões e Patrimónios, tem mais de 40 anos, "40 anos de incompetência colectiva", diz. A reforma mais contundente foi feita em 2006, pelas mãos do então ministro do Trabalho, Vieira da Silva, retirando o país da "zona vermelha" no que diz respeito ao impacto nas finanças públicas. Mas se atenuou o problema a montante, não deu resposta ao problema criado a jusante, o problema das pessoas: como serão financiadas as reformas dos portugueses no futuro? A questão foi levantada ontem na conferência "Pensões em Portugal - Que futuro?", promovida pela Liberty Seguros e pelo Diário Económico.
E embora este seja "um problema sem soluções simples", como nota Daniel Harrison, director da Reinsurance Swiss, em Londres, existe um ponto de convergência entre os especialistas: há que encontrar uma solução mista, ou na gíria dos peritos, uma solução de multipilaridade. Trocando por miúdos: o sistema de pensões é composto por três pilares. O primeiro, onde se inserem as pensões pagas pelo Estado, o segundo promovido pelas empresas - e onde o empregado também contribuir - e por último os sistemas privados de pensões, através de produtos financeiros vocacionados para o efeito. Ora, o sistema português está "coxo". O segundo e terceiro pilares são praticamente inexistentes. Em 2012 apenas 15 empresas tinham um plano de pensões certificado pela APFIPP, e apenas uma era portuguesa.
Os números e tendências que exemplificam a urgência de promover sistemas alternativos de pensões são sobejamente conhecidos: actualmente quem se reforma em Portugal fica a receber cerca de 52% do último salário, segundo dados da OCDE.
Em 40 anos as projecções apontam para cerca de 30%. Em 2011, já existiam 1,17 contribuidores por cada pensionista. No mesmo ano, 18% da população portuguesa tinha mais de 65 anos, em 2060 serão 34%. Números dramáticos aos quais se junta uma vida activa cada vez mais curta. Daniel Harrinson nota precisamente que: "Os sistemas de pensões foram desenhados para períodos curtos de educação e de reforma. Não é hoje o caso. Como é possível gerar riqueza suficiente durante um terço da vida para uma vida inteira?".
Harrinson não tem dúvidas quanto à ineficiência de um sistema de pensões com um só pilar e identifica a grande tendência global nesta matéria:"Está em curso uma transferência de responsabilidades para os empregadores e para os indivíduos. Podemos razoavelmente esperar que os indivíduos corram os riscos sozinhos?".
Raúl Marques, CEO do Banif Investment Bank, realça precisamente a importância de poupar com uma perspectiva de longo-prazo, e não por impulso, bem como a necessidade de uma gestão profissional num contexto de investimento particularmente difícil como aquele que se vive hoje. "É um desafio enorme para os gestores. Num contexto de taxas de juro quase zero o rendimento nominal é extremamente baixo, tanto na dívida pública como privada. E isto leva os gestores a ter de encarar outras alternativas", explica este responsável. Os títulos de dívida tiveram sempre um peso preponderante nas carteiras dos fundos de pensões, mas a procura por ‘yield' está a levar os gestores a novas paragens. "É preciso olhar para os instrumentos de dívida emergente, embora encerre outros riscos. É preciso considerar uma gestão cambial activa, e também, se for numa perspectiva de médio e longo-prazo, o mercado de acções, principalmente aquelas que oferecem um ‘dividend yield' interessante". Em suma: "Para gerir carteiras temos de encarar cada vez mais o mercado de capitais de forma global", observa Raúl Marques.
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Já imaginou o que será viver com 30% do seu salário?
Marta Marques Silva
00:05
A reforma do sistema é uma inevitabilidade. As soluções existem mas são necessárias decisões políticas e uma atitude didáctica.
O problema da sustentabilidade do sistema de pensões nacional não é novo. Na verdade é até bastante velho. Segundo José Veiga Sarmento, presidente da Associação Portuguesa de Fundos de Investimento, Pensões e Patrimónios, tem mais de 40 anos, "40 anos de incompetência colectiva", diz. A reforma mais contundente foi feita em 2006, pelas mãos do então ministro do Trabalho, Vieira da Silva, retirando o país da "zona vermelha" no que diz respeito ao impacto nas finanças públicas. Mas se atenuou o problema a montante, não deu resposta ao problema criado a jusante, o problema das pessoas: como serão financiadas as reformas dos portugueses no futuro? A questão foi levantada ontem na conferência "Pensões em Portugal - Que futuro?", promovida pela Liberty Seguros e pelo Diário Económico.
E embora este seja "um problema sem soluções simples", como nota Daniel Harrison, director da Reinsurance Swiss, em Londres, existe um ponto de convergência entre os especialistas: há que encontrar uma solução mista, ou na gíria dos peritos, uma solução de multipilaridade. Trocando por miúdos: o sistema de pensões é composto por três pilares. O primeiro, onde se inserem as pensões pagas pelo Estado, o segundo promovido pelas empresas - e onde o empregado também contribuir - e por último os sistemas privados de pensões, através de produtos financeiros vocacionados para o efeito. Ora, o sistema português está "coxo". O segundo e terceiro pilares são praticamente inexistentes. Em 2012 apenas 15 empresas tinham um plano de pensões certificado pela APFIPP, e apenas uma era portuguesa.
Os números e tendências que exemplificam a urgência de promover sistemas alternativos de pensões são sobejamente conhecidos: actualmente quem se reforma em Portugal fica a receber cerca de 52% do último salário, segundo dados da OCDE.
Em 40 anos as projecções apontam para cerca de 30%. Em 2011, já existiam 1,17 contribuidores por cada pensionista. No mesmo ano, 18% da população portuguesa tinha mais de 65 anos, em 2060 serão 34%. Números dramáticos aos quais se junta uma vida activa cada vez mais curta. Daniel Harrinson nota precisamente que: "Os sistemas de pensões foram desenhados para períodos curtos de educação e de reforma. Não é hoje o caso. Como é possível gerar riqueza suficiente durante um terço da vida para uma vida inteira?".
Harrinson não tem dúvidas quanto à ineficiência de um sistema de pensões com um só pilar e identifica a grande tendência global nesta matéria:"Está em curso uma transferência de responsabilidades para os empregadores e para os indivíduos. Podemos razoavelmente esperar que os indivíduos corram os riscos sozinhos?".
Raúl Marques, CEO do Banif Investment Bank, realça precisamente a importância de poupar com uma perspectiva de longo-prazo, e não por impulso, bem como a necessidade de uma gestão profissional num contexto de investimento particularmente difícil como aquele que se vive hoje. "É um desafio enorme para os gestores. Num contexto de taxas de juro quase zero o rendimento nominal é extremamente baixo, tanto na dívida pública como privada. E isto leva os gestores a ter de encarar outras alternativas", explica este responsável. Os títulos de dívida tiveram sempre um peso preponderante nas carteiras dos fundos de pensões, mas a procura por ‘yield' está a levar os gestores a novas paragens. "É preciso olhar para os instrumentos de dívida emergente, embora encerre outros riscos. É preciso considerar uma gestão cambial activa, e também, se for numa perspectiva de médio e longo-prazo, o mercado de acções, principalmente aquelas que oferecem um ‘dividend yield' interessante". Em suma: "Para gerir carteiras temos de encarar cada vez mais o mercado de capitais de forma global", observa Raúl Marques.