Portugal e Taiwan

28-03-2012
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Após o inesperado convite que me foi dirigido pelo ministro da Educação de Taiwan, para continuar o meu trabalho de investigação na National Taiwan University, fiquei ainda mais curioso sobre este país onde os portugueses foram os primeiros europeus a desembarcar no século XV, denominando esta luxuriante ilha de Formosa. Após horas, não só de amena conversa com os meus simpáticos amigos taiwaneses, mas também de farta leitura, foi-me possível compreender o segredo deste formidável país. Taiwan é um rochedo com a dimensão de metade de Portugal. Não tem, em absoluto, qualquer recurso natural: petróleo, ouro, florestas, praias exóticas, etc. Até a areia e a gravilha para a construção civil têm de ser importados. Porém, detém as quartas maiores reservas financeiras do mundo, a taxa de crescimento económico anual é de 10,8%, o desemprego situa-se nos 4,6%, o rendimento per capita é de 20.242 dólares e possui um surplus na sua balança comercial de 23.200 milhões de dólares. É também um dos maiores investidores noutros países (cerca de 10.500 milhões de dólares). Infelizmente, o nosso país não está na rota dos investidores de Taiwan, não por desinteresse deste país, mas por indiferença das autoridades portuguesas (em resultado das pressões de Pequim), apesar das infrutíferas aproximações de Taipé a Lisboa.

O segredo é muito simples. Dada a escassez de recursos naturais, Taiwan desenvolveu uma cultura de competência, de mérito, de trabalho, de exigência e efectuou fortes investimentos no seu maior recurso natural: os seus 23 milhões de habitantes. Investiu fortemente no seu povo através das suas 130 universidades, algumas das quais as mais prestigiadas do Sudoeste da Ásia - 90% do seu povo é altamente qualificado. A este propósito a OCDE publicou um fantástico estudo que mede a correlação entre a performance e o aumento no PIB em resultado da exploração dos seus recursos naturais, no âmbito do Program for International Student Assessment (PISA) (que a todos os dois anos testa os conhecimentos a matemática, ciências e leitura dos alunos com 15 anos em cerca de 65 países). Isto é, será que os alunos do ensino secundário são melhores em matemática à medida que o seu país extrai mais riquezas do seu subsolo, nomeadamente, petróleo ou ouro? Ou não?

O resultado é absolutamente revelador, pois, de acordo com este estudo, "verifica-se que existe uma relação significativa negativa entre as riquezas naturais extraídas e as competências e conhecimentos adquiridos nas escolas". Dito de outro modo, quanto maior é a extracção de recursos naturais, mais baixos são os níveis de conhecimentos adquiridos nas escolas. Neste sentido, também Israel constitui um paradigma, dado que, apesar de ser um país pobre em recursos naturais, tem uma das mais inovadoras economias do mundo e a sua população goza de padrões de vida muito superiores aos dos seus vizinhos ricos em petróleo. Os altos resultados do PISA em Singapura, Finlândia, Coreia do Sul, Japão e Hong Kong e os baixos resultados no mesmo teste no Qatar, Cazaquistão, Arábia Saudita, Kuwait e Omã provam que os livros são bastantes mais profícuos que os recursos naturais no desenvolvimento das nações.

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Por conseguinte, é na aposta de um ensino exigente e de qualidade, com professores fortemente motivados, que está a resposta à saída da crise do nosso país. Por isso, causa estupefacção os cortes radicais e incompreensíveis, de alguns anos a esta parte, no ensino, e muito especial nas universidades, que resultaram não só no empobrecimento do ensino, como também no empobrecimento do próprio país. E, como se não bastasse já a precariedade contratual de milhares de professores e investigadores, parte destes irão ser lançados escandalosamente no desemprego, soma-se o obsceno número de alunos que todos os dias abandonam o ensino por falta de recursos. Acresce que a minha perplexidade não tem limites quando membros do executivo aconselham os nossos filhos, jovens talentosos, muitos deles altamente qualificados, que constituem a verdadeira riqueza deste país, a emigrarem, depauperando o país, agravando o desequilíbrio demográfico e aumentando a pressão sobre o sistema de Segurança Social.

P.S. - No artigo "A zona euro está anestesiada não curada", publicado a 14 de Março, houve um lapso. A frase correcta seria: "O pensamento económico de Krugman é resultado de dezenas de anos de investigação científica e não em resultado de estados de alma." As minhas desculpas.

Após o inesperado convite que me foi dirigido pelo ministro da Educação de Taiwan, para continuar o meu trabalho de investigação na National Taiwan University, fiquei ainda mais curioso sobre este país onde os portugueses foram os primeiros europeus a desembarcar no século XV, denominando esta luxuriante ilha de Formosa. Após horas, não só de amena conversa com os meus simpáticos amigos taiwaneses, mas também de farta leitura, foi-me possível compreender o segredo deste formidável país. Taiwan é um rochedo com a dimensão de metade de Portugal. Não tem, em absoluto, qualquer recurso natural: petróleo, ouro, florestas, praias exóticas, etc. Até a areia e a gravilha para a construção civil têm de ser importados. Porém, detém as quartas maiores reservas financeiras do mundo, a taxa de crescimento económico anual é de 10,8%, o desemprego situa-se nos 4,6%, o rendimento per capita é de 20.242 dólares e possui um surplus na sua balança comercial de 23.200 milhões de dólares. É também um dos maiores investidores noutros países (cerca de 10.500 milhões de dólares). Infelizmente, o nosso país não está na rota dos investidores de Taiwan, não por desinteresse deste país, mas por indiferença das autoridades portuguesas (em resultado das pressões de Pequim), apesar das infrutíferas aproximações de Taipé a Lisboa.

O segredo é muito simples. Dada a escassez de recursos naturais, Taiwan desenvolveu uma cultura de competência, de mérito, de trabalho, de exigência e efectuou fortes investimentos no seu maior recurso natural: os seus 23 milhões de habitantes. Investiu fortemente no seu povo através das suas 130 universidades, algumas das quais as mais prestigiadas do Sudoeste da Ásia - 90% do seu povo é altamente qualificado. A este propósito a OCDE publicou um fantástico estudo que mede a correlação entre a performance e o aumento no PIB em resultado da exploração dos seus recursos naturais, no âmbito do Program for International Student Assessment (PISA) (que a todos os dois anos testa os conhecimentos a matemática, ciências e leitura dos alunos com 15 anos em cerca de 65 países). Isto é, será que os alunos do ensino secundário são melhores em matemática à medida que o seu país extrai mais riquezas do seu subsolo, nomeadamente, petróleo ou ouro? Ou não?

O resultado é absolutamente revelador, pois, de acordo com este estudo, "verifica-se que existe uma relação significativa negativa entre as riquezas naturais extraídas e as competências e conhecimentos adquiridos nas escolas". Dito de outro modo, quanto maior é a extracção de recursos naturais, mais baixos são os níveis de conhecimentos adquiridos nas escolas. Neste sentido, também Israel constitui um paradigma, dado que, apesar de ser um país pobre em recursos naturais, tem uma das mais inovadoras economias do mundo e a sua população goza de padrões de vida muito superiores aos dos seus vizinhos ricos em petróleo. Os altos resultados do PISA em Singapura, Finlândia, Coreia do Sul, Japão e Hong Kong e os baixos resultados no mesmo teste no Qatar, Cazaquistão, Arábia Saudita, Kuwait e Omã provam que os livros são bastantes mais profícuos que os recursos naturais no desenvolvimento das nações.

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Por conseguinte, é na aposta de um ensino exigente e de qualidade, com professores fortemente motivados, que está a resposta à saída da crise do nosso país. Por isso, causa estupefacção os cortes radicais e incompreensíveis, de alguns anos a esta parte, no ensino, e muito especial nas universidades, que resultaram não só no empobrecimento do ensino, como também no empobrecimento do próprio país. E, como se não bastasse já a precariedade contratual de milhares de professores e investigadores, parte destes irão ser lançados escandalosamente no desemprego, soma-se o obsceno número de alunos que todos os dias abandonam o ensino por falta de recursos. Acresce que a minha perplexidade não tem limites quando membros do executivo aconselham os nossos filhos, jovens talentosos, muitos deles altamente qualificados, que constituem a verdadeira riqueza deste país, a emigrarem, depauperando o país, agravando o desequilíbrio demográfico e aumentando a pressão sobre o sistema de Segurança Social.

P.S. - No artigo "A zona euro está anestesiada não curada", publicado a 14 de Março, houve um lapso. A frase correcta seria: "O pensamento económico de Krugman é resultado de dezenas de anos de investigação científica e não em resultado de estados de alma." As minhas desculpas.

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