1. Nota-se nas reacções nacionais à decisão da Moody"s que nos converteu em lixo de um dia para o outro e logo agora que começámos a cumprir a sangria da troika, uma daquelas raras unanimidades que seria estultícia ignorar. É um momento de fervor patriótico que não escapará certamente aos historiadores do futuro, como outros semelhantes não escapam aos de hoje.
O governo defende-se como pode porque foi apanhado de calças na mão após anunciar um imposto extraordinário mais troikista do que a troika (os técnicos europeus nunca anteciparam o tema). Mas são mais instrutivos os banqueiros, administradores, políticos, tudo gente pesada e responsável que olhou para a Moody"s e não hesitou. "Imoral", "insultuoso", "terrorista" foram apenas três dos múltiplos epítetos que temos ouvido. Sendo eu um patriota, mais um patriota constitucional do que outra coisa, lembro-me sempre de uma passagem de Os Maias. "É patriotismo, disse o Ega, Fujamos.". Não sei se o que temos ouvido é patriotismo e já iremos às agências de rating. Mas pensemos no seguinte.
Primeiro, a 4 de Julho, o economista Silva Lopes diz à imprensa que "se a União Europeia não nos emprestar mais dinheiro, se continuar a acreditar que os mercados vão resolver o problema, estamos arrumados". Segundo, o empréstimo da Europa e do FMI é de 80 mil milhões, mas logo em Maio os especialistas da Unidade Técnica de Apoio Orçamental avisam que só para amortizar dívida e juros de financiamento são necessários 54 mil milhões.
Drástico. Se alguns dos nossos mais credíveis observadores não acreditam na suficiência deste plano e prevêem o pior para 2012 (visto que 2011 está totalmente financiado), como é que podemos esperar que a Moody"s afirme o contrário e aconselhe os investidores a comprarem dívida portuguesa? E como é que não acabaremos, de facto, sendo mais troikistas que a troika? É inevitável. Este plano é uma base de partida. Custa, mas custa mais não vermos o que aí está. Nós não sairemos disto com leveza e não pelo nosso próprio pé. Não reconquistaremos tão cedo a confiança dos mercados. E preparemo-nos para todas as possibilidades, incluindo a saída do euro, porque este lixo é apenas um começo.
2. Dito isto, fujamos do patriotismo, deste patriotismo, mas pior emenda que o soneto seria aderir a um mundo sem estados e sem política, no qual as Moody"s e companhia actuam sem limites.
No auge da crise de 2008, após a falência do Lehmann Brothers (relembrar o texto da jornalista Cristina Ferreira neste jornal), quando o Congresso americano debateu se deveria ou não acusar as agências de rating pela forma falhada e, nalguns casos, criminosa como foram certificadas algumas instituições financeiras, essas agências defenderam-se com o argumento de que os relatórios que assinaram e as posições que assumiram nunca garantiram objectivamente nada.
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O seu único poder, diziam, era meramente um poder da opinião. As agências de rating opinam sobre as dívidas soberanas, classificam e desclassificam; colocam rótulos nos Estados ou em empresas entaladas; influenciam e afugentam os investidores. No limite, podem exercer um papel profundamente insidioso sobre governos eleitos.
Vem a Moody"s e atira-nos para o lixo. Dizer o quê? É uma opinião. Sucede que não pode ser apenas uma opinião. E, ainda que fosse, podem estas agências ser tão cegas às consequências das suas opiniões que para nós, nesta fase, acarretam a desvalorização dos nossos principais activos e mais dificuldades no cumprimento do acordo? Não está em causa o que pensa a Moody"s sobre nós. Mas está em causa o tempo e o modo como disse o que pensa.
As agências de rating não são a DECO dos mercados financeiros. Não são o pior dos males. Mas tornaram-se um poder corrosivo e desestabilizador que precisa de controlo. Jurista
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1. Nota-se nas reacções nacionais à decisão da Moody"s que nos converteu em lixo de um dia para o outro e logo agora que começámos a cumprir a sangria da troika, uma daquelas raras unanimidades que seria estultícia ignorar. É um momento de fervor patriótico que não escapará certamente aos historiadores do futuro, como outros semelhantes não escapam aos de hoje.
O governo defende-se como pode porque foi apanhado de calças na mão após anunciar um imposto extraordinário mais troikista do que a troika (os técnicos europeus nunca anteciparam o tema). Mas são mais instrutivos os banqueiros, administradores, políticos, tudo gente pesada e responsável que olhou para a Moody"s e não hesitou. "Imoral", "insultuoso", "terrorista" foram apenas três dos múltiplos epítetos que temos ouvido. Sendo eu um patriota, mais um patriota constitucional do que outra coisa, lembro-me sempre de uma passagem de Os Maias. "É patriotismo, disse o Ega, Fujamos.". Não sei se o que temos ouvido é patriotismo e já iremos às agências de rating. Mas pensemos no seguinte.
Primeiro, a 4 de Julho, o economista Silva Lopes diz à imprensa que "se a União Europeia não nos emprestar mais dinheiro, se continuar a acreditar que os mercados vão resolver o problema, estamos arrumados". Segundo, o empréstimo da Europa e do FMI é de 80 mil milhões, mas logo em Maio os especialistas da Unidade Técnica de Apoio Orçamental avisam que só para amortizar dívida e juros de financiamento são necessários 54 mil milhões.
Drástico. Se alguns dos nossos mais credíveis observadores não acreditam na suficiência deste plano e prevêem o pior para 2012 (visto que 2011 está totalmente financiado), como é que podemos esperar que a Moody"s afirme o contrário e aconselhe os investidores a comprarem dívida portuguesa? E como é que não acabaremos, de facto, sendo mais troikistas que a troika? É inevitável. Este plano é uma base de partida. Custa, mas custa mais não vermos o que aí está. Nós não sairemos disto com leveza e não pelo nosso próprio pé. Não reconquistaremos tão cedo a confiança dos mercados. E preparemo-nos para todas as possibilidades, incluindo a saída do euro, porque este lixo é apenas um começo.
2. Dito isto, fujamos do patriotismo, deste patriotismo, mas pior emenda que o soneto seria aderir a um mundo sem estados e sem política, no qual as Moody"s e companhia actuam sem limites.
No auge da crise de 2008, após a falência do Lehmann Brothers (relembrar o texto da jornalista Cristina Ferreira neste jornal), quando o Congresso americano debateu se deveria ou não acusar as agências de rating pela forma falhada e, nalguns casos, criminosa como foram certificadas algumas instituições financeiras, essas agências defenderam-se com o argumento de que os relatórios que assinaram e as posições que assumiram nunca garantiram objectivamente nada.
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O seu único poder, diziam, era meramente um poder da opinião. As agências de rating opinam sobre as dívidas soberanas, classificam e desclassificam; colocam rótulos nos Estados ou em empresas entaladas; influenciam e afugentam os investidores. No limite, podem exercer um papel profundamente insidioso sobre governos eleitos.
Vem a Moody"s e atira-nos para o lixo. Dizer o quê? É uma opinião. Sucede que não pode ser apenas uma opinião. E, ainda que fosse, podem estas agências ser tão cegas às consequências das suas opiniões que para nós, nesta fase, acarretam a desvalorização dos nossos principais activos e mais dificuldades no cumprimento do acordo? Não está em causa o que pensa a Moody"s sobre nós. Mas está em causa o tempo e o modo como disse o que pensa.
As agências de rating não são a DECO dos mercados financeiros. Não são o pior dos males. Mas tornaram-se um poder corrosivo e desestabilizador que precisa de controlo. Jurista