As histórias da linha de comboio que sobreviveu. Duas vezes

10-07-2011
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Esta semana, a linha Porto-Vigo teve de novo a sua morte anunciada. Ontem, o que era para ser a última viagem, tornou-se um momento de devoção às paisagens que revela e às memórias que suscita

Margarida Paulino, 65 anos, chegou cedo à composição estacionada na linha 14 da estação de Campanhã, no Porto. No comboio lê-se que o destino é Vigo, mas no placar electrónico, o destino final apontado é Tui. Margarida não se deixa enganar. Já fez aquele percurso várias vezes. Ontem, levou consigo a mãe, Emília, de 89 anos, e convenceu o irmão e a cunhada, José e Rosa, a acompanhá-las, pela primeira vez, na viagem entre o Porto e Vigo. "Combinámos fazer esta viagem por ser a última. Vamos de manhã e regressamos à noite", diz. Afinal, já não foi a última. Mas Margarida manteve o passeio, apesar da chuva matinal. E, como ela, muitas outras pessoas.

Às 7h55, a composição começa a afastar-se do Porto. Devagar, muito devagar, chega a Ermesinde e continua para a Trofa, Famalicão, Nine. Vai mais lenta do que o costume, porque um comboio suburbano que saiu atrasado de Campanhã tapa-lhe o caminho. A bordo é difícil visualizar os números de ocupação divulgados nos últimos dias, e que apontavam para uma média de onze passageiros pagantes por trajecto. O comboio fica cheio num instante. Entra um grupo de jovens em Ermesinde, entram mulheres de mochilas às costas, e um grupo de escuteiros já só se consegue acomodar pelo chão, quando sobe para o comboio, em Famalicão.

O revisor - presença obrigatória - verificou todos os bilhetes logo à primeira paragem e confirma que o movimento é pouco usual. "Devem estar umas cem pessoas para Vigo. É mais do que o normal, apesar de o movimento ser muito inconstante e de ao fim-de-semana haver sempre mais gente", diz.

A meio do trajecto, o comboio que, em menos de uma semana teve morte anunciada e voltou a renascer, vai apinhado de gente. O grupo de jovens que entrou em Ermesinde faz parte dos passageiros que está ali porque já tinha planeado ali estar, antes de se pensar que o trajecto do comboio seria interrompido. "Comprámos os bilhetes ontem [anteontem], mas mesmo depois de os comprarmos, não nos davam a certeza se ia haver comboio", diz Duarte Barros. Ao seu lado, Ricardo, explica que escolheram o comboio "por ser mais rápido, mais confortável e mais barato".

Mais rápido não será - o trajecto de camioneta ronda as duas horas, enquanto esta viagem chega às três horas e meia -, mas numa camioneta, Ricardo e os colegas não poderiam circular pelo corredor a todo o momento, mudando de banco, quando, para lá de Barcelos, algumas pessoas começam a sair.

Na carruagem da frente, Alexandre, de 8 anos, não se cansa das visitas à cabine do maquinista. Subiu para o comboio no Porto e vai até Vigo com os pais e a irmã de cinco anos. Quando compraram os bilhetes, na quinta-feira, a informação sobre a suspensão da linha já dera a primeira reviravolta.

Memória do contrabando

No início da semana, a CP anunciara que iria pôr um ponto final nos quatro comboios diários entre Porto e Vigo (dois em cada sentido), alegando prejuízos anuais de 232 mil euros. Os protestos no Minho e na Galiza puseram um travão nesta vontade e, na quinta-feira, a CP já admitia manter o serviço até Tui. Na sexta-feira, o anúncio de que a espanhola Renfe iria aumentar a comparticipação financeira da linha, pagando à CP 450 mil euros por ano, permitiu que tudo continuasse na mesma.

Mas isso não chega, reclamaram, logo, os autarcas de Valença e de Tui. É preciso modernizar a linha e torná-la mais apelativa. Apelos que já se tinham feito ouvir em 2005, quando do primeiro anúncio falhado do fim da ligação internacional.

A bordo, Mário Mesquita, reformado e entusiasta de comboios, sintetiza a sua opinião sobre o processo: "A CP não sabe o que está a fazer." Mário não está sozinho. Leva um grupo de amigos, todos amantes do comboio, que compraram o bilhete para acompanhar o último dia do trajecto internacional, decidindo manter o passeio apesar do cancelamento do funeral.

Defendem que a linha deve ser renovada e mantida, riem-se da anunciada troca de composições - os "camelos" que passarão a operar ali não são melhores que as máquinas actuais, garantem, e têm a inconveniência de terem de fazer manutenção na Galiza - e defendem que o troço é "fundamental", por razões que, às vezes, podem passar despercebidas a alguns. "Os peregrinos de Santiago usam muito estes comboios. E o pessoal que vai de bicicleta para a ecopista de Monção também,", diz Pedro, mais um dos entusiastas que, à noite, havia de regressar ao Porto.

Algumas pessoas abandonam o comboio antes de este cruzar a ponte de ferro com 125 anos, sobre o rio Minho, desenhada pelo espanhol Pelayo Mancebo. Antes do Acordo de Schengen entrar em vigor, em 1992, havia controlo de passaporte para cruzar a fronteira e as visitas dos portugueses a Tui eram famosas pelos produtos que tentavam trazer às escondidas. Antes, tinha sido o "trapiche" (contrabando), nos anos 50, a ganhar fama. E o comboio também servia esses fins, lembra Tiano Faria, 63 anos, cuja mãe foi "trapicheira" durante mais de 20 anos. "As mulheres levavam pouca coisa, mas o contrabando a sério, de café e de sabão, era escondido nas máquinas a vapor dos comboios, com a cumplicidade do fogueiro e do maquinista. Certa vez, foram denunciados e, ao aperceberem-se, despejaram o café na fornalha. A polícia já só sentiu o cheiro", conta.

Em Tui, no supermercado Camões, Isabel Barragans, 55 anos, já não fala do contrabando, mas lembra-se dos portugueses que cruzavam a fronteira à procura de produtos mais baratos. "Costumávamos vender bacalhau, carne... Lembro-me de ir até à estação e meter a mercadoria pela janela, quando o guarda não estava a olhar. Mas também me recordo que, às vezes, as pessoas ficavam sem nada, porque as descobriam e não as deixavam levar as coisas", diz.

Ainda hoje, "95 por cento" da clientela de Isabel é portuguesa e ela não quer ouvir falar da possibilidade de o comboio do Porto deixar de passar em Tui. "Para mim era muito mau se ele deixasse de vir", diz.

À passagem do comboio matinal, com destino a Vigo, a estação de Tui está animada. A composição espera pela entrada do condutor espanhol que irá acompanhar o maquinista português até Vigo, mas, como de costume, não aparece o revisor, e a parte final do trajecto fica por cobrar, já que em Portugal apenas é possível comprar bilhete até Tui.

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Depois de o comboio partir, a estação só volta a ganhar vida quando o da noite passa, de regresso ao Porto. À tarde, a estação está aberta, mas lá dentro não há ninguém, e um aviso indica que ali não se vendem bilhetes "pelo que se pede aos passageiros que peçam o título a bordo".

Em frente à estação, o português Tiago Afonso, 27 anos, serve ao balcão do café San Telmo, e encolhe os ombros à possibilidade de o comboio deixar de chegar. "De vez em quando, desce algum passageiro, mas são muito poucos. Se houvesse mais horários e se o serviço fosse mais rápido seria uma opção mais viável", diz.

Às 19h37, aquele que esteve para ser o último comboio de Vigo para o Porto sairia da estação. Os portugueses que ali desembarcaram de manhã regressam a casa, onde deviam chegar às 21h55. A boa notícia é que hoje ou amanhã, se quiserem, podem voltar a fazer o mesmo trajecto. O comboio Porto-Vigo, afinal, não morreu.

Esta semana, a linha Porto-Vigo teve de novo a sua morte anunciada. Ontem, o que era para ser a última viagem, tornou-se um momento de devoção às paisagens que revela e às memórias que suscita

Margarida Paulino, 65 anos, chegou cedo à composição estacionada na linha 14 da estação de Campanhã, no Porto. No comboio lê-se que o destino é Vigo, mas no placar electrónico, o destino final apontado é Tui. Margarida não se deixa enganar. Já fez aquele percurso várias vezes. Ontem, levou consigo a mãe, Emília, de 89 anos, e convenceu o irmão e a cunhada, José e Rosa, a acompanhá-las, pela primeira vez, na viagem entre o Porto e Vigo. "Combinámos fazer esta viagem por ser a última. Vamos de manhã e regressamos à noite", diz. Afinal, já não foi a última. Mas Margarida manteve o passeio, apesar da chuva matinal. E, como ela, muitas outras pessoas.

Às 7h55, a composição começa a afastar-se do Porto. Devagar, muito devagar, chega a Ermesinde e continua para a Trofa, Famalicão, Nine. Vai mais lenta do que o costume, porque um comboio suburbano que saiu atrasado de Campanhã tapa-lhe o caminho. A bordo é difícil visualizar os números de ocupação divulgados nos últimos dias, e que apontavam para uma média de onze passageiros pagantes por trajecto. O comboio fica cheio num instante. Entra um grupo de jovens em Ermesinde, entram mulheres de mochilas às costas, e um grupo de escuteiros já só se consegue acomodar pelo chão, quando sobe para o comboio, em Famalicão.

O revisor - presença obrigatória - verificou todos os bilhetes logo à primeira paragem e confirma que o movimento é pouco usual. "Devem estar umas cem pessoas para Vigo. É mais do que o normal, apesar de o movimento ser muito inconstante e de ao fim-de-semana haver sempre mais gente", diz.

A meio do trajecto, o comboio que, em menos de uma semana teve morte anunciada e voltou a renascer, vai apinhado de gente. O grupo de jovens que entrou em Ermesinde faz parte dos passageiros que está ali porque já tinha planeado ali estar, antes de se pensar que o trajecto do comboio seria interrompido. "Comprámos os bilhetes ontem [anteontem], mas mesmo depois de os comprarmos, não nos davam a certeza se ia haver comboio", diz Duarte Barros. Ao seu lado, Ricardo, explica que escolheram o comboio "por ser mais rápido, mais confortável e mais barato".

Mais rápido não será - o trajecto de camioneta ronda as duas horas, enquanto esta viagem chega às três horas e meia -, mas numa camioneta, Ricardo e os colegas não poderiam circular pelo corredor a todo o momento, mudando de banco, quando, para lá de Barcelos, algumas pessoas começam a sair.

Na carruagem da frente, Alexandre, de 8 anos, não se cansa das visitas à cabine do maquinista. Subiu para o comboio no Porto e vai até Vigo com os pais e a irmã de cinco anos. Quando compraram os bilhetes, na quinta-feira, a informação sobre a suspensão da linha já dera a primeira reviravolta.

Memória do contrabando

No início da semana, a CP anunciara que iria pôr um ponto final nos quatro comboios diários entre Porto e Vigo (dois em cada sentido), alegando prejuízos anuais de 232 mil euros. Os protestos no Minho e na Galiza puseram um travão nesta vontade e, na quinta-feira, a CP já admitia manter o serviço até Tui. Na sexta-feira, o anúncio de que a espanhola Renfe iria aumentar a comparticipação financeira da linha, pagando à CP 450 mil euros por ano, permitiu que tudo continuasse na mesma.

Mas isso não chega, reclamaram, logo, os autarcas de Valença e de Tui. É preciso modernizar a linha e torná-la mais apelativa. Apelos que já se tinham feito ouvir em 2005, quando do primeiro anúncio falhado do fim da ligação internacional.

A bordo, Mário Mesquita, reformado e entusiasta de comboios, sintetiza a sua opinião sobre o processo: "A CP não sabe o que está a fazer." Mário não está sozinho. Leva um grupo de amigos, todos amantes do comboio, que compraram o bilhete para acompanhar o último dia do trajecto internacional, decidindo manter o passeio apesar do cancelamento do funeral.

Defendem que a linha deve ser renovada e mantida, riem-se da anunciada troca de composições - os "camelos" que passarão a operar ali não são melhores que as máquinas actuais, garantem, e têm a inconveniência de terem de fazer manutenção na Galiza - e defendem que o troço é "fundamental", por razões que, às vezes, podem passar despercebidas a alguns. "Os peregrinos de Santiago usam muito estes comboios. E o pessoal que vai de bicicleta para a ecopista de Monção também,", diz Pedro, mais um dos entusiastas que, à noite, havia de regressar ao Porto.

Algumas pessoas abandonam o comboio antes de este cruzar a ponte de ferro com 125 anos, sobre o rio Minho, desenhada pelo espanhol Pelayo Mancebo. Antes do Acordo de Schengen entrar em vigor, em 1992, havia controlo de passaporte para cruzar a fronteira e as visitas dos portugueses a Tui eram famosas pelos produtos que tentavam trazer às escondidas. Antes, tinha sido o "trapiche" (contrabando), nos anos 50, a ganhar fama. E o comboio também servia esses fins, lembra Tiano Faria, 63 anos, cuja mãe foi "trapicheira" durante mais de 20 anos. "As mulheres levavam pouca coisa, mas o contrabando a sério, de café e de sabão, era escondido nas máquinas a vapor dos comboios, com a cumplicidade do fogueiro e do maquinista. Certa vez, foram denunciados e, ao aperceberem-se, despejaram o café na fornalha. A polícia já só sentiu o cheiro", conta.

Em Tui, no supermercado Camões, Isabel Barragans, 55 anos, já não fala do contrabando, mas lembra-se dos portugueses que cruzavam a fronteira à procura de produtos mais baratos. "Costumávamos vender bacalhau, carne... Lembro-me de ir até à estação e meter a mercadoria pela janela, quando o guarda não estava a olhar. Mas também me recordo que, às vezes, as pessoas ficavam sem nada, porque as descobriam e não as deixavam levar as coisas", diz.

Ainda hoje, "95 por cento" da clientela de Isabel é portuguesa e ela não quer ouvir falar da possibilidade de o comboio do Porto deixar de passar em Tui. "Para mim era muito mau se ele deixasse de vir", diz.

À passagem do comboio matinal, com destino a Vigo, a estação de Tui está animada. A composição espera pela entrada do condutor espanhol que irá acompanhar o maquinista português até Vigo, mas, como de costume, não aparece o revisor, e a parte final do trajecto fica por cobrar, já que em Portugal apenas é possível comprar bilhete até Tui.

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Depois de o comboio partir, a estação só volta a ganhar vida quando o da noite passa, de regresso ao Porto. À tarde, a estação está aberta, mas lá dentro não há ninguém, e um aviso indica que ali não se vendem bilhetes "pelo que se pede aos passageiros que peçam o título a bordo".

Em frente à estação, o português Tiago Afonso, 27 anos, serve ao balcão do café San Telmo, e encolhe os ombros à possibilidade de o comboio deixar de chegar. "De vez em quando, desce algum passageiro, mas são muito poucos. Se houvesse mais horários e se o serviço fosse mais rápido seria uma opção mais viável", diz.

Às 19h37, aquele que esteve para ser o último comboio de Vigo para o Porto sairia da estação. Os portugueses que ali desembarcaram de manhã regressam a casa, onde deviam chegar às 21h55. A boa notícia é que hoje ou amanhã, se quiserem, podem voltar a fazer o mesmo trajecto. O comboio Porto-Vigo, afinal, não morreu.

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