Grande Loja do Queijo Limiano

01-07-2011
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Para variar, não me tem apetecido escrever. Não me apetece escrever, em mais este aniversário da revolução dos cravos, para ter de criticar Jorge Sampaio, esse insigne democrata, presidente de todos os portugueses nomeadamente de todos os maçons, que veio a terreiro defender a honra da maçonaria mais a perigosidade da lista de PIDEs, que o era, deixou de ser e voltou a ser.

Mas sobretudo não me tem apetecido particularmente escrever por causa do Congresso do CDS/PP, porque a escrever tenho que me render ao génio, ao absoluto génio, de um homem. Raras vezes, em política, se pode assistir a um espectáculo tão sublime, tão coreografado, tão subtil e eficaz, com o deste fim de semana. Absolutamente perfeito, simplesmente suberbo e a fazer lembrar Keizer Soze, o maléfico génio d' Os Suspeitos do Costume. E o melhor de tudo é que a esmagadora maioria da assistência, analistas e intérpretes, ainda não perceberam verdadeiramente o que se passou.

E o que se passou foi, ai que isto custa a escrever, que quando quer Paulo Portas é - "artisticamente" o melhor político português no activo. Paulo Portas é o único vencedor do Congresso do PP deste fim de semana, e, bem analisados os factos, o seu grande protagonista. Paulo Portas, na noite das eleições legislativas, percebeu que tinha que sair de cena, que respirar, para ter espaço para, se um dia o quiser, voltar. Sair era a parte fácil, deixar o partido de molho, preparado para o seu regresso, se e quando lhe aprouver, era o difícil, senão impossível. Portas transformara afinal o CDS/PP numa espécie de Partido unipessoal. E, no entanto, Portas conseguiu-o.

Não deixa de dar um certo gozo ler o que tem sido escrito. José Adelino Maltez, monteirista arrependido, já canta hossanas ao novo líder do CDS, sonhando porventura já com o regresso dos PNDs, que Monteiro já não conta, ao PP, outros como Rui Albuquerque ou José Bourbom, falam, embevecidos, numa vitória das bases, num sinal de vitalidade e vontade, contra os comentaristas, outros, ainda, preferem justificar as coisas com o discurso da vida de Ribeiro e Castro. O Dr. Portas deve estar a rebolar-se ainda, perdido de riso. Não foi bem assim. As coisas começaram a ficar claras no final da semana passada quando se soube que Abel Pinheiro, o homem das finanças de Portas e do PP, não iria apoiar Telmo Correia.

Sexta-Feira, durante o dia, Portas, himself, deu carta branca ao seu inner circle de colaboradores, para cacicarem abertamente a favor do corredor de fundo Ribeiro e Castro, deixando aliás descalço e no meio da rua o líder espiritual d'O Acidental, incumbido de redigir uma moção para nada. Nobre Guedes juntou o útil ao agradável, o seu pó a Telmo Correia, desde os tempos das guerras na Distrital de Lisboa, à prossecução dos seus interesses de médio prazo. O resto foram as leis da gravidade a funcionar.

Portas sabia que não podia entregar o partido a uma troupe vista como de meros portistas fiéis, com Monteiro aprendeu dos riscos de as criaturas, a prazo, ganharem vontade própria e se revoltarem contra o criador, também sabia que o portismo, sem ele, seria um fantasma que o perseguiria e só lhe limitaria ambições e margens de manobra futuras.

Portas sabia ainda que sem uma liderança forte, carismática, qualquer solução portista resultaria a prazo em deserções, ou cisões, uma coisa é Maria José Nogueira Pinto ou Lobo Xavier baixarem a bola perante um líder forte, outra, totalmente diferente, é manterem-se sossegados perante um novo líder que os despreza e que desprezam.

Portas sabia tudo isto, Telmo Correia não. De tabú em tabú, completamente inebriado, Telmo Correia resolveu imitar Portas e deu-se mal. Deu-se mal porque não tem um milésimo da massa cinzenta deste (e da de Nobre Guedes) e porque fundamentalmente não percebeu que sem Portas o PP não podia continuar a ser o mesmo.

Entra Ribeiro e Castro, suficientemente apagado para não gerar os anti-corpos de uma Nogueira Pinto, ou de um Lobo Xavier, suficientemente distante para federar todos os que não estiveram com Portas estes anos e suficientemente pragmático para não recusar o apoio de Portas himself. A sua vitória é a prova provada de que o PP, com Portas, foi mesmo um partido unipessoal, o aparelho sénior, concelhias e distritais, bem que se entregou a Telmo, mas bastou um sinal - Abel Pinheiro, para não falar em Nobre Guedes - claro e inequívoco do que realmente queria Portas para a plebe se render a Ribeiro e Castro. Absolutamente poético.

Podem por aí perorar à vontade sobre derivas à esquerda, à direita, liberais ou ao centro, o CDS/PP está hoje onde Portas o quer, e sobretudo está unido e federado. Portas deixa assim o CDS mais ou menos como o encontrou antes de Monteiro, cinzento, respeitável e inócuo, um misto de senadores e patrícios, sem rasgo nem chama. E sobretudo deixa o PP numa posição dócil de não frontamento ao PSD, mas sobre isso falaremos noutra altura...

Ribeiro e Castro dará um bom feitor, todos os excluídos da era portista estão agora devidamente reintegrados, até os freitistas... e quanto aos boys de Portas, liderados por Telmo, resta-lhes o consolo que um dia, mais tarde ou mais cedo, Portas voltará. Resta saber se nessa altura Portas ainda precisará deles...

Em tempos do Diabo se disse que o seu maior feito foi ter convencido a Humanidade que (já) não existia...

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Publicado por Manuel

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Para variar, não me tem apetecido escrever. Não me apetece escrever, em mais este aniversário da revolução dos cravos, para ter de criticar Jorge Sampaio, esse insigne democrata, presidente de todos os portugueses nomeadamente de todos os maçons, que veio a terreiro defender a honra da maçonaria mais a perigosidade da lista de PIDEs, que o era, deixou de ser e voltou a ser.

Mas sobretudo não me tem apetecido particularmente escrever por causa do Congresso do CDS/PP, porque a escrever tenho que me render ao génio, ao absoluto génio, de um homem. Raras vezes, em política, se pode assistir a um espectáculo tão sublime, tão coreografado, tão subtil e eficaz, com o deste fim de semana. Absolutamente perfeito, simplesmente suberbo e a fazer lembrar Keizer Soze, o maléfico génio d' Os Suspeitos do Costume. E o melhor de tudo é que a esmagadora maioria da assistência, analistas e intérpretes, ainda não perceberam verdadeiramente o que se passou.

E o que se passou foi, ai que isto custa a escrever, que quando quer Paulo Portas é - "artisticamente" o melhor político português no activo. Paulo Portas é o único vencedor do Congresso do PP deste fim de semana, e, bem analisados os factos, o seu grande protagonista. Paulo Portas, na noite das eleições legislativas, percebeu que tinha que sair de cena, que respirar, para ter espaço para, se um dia o quiser, voltar. Sair era a parte fácil, deixar o partido de molho, preparado para o seu regresso, se e quando lhe aprouver, era o difícil, senão impossível. Portas transformara afinal o CDS/PP numa espécie de Partido unipessoal. E, no entanto, Portas conseguiu-o.

Não deixa de dar um certo gozo ler o que tem sido escrito. José Adelino Maltez, monteirista arrependido, já canta hossanas ao novo líder do CDS, sonhando porventura já com o regresso dos PNDs, que Monteiro já não conta, ao PP, outros como Rui Albuquerque ou José Bourbom, falam, embevecidos, numa vitória das bases, num sinal de vitalidade e vontade, contra os comentaristas, outros, ainda, preferem justificar as coisas com o discurso da vida de Ribeiro e Castro. O Dr. Portas deve estar a rebolar-se ainda, perdido de riso. Não foi bem assim. As coisas começaram a ficar claras no final da semana passada quando se soube que Abel Pinheiro, o homem das finanças de Portas e do PP, não iria apoiar Telmo Correia.

Sexta-Feira, durante o dia, Portas, himself, deu carta branca ao seu inner circle de colaboradores, para cacicarem abertamente a favor do corredor de fundo Ribeiro e Castro, deixando aliás descalço e no meio da rua o líder espiritual d'O Acidental, incumbido de redigir uma moção para nada. Nobre Guedes juntou o útil ao agradável, o seu pó a Telmo Correia, desde os tempos das guerras na Distrital de Lisboa, à prossecução dos seus interesses de médio prazo. O resto foram as leis da gravidade a funcionar.

Portas sabia que não podia entregar o partido a uma troupe vista como de meros portistas fiéis, com Monteiro aprendeu dos riscos de as criaturas, a prazo, ganharem vontade própria e se revoltarem contra o criador, também sabia que o portismo, sem ele, seria um fantasma que o perseguiria e só lhe limitaria ambições e margens de manobra futuras.

Portas sabia ainda que sem uma liderança forte, carismática, qualquer solução portista resultaria a prazo em deserções, ou cisões, uma coisa é Maria José Nogueira Pinto ou Lobo Xavier baixarem a bola perante um líder forte, outra, totalmente diferente, é manterem-se sossegados perante um novo líder que os despreza e que desprezam.

Portas sabia tudo isto, Telmo Correia não. De tabú em tabú, completamente inebriado, Telmo Correia resolveu imitar Portas e deu-se mal. Deu-se mal porque não tem um milésimo da massa cinzenta deste (e da de Nobre Guedes) e porque fundamentalmente não percebeu que sem Portas o PP não podia continuar a ser o mesmo.

Entra Ribeiro e Castro, suficientemente apagado para não gerar os anti-corpos de uma Nogueira Pinto, ou de um Lobo Xavier, suficientemente distante para federar todos os que não estiveram com Portas estes anos e suficientemente pragmático para não recusar o apoio de Portas himself. A sua vitória é a prova provada de que o PP, com Portas, foi mesmo um partido unipessoal, o aparelho sénior, concelhias e distritais, bem que se entregou a Telmo, mas bastou um sinal - Abel Pinheiro, para não falar em Nobre Guedes - claro e inequívoco do que realmente queria Portas para a plebe se render a Ribeiro e Castro. Absolutamente poético.

Podem por aí perorar à vontade sobre derivas à esquerda, à direita, liberais ou ao centro, o CDS/PP está hoje onde Portas o quer, e sobretudo está unido e federado. Portas deixa assim o CDS mais ou menos como o encontrou antes de Monteiro, cinzento, respeitável e inócuo, um misto de senadores e patrícios, sem rasgo nem chama. E sobretudo deixa o PP numa posição dócil de não frontamento ao PSD, mas sobre isso falaremos noutra altura...

Ribeiro e Castro dará um bom feitor, todos os excluídos da era portista estão agora devidamente reintegrados, até os freitistas... e quanto aos boys de Portas, liderados por Telmo, resta-lhes o consolo que um dia, mais tarde ou mais cedo, Portas voltará. Resta saber se nessa altura Portas ainda precisará deles...

Em tempos do Diabo se disse que o seu maior feito foi ter convencido a Humanidade que (já) não existia...

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Publicado por Manuel

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