Câmara Corporativa: Serei bloquista?

07-07-2011
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José Guilherme Gusmão analisa os dados, ontem divulgados, da Execução Orçamental até Agosto. Estou de acordo, em vários pontos, com a sua análise.Com efeito, Gusmão faz bem em começar por chamar a atenção para as posições tendenciosas da oposição: “visões parciais promovidas a este respeito (as árvores que cada um escolhe para pôr a floresta ao seu jeito)”. Logo de seguida, sublinha “as boas notícias na frente orçamental [que] estão ligadas a alguns dos melhores (ainda que tímidos) sinais de recuperação económica”, não deixando escapar que “[o] maior enviesamento deste debate é o total monopólio das questões relacionadas com a despesa, como se o ajustamento orçamental não se promovesse dos dois lados.” Há, de facto, aqui um sistema de vasos comunicantes que as famosas “elites” teimam em ignorar.Relativamente à despesa, Gusmão põe em relevo que “entre os dados mais interessantes estão os saldos positivos (e crescentes) na Saúde e na Segurança Social” concluindo o seguinte: “Isto é uma chatice para Passos Coelho porque mostra que, se estas são áreas determinantes pelo seu peso orçamental, estão longe de ser aquelas em que a despesa está descontrolada.”Finalmente, Gusmão dá conta das suas preocupações relativamente ao desemprego. Mas ele sabe que nós sabemos que ele sabe que a crise internacional apenas acelerou o choque estrutural que a economia portuguesa vinha sofrendo com a entrada no euro, o aumento da concorrência asiática e o alargamento ao Leste. Não é com um toque de mágica que se soluciona o problema do desemprego.Aqui chegados, põe-se-me a questão: se tenho estado de acordo com Gusmão, serei bloquista?Talvez não. Porque há sempre um momento em que um bloquista tende a fazer demagogia. Um exemplo: ao fazer alusão à queda da receita fiscal em sede de IRS, Gusmão escreve: “-7,7% na tributação progressiva dos rendimentos do trabalho e alguns de capital, apesar do aumento das taxas”. A quebra de receita com origem na “tributação progressiva dos rendimentos do trabalho” acontece porque houve um aumento do desemprego, logo menos rendimentos do trabalho sujeitos a tributação. Não se pode tributar os rendimentos de quem não os tem, “apesar do aumento das taxas”.Acho que não se confirmam os sintomas de poder estar atacado de bloquismo. Se calhar, o problema é precisamente o contrário. Um dia destes volto ao assunto, mas faço-me acompanhar do Dr. Freud.


José Guilherme Gusmão analisa os dados, ontem divulgados, da Execução Orçamental até Agosto. Estou de acordo, em vários pontos, com a sua análise.Com efeito, Gusmão faz bem em começar por chamar a atenção para as posições tendenciosas da oposição: “visões parciais promovidas a este respeito (as árvores que cada um escolhe para pôr a floresta ao seu jeito)”. Logo de seguida, sublinha “as boas notícias na frente orçamental [que] estão ligadas a alguns dos melhores (ainda que tímidos) sinais de recuperação económica”, não deixando escapar que “[o] maior enviesamento deste debate é o total monopólio das questões relacionadas com a despesa, como se o ajustamento orçamental não se promovesse dos dois lados.” Há, de facto, aqui um sistema de vasos comunicantes que as famosas “elites” teimam em ignorar.Relativamente à despesa, Gusmão põe em relevo que “entre os dados mais interessantes estão os saldos positivos (e crescentes) na Saúde e na Segurança Social” concluindo o seguinte: “Isto é uma chatice para Passos Coelho porque mostra que, se estas são áreas determinantes pelo seu peso orçamental, estão longe de ser aquelas em que a despesa está descontrolada.”Finalmente, Gusmão dá conta das suas preocupações relativamente ao desemprego. Mas ele sabe que nós sabemos que ele sabe que a crise internacional apenas acelerou o choque estrutural que a economia portuguesa vinha sofrendo com a entrada no euro, o aumento da concorrência asiática e o alargamento ao Leste. Não é com um toque de mágica que se soluciona o problema do desemprego.Aqui chegados, põe-se-me a questão: se tenho estado de acordo com Gusmão, serei bloquista?Talvez não. Porque há sempre um momento em que um bloquista tende a fazer demagogia. Um exemplo: ao fazer alusão à queda da receita fiscal em sede de IRS, Gusmão escreve: “-7,7% na tributação progressiva dos rendimentos do trabalho e alguns de capital, apesar do aumento das taxas”. A quebra de receita com origem na “tributação progressiva dos rendimentos do trabalho” acontece porque houve um aumento do desemprego, logo menos rendimentos do trabalho sujeitos a tributação. Não se pode tributar os rendimentos de quem não os tem, “apesar do aumento das taxas”.Acho que não se confirmam os sintomas de poder estar atacado de bloquismo. Se calhar, o problema é precisamente o contrário. Um dia destes volto ao assunto, mas faço-me acompanhar do Dr. Freud.

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