Da Literatura: CHINATOWN LISBOA

01-07-2011
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Hoje, no Diário de Notícias, Maria José Nogueira Pinto volta a insistir na necessidade de Lisboa ter a sua Chinatown, a exemplo, diz ela, das «várias cidades do mundo, cidades dignas desse nome, todas com a sua chinatown.» A gente lê e pasma. Maria José Nogueira Pinto não é uma estagiária de 20 anos, pouco lida e pouco viajada, sem qualquer noção de História, obrigada a escrever sobre o tema para que o jornal decida se fica afecta à Sociedade ou ao Local. Não. Maria José Nogueira Pinto é uma mulher culta, com provas dadas nos cargos que exerceu (razão pela qual, sendo de Direita, tem vela acesa na Meca das várias Esquerdas), conhecendo, como toda a gente razoavelmente lida e viajada conhece, a origem histórica dos bairros que de Londres a Toronto (imagem ao alto) e de Nova Iorque a São Francisco, agregaram as respectivas comunidades chinesas. Foi o racismo, então ostensivo, e legal, que juntou essas comunidades em guetos próprios, como do mesmo passo aconteceu com os italianos que atravessaram o Atlântico. Hoje, com o racismo encapotado, e ilegalizado, esses guetos tornaram-se atracções turísticas. O que não impede que de Londres a Nova Iorque haja muita morada chinesa fora de Chinatown (alguns dos melhores restaurantes chineses de Londres estão em Belgravia, tal como em Nova Iorque estão a norte da rua 60, muitos no Upper East Side, ou seja, a oitenta quarteirões da Chinatown de Manhattan). Dirá Maria José Nogueira Pinto que não fala de restaurantes, que fala dessas lojas que chegaram «como um upgrading, uma manifestação prática da globalização enxertada no nosso quotidiano. Disseminadas por toda a cidade, com uma enorme variedade de produtos, preços imbatíveis e horários alargados, tornaram-se a resposta para a crise económica que atinge, agora, outros estratos sociais.» Pois ainda bem que chegaram. Digo-o com o à-vontade de quem as não frequenta (sou fiel aos meus fornecedores), mas vejo nelas a possibilidade de espicaçarem o “comércio tradicional”, incapaz de dar resposta às necessidades de uma cidade como Lisboa, que não é uma grande cidade, mas sempre tem, de segunda a sexta, uma população flutuante superior a 1,2 milhões de pessoas, com horários de trabalho cada vez mais diversificados, e um ritmo de vida que não se compadece com horários de repartição fiscal. (Cujas estão abertas à hora do almoço, ao contrário de muita loja “tradicional”...) Quando Maria José Nogueira Pinto diz ser necessário perceber «a tempo, as chamadas diferenças úteis», de forma a «coexistir harmoniosamente» na cidade, está exactamente a querer dizer o quê? É que falar de «realidades específicas» a propósito do «reordenamento espacial» da imigração chinesa, tem como corolário uma doutrina pouco abonatória.Etiquetas: Sociedade

Hoje, no Diário de Notícias, Maria José Nogueira Pinto volta a insistir na necessidade de Lisboa ter a sua Chinatown, a exemplo, diz ela, das «várias cidades do mundo, cidades dignas desse nome, todas com a sua chinatown.» A gente lê e pasma. Maria José Nogueira Pinto não é uma estagiária de 20 anos, pouco lida e pouco viajada, sem qualquer noção de História, obrigada a escrever sobre o tema para que o jornal decida se fica afecta à Sociedade ou ao Local. Não. Maria José Nogueira Pinto é uma mulher culta, com provas dadas nos cargos que exerceu (razão pela qual, sendo de Direita, tem vela acesa na Meca das várias Esquerdas), conhecendo, como toda a gente razoavelmente lida e viajada conhece, a origem histórica dos bairros que de Londres a Toronto (imagem ao alto) e de Nova Iorque a São Francisco, agregaram as respectivas comunidades chinesas. Foi o racismo, então ostensivo, e legal, que juntou essas comunidades em guetos próprios, como do mesmo passo aconteceu com os italianos que atravessaram o Atlântico. Hoje, com o racismo encapotado, e ilegalizado, esses guetos tornaram-se atracções turísticas. O que não impede que de Londres a Nova Iorque haja muita morada chinesa fora de Chinatown (alguns dos melhores restaurantes chineses de Londres estão em Belgravia, tal como em Nova Iorque estão a norte da rua 60, muitos no Upper East Side, ou seja, a oitenta quarteirões da Chinatown de Manhattan). Dirá Maria José Nogueira Pinto que não fala de restaurantes, que fala dessas lojas que chegaram «como um upgrading, uma manifestação prática da globalização enxertada no nosso quotidiano. Disseminadas por toda a cidade, com uma enorme variedade de produtos, preços imbatíveis e horários alargados, tornaram-se a resposta para a crise económica que atinge, agora, outros estratos sociais.» Pois ainda bem que chegaram. Digo-o com o à-vontade de quem as não frequenta (sou fiel aos meus fornecedores), mas vejo nelas a possibilidade de espicaçarem o “comércio tradicional”, incapaz de dar resposta às necessidades de uma cidade como Lisboa, que não é uma grande cidade, mas sempre tem, de segunda a sexta, uma população flutuante superior a 1,2 milhões de pessoas, com horários de trabalho cada vez mais diversificados, e um ritmo de vida que não se compadece com horários de repartição fiscal. (Cujas estão abertas à hora do almoço, ao contrário de muita loja “tradicional”...) Quando Maria José Nogueira Pinto diz ser necessário perceber «a tempo, as chamadas diferenças úteis», de forma a «coexistir harmoniosamente» na cidade, está exactamente a querer dizer o quê? É que falar de «realidades específicas» a propósito do «reordenamento espacial» da imigração chinesa, tem como corolário uma doutrina pouco abonatória.Etiquetas: Sociedade

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