Os bons alunos da ‘troika’

16-03-2012
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Há mais em comum entre Portugal e a Irlanda do que o gosto por boa cerveja, vocação para a hospitalidade, paixão por boa música ou ser berço de grandes poetas.

Mais do que as virtudes, são hoje os defeitos das suas economias que os fazem partilhar o estado de desgraça: têm os mesmos e alarmantes níveis de desemprego (a roçar nos 15%), ambos viram o custo do trabalho desvalorizar 1,7% no final do ano (quando na zona euro subiu 2,8%), os dois acabaram a mendigar ajuda internacional para garantir a sua sobrevivência nos mercados (ainda que ainda não possam garantir o seu regresso) e nenhum pode garantir neste momento que não voltará a precisar de pedir mais dinheiro.

Depois de décadas eufóricas de crescimento - muito à conta de grandes multinacionais, aposta em tecnologia de ponta e atracção de imigrantes altamente qualificados -, a Irlanda perdeu o título de ‘tigre celta', para se transformar num gato obeso, preguiçoso e inofensivo. Preso na armadilha de uma bolha imobiliária, de um sistema financeiro intoxicado, passou de predador a presa dos mercados. Já os portugueses podiam não ter o mesmo instinto predador do ‘tigre' irlandês, mas o que lhes faltava em ferocidade, sobrava-lhes em disciplina. Mas, depois de elogiado como o ‘bom aluno' da Europa, Portugal passou a menino mal comportado que, por fazer mal os trabalhos de casa, acumulou erros e faltas que levaram os mercados a chumbá-lo. Por tudo isso, portugueses e irlandeses estão hoje unidos pela fraqueza, pela austeridade, pela boa vontade de Bruxelas - e claro, pela mesma repulsa em serem comparados aos gregos, esses indisciplinados.

De passagem por Lisboa, o vice-presidente da Comissão Europeia, Olli Rehn, encontrou mais um ponto em comum entre portugueses e irlandeses: "o forte consenso político a suportar o programa" de ajustamento. É um facto: não fosse esse entendimento e, provavelmente, seríamos hoje mais gregos do que o desejado. Mais um elogio a reforçar a lista de semelhanças entre os dois países, os bons alunos da ‘troika'. No entanto, não é nas semelhanças com os irlandeses que os portugueses se devem concentrar, mas sim nas diferenças que, uma vez mais, os voltam a afastar.

Pouco mais de um ano depois de receber o resgate de 85 mil milhões de euros, a economia irlandesa mantém o regime de austeridade e dá os primeiros sinais de crescimento. Tímidos e inseguros, é certo, mas sempre são sinais bastante mais positivos do que aqueles que a economia portuguesa deixa: obrigado a seguir uma rigorosa dieta orçamental, Portugal não cresce. Pelo contrário: continua a encolher e não se prevê uma reviravolta a curto prazo. Para dar a volta a este estado de coisas, talvez não fosse má ideia Portugal retirar algumas lições da história irlandesa.

Mas apenas as boas - como a aposta no empreendedorismo, em ‘clusters' e inovação, numa rede de países unidos pela mesma língua, pela exportação dos seus produtos mais competitivos - que fizeram da economia irlandesa o ‘tigre celta'. Portugal ainda não tem garantido o seu regresso à selva dos mercados - mas é bom que, antes de o fazer, tenha as garras bem afiadas.

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Helena Cristina Coelho, Subdirectora

helena.coelho@economico.pt

Há mais em comum entre Portugal e a Irlanda do que o gosto por boa cerveja, vocação para a hospitalidade, paixão por boa música ou ser berço de grandes poetas.

Mais do que as virtudes, são hoje os defeitos das suas economias que os fazem partilhar o estado de desgraça: têm os mesmos e alarmantes níveis de desemprego (a roçar nos 15%), ambos viram o custo do trabalho desvalorizar 1,7% no final do ano (quando na zona euro subiu 2,8%), os dois acabaram a mendigar ajuda internacional para garantir a sua sobrevivência nos mercados (ainda que ainda não possam garantir o seu regresso) e nenhum pode garantir neste momento que não voltará a precisar de pedir mais dinheiro.

Depois de décadas eufóricas de crescimento - muito à conta de grandes multinacionais, aposta em tecnologia de ponta e atracção de imigrantes altamente qualificados -, a Irlanda perdeu o título de ‘tigre celta', para se transformar num gato obeso, preguiçoso e inofensivo. Preso na armadilha de uma bolha imobiliária, de um sistema financeiro intoxicado, passou de predador a presa dos mercados. Já os portugueses podiam não ter o mesmo instinto predador do ‘tigre' irlandês, mas o que lhes faltava em ferocidade, sobrava-lhes em disciplina. Mas, depois de elogiado como o ‘bom aluno' da Europa, Portugal passou a menino mal comportado que, por fazer mal os trabalhos de casa, acumulou erros e faltas que levaram os mercados a chumbá-lo. Por tudo isso, portugueses e irlandeses estão hoje unidos pela fraqueza, pela austeridade, pela boa vontade de Bruxelas - e claro, pela mesma repulsa em serem comparados aos gregos, esses indisciplinados.

De passagem por Lisboa, o vice-presidente da Comissão Europeia, Olli Rehn, encontrou mais um ponto em comum entre portugueses e irlandeses: "o forte consenso político a suportar o programa" de ajustamento. É um facto: não fosse esse entendimento e, provavelmente, seríamos hoje mais gregos do que o desejado. Mais um elogio a reforçar a lista de semelhanças entre os dois países, os bons alunos da ‘troika'. No entanto, não é nas semelhanças com os irlandeses que os portugueses se devem concentrar, mas sim nas diferenças que, uma vez mais, os voltam a afastar.

Pouco mais de um ano depois de receber o resgate de 85 mil milhões de euros, a economia irlandesa mantém o regime de austeridade e dá os primeiros sinais de crescimento. Tímidos e inseguros, é certo, mas sempre são sinais bastante mais positivos do que aqueles que a economia portuguesa deixa: obrigado a seguir uma rigorosa dieta orçamental, Portugal não cresce. Pelo contrário: continua a encolher e não se prevê uma reviravolta a curto prazo. Para dar a volta a este estado de coisas, talvez não fosse má ideia Portugal retirar algumas lições da história irlandesa.

Mas apenas as boas - como a aposta no empreendedorismo, em ‘clusters' e inovação, numa rede de países unidos pela mesma língua, pela exportação dos seus produtos mais competitivos - que fizeram da economia irlandesa o ‘tigre celta'. Portugal ainda não tem garantido o seu regresso à selva dos mercados - mas é bom que, antes de o fazer, tenha as garras bem afiadas.

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Helena Cristina Coelho, Subdirectora

helena.coelho@economico.pt

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