Tem dois mil anos e este ano abre os braços aos jovens. Tirámos o pulso a Braga e a cidade tem mesmo um novo frémito: sacode o peso dos séculos, areja ideias feitas e olha para a frente sem esquecer o passado. Será para durar?
N ão planeámos abordar o centro histórico de Braga pelo Arco da Porta Nova, mas o certo é que acabamos por fazê-lo e é difícil não ver aí um certo simbolismo - sentimo-nos como se só então chegássemos verdadeiramente à cidade. E é inesperado sermos saudados no coração da cidade, as "arcadas", por música de José Afonso, mas é ela que atravessa o ar, cortesia da CGTP e do carro ali estacionado contra o aumento do horário de trabalho. Em poucos minutos passamos da memória histórica ao presente pragmático, uma dualidade com que Braga convive tão naturalmente que, apesar de ter mais de dois mil anos de idade, é Capital Europeia da Juventude (CEJ).
Braga acompanhou a evolução dos tempos. A cidade que foi capital da Galécia romana, capital dos suevos e sede de bispado que chegou a rivalizar com Santiago de Compostela chegou, quase sem se dar por ela, a terceira cidade portuguesa. Pelo meio, viajou pela história ao sabor dos caprichos dos seus bispos, verdadeiros senhores da cidade: cresceu medieval dentro de muralhas, quis ser um epígono de Roma já no Renascimento e aos 17 séculos de idade fez uma operação plástica barroca. À sombra de Deus, portanto, não por acaso o nome da colectânea que nos anos 1980 revelou Braga como um caso de estudo no panorama musical português. "Temos uma herança muito ligada à religião, associada à ideia de um certo conservadorismo", nota Francisco Quinta, 23 anos, "mas há coisas diferentes, pessoas empreendedoras". "E as coisas começam a surgir em equilíbrio, harmonia". Não é difícil perceber que Braga tem um novo frémito: de sacudir o peso da idade, arejar ideias feitas e conquistar o futuro. Um futuro que vai recordar 2012 como o ano em que Braga - população: 180 mil habitantes; jovens: 85 mil, incluindo os 17 mil alunos da Universidade do Minho - foi Capital Europeia da Juventude.
Não é um evento consensual, contudo (quase) ninguém lhe passa ao lado. Mesmo apontando-lhe falhas. Uma coisa parece certa: sendo um dos motes desta CEJ a formação, o empreendedorismo e a inovação dos jovens, estes parecem já fervilhar em Braga. À margem de quaisquer efemérides. E sentem-se na rua.
É difícil ser desalinhado
Percebe-se que há algo de diferente na cidade enquanto se caminha naquela que é uma das maiores áreas pedonais do país (e sempre a aumentar), que envolve parte do núcleo histórico - a zona a que a Associação Comercial de Braga chama de "o maior centro comercial ao ar livre do país". Há lojas, bares, restaurantes - alguns embrionários, outros instalados, outros a mudar. E nos neófitos e nos convertidos há traços comuns que saltam à vista: cuidado extremo no design e proximidade para com os clientes.
É assim o Caffé Noir, um clube de jazz e de chá, cheio de mobiliário antigo e objectos mais ou menos vintage. Aqui, o grande orgulho são os scones, receita da avó, mas custaram a entrar nos hábitos da cidade onde "o bolo de arroz é o habitual", ironiza Eduardo Gonçalves, 32 anos, o proprietário. "É complicado ser desalinhado em Braga, é difícil inovar", avalia, não sem alguma amargura - e ele até inovou: os seus menus em braille foram os primeiros em Portugal, segundo a ACAPO - mas também com determinação: nado e criado aqui, sentiu que "precisava de fazer algo pela cidade".
Há sete anos a viver em Braga, Helena Gomes, 32 anos, também decidiu inovar: há oito meses abriu o primeiro hostel de Braga, o Pop, com o namorado. A ideia começou a germinar com as suas andanças pelo couchsurfing, desenvolveu-se com a sua insatisfação profissional (é veterinária) e ganhou impulso com a CEJ. "Íamos abrir de qualquer forma, a capital apenas alterou os timings." Não existia nada do género, Braga é uma cidade jovem e com potencial turístico. "Em tempos de crise pensamos: o que vou fazer para sair dela?". "Vou criar negócio."
Se Braga está a mudar, está a fazê-lo, desta vez, sem interferências de poderes organizados. "É a iniciativa privada", dizem todos, que está a mexer com o status quo. Ainda que a centenária Brasileira continue a ser um dos pontos favoritos de encontro -e porque não? É central e foi renovada. O mesmo se espera que aconteça com o centro histórico. A renovação já começou, a todos os níveis, mas os seus protagonistas e observadores esperam mais. "É porque gostamos de Braga que somos tão críticos", afirma Alexandre Fernandes, 36 anos, designer de comunicação. Viveu durante um ano no centro histórico de Braga e nota o movimento, ainda que tépido, de regeneração, uma das bandeiras da CEJ, que aposta em atrair jovens para o habitar. Há edifícios em recuperação, uma nova zona de bares... E também o lado da moeda que só os habitantes entendem: as rendas são altas, o barulho pode ser demasiado, não há estacionamento.
É difícil agradar a todos e nesse aspecto também Braga não é uma cidade pacífica. Helena Gomes já percebeu a dinâmica. "As pessoas daqui são altamente críticas", considera, "os hóspedes vêem uma Braga diferente. Gostam da cidade, do seu valor patrimonial e histórico, e da vida que sentem." Alexandre concordaria: "Braga é uma boa cidade para visitar, para viver não é para todos." O turismo agradece as contradições: elas fazem o charme da cidade. Por todos os que enchem devotamente as ruas durante a Semana Santa, há aqueles que, por exemplo, torcem o nariz a uma visita ao Bom Jesus, porque o reduzem ao turismo religioso, e depois se lhe rendem.
A Sé de Braga e a movida
Quem chega por poucos dias dificilmente não se encanta com a mistura constante entre antigo e moderno, profano e sagrado, enquanto caminha pelo centro que se dá a conhecer a pé ou de bicicleta (ainda são poucas, mas vimos várias para alugar). Passamos por lojas locais e por, encontramos Prada e Miu Miu na montra da Janes e, mesmo em frente, a barbearia tradicional Fernando Matos. As paramentarias abundam (afinal, aqui nunca estamos muito distantes da próxima igreja - e até há a nova capela Árvore da Vida, no Seminário Conciliar de Braga, na mira de prémios de arquitectura) e o Café Lusitana vestiu-se de novo.
A famosa pastelaria Frigideiras do Cantinho tem agora a companhia da sensação bracarense, a Spirito Cupcakes & Coffee, com o seu lounge na praceta, quase ombro a ombro com a Igreja dos Coimbras. A Casa dos Coimbras, monumento nacional com janelas manuelinas, é agora um dos bares de fim-de-semana mais procurados, e a Casão Rolão, imóvel de interesse público, acolhe a livraria Centésima Página, referência da cidade.
A Sé, essa, tornou-se centro de uma nova movida, que se estende pelas ruas circundantes. O restaurante japonês Hocho já é uma referência, mas nas imediações encontra-se cozinha regional, de autor e vegetariana, há vários wine bars e bares de tapas, a Casa Grande Chocolatier é um oásis retro, Pedro Remy corta cabelos ao som de jazz. Mesmo no Rossio, é o profano que domina, entre têxteis, artesanato, recuerdos, restaurante, loja gourmet, cafetaria, Steve Jobs a espreitar de um "authorized reseller Apple". Foi aqui que Rafael Oliveira, 33 anos, abriu com a mulher em Outubro passado o Mercado da Saudade - à porta, um mupi de "azulejos" dá o tom da loja de "produtos portugueses de qualidade e estética cuidada". Mais tarde, estudantes polacos em visita de intercâmbio têm os azulejos na memória e os do Convento do Pópulo são imperdíveis. Entre pasta dentífrica Couto e compotas biológicas, Rafael mostra-nos o Rossio da Sé, o jornal mensal que criou para divulgar não só o espaço mas toda a zona "abandonada durante muito tempo". De há ano e meio para cá, diz, há uma "nova pujança".
Instalou-se em Braga há 10 anos e de então para cá viu muito mudar. Três anos antes chegou Rui Ferreira, 40 anos, agora seu vizinho da frente, no Estúdio 22. Radiologista, decidiu abrir um café-bar-galeria faz um ano em Abril e não se arrependeu. "Foi um risco calculado, sabia que a zona estava a crescer." Entre os ocasionais turistas, tem um público fiel que já não se surpreende com a lista de 12 gins que apresenta - juntamente com a agenda ecléctica de concertos (de bandas locais, nacionais e internacionais) e exposições.
A inspiração Mão Morta
Antes do Estúdio 22 e da sua programação mais ou menos transversal, houve a Velha-a-Branca - e se ela foi umas semanas ao Brasil para o Carnaval, como se lê na porta, vai voltar de cara lavada. Abriu em 2004 pelas mãos de um punhado de gente jovem com grande vontade de mexer o marasmo cultural da cidade. "Havia muito pouca coisa", recorda Luís Tarroso, um dos responsáveis, "o Theatro Circo já estava fechado há cinco anos, ainda não havia a nova biblioteca...". A "Velha", como é conhecida, tornou-se um pólo aglutinador de várias actividades, como exposições, lançamentos de livros, conversas, workshops, música, cinema e um bar como ponto de encontro. Uma espécie de centro cultural informal instalado numa casa do século XVIII que chegou a uma encruzilhada. "Muita gente passou a fazer o que nós fazíamos, o que é óptimo, mas agora queremos fazer outras coisas." Programação nova e maior abertura a outras instituições da cidade, que Luís vê jovem mas inconsequente nessa juventude. "Ser uma cidade jovem não é nada", afirma. "É a que produz mais coisas? Não. Os jovens já estão cá, por um conjunto de circunstâncias que os políticos não dominam."
Não dominam, mas dedicam-lhes alguma atenção: um dos projectos mais perenes da CEJ promete ser o GeNeRation, o pólo de criação artística que vai transformar o antigo quartel da GNR num centro de indústrias criativas (a abertura está prevista para meados do ano). O resultado vai demorar algum tempo a aferir e por enquanto a cultura bracarense vai sendo dinamizada pelo voluntarismo de uns poucos. Aqueles que à segunda-feira têm Cinema de Almofada (na Videoteca Municipal, porém de iniciativa privada), que se revêem em associações como a Aenima ou Projéctil, frequentam a Galeria Mário Sequeira, em Parada de Tibães, e não desdenham dos Encontros da Imagem ou do Theatro Circo, que é a grande sala de espectáculos da cidade.
Mas este Theatro Circo tem um problema, assinala Luís Fernandes, músico dos peixe:avião - é um espaço formal para bandas mais pequenas. Bandas como as que, afinal, compõem o circuito normal português. E não há muitos espaços alternativos, continua Luís, para Braga ter uma agenda contínua de concertos de pequena e média dimensão (o Braga Viva, no antigo Cinema Avenida, parece ser santo-e-senha na boca de todos os que estão ligados à música). Apesar de por estes dias estar a viver um boom musical como não se via desde os anos 1980 que deram ao mundo os Mão Morta, ainda hoje referência incontornável na música portuguesa e figuras tutelares das bandas de garagem que abundam - e que se "encontram" nas salas de ensaio que a câmara municipal montou no Estádio 1.º de Maio.
Enquanto não abrem mais espaços para concertos, as bandas bracarenses dão-se a conhecer na quarta edição da colectânea À Sombra de Deus. E os festivais continuam a nascer (e a morrer) em Braga - por exemplo, o Semibreve, dedicado à electrónica experimental, de que Luís Fernandes é um dos organizadores, vai regressar inserido na programação da CEJ; o FMI (Festival de Música Independente) está num impasse, confessa Francisco Quintas, que depois de ter sido programador é agora o "responsável pela pasta". E as editoras/agências/promotoras de eventos vão aparecendo: Francisco fundou a Popanolica no final do ano passado; Luís Fernandes - aka Astroboy - juntou-se aos colegas de banda e formaram a PAD, uma editora que é como um colectivo de artistas unidos sob o mesmo tecto.
Cidade dividida
A tarde nas "arcadas" é sobressaltada pela invasão de jovens de macacão azul, com logótipo da CEJ, e caixotes na mão. É uma pré-iniciativa, contam-nos, do [Em] Caixote, programa da CEJ que pretende dinamizar o centro histórico. Hoje temos animação de rua (haverá música, dança...) para atrair mais jovens ao centro. Sim, esta é, apesar das estatísticas, uma cidade fracturada. Buscam-se os universitários, que vivem numa espécie de Braga 2.
O divórcio entre a cidade e a universidade começou no início dos anos 1990, recorda Camilo Silva, animador cultural. E acentuou-se no final dos anos 1990, quando a barreira física da Avenida Padre Júlio Fragata se tornou uma corrida de obstáculos para peões, e a zona de Gualtar, onde fica a universidade, se tornou praticamente autónoma, com lojas, restaurantes de "comida rápida". Do lado de lá dessa barreira ficaram também os cinemas e a Fnac, por exemplo - e os estudantes passaram a ir ao centro de forma esporádica. Durante a tarde, as imediações da universidade transbordam de estudantes nas esplanadas; à noite são os bares e discotecas que se animam.
O fim-de-semana é a altura em que mais jovens desaguam no centro. À noite, pode ser difícil estacionar nas imediações, dizem-nos; e o domingo à tarde é uma enchente de casais com carros de bebés, conta Rafael Oliveira. Ironicamente, o comércio está fechado, nota Luís Tarroso. Mas todos parecem concordar que Braga mudou muito nos últimos anos (e não só porque as vitórias do S. C. Braga tiraram o "braguismo" do armário) e todos esperam que esta "nova vaga" de dinamismo tenha continuidade. Helena Gomes é optimista: "Consigo ver jovens aqui, não é campanha da CEJ. Braga está a descobrir que tem potencial de existir além de dormitório." "Tem bons preços, boas acessibilidades, bons espaços verdes", enumera Rafael Oliveira, que, quando veio, há dez anos, apanhou o slogan "É bom viver em Braga". Na altura duvidou, agora nem por isso.
SAIR À NOITE
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DE PASSEIO
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Tel.: 915122059
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Tem dois mil anos e este ano abre os braços aos jovens. Tirámos o pulso a Braga e a cidade tem mesmo um novo frémito: sacode o peso dos séculos, areja ideias feitas e olha para a frente sem esquecer o passado. Será para durar?
N ão planeámos abordar o centro histórico de Braga pelo Arco da Porta Nova, mas o certo é que acabamos por fazê-lo e é difícil não ver aí um certo simbolismo - sentimo-nos como se só então chegássemos verdadeiramente à cidade. E é inesperado sermos saudados no coração da cidade, as "arcadas", por música de José Afonso, mas é ela que atravessa o ar, cortesia da CGTP e do carro ali estacionado contra o aumento do horário de trabalho. Em poucos minutos passamos da memória histórica ao presente pragmático, uma dualidade com que Braga convive tão naturalmente que, apesar de ter mais de dois mil anos de idade, é Capital Europeia da Juventude (CEJ).
Braga acompanhou a evolução dos tempos. A cidade que foi capital da Galécia romana, capital dos suevos e sede de bispado que chegou a rivalizar com Santiago de Compostela chegou, quase sem se dar por ela, a terceira cidade portuguesa. Pelo meio, viajou pela história ao sabor dos caprichos dos seus bispos, verdadeiros senhores da cidade: cresceu medieval dentro de muralhas, quis ser um epígono de Roma já no Renascimento e aos 17 séculos de idade fez uma operação plástica barroca. À sombra de Deus, portanto, não por acaso o nome da colectânea que nos anos 1980 revelou Braga como um caso de estudo no panorama musical português. "Temos uma herança muito ligada à religião, associada à ideia de um certo conservadorismo", nota Francisco Quinta, 23 anos, "mas há coisas diferentes, pessoas empreendedoras". "E as coisas começam a surgir em equilíbrio, harmonia". Não é difícil perceber que Braga tem um novo frémito: de sacudir o peso da idade, arejar ideias feitas e conquistar o futuro. Um futuro que vai recordar 2012 como o ano em que Braga - população: 180 mil habitantes; jovens: 85 mil, incluindo os 17 mil alunos da Universidade do Minho - foi Capital Europeia da Juventude.
Não é um evento consensual, contudo (quase) ninguém lhe passa ao lado. Mesmo apontando-lhe falhas. Uma coisa parece certa: sendo um dos motes desta CEJ a formação, o empreendedorismo e a inovação dos jovens, estes parecem já fervilhar em Braga. À margem de quaisquer efemérides. E sentem-se na rua.
É difícil ser desalinhado
Percebe-se que há algo de diferente na cidade enquanto se caminha naquela que é uma das maiores áreas pedonais do país (e sempre a aumentar), que envolve parte do núcleo histórico - a zona a que a Associação Comercial de Braga chama de "o maior centro comercial ao ar livre do país". Há lojas, bares, restaurantes - alguns embrionários, outros instalados, outros a mudar. E nos neófitos e nos convertidos há traços comuns que saltam à vista: cuidado extremo no design e proximidade para com os clientes.
É assim o Caffé Noir, um clube de jazz e de chá, cheio de mobiliário antigo e objectos mais ou menos vintage. Aqui, o grande orgulho são os scones, receita da avó, mas custaram a entrar nos hábitos da cidade onde "o bolo de arroz é o habitual", ironiza Eduardo Gonçalves, 32 anos, o proprietário. "É complicado ser desalinhado em Braga, é difícil inovar", avalia, não sem alguma amargura - e ele até inovou: os seus menus em braille foram os primeiros em Portugal, segundo a ACAPO - mas também com determinação: nado e criado aqui, sentiu que "precisava de fazer algo pela cidade".
Há sete anos a viver em Braga, Helena Gomes, 32 anos, também decidiu inovar: há oito meses abriu o primeiro hostel de Braga, o Pop, com o namorado. A ideia começou a germinar com as suas andanças pelo couchsurfing, desenvolveu-se com a sua insatisfação profissional (é veterinária) e ganhou impulso com a CEJ. "Íamos abrir de qualquer forma, a capital apenas alterou os timings." Não existia nada do género, Braga é uma cidade jovem e com potencial turístico. "Em tempos de crise pensamos: o que vou fazer para sair dela?". "Vou criar negócio."
Se Braga está a mudar, está a fazê-lo, desta vez, sem interferências de poderes organizados. "É a iniciativa privada", dizem todos, que está a mexer com o status quo. Ainda que a centenária Brasileira continue a ser um dos pontos favoritos de encontro -e porque não? É central e foi renovada. O mesmo se espera que aconteça com o centro histórico. A renovação já começou, a todos os níveis, mas os seus protagonistas e observadores esperam mais. "É porque gostamos de Braga que somos tão críticos", afirma Alexandre Fernandes, 36 anos, designer de comunicação. Viveu durante um ano no centro histórico de Braga e nota o movimento, ainda que tépido, de regeneração, uma das bandeiras da CEJ, que aposta em atrair jovens para o habitar. Há edifícios em recuperação, uma nova zona de bares... E também o lado da moeda que só os habitantes entendem: as rendas são altas, o barulho pode ser demasiado, não há estacionamento.
É difícil agradar a todos e nesse aspecto também Braga não é uma cidade pacífica. Helena Gomes já percebeu a dinâmica. "As pessoas daqui são altamente críticas", considera, "os hóspedes vêem uma Braga diferente. Gostam da cidade, do seu valor patrimonial e histórico, e da vida que sentem." Alexandre concordaria: "Braga é uma boa cidade para visitar, para viver não é para todos." O turismo agradece as contradições: elas fazem o charme da cidade. Por todos os que enchem devotamente as ruas durante a Semana Santa, há aqueles que, por exemplo, torcem o nariz a uma visita ao Bom Jesus, porque o reduzem ao turismo religioso, e depois se lhe rendem.
A Sé de Braga e a movida
Quem chega por poucos dias dificilmente não se encanta com a mistura constante entre antigo e moderno, profano e sagrado, enquanto caminha pelo centro que se dá a conhecer a pé ou de bicicleta (ainda são poucas, mas vimos várias para alugar). Passamos por lojas locais e por, encontramos Prada e Miu Miu na montra da Janes e, mesmo em frente, a barbearia tradicional Fernando Matos. As paramentarias abundam (afinal, aqui nunca estamos muito distantes da próxima igreja - e até há a nova capela Árvore da Vida, no Seminário Conciliar de Braga, na mira de prémios de arquitectura) e o Café Lusitana vestiu-se de novo.
A famosa pastelaria Frigideiras do Cantinho tem agora a companhia da sensação bracarense, a Spirito Cupcakes & Coffee, com o seu lounge na praceta, quase ombro a ombro com a Igreja dos Coimbras. A Casa dos Coimbras, monumento nacional com janelas manuelinas, é agora um dos bares de fim-de-semana mais procurados, e a Casão Rolão, imóvel de interesse público, acolhe a livraria Centésima Página, referência da cidade.
A Sé, essa, tornou-se centro de uma nova movida, que se estende pelas ruas circundantes. O restaurante japonês Hocho já é uma referência, mas nas imediações encontra-se cozinha regional, de autor e vegetariana, há vários wine bars e bares de tapas, a Casa Grande Chocolatier é um oásis retro, Pedro Remy corta cabelos ao som de jazz. Mesmo no Rossio, é o profano que domina, entre têxteis, artesanato, recuerdos, restaurante, loja gourmet, cafetaria, Steve Jobs a espreitar de um "authorized reseller Apple". Foi aqui que Rafael Oliveira, 33 anos, abriu com a mulher em Outubro passado o Mercado da Saudade - à porta, um mupi de "azulejos" dá o tom da loja de "produtos portugueses de qualidade e estética cuidada". Mais tarde, estudantes polacos em visita de intercâmbio têm os azulejos na memória e os do Convento do Pópulo são imperdíveis. Entre pasta dentífrica Couto e compotas biológicas, Rafael mostra-nos o Rossio da Sé, o jornal mensal que criou para divulgar não só o espaço mas toda a zona "abandonada durante muito tempo". De há ano e meio para cá, diz, há uma "nova pujança".
Instalou-se em Braga há 10 anos e de então para cá viu muito mudar. Três anos antes chegou Rui Ferreira, 40 anos, agora seu vizinho da frente, no Estúdio 22. Radiologista, decidiu abrir um café-bar-galeria faz um ano em Abril e não se arrependeu. "Foi um risco calculado, sabia que a zona estava a crescer." Entre os ocasionais turistas, tem um público fiel que já não se surpreende com a lista de 12 gins que apresenta - juntamente com a agenda ecléctica de concertos (de bandas locais, nacionais e internacionais) e exposições.
A inspiração Mão Morta
Antes do Estúdio 22 e da sua programação mais ou menos transversal, houve a Velha-a-Branca - e se ela foi umas semanas ao Brasil para o Carnaval, como se lê na porta, vai voltar de cara lavada. Abriu em 2004 pelas mãos de um punhado de gente jovem com grande vontade de mexer o marasmo cultural da cidade. "Havia muito pouca coisa", recorda Luís Tarroso, um dos responsáveis, "o Theatro Circo já estava fechado há cinco anos, ainda não havia a nova biblioteca...". A "Velha", como é conhecida, tornou-se um pólo aglutinador de várias actividades, como exposições, lançamentos de livros, conversas, workshops, música, cinema e um bar como ponto de encontro. Uma espécie de centro cultural informal instalado numa casa do século XVIII que chegou a uma encruzilhada. "Muita gente passou a fazer o que nós fazíamos, o que é óptimo, mas agora queremos fazer outras coisas." Programação nova e maior abertura a outras instituições da cidade, que Luís vê jovem mas inconsequente nessa juventude. "Ser uma cidade jovem não é nada", afirma. "É a que produz mais coisas? Não. Os jovens já estão cá, por um conjunto de circunstâncias que os políticos não dominam."
Não dominam, mas dedicam-lhes alguma atenção: um dos projectos mais perenes da CEJ promete ser o GeNeRation, o pólo de criação artística que vai transformar o antigo quartel da GNR num centro de indústrias criativas (a abertura está prevista para meados do ano). O resultado vai demorar algum tempo a aferir e por enquanto a cultura bracarense vai sendo dinamizada pelo voluntarismo de uns poucos. Aqueles que à segunda-feira têm Cinema de Almofada (na Videoteca Municipal, porém de iniciativa privada), que se revêem em associações como a Aenima ou Projéctil, frequentam a Galeria Mário Sequeira, em Parada de Tibães, e não desdenham dos Encontros da Imagem ou do Theatro Circo, que é a grande sala de espectáculos da cidade.
Mas este Theatro Circo tem um problema, assinala Luís Fernandes, músico dos peixe:avião - é um espaço formal para bandas mais pequenas. Bandas como as que, afinal, compõem o circuito normal português. E não há muitos espaços alternativos, continua Luís, para Braga ter uma agenda contínua de concertos de pequena e média dimensão (o Braga Viva, no antigo Cinema Avenida, parece ser santo-e-senha na boca de todos os que estão ligados à música). Apesar de por estes dias estar a viver um boom musical como não se via desde os anos 1980 que deram ao mundo os Mão Morta, ainda hoje referência incontornável na música portuguesa e figuras tutelares das bandas de garagem que abundam - e que se "encontram" nas salas de ensaio que a câmara municipal montou no Estádio 1.º de Maio.
Enquanto não abrem mais espaços para concertos, as bandas bracarenses dão-se a conhecer na quarta edição da colectânea À Sombra de Deus. E os festivais continuam a nascer (e a morrer) em Braga - por exemplo, o Semibreve, dedicado à electrónica experimental, de que Luís Fernandes é um dos organizadores, vai regressar inserido na programação da CEJ; o FMI (Festival de Música Independente) está num impasse, confessa Francisco Quintas, que depois de ter sido programador é agora o "responsável pela pasta". E as editoras/agências/promotoras de eventos vão aparecendo: Francisco fundou a Popanolica no final do ano passado; Luís Fernandes - aka Astroboy - juntou-se aos colegas de banda e formaram a PAD, uma editora que é como um colectivo de artistas unidos sob o mesmo tecto.
Cidade dividida
A tarde nas "arcadas" é sobressaltada pela invasão de jovens de macacão azul, com logótipo da CEJ, e caixotes na mão. É uma pré-iniciativa, contam-nos, do [Em] Caixote, programa da CEJ que pretende dinamizar o centro histórico. Hoje temos animação de rua (haverá música, dança...) para atrair mais jovens ao centro. Sim, esta é, apesar das estatísticas, uma cidade fracturada. Buscam-se os universitários, que vivem numa espécie de Braga 2.
O divórcio entre a cidade e a universidade começou no início dos anos 1990, recorda Camilo Silva, animador cultural. E acentuou-se no final dos anos 1990, quando a barreira física da Avenida Padre Júlio Fragata se tornou uma corrida de obstáculos para peões, e a zona de Gualtar, onde fica a universidade, se tornou praticamente autónoma, com lojas, restaurantes de "comida rápida". Do lado de lá dessa barreira ficaram também os cinemas e a Fnac, por exemplo - e os estudantes passaram a ir ao centro de forma esporádica. Durante a tarde, as imediações da universidade transbordam de estudantes nas esplanadas; à noite são os bares e discotecas que se animam.
O fim-de-semana é a altura em que mais jovens desaguam no centro. À noite, pode ser difícil estacionar nas imediações, dizem-nos; e o domingo à tarde é uma enchente de casais com carros de bebés, conta Rafael Oliveira. Ironicamente, o comércio está fechado, nota Luís Tarroso. Mas todos parecem concordar que Braga mudou muito nos últimos anos (e não só porque as vitórias do S. C. Braga tiraram o "braguismo" do armário) e todos esperam que esta "nova vaga" de dinamismo tenha continuidade. Helena Gomes é optimista: "Consigo ver jovens aqui, não é campanha da CEJ. Braga está a descobrir que tem potencial de existir além de dormitório." "Tem bons preços, boas acessibilidades, bons espaços verdes", enumera Rafael Oliveira, que, quando veio, há dez anos, apanhou o slogan "É bom viver em Braga". Na altura duvidou, agora nem por isso.
SAIR À NOITE
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DE PASSEIO
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(cabeleireiro/bar/jazz)
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(livraria)
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ESPAÇOS CULTURAIS
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