Em Janeiro e Fevereiro deste ano, o recurso aos serviços de urgência baixou em vários hospitais do país. Alguns especialistas crêem que esta pode ser já uma consequência do aumento das taxas moderadoras
O início do ano está a revelar-se completamente atípico. A procura dos serviços de urgência (SU) diminuiu em Janeiro, e nem sequer disparou em Fevereiro, em pleno pico da epidemia de gripe, que está a fustigar o país. Mesmo com menos doentes, porém, algumas urgências estão a rebentar pelas costuras. Estranho ? Não. O problema é que a percentagem de doentes que necessitam de ser internados tem sido muito superior à habitual, este ano.
Nos últimos tempos, multiplicaram-se as reportagens a descrever cenários de caos, com doentes idosos a gemer em macas nos corredores e outros com problemas pouco graves a aguardar, horas e horas a fio, nas salas de espera. Mas em Janeiro a procura das urgências até diminuiu, e mesmo em Fevereiro, quando a epidemia de gripe começou a crescer, os valores não foram genericamente mais elevados do que os habituais, garantem os responsáveis da Direcção-Geral da Saúde (DGS).
Alguns especialistas já interpretam esta diminuição da procura das urgências como um reflexo do aumento das taxas moderadoras - desde Janeiro que a taxa cobrada num hospital central ascende a 20 euros para quem não está isento e uma ida à urgência pode custar até 50 euros, com exames incluídos. Mas, se estará a haver alguma contenção da procura por esta via, a verdade é que as urgências não escaparam, de novo, à sobrelotação. "Há uma sobrecarga sobre o internamento, porque é maior a percentagem de casos que necessitam de cuidados mais demorados", explica Mário Carreira, que monitoriza as urgências na DGS.
Veja-se o caso do Hospital do Barreiro, onde, no início deste semana, as macas faltaram e foi necessário encaminhar doentes para Almada e Setúbal. Em Janeiro, de acordo com os dados avançados pelo Centro Hospitalar Barreiro-Montijo, na Urgência Geral houve uma quebra de 26,6% face ao mesmo mês do ano anterior, e mesmo em Fevereiro a procura diminuiu 10,5%. Na Urgência Geral do Hospital de Portimão também houve menos doentes nestes dois meses. No Hospital de Amadora-Sintra, entre a Urgência Geral e o Serviço de Urgência Básica de Sintra, em Janeiro a quebra na procura foi substancial (menos três mil doentes).
"Este ano está a ser diferente. Aumentou muito a taxa de internamento", explica Paulo Telles Freitas, director do Serviço de Urgência do Amadora-Sintra. De uma média de 8% por cento de pessoas a necessitar de internamento passou-se para cerca de 12%. Pode parecer pouco, mas, em serviços que vêem meia centena de doentes por dia, ao fim de seis semanas (o período habitual de impacto de uma epidemia de gripe), já são mais umas dezenas a necessitar de camas nas enfermarias.
No Hospital de Santo António, no Porto, a diferença ainda é maior. "Se antes a taxa de internamento rondava os 8,5%, agora tem chegado quase aos 13 %", diz um médico do serviço que pede para não ser identificado. "Quem não precisa não vem, quem vem precisa mesmo", sintetiza o profissional, que acredita que as novas taxas "estão efectivamente a moderar o acesso". Outro factor que, no seu entender, pode ajudar a explicar o acréscimo de internamentos verificados nos últimos tempos terá a ver com ao facto de alguns doentes deixarem de comprar medicação crónica. O que conduz à agudização de problemas de hipertensão arterial, de bronquites crónicas, anginas de peito, enumera (ver texto ao lado).
Na opinião de Paulo Freitas, o que se está a observar este ano justifica-se sobretudo com a agressividade do vírus da gripe - a estirpe predominante este ano é a H3N2 que atinge sobretudo os mais idosos e que causou maior mortalidade do que é habitual nas últimas semanas. "As casas não aquecidas não são desculpa, nem a situação socioeconómica. Está por avaliar a resposta à vacina", sustenta. Ontem, o presidente do Instituto Ricardo Jorge adiantou que a mortalidade já baixou, entre 27 de Fevereiro e 4 de Março (2912 óbitos), apesar de continuar acima do esperado.
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3,9 milhões de chamadas
Sem descartar a hipótese de o aumento das taxas moderadoras ter alguma influência na diminuição da procura das urgências, João Jaime Sá, director do SU do Hospital de S. João, nota que esta tendência já se verificava desde meados do ano passado na unidade de saúde. "As pessoas, para situações menos graves, estavam a tolerar a não vinda. Mas esta é uma regulação que me parece boa", defende, lembrando que os SU foram criados para dar resposta a situações de urgência e de emergência, não para a resolução de problemas agudos.
Analisando os números dos últimos anos, a procura dos SU continua a ser excessiva em Portugal, quando comparada com outros países europeus. "Os portugueses vão mais três ou quatro vezes à urgência do que os ingleses", lembra Paulo Freitas. E nem a Linha Saúde 24 parece ter atenuado substancialmente esta procura. Desde 25 de Abril de 2007, altura em que foi criada, a Saúde 24 atendeu cerca de 3,9 milhões de chamadas, de acordo com os dados adiantados ao PÚBLICO pelo coordenador do serviço, Sérgio Gomes, que não especificou quantas idas às urgências foram evitadas desta forma. Acrescentou apenas que em Fevereiro deste ano a Saúde 24 atendeu "cerca de 74000 contactos", o que representa um acréscimo de 30% face a igual período do ano passado. E, destes, "apenas 9556 casos careciam de acompanhamento em contexto de urgência hospitalar".
A verdade é que a história dos SU está por fazer em Portugal. Apesar de estar na forja uma nova reforma da rede de urgências (ver caixa), depois de a anterior ter desencadeado grande polémica e conduzido à saída do ex-ministro da Saúde Correia de Campos, não existem estudos sobre o impacto das alterações no terreno. Sabe-se apenas que, ao longo dos últimos anos, encerraram cerca de centena e meia de Serviços de Atendimento Permanente (SAP), as controversas "urgências" dos centros de saúde, e que ainda em 2005 se tinham feito perto de 5,4 milhões de consultas. Os dados em bruto disponibilizados pelas cinco administrações regionais de saúde indicam que, em 2011, o movimento nos SAP baixou para metade, com cerca de 2,7 milhões de atendimentos no total. Os especialistas defendem que as pessoas que habitualmente recorriam aos SAP terão passado a dispor de resposta nos centros de saúde. E sublinham que os encerramentos não tiveram reflexo num aumento da procura das urgências hospitalares. Os números comprovam esta tese. De 6,7 milhões de episódios de urgência nos hospitais públicos em 2005 passou-se para perto de 6,4 milhões em 2009 e 2010, ano em que se registou um ligeiro acréscimo, revela um estudo da Administração Central do Sistema de saúde (ACSS). Em média, isto significa que cada português recorre a uma urgência de dois em dois anos, mas há assimetrias entre regiões, adianta Alexandre Lourenço, um dos autores do estudo. No Centro e em Lisboa e Vale do Tejo recorre-se mais às urgências do que no Norte, Alentejo e Algarve.
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Em Janeiro e Fevereiro deste ano, o recurso aos serviços de urgência baixou em vários hospitais do país. Alguns especialistas crêem que esta pode ser já uma consequência do aumento das taxas moderadoras
O início do ano está a revelar-se completamente atípico. A procura dos serviços de urgência (SU) diminuiu em Janeiro, e nem sequer disparou em Fevereiro, em pleno pico da epidemia de gripe, que está a fustigar o país. Mesmo com menos doentes, porém, algumas urgências estão a rebentar pelas costuras. Estranho ? Não. O problema é que a percentagem de doentes que necessitam de ser internados tem sido muito superior à habitual, este ano.
Nos últimos tempos, multiplicaram-se as reportagens a descrever cenários de caos, com doentes idosos a gemer em macas nos corredores e outros com problemas pouco graves a aguardar, horas e horas a fio, nas salas de espera. Mas em Janeiro a procura das urgências até diminuiu, e mesmo em Fevereiro, quando a epidemia de gripe começou a crescer, os valores não foram genericamente mais elevados do que os habituais, garantem os responsáveis da Direcção-Geral da Saúde (DGS).
Alguns especialistas já interpretam esta diminuição da procura das urgências como um reflexo do aumento das taxas moderadoras - desde Janeiro que a taxa cobrada num hospital central ascende a 20 euros para quem não está isento e uma ida à urgência pode custar até 50 euros, com exames incluídos. Mas, se estará a haver alguma contenção da procura por esta via, a verdade é que as urgências não escaparam, de novo, à sobrelotação. "Há uma sobrecarga sobre o internamento, porque é maior a percentagem de casos que necessitam de cuidados mais demorados", explica Mário Carreira, que monitoriza as urgências na DGS.
Veja-se o caso do Hospital do Barreiro, onde, no início deste semana, as macas faltaram e foi necessário encaminhar doentes para Almada e Setúbal. Em Janeiro, de acordo com os dados avançados pelo Centro Hospitalar Barreiro-Montijo, na Urgência Geral houve uma quebra de 26,6% face ao mesmo mês do ano anterior, e mesmo em Fevereiro a procura diminuiu 10,5%. Na Urgência Geral do Hospital de Portimão também houve menos doentes nestes dois meses. No Hospital de Amadora-Sintra, entre a Urgência Geral e o Serviço de Urgência Básica de Sintra, em Janeiro a quebra na procura foi substancial (menos três mil doentes).
"Este ano está a ser diferente. Aumentou muito a taxa de internamento", explica Paulo Telles Freitas, director do Serviço de Urgência do Amadora-Sintra. De uma média de 8% por cento de pessoas a necessitar de internamento passou-se para cerca de 12%. Pode parecer pouco, mas, em serviços que vêem meia centena de doentes por dia, ao fim de seis semanas (o período habitual de impacto de uma epidemia de gripe), já são mais umas dezenas a necessitar de camas nas enfermarias.
No Hospital de Santo António, no Porto, a diferença ainda é maior. "Se antes a taxa de internamento rondava os 8,5%, agora tem chegado quase aos 13 %", diz um médico do serviço que pede para não ser identificado. "Quem não precisa não vem, quem vem precisa mesmo", sintetiza o profissional, que acredita que as novas taxas "estão efectivamente a moderar o acesso". Outro factor que, no seu entender, pode ajudar a explicar o acréscimo de internamentos verificados nos últimos tempos terá a ver com ao facto de alguns doentes deixarem de comprar medicação crónica. O que conduz à agudização de problemas de hipertensão arterial, de bronquites crónicas, anginas de peito, enumera (ver texto ao lado).
Na opinião de Paulo Freitas, o que se está a observar este ano justifica-se sobretudo com a agressividade do vírus da gripe - a estirpe predominante este ano é a H3N2 que atinge sobretudo os mais idosos e que causou maior mortalidade do que é habitual nas últimas semanas. "As casas não aquecidas não são desculpa, nem a situação socioeconómica. Está por avaliar a resposta à vacina", sustenta. Ontem, o presidente do Instituto Ricardo Jorge adiantou que a mortalidade já baixou, entre 27 de Fevereiro e 4 de Março (2912 óbitos), apesar de continuar acima do esperado.
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3,9 milhões de chamadas
Sem descartar a hipótese de o aumento das taxas moderadoras ter alguma influência na diminuição da procura das urgências, João Jaime Sá, director do SU do Hospital de S. João, nota que esta tendência já se verificava desde meados do ano passado na unidade de saúde. "As pessoas, para situações menos graves, estavam a tolerar a não vinda. Mas esta é uma regulação que me parece boa", defende, lembrando que os SU foram criados para dar resposta a situações de urgência e de emergência, não para a resolução de problemas agudos.
Analisando os números dos últimos anos, a procura dos SU continua a ser excessiva em Portugal, quando comparada com outros países europeus. "Os portugueses vão mais três ou quatro vezes à urgência do que os ingleses", lembra Paulo Freitas. E nem a Linha Saúde 24 parece ter atenuado substancialmente esta procura. Desde 25 de Abril de 2007, altura em que foi criada, a Saúde 24 atendeu cerca de 3,9 milhões de chamadas, de acordo com os dados adiantados ao PÚBLICO pelo coordenador do serviço, Sérgio Gomes, que não especificou quantas idas às urgências foram evitadas desta forma. Acrescentou apenas que em Fevereiro deste ano a Saúde 24 atendeu "cerca de 74000 contactos", o que representa um acréscimo de 30% face a igual período do ano passado. E, destes, "apenas 9556 casos careciam de acompanhamento em contexto de urgência hospitalar".
A verdade é que a história dos SU está por fazer em Portugal. Apesar de estar na forja uma nova reforma da rede de urgências (ver caixa), depois de a anterior ter desencadeado grande polémica e conduzido à saída do ex-ministro da Saúde Correia de Campos, não existem estudos sobre o impacto das alterações no terreno. Sabe-se apenas que, ao longo dos últimos anos, encerraram cerca de centena e meia de Serviços de Atendimento Permanente (SAP), as controversas "urgências" dos centros de saúde, e que ainda em 2005 se tinham feito perto de 5,4 milhões de consultas. Os dados em bruto disponibilizados pelas cinco administrações regionais de saúde indicam que, em 2011, o movimento nos SAP baixou para metade, com cerca de 2,7 milhões de atendimentos no total. Os especialistas defendem que as pessoas que habitualmente recorriam aos SAP terão passado a dispor de resposta nos centros de saúde. E sublinham que os encerramentos não tiveram reflexo num aumento da procura das urgências hospitalares. Os números comprovam esta tese. De 6,7 milhões de episódios de urgência nos hospitais públicos em 2005 passou-se para perto de 6,4 milhões em 2009 e 2010, ano em que se registou um ligeiro acréscimo, revela um estudo da Administração Central do Sistema de saúde (ACSS). Em média, isto significa que cada português recorre a uma urgência de dois em dois anos, mas há assimetrias entre regiões, adianta Alexandre Lourenço, um dos autores do estudo. No Centro e em Lisboa e Vale do Tejo recorre-se mais às urgências do que no Norte, Alentejo e Algarve.