O verniz ecuménico e a intolerância

03-12-2011
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A reacção do Vaticano é de intolerância e de uma inacreditável ignorância em relação às simbologias de poder e à história

É surpreendente como o verniz da tolerância da hierarquia da Igreja Católica, Apostólica e Romana estala perante o que é a interpretação imediatista, mediática, redutora e, sobretudo, reveladora de ignorância face à forma como foi recebida a campanha publicitária da marca Benetton, intitulada Unhate (sem ódio). A campanha consiste na montagem de imagens de líderes mundiais a beijarem-se na boca, numa recuperação do "beijo entre iguais" ou "beijo de paz". Uma campanha inteligente e bem-feita, usando a publicidade de choque que caracteriza esta marca.

Nas montagens, beijando-se na boca, selando um reconhecimento entre iguais, vêem-se os líderes da Coreia do Norte e da Coreia do Sul, o Presidente dos EUA e o Presidente da Venezuela, o Presidente dos EUA e o Presidente da China, o Presidente francês e a chanceler alemã, o presidente da Autoridade Nacional Palestina e o primeiro-ministro de Israel e, claro, o Papa católico beijando o imã sunita da mesquita Al-Azhar do Cairo.

Foi a presença de Bento XVI numa das imagens que levou o Vaticano a reagir de forma agressiva e a ameaçar a Benetton com um processo judicial, cedendo a uma atitude de intolerância. Não só porque demonstrou ignorância em relação às simbologias de poder e à história, mas também porque passou para a opinião pública a imagem de que o que estava em causa na campanha seria a erotização da casta imagem de um líder religioso, resvalando aqui na mais opressora homofobia.

Sem nunca verbalizar directamente que qualquer alusão a uma interpretação erotizada da campanha e silenciando a motivação homofóbica, as declarações do porta-voz do Vaticano, Frederico Lombardi, que protagoniza o comunicado da Secretaria de Estado do Vaticano, deixam, porém, campo aberto a que se faça essa interpretação. Pois se é alegado que o Papa católico está de relações cortadas com o imã sunita, por causa de um atentado, em Janeiro deste ano, na Mesquita de Alexandria, em que morreram 21 pessoas, o que é facto também é que o que Lombardi subscreve no comunicado apela a uma leitura homofóbica: "Trata-se de uma grave falta de respeito com o Papa, uma ofensa aos sentimentos dos fiéis, uma demonstração evidente de como no âmbito da publicidade é possível violar todas as regras elementares do respeito para atrair atenção."

Saliente-se que se é intolerante a atitude da Igreja Católica, apostólica e romana, a atitude da Benetton é no mínimo temerária e demonstrativa de uma fraqueza de convicções e de medo do poder religioso que surpreende. Até porque, que se saiba, a Benetton não cedeu perante idêntico protesto oficial da parte do Presidente da China, Hu Jintao, e apenas retirou da campanha a foto que incluía Bento XVI. Isto mesmo depois de Alessandro Benetton, presidente do grupo, ter explicado que a campanha tem como objectivo combater uma cultura de ódio. E argumentou: "Em momentos sombrios, com crises financeiras, manifestações na América do Norte e em Atenas, essa é uma atitude que todos podemos adoptar e que pode ter uma energia positiva." Transparente, Alessandro Benetton explicava mesmo que a referência para a campanha foi o beijo entre iguais, dado em 1979, durante a cerimónia dos 30 anos da RDA, em Berlim Oriental pelo Presidente da Alemanha de Leste, Erich Honecker, e o Presidente da URSS, Leonid Brejnev. Além deste, que virou ícone impresso em camisolas e pintado no muro de Berlim pós-queda, há um outro beijo entre iguais, dado no mesmo ano de 1979 e entre o mesmo Brejnev e Bill Clinton, Presidente dos EUA, para selar a assinatura do Acordo SALT II, cuja fotografia correu mundo nesse final dos anos setenta.

Esta prática não é, assim, uma novidade inventada pela Benetton, nem um gesto de cultura gay. Mais: lembre-se que a criação e universalização da erotização do beijo na boca é uma criação da indústria cinematográfica e do seu french kiss. Ou seja, é massificado como beijo de amor já no século XX. Mas paralelamente perdura a milenar fórmula da expressão simbólica do poder, o beijo na boca, que existe a par do beijo na mão e do beijo no pé.

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Enquanto o beijo no pé significa a submissão absoluta e estava sobretudo reservado ao religioso, acompanhado muitas vezes de prostração, e o beijo na mão expressava o reconhecimento simbólico de que se prestava vassalagem, logo obediência ao outro, o beijo na boca selava simbolicamente pactos entre iguais. Era a troca de saliva, logo de sangue. Era um reconhecimento de entrada na comunidade, na parentela, um gesto de paz e de amizade entre iguais. Uma simbologia do mesmo tipo das que existiram noutras culturas e épocas, com especificidades próprias.

Foi esta simbologia de poder, que integra a cultura europeia desde a Idade Média e que é judaico-cristã tal como a Igreja Católica, que inspirou a campanha da Benetton. Uma simbologia que o Vaticano tem obrigação de assumir que conhece. E que tem obrigação de acolher e apoiar se diz ser a sede de uma Igreja que pugna pela paz e pela tolerância entre as pessoas. Todas as pessoas. E que até se afirma como ecuménica. Em vez de se escudar no silêncio e na ameaça. Quer seja com ignorantes preconceitos homofóbicos. Quer seja pelo apelo ao ódio e à intolerância religiosa contra uma figura como o imã sunita do Cairo.

É precisamente a este espírito de intolerância religiosa e política, que domina o mundo, que a campanha da Benetton se dirige. É lamentável que o fizesse provavelmente apenas para aproveitamento comercial e não por convicção, tal a pressa com que deixou cair o cartaz. Assim como é lamentável que a Igreja Católica tenha quebrado o verniz de uma alegada tolerância ecuménica. Jornalista (sao.jose.almeida@publico.pt)

A reacção do Vaticano é de intolerância e de uma inacreditável ignorância em relação às simbologias de poder e à história

É surpreendente como o verniz da tolerância da hierarquia da Igreja Católica, Apostólica e Romana estala perante o que é a interpretação imediatista, mediática, redutora e, sobretudo, reveladora de ignorância face à forma como foi recebida a campanha publicitária da marca Benetton, intitulada Unhate (sem ódio). A campanha consiste na montagem de imagens de líderes mundiais a beijarem-se na boca, numa recuperação do "beijo entre iguais" ou "beijo de paz". Uma campanha inteligente e bem-feita, usando a publicidade de choque que caracteriza esta marca.

Nas montagens, beijando-se na boca, selando um reconhecimento entre iguais, vêem-se os líderes da Coreia do Norte e da Coreia do Sul, o Presidente dos EUA e o Presidente da Venezuela, o Presidente dos EUA e o Presidente da China, o Presidente francês e a chanceler alemã, o presidente da Autoridade Nacional Palestina e o primeiro-ministro de Israel e, claro, o Papa católico beijando o imã sunita da mesquita Al-Azhar do Cairo.

Foi a presença de Bento XVI numa das imagens que levou o Vaticano a reagir de forma agressiva e a ameaçar a Benetton com um processo judicial, cedendo a uma atitude de intolerância. Não só porque demonstrou ignorância em relação às simbologias de poder e à história, mas também porque passou para a opinião pública a imagem de que o que estava em causa na campanha seria a erotização da casta imagem de um líder religioso, resvalando aqui na mais opressora homofobia.

Sem nunca verbalizar directamente que qualquer alusão a uma interpretação erotizada da campanha e silenciando a motivação homofóbica, as declarações do porta-voz do Vaticano, Frederico Lombardi, que protagoniza o comunicado da Secretaria de Estado do Vaticano, deixam, porém, campo aberto a que se faça essa interpretação. Pois se é alegado que o Papa católico está de relações cortadas com o imã sunita, por causa de um atentado, em Janeiro deste ano, na Mesquita de Alexandria, em que morreram 21 pessoas, o que é facto também é que o que Lombardi subscreve no comunicado apela a uma leitura homofóbica: "Trata-se de uma grave falta de respeito com o Papa, uma ofensa aos sentimentos dos fiéis, uma demonstração evidente de como no âmbito da publicidade é possível violar todas as regras elementares do respeito para atrair atenção."

Saliente-se que se é intolerante a atitude da Igreja Católica, apostólica e romana, a atitude da Benetton é no mínimo temerária e demonstrativa de uma fraqueza de convicções e de medo do poder religioso que surpreende. Até porque, que se saiba, a Benetton não cedeu perante idêntico protesto oficial da parte do Presidente da China, Hu Jintao, e apenas retirou da campanha a foto que incluía Bento XVI. Isto mesmo depois de Alessandro Benetton, presidente do grupo, ter explicado que a campanha tem como objectivo combater uma cultura de ódio. E argumentou: "Em momentos sombrios, com crises financeiras, manifestações na América do Norte e em Atenas, essa é uma atitude que todos podemos adoptar e que pode ter uma energia positiva." Transparente, Alessandro Benetton explicava mesmo que a referência para a campanha foi o beijo entre iguais, dado em 1979, durante a cerimónia dos 30 anos da RDA, em Berlim Oriental pelo Presidente da Alemanha de Leste, Erich Honecker, e o Presidente da URSS, Leonid Brejnev. Além deste, que virou ícone impresso em camisolas e pintado no muro de Berlim pós-queda, há um outro beijo entre iguais, dado no mesmo ano de 1979 e entre o mesmo Brejnev e Bill Clinton, Presidente dos EUA, para selar a assinatura do Acordo SALT II, cuja fotografia correu mundo nesse final dos anos setenta.

Esta prática não é, assim, uma novidade inventada pela Benetton, nem um gesto de cultura gay. Mais: lembre-se que a criação e universalização da erotização do beijo na boca é uma criação da indústria cinematográfica e do seu french kiss. Ou seja, é massificado como beijo de amor já no século XX. Mas paralelamente perdura a milenar fórmula da expressão simbólica do poder, o beijo na boca, que existe a par do beijo na mão e do beijo no pé.

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Enquanto o beijo no pé significa a submissão absoluta e estava sobretudo reservado ao religioso, acompanhado muitas vezes de prostração, e o beijo na mão expressava o reconhecimento simbólico de que se prestava vassalagem, logo obediência ao outro, o beijo na boca selava simbolicamente pactos entre iguais. Era a troca de saliva, logo de sangue. Era um reconhecimento de entrada na comunidade, na parentela, um gesto de paz e de amizade entre iguais. Uma simbologia do mesmo tipo das que existiram noutras culturas e épocas, com especificidades próprias.

Foi esta simbologia de poder, que integra a cultura europeia desde a Idade Média e que é judaico-cristã tal como a Igreja Católica, que inspirou a campanha da Benetton. Uma simbologia que o Vaticano tem obrigação de assumir que conhece. E que tem obrigação de acolher e apoiar se diz ser a sede de uma Igreja que pugna pela paz e pela tolerância entre as pessoas. Todas as pessoas. E que até se afirma como ecuménica. Em vez de se escudar no silêncio e na ameaça. Quer seja com ignorantes preconceitos homofóbicos. Quer seja pelo apelo ao ódio e à intolerância religiosa contra uma figura como o imã sunita do Cairo.

É precisamente a este espírito de intolerância religiosa e política, que domina o mundo, que a campanha da Benetton se dirige. É lamentável que o fizesse provavelmente apenas para aproveitamento comercial e não por convicção, tal a pressa com que deixou cair o cartaz. Assim como é lamentável que a Igreja Católica tenha quebrado o verniz de uma alegada tolerância ecuménica. Jornalista (sao.jose.almeida@publico.pt)

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