O luxo escondido atrás da tenda de Khadafi

03-09-2011
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O coronel é mais uma vítima do estilo ditador-chique. Os rebeldes dizem que a Casa Branca é apenas normal quando comparada com as inúmeras casas do clã. Esqueçam a tenda como imagem de marca

O rebelde nem acredita quando encontra o chapéu militarde Muammar Khadafi no complexo do coronel em Trípoli: põe-no na cabeça e posa com ele para a câmara de televisão. Na casa de Aisha Khadafi, filha do coronel, combatentes deitam-se no sofá de sereia, sorrindo para a fotografia. Novo grupo de rebeldes, novo quarto, e olhares indiferentes passam sobre CD"s de bandas norte-americanas como os Backstreet Boys.

O que levam os rebeldes destes sítios? Além de recordações como o chapéu, coisas práticas: quadros eléctricos, cadeiras, candelabros. Grande parte dos bens encontrados são símbolos de uma opulência estrangeira e os rebeldes não lhes reconhecem valor.

Durante muito tempo, a imagem de marca de Khadafi foi a sua tenda. Era lá que os líderes estrangeiros o visitavam (chefes de Governo, de Tony Blair a José Sócrates) e as suas viagens ao estrangeiro eram sempre marcadas pela discussão do local onde ficaria o acampamento: foi assim de Bruxelas a Lisboa (o local escolhido foi o Forte de São Julião da Barra); já em Nova Iorque a falta de sítio para o acampamento foi mesmo motivo para uma birra do coronel líbio. Esta preferência pela tenda permitia que Khadafi se mostrasse como um homem que não se afastou das suas raízes de beduíno; frugal, modesto - ainda que excêntrico.

Claro que se suspeitava que atrás da tenda, ou por baixo (no famoso bunker), haveria algum luxo. E a opulência tem aparecido com a descoberta de uma, duas, três, várias casas em Trípoli e noutras cidades, na praia ou debaixo de terra.

Começou com as casas da capital, especialmente no complexo de Bab al-Azizyah - "claro que havia candelabros tão grandes que não cabiam num carro", comentava o diário britânico The Independent. Lá foram ainda encontradas algumas inesperadas bizarrias, como um álbum inteiro recheado com fotografias da antiga secretária de Estado dos EUA Condoleezza Rice. Bom, talvez o álbum de Rice apesar de descrito por um responsável norte-americano como "sinistro" não fosse totalmente inesperado: Khadafi já tinha expressado grande admiração pela responsável numa entrevista à Al-Jazira em 2007. "Fico muito orgulhoso quando ela dá ordens aos líderes árabes", comentou então o coronel. "Gosto muito dela. Admiro-a porque ela é uma mulher negra de origem africana." Depois de uma visita da então secretária de Estado à Líbia, na altura da reaproximação entre os dois países, Rice recebeu vários presentes de Khadafi que foram devolvidos por terem sido considerados menos próprios: um deles era um anel de diamantes.

Torneiras de ouro

A exibição de riqueza por parte dos ditadores tem sempre dois lados: pode ser mostrada em obras grandiosas, espelho do seu poder (um dos exemplos máximos é o Palácio de Ceausescu, o segundo maior edifício do mundo em área a seguir ao Pentágono, que ainda hoje ninguém sabe bem como aproveitar), mas em excesso corre o risco de ser prejudicial (quando a população não tem água potável as torneiras em ouro não caem bem).

O povo - os combatentes rebeldes primeiro, e depois quem lá chegasse - que foi entrando nas casas do clã Khadafi tinha reacções diferentes a todo o ambiente faustoso.

"Já vimos a casa do primeiro-ministro britânico. Já vimos a Casa Branca. E são as duas normais quando comparadas com as residências dos Khadafi", comentava um dos rebeldes, Adel Tarbou, à agência francesa AFP, numa das casas em Trípoli.

Imagens de casas do clã Khadafi foram desfilando nos media: primeiro do complexo de Bab al-Azizyah, com destaque especial para a casa da filha, Aisha, a grande piscina e o famoso sofá com uma sereia dourada esculpida à imagem do rosto da dona da casa - e onde os rebeldes se fizeram fotografar sorrindo e fazendo o "V" de vitória. Depois vieram os bunkers, casas à beira-mar - na de outro dos filhos, Hannibal, havia uma fonte com cavalos a evocar os palácios de verão de monarcas europeus.

Noutra das villas do clã, os roupeiros estavam cheios de fatos de criadores de moda, de Armani a Versace, passando por quase todos os estilistas famosos, e de centenas de pares de sapatos.

Muitos objectos escaparam ao saque de rebeldes e simples curiosos. Havia garrafas de champanhe Moët et Chandon ou Don Pérignon que permaneciam fechadas. E se o grande ecrã plasma, os brinquedos na piscina e várias cadeiras desapareceram logo, uma enorme aparelhagem ou o equipamento de ginásio continuavam nos seus lugares.

"Encontrámos muitas coisas que nem sabemos o que são", confessou Mohamed Said Asintani ao

"Isto não nos diz nada", comentava um rebelde, Ibrahim Madani, de 26 anos, de Zintan, sobre todo o luxo. "Os milhões que eles têm agora não lhes valem de nada."

Entre as descobertas nas dezenas de quartos nas dezenas de casas, havia algumas indicações dos gostos ocidentais do clã, mesmo na altura em que a retórica do regime era ferozmente anti-Ocidente: em fotografias de família, Khadafi aparece com um blusão da marca alemã Adidas, e um dos seus filhos tem vestida uma t-shirt da figura de BD americana Popeye. A cultura popular da América aparecia aqui e ali: um CD dos Pink Floyd, um DVD de O Sexo e a Cidade ou da série Os Homens do Presidente, que retrata as teias do poder político na ala ocidental da Casa Branca.

O estilo ditador-chique

Os novos ocupantes não deixavam, no entanto, de pular nas camas como crianças, descreve a Reuters, sem parecer intimidados pelo estilo decorativo a que Peter York, o autor de, chama simplesmente "ditador-chique".

York enumera as suas características. Primeiro, ouro: das formas mais clássicas como talheres e torneiras, ou mais originais (no caso dos Khadafi havia as armas, o sofá-sereia Aisha ou ainda algumas cúpulas). O objectivo é conseguir o que Peter York chama o look "Ferrero Rocher". Tudo tem de brilhar - ouro antigo não serve. Outro material nobre muito usado é a seda - desde que brilhe como se fosse polyester.

Segundo, mármore: em colunas grandiosas, no chão, mas sempre reluzente. Terceiro: mobília de estilo francês ornamentada, mas em reprodução, já que a original é demasiado baça.

Claro, pode-se argumentar que estas são coisas comuns ao gosto novo-rico dos milionários dos "petrodólares", das estrelas de futebol ou da música pop pelo bling, que brilha e reluz (e pode-se ainda lembrar que a maioria dos ditadores, de Saddam a Khadafi, não vieram propriamente de famílias abastadas).

Mas o estilo ditador-chique distingue-se do novo-rico por outra característica: a exibição de poder. Como comenta York, animais ferozes são um valor seguro: águias, leões... se forem reais, melhor. Segundo o diário Guardian, os grandes felinos eram acarinhados pela família de Khadafi: o filho Saadi (o futebolista) visitava diariamente o zoo contíguo ao complexo de Bab al-Azizyah para ver os 18 leões, nove dos quais eram mesmo seus, e outro dos filhos, Saif al-Islam (o herdeiro que era visto como reformista), levou dois leões albinos consigo quando foi estudar para a Áustria.

Águias são outro clássico: o autonomeado imperador da República Centro-Africana Jean-Bédel Bokassa sentava-se num trono de águia coberto a ouro, Saddam tinha num dos seus palácios uma entrada "emoldurada" por uma águia gigante. No dia em que os rebeldes entraram em Bab al-Azizyah, dedicaram-se a destruir vários símbolos do poder, dos quais o mais óbvio era a estátua do punho agarrando um caça americano (evocando os ataques dos EUA em 1986). Um dos alvos seguintes foi uma estátua com uma águia no topo, que não demorou muito a ser destruída por uma granada disparada por um rebelde.

Ainda assim, um dos momentos da "tomada" do complexo de Khadafi pelos rebeldes foi quando o rebelde do início deste texto encontrou o chapéu do coronel. Já com ele na cabeça, disse para a câmara da estação de televisão Sky News que o iria oferecer ao pai, por este ter sofrido tanto no regime de Khadafi (e não pô-lo à venda no site de leilões eBay, como sugeria a capa da revista Economist dessa semana). O momento marcou o fim do regime: que ditador conseguirá voltar a mandar num povo depois de este ter coscuvilhado as suas gavetas?

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A estátua de Khadafi, os seus vários retratos em murais (um deles estava prestes a ser posto na praça principal de Trípoli para ser visto pelos aviões da NATO), e a grandeza do seu complexo podem ser comparadas a monumentos típicos de ditadores, desde a loucura de Ceausescu com o seu palácio, às representações grandiosas como a estátua do antigo Presidente do Turquemenistão Saparmurat Niyazov, em ouro, que rodava para que a face estivesse sempre iluminada pelo sol.

O poder absoluto sempre teve de se mostrar em obras monumentais: desde as pirâmides dos faraós (o que pensaria a classe média egípcia de todo aquele exagero? questiona hoje Peter York), à grandiosidade da Roma dos imperadores, passando pela opulência da Versalhes de Luís XIV ou da Rússia czarista. Quando o poder desaparece, põe-se a questão sobre o que fazer com as obras grandiosas e as casas dos poderosos. Destruir, como se fez por exemplo com as casas de Hitler? Ou manter, como se fez com um edifício em Varsóvia que muitos polacos detestam por ter sido um presente soviético?

O que fica de um regime pode acabar por ser, como na Líbia, um quadro kitsch, ainda mais ridículo pela falta de sentido de humor. Porque o mundo dos ditadores, e por extensão a sua casa, comenta Peter York, "é desprovido de qualquer ironia". O que as suas moradas mostram, diz Andrew Muller, jornalista do Guardian que visitou alguns palácios de Saddam, é que "o poder é ridículo - e o poder absoluto é absolutamente ridículo".

O coronel é mais uma vítima do estilo ditador-chique. Os rebeldes dizem que a Casa Branca é apenas normal quando comparada com as inúmeras casas do clã. Esqueçam a tenda como imagem de marca

O rebelde nem acredita quando encontra o chapéu militarde Muammar Khadafi no complexo do coronel em Trípoli: põe-no na cabeça e posa com ele para a câmara de televisão. Na casa de Aisha Khadafi, filha do coronel, combatentes deitam-se no sofá de sereia, sorrindo para a fotografia. Novo grupo de rebeldes, novo quarto, e olhares indiferentes passam sobre CD"s de bandas norte-americanas como os Backstreet Boys.

O que levam os rebeldes destes sítios? Além de recordações como o chapéu, coisas práticas: quadros eléctricos, cadeiras, candelabros. Grande parte dos bens encontrados são símbolos de uma opulência estrangeira e os rebeldes não lhes reconhecem valor.

Durante muito tempo, a imagem de marca de Khadafi foi a sua tenda. Era lá que os líderes estrangeiros o visitavam (chefes de Governo, de Tony Blair a José Sócrates) e as suas viagens ao estrangeiro eram sempre marcadas pela discussão do local onde ficaria o acampamento: foi assim de Bruxelas a Lisboa (o local escolhido foi o Forte de São Julião da Barra); já em Nova Iorque a falta de sítio para o acampamento foi mesmo motivo para uma birra do coronel líbio. Esta preferência pela tenda permitia que Khadafi se mostrasse como um homem que não se afastou das suas raízes de beduíno; frugal, modesto - ainda que excêntrico.

Claro que se suspeitava que atrás da tenda, ou por baixo (no famoso bunker), haveria algum luxo. E a opulência tem aparecido com a descoberta de uma, duas, três, várias casas em Trípoli e noutras cidades, na praia ou debaixo de terra.

Começou com as casas da capital, especialmente no complexo de Bab al-Azizyah - "claro que havia candelabros tão grandes que não cabiam num carro", comentava o diário britânico The Independent. Lá foram ainda encontradas algumas inesperadas bizarrias, como um álbum inteiro recheado com fotografias da antiga secretária de Estado dos EUA Condoleezza Rice. Bom, talvez o álbum de Rice apesar de descrito por um responsável norte-americano como "sinistro" não fosse totalmente inesperado: Khadafi já tinha expressado grande admiração pela responsável numa entrevista à Al-Jazira em 2007. "Fico muito orgulhoso quando ela dá ordens aos líderes árabes", comentou então o coronel. "Gosto muito dela. Admiro-a porque ela é uma mulher negra de origem africana." Depois de uma visita da então secretária de Estado à Líbia, na altura da reaproximação entre os dois países, Rice recebeu vários presentes de Khadafi que foram devolvidos por terem sido considerados menos próprios: um deles era um anel de diamantes.

Torneiras de ouro

A exibição de riqueza por parte dos ditadores tem sempre dois lados: pode ser mostrada em obras grandiosas, espelho do seu poder (um dos exemplos máximos é o Palácio de Ceausescu, o segundo maior edifício do mundo em área a seguir ao Pentágono, que ainda hoje ninguém sabe bem como aproveitar), mas em excesso corre o risco de ser prejudicial (quando a população não tem água potável as torneiras em ouro não caem bem).

O povo - os combatentes rebeldes primeiro, e depois quem lá chegasse - que foi entrando nas casas do clã Khadafi tinha reacções diferentes a todo o ambiente faustoso.

"Já vimos a casa do primeiro-ministro britânico. Já vimos a Casa Branca. E são as duas normais quando comparadas com as residências dos Khadafi", comentava um dos rebeldes, Adel Tarbou, à agência francesa AFP, numa das casas em Trípoli.

Imagens de casas do clã Khadafi foram desfilando nos media: primeiro do complexo de Bab al-Azizyah, com destaque especial para a casa da filha, Aisha, a grande piscina e o famoso sofá com uma sereia dourada esculpida à imagem do rosto da dona da casa - e onde os rebeldes se fizeram fotografar sorrindo e fazendo o "V" de vitória. Depois vieram os bunkers, casas à beira-mar - na de outro dos filhos, Hannibal, havia uma fonte com cavalos a evocar os palácios de verão de monarcas europeus.

Noutra das villas do clã, os roupeiros estavam cheios de fatos de criadores de moda, de Armani a Versace, passando por quase todos os estilistas famosos, e de centenas de pares de sapatos.

Muitos objectos escaparam ao saque de rebeldes e simples curiosos. Havia garrafas de champanhe Moët et Chandon ou Don Pérignon que permaneciam fechadas. E se o grande ecrã plasma, os brinquedos na piscina e várias cadeiras desapareceram logo, uma enorme aparelhagem ou o equipamento de ginásio continuavam nos seus lugares.

"Encontrámos muitas coisas que nem sabemos o que são", confessou Mohamed Said Asintani ao

"Isto não nos diz nada", comentava um rebelde, Ibrahim Madani, de 26 anos, de Zintan, sobre todo o luxo. "Os milhões que eles têm agora não lhes valem de nada."

Entre as descobertas nas dezenas de quartos nas dezenas de casas, havia algumas indicações dos gostos ocidentais do clã, mesmo na altura em que a retórica do regime era ferozmente anti-Ocidente: em fotografias de família, Khadafi aparece com um blusão da marca alemã Adidas, e um dos seus filhos tem vestida uma t-shirt da figura de BD americana Popeye. A cultura popular da América aparecia aqui e ali: um CD dos Pink Floyd, um DVD de O Sexo e a Cidade ou da série Os Homens do Presidente, que retrata as teias do poder político na ala ocidental da Casa Branca.

O estilo ditador-chique

Os novos ocupantes não deixavam, no entanto, de pular nas camas como crianças, descreve a Reuters, sem parecer intimidados pelo estilo decorativo a que Peter York, o autor de, chama simplesmente "ditador-chique".

York enumera as suas características. Primeiro, ouro: das formas mais clássicas como talheres e torneiras, ou mais originais (no caso dos Khadafi havia as armas, o sofá-sereia Aisha ou ainda algumas cúpulas). O objectivo é conseguir o que Peter York chama o look "Ferrero Rocher". Tudo tem de brilhar - ouro antigo não serve. Outro material nobre muito usado é a seda - desde que brilhe como se fosse polyester.

Segundo, mármore: em colunas grandiosas, no chão, mas sempre reluzente. Terceiro: mobília de estilo francês ornamentada, mas em reprodução, já que a original é demasiado baça.

Claro, pode-se argumentar que estas são coisas comuns ao gosto novo-rico dos milionários dos "petrodólares", das estrelas de futebol ou da música pop pelo bling, que brilha e reluz (e pode-se ainda lembrar que a maioria dos ditadores, de Saddam a Khadafi, não vieram propriamente de famílias abastadas).

Mas o estilo ditador-chique distingue-se do novo-rico por outra característica: a exibição de poder. Como comenta York, animais ferozes são um valor seguro: águias, leões... se forem reais, melhor. Segundo o diário Guardian, os grandes felinos eram acarinhados pela família de Khadafi: o filho Saadi (o futebolista) visitava diariamente o zoo contíguo ao complexo de Bab al-Azizyah para ver os 18 leões, nove dos quais eram mesmo seus, e outro dos filhos, Saif al-Islam (o herdeiro que era visto como reformista), levou dois leões albinos consigo quando foi estudar para a Áustria.

Águias são outro clássico: o autonomeado imperador da República Centro-Africana Jean-Bédel Bokassa sentava-se num trono de águia coberto a ouro, Saddam tinha num dos seus palácios uma entrada "emoldurada" por uma águia gigante. No dia em que os rebeldes entraram em Bab al-Azizyah, dedicaram-se a destruir vários símbolos do poder, dos quais o mais óbvio era a estátua do punho agarrando um caça americano (evocando os ataques dos EUA em 1986). Um dos alvos seguintes foi uma estátua com uma águia no topo, que não demorou muito a ser destruída por uma granada disparada por um rebelde.

Ainda assim, um dos momentos da "tomada" do complexo de Khadafi pelos rebeldes foi quando o rebelde do início deste texto encontrou o chapéu do coronel. Já com ele na cabeça, disse para a câmara da estação de televisão Sky News que o iria oferecer ao pai, por este ter sofrido tanto no regime de Khadafi (e não pô-lo à venda no site de leilões eBay, como sugeria a capa da revista Economist dessa semana). O momento marcou o fim do regime: que ditador conseguirá voltar a mandar num povo depois de este ter coscuvilhado as suas gavetas?

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A estátua de Khadafi, os seus vários retratos em murais (um deles estava prestes a ser posto na praça principal de Trípoli para ser visto pelos aviões da NATO), e a grandeza do seu complexo podem ser comparadas a monumentos típicos de ditadores, desde a loucura de Ceausescu com o seu palácio, às representações grandiosas como a estátua do antigo Presidente do Turquemenistão Saparmurat Niyazov, em ouro, que rodava para que a face estivesse sempre iluminada pelo sol.

O poder absoluto sempre teve de se mostrar em obras monumentais: desde as pirâmides dos faraós (o que pensaria a classe média egípcia de todo aquele exagero? questiona hoje Peter York), à grandiosidade da Roma dos imperadores, passando pela opulência da Versalhes de Luís XIV ou da Rússia czarista. Quando o poder desaparece, põe-se a questão sobre o que fazer com as obras grandiosas e as casas dos poderosos. Destruir, como se fez por exemplo com as casas de Hitler? Ou manter, como se fez com um edifício em Varsóvia que muitos polacos detestam por ter sido um presente soviético?

O que fica de um regime pode acabar por ser, como na Líbia, um quadro kitsch, ainda mais ridículo pela falta de sentido de humor. Porque o mundo dos ditadores, e por extensão a sua casa, comenta Peter York, "é desprovido de qualquer ironia". O que as suas moradas mostram, diz Andrew Muller, jornalista do Guardian que visitou alguns palácios de Saddam, é que "o poder é ridículo - e o poder absoluto é absolutamente ridículo".

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