Anteontem, como referido aqui, o Ípsilon publicou um extenso dossier de Isabel Coutinho sobre ficção portuguesa gay. Esse trabalho mereceu um comentário do Henrique Raposo, com quem gostaria de pensar em voz alta. O conceito de literatura gay é recente: tem 38 anos. Em consequência dos motins de Stonewall, que durante três dias consecutivos (entre 27 e 29 de Junho de 1969, tendo como ponto de partida o funeral de Judy Garland) fizeram de Christopher Street um campo de batalha entre a polícia de Nova Iorque e activistas gays de ambos os sexos, surgiram movimentos organizados, na área da cidadania e dos direitos humanos, como o Gay Liberation Front, muito radical, ou a Gay Activists Alliance, mais moderada. Nessa altura, face ao que estava em jogo, os escritores americanos homossexuais não ficaram de braços cruzados. Alguns começaram então a reflectir sobre o seu dever de intervenção. Sirva de paradigma o Violet Quill Club, fundado por Edmund White, Andrew Holleran, Felice Picano, Michael Grumley, Robert Ferro, Christopher Cox e George Whitmore: «What, then, was the Violet Quill? It was a group of gay writers joined by friendship, ambition, and concern for their art, who got together [...] to read to one another from their works in progress. Not much to mythologize. Except that several of these writers became the most important gay authors of the decade, setting a standard for gay fiction against which the present boom in gay writing is always compared. When we consider the first generation of gay writers to emerge after Stonewall... [...] Collectively they produced a vision of a gay life that haunts us still — a vision of beauty, privilege, friendship, sexuality, loss, and lyricism.» Não faltou quem visse o grupo como uma máfia literária, não faltaram autores que reagiram mal à ideia (os nomes mais sonantes que me ocorrem são os de Gore Vidal e James Merrill, ambos com mais de 40 anos em 1969), e também não faltaram equívocos, sobretudo na Europa (continental) e na América Latina. Por exemplo, os cubanos José Lezama Lima (1910-1976), Reinaldo Arenas (1943-1990) e Senel Paz (n. 1950), o argentino Manuel Puig (1932-1990), os brasileiros Silviano Santiago (n. 1936) e Caio Fernando Abreu (1948-1996), o catalão Terenci Moix (1942-2003) e os franceses Renaud Camus (n. 1946) e Hervé Guibert (1955-1991), para citar os melhores fora do mundo de língua inglesa, fizeram saber que não se reviam na classificação, a despeito da explicitação temática da respectiva obra. Idiossincrasia anglo-americana? O tempo dirá. Dispenso-me de dar exemplos de autores canónicos, americanos e ingleses, assumidos como autores gay, por serem conhecidos. Diria, respondendo ao Henrique Raposo, que falar de “literatura gay” é uma forma de sinalizar, tal como falamos de romance histórico, fantástico, policial, de espionagem ou de ficção-científica. Não é por serem epítomes desses géneros, que Alexandre Dumas (pai), Edgar Allan Poe, P. D. James, John le Carré ou Ray Bradbury, deixam de ser os grandes autores que são. O adjectivo acrescenta, não subtrai. Etiquetas: Cena literária, Identidade gay, Literatura
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Anteontem, como referido aqui, o Ípsilon publicou um extenso dossier de Isabel Coutinho sobre ficção portuguesa gay. Esse trabalho mereceu um comentário do Henrique Raposo, com quem gostaria de pensar em voz alta. O conceito de literatura gay é recente: tem 38 anos. Em consequência dos motins de Stonewall, que durante três dias consecutivos (entre 27 e 29 de Junho de 1969, tendo como ponto de partida o funeral de Judy Garland) fizeram de Christopher Street um campo de batalha entre a polícia de Nova Iorque e activistas gays de ambos os sexos, surgiram movimentos organizados, na área da cidadania e dos direitos humanos, como o Gay Liberation Front, muito radical, ou a Gay Activists Alliance, mais moderada. Nessa altura, face ao que estava em jogo, os escritores americanos homossexuais não ficaram de braços cruzados. Alguns começaram então a reflectir sobre o seu dever de intervenção. Sirva de paradigma o Violet Quill Club, fundado por Edmund White, Andrew Holleran, Felice Picano, Michael Grumley, Robert Ferro, Christopher Cox e George Whitmore: «What, then, was the Violet Quill? It was a group of gay writers joined by friendship, ambition, and concern for their art, who got together [...] to read to one another from their works in progress. Not much to mythologize. Except that several of these writers became the most important gay authors of the decade, setting a standard for gay fiction against which the present boom in gay writing is always compared. When we consider the first generation of gay writers to emerge after Stonewall... [...] Collectively they produced a vision of a gay life that haunts us still — a vision of beauty, privilege, friendship, sexuality, loss, and lyricism.» Não faltou quem visse o grupo como uma máfia literária, não faltaram autores que reagiram mal à ideia (os nomes mais sonantes que me ocorrem são os de Gore Vidal e James Merrill, ambos com mais de 40 anos em 1969), e também não faltaram equívocos, sobretudo na Europa (continental) e na América Latina. Por exemplo, os cubanos José Lezama Lima (1910-1976), Reinaldo Arenas (1943-1990) e Senel Paz (n. 1950), o argentino Manuel Puig (1932-1990), os brasileiros Silviano Santiago (n. 1936) e Caio Fernando Abreu (1948-1996), o catalão Terenci Moix (1942-2003) e os franceses Renaud Camus (n. 1946) e Hervé Guibert (1955-1991), para citar os melhores fora do mundo de língua inglesa, fizeram saber que não se reviam na classificação, a despeito da explicitação temática da respectiva obra. Idiossincrasia anglo-americana? O tempo dirá. Dispenso-me de dar exemplos de autores canónicos, americanos e ingleses, assumidos como autores gay, por serem conhecidos. Diria, respondendo ao Henrique Raposo, que falar de “literatura gay” é uma forma de sinalizar, tal como falamos de romance histórico, fantástico, policial, de espionagem ou de ficção-científica. Não é por serem epítomes desses géneros, que Alexandre Dumas (pai), Edgar Allan Poe, P. D. James, John le Carré ou Ray Bradbury, deixam de ser os grandes autores que são. O adjectivo acrescenta, não subtrai. Etiquetas: Cena literária, Identidade gay, Literatura