1. Jantar. Grupo de amigos. Restaurante na Avenida. Ambiente enxuto. Frio. Doentiamente asséptico. Um restaurante com ar de loja de mobiliário pós-moderno, isto é, um sítio de design marciano e com cores que desafiam as leis da óptica. Mas o mais irritante era mesmo o ar limpinho. O ar de quem faz parte da ditadura da saúde que por aí anda, directamente importada da América (aí que malvados, estes americanos). Naturalmente, resmunguei entre dentes. - Não comeces! – Gritou em coro o santo grupo que me deu a conhecer tão excelso lugar. Respondi:- Pois, quando eles começarem a refilar com o vosso fumo, vão ver…Passados alguns minutos, o primeiro herói faz a incursão inicial. Acto um: tira o maço. Abrimos a boca de espanto: ninguém dizia nada. Acto dois: Acende o isqueiro. Suspense à Hitch. Acto três: ele consegue acender o cigarro. Levantei-me, como se tivesse sido golo do Karadas: Uma impossibilidade quimérica tornada realidade. Naquele sítio tão asséptico, com um ar mais limpo que bloco operatório, ninguém disse nada ao meu amigo. Era possível fumar. Resmunguei ao contrário, isto é, dei um pequeno berro de alegria e apertei a mão ao empregado. 2. Inevitavelmente, o contra-ataque surgiu pelo flanco da esquerda chique: - Mas tu não fumas!...Raios.- E depois? Não é esse o ponto. Ele tem o direito de fumar onde quiser, como quiser e com quem quiser. Sim, porque se eu estivesse realmente incomodado, dirigia-me a ele e pedia-lhe para apagar o cigarro. E este processo seria feito entre duas pessoas adultas e conscientes. Não preciso de ordens de uma burocracia superior. Ele aceitaria o meu pedido porque é meu amigo. E mesmo que não aceitasse? Deixaria de estar com o meu amigo só pelo simples facto de ele fumar? Gosto de ter amigos – aqueles seres humanos que são tão imperfeitos como nós - e não de ter espelhos onde espelho os meus hábitos. Pois não, não fumo. E desde quando é que eu estou acima dos outros? Desde quando é legítimo impor comportamentos? Não fumo, pois não. Mas acima dos meus pulmões está a liberdade de escolha de quem em rodeia. Gosto muito dos meus brônquios, mas gosto mais dos meus amigos. 3. À saída, e às escondidas, pendurei um cartaz: “deixa-se fumar”. Passo lá todos os dias. É um dos poucos templos liberais deste país.[Henrique Raposo]
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1. Jantar. Grupo de amigos. Restaurante na Avenida. Ambiente enxuto. Frio. Doentiamente asséptico. Um restaurante com ar de loja de mobiliário pós-moderno, isto é, um sítio de design marciano e com cores que desafiam as leis da óptica. Mas o mais irritante era mesmo o ar limpinho. O ar de quem faz parte da ditadura da saúde que por aí anda, directamente importada da América (aí que malvados, estes americanos). Naturalmente, resmunguei entre dentes. - Não comeces! – Gritou em coro o santo grupo que me deu a conhecer tão excelso lugar. Respondi:- Pois, quando eles começarem a refilar com o vosso fumo, vão ver…Passados alguns minutos, o primeiro herói faz a incursão inicial. Acto um: tira o maço. Abrimos a boca de espanto: ninguém dizia nada. Acto dois: Acende o isqueiro. Suspense à Hitch. Acto três: ele consegue acender o cigarro. Levantei-me, como se tivesse sido golo do Karadas: Uma impossibilidade quimérica tornada realidade. Naquele sítio tão asséptico, com um ar mais limpo que bloco operatório, ninguém disse nada ao meu amigo. Era possível fumar. Resmunguei ao contrário, isto é, dei um pequeno berro de alegria e apertei a mão ao empregado. 2. Inevitavelmente, o contra-ataque surgiu pelo flanco da esquerda chique: - Mas tu não fumas!...Raios.- E depois? Não é esse o ponto. Ele tem o direito de fumar onde quiser, como quiser e com quem quiser. Sim, porque se eu estivesse realmente incomodado, dirigia-me a ele e pedia-lhe para apagar o cigarro. E este processo seria feito entre duas pessoas adultas e conscientes. Não preciso de ordens de uma burocracia superior. Ele aceitaria o meu pedido porque é meu amigo. E mesmo que não aceitasse? Deixaria de estar com o meu amigo só pelo simples facto de ele fumar? Gosto de ter amigos – aqueles seres humanos que são tão imperfeitos como nós - e não de ter espelhos onde espelho os meus hábitos. Pois não, não fumo. E desde quando é que eu estou acima dos outros? Desde quando é legítimo impor comportamentos? Não fumo, pois não. Mas acima dos meus pulmões está a liberdade de escolha de quem em rodeia. Gosto muito dos meus brônquios, mas gosto mais dos meus amigos. 3. À saída, e às escondidas, pendurei um cartaz: “deixa-se fumar”. Passo lá todos os dias. É um dos poucos templos liberais deste país.[Henrique Raposo]