O Cachimbo de Magritte: Histerias selectivas

07-07-2011
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A reacção à promulgação por Cavaco Silva do diploma do casamento gay está, há que reconhecer, a raiar a histeria. É certo que Cavaco Silva teria feito bem melhor em vetar a lei: as engenharias sociais devem ser travadas ou obstruídas sempre que possível. E as desculpas do PR são ridículas: um veto numa questão de valores não tem qualquer efeito numa crise económica e o facto de a AR poder votar novamente a lei, forçando a promulgação- algo que não se sabe se sucederia, afinal não é uma política muito popular e, depois das medidas de austeridade, talvez o PS pretendesse não irritar mais o eleitorado - também não é razão para se deixar de vetar; nesta coisa dos princípios, é importante tomar uma posição, mesmo que não tenha efeitos ou se venha a ter dissabores pela ousadia. Mas Cavaco promulgou e na verdade ninguém pode ignorar que as questões económicas são determinantes na actuação do PR. Nem só de pão vive o homem, mas os homens tendem a esquecer-se disso quando não têm pão. Por mim, nem por um momento questiono o meu voto em Cavaco Silva. Não pretendo ter um lírico aprisionado nos anos sessenta a defrontar-se, em Belém, com o mundo de 2011.A reacção à decisão do PR é tanto mais estranha por ser muito mais histriónica do que aquando da promulgação por Cavaco Silva da liberalização do aborto até às dez semanas de gravidez (e, para mim, o PR devia ter vetado essa lei, já que nada no referendo falava de abortos pagos com dinheiro dos contribuintes nem de ausência de aconselhamento às grávidas que ponderem abortar). A existência de um referendo não desculpa: 60% dos eleitores não quiseram saber do assunto, o que o tornou não vinculativo. Para o casamento gay não houve referendo, mas os partidos de esquerda eram reconhecidamente favoráveis, pelo que havia legitimidade eleitoral. Acresce que este casamento gay será relativamente inócuo - a Coco Chanel e o Paul Poiret, com as suas roupas que permitiam às mulheres movimentarem-se, fizeram mais pela igualdade entre os sexos do que qualquer peça legislativa, e não é por imposição legal que os casais homossexuais terão o reconhecimento social que almejavam com a presente lei - enquanto que a legalização do aborto tratava de exterminar pessoas absolutamente desprotegidas. Algo, parece-me, substancialmente mais grave. E se houve muitos católicos (leigos e consagrados) empenhados na campanha contra o aborto, é certo que a hierarquia da Igreja em Portugal entendeu olhar para o lado e aceitar, entregando uma declaração de voto, a liberalização do aborto. Fica a ideia que, tal como Cavaco, se decidiram pelo pragmatismo: a maioria é favorável à liberalização do aborto, aceite-se o aborto; a maioria é contra o casamento gay, combata-se o casamento gay. Não vale a pena o Senhor Cardeal Patriarca rasgar as vestes.


A reacção à promulgação por Cavaco Silva do diploma do casamento gay está, há que reconhecer, a raiar a histeria. É certo que Cavaco Silva teria feito bem melhor em vetar a lei: as engenharias sociais devem ser travadas ou obstruídas sempre que possível. E as desculpas do PR são ridículas: um veto numa questão de valores não tem qualquer efeito numa crise económica e o facto de a AR poder votar novamente a lei, forçando a promulgação- algo que não se sabe se sucederia, afinal não é uma política muito popular e, depois das medidas de austeridade, talvez o PS pretendesse não irritar mais o eleitorado - também não é razão para se deixar de vetar; nesta coisa dos princípios, é importante tomar uma posição, mesmo que não tenha efeitos ou se venha a ter dissabores pela ousadia. Mas Cavaco promulgou e na verdade ninguém pode ignorar que as questões económicas são determinantes na actuação do PR. Nem só de pão vive o homem, mas os homens tendem a esquecer-se disso quando não têm pão. Por mim, nem por um momento questiono o meu voto em Cavaco Silva. Não pretendo ter um lírico aprisionado nos anos sessenta a defrontar-se, em Belém, com o mundo de 2011.A reacção à decisão do PR é tanto mais estranha por ser muito mais histriónica do que aquando da promulgação por Cavaco Silva da liberalização do aborto até às dez semanas de gravidez (e, para mim, o PR devia ter vetado essa lei, já que nada no referendo falava de abortos pagos com dinheiro dos contribuintes nem de ausência de aconselhamento às grávidas que ponderem abortar). A existência de um referendo não desculpa: 60% dos eleitores não quiseram saber do assunto, o que o tornou não vinculativo. Para o casamento gay não houve referendo, mas os partidos de esquerda eram reconhecidamente favoráveis, pelo que havia legitimidade eleitoral. Acresce que este casamento gay será relativamente inócuo - a Coco Chanel e o Paul Poiret, com as suas roupas que permitiam às mulheres movimentarem-se, fizeram mais pela igualdade entre os sexos do que qualquer peça legislativa, e não é por imposição legal que os casais homossexuais terão o reconhecimento social que almejavam com a presente lei - enquanto que a legalização do aborto tratava de exterminar pessoas absolutamente desprotegidas. Algo, parece-me, substancialmente mais grave. E se houve muitos católicos (leigos e consagrados) empenhados na campanha contra o aborto, é certo que a hierarquia da Igreja em Portugal entendeu olhar para o lado e aceitar, entregando uma declaração de voto, a liberalização do aborto. Fica a ideia que, tal como Cavaco, se decidiram pelo pragmatismo: a maioria é favorável à liberalização do aborto, aceite-se o aborto; a maioria é contra o casamento gay, combata-se o casamento gay. Não vale a pena o Senhor Cardeal Patriarca rasgar as vestes.

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