Primeiro foi a bomba, depois o tiroteio. Um só atentado, dividido em duas frentes. A polícia procura perceber quem realizou este ataque: islamistas ou a extrema-direita?
A bomba de grande potência foi deixada numa rua estratégica. Ali, no centro do poder na Noruega, estão situados o Ministério das Finanças, o Ministério do Petróleo e a sede com 17 andares do Governo, onde o primeiro-ministro trabalha. Quando rebentou, disse a jornalista da rádio NRK, Ingunn Andersen, a rua, os prédios deram um salto. E a seguir ao estrondo ficaram escombros, gente presa no interior dos edifícios, pessoas ensanguentadas no chão, vidros partidos, incêndios. "Via-se a destruição em cinco quarteirões."
O atentado que ocorreu ontem à tarde em Oslo (14h30 em Portugal continental) matou sete pessoas e feriu dezenas, 11 gravemente. Eram dados provisórios, e o vice-chefe da polícia de Oslo, Egil Vrekke, disse à BBC que havia "muitas baixas".
O responsável de comunicação da Cruz Vermelha na Noruega, Oistein Mjarum, adiantou a esta estação de televisão que os escritórios da organização ficam muito próximos da zona da explosão que foi ouvida em toda a cidade. "É uma zona muito movimentada e numa tarde de sexta-feira há muita gente nas ruas, e muita gente a trabalhar naqueles edifícios", disse.
Pouco depois, um homem vestido de polícia disparou contra membros da juventude trabalhista (o partido no poder) que participavam num acampamento de Verão numa ilha perto da capital do país. O homem, de 32 anos e "dialecto de Oslo", foi detido e o Ministério da Justiça fez saber tratar-se de um cidadão norueguês. A polícia anunciou também ter encontrado explosivos na ilha e falava de nove mortos e oito feridos; outras fontes falavam em 30 vítimas. "Vi com os meus próprios olhos, pelo menos, 20 pessoas mortas na água", disse Andre Skeie, 26 anos, citado pela Reuters.
"Quando vem a polícia?"
Testemunhas na ilha contaram à ediçãodo jornal(cuja sede também foi atingida pela explosão) que o homem se identificou como polícia e entrou no acampamento. "Ele disse que era uma vistoria de rotina relacionada com o ataque de Oslo." Na ilha estavam entre 500 e 700 jovens. Um deles enviou um: "Estamos na zona da praia. Um homem está a disparar. Ajudem-nos. Quando vem a polícia para nos ajudar?"
Um representante do partido trabalhista, Bjorn Jarle Roberg-Larsen, telefonou a alguns dos adolescentes e reproduziu o que lhe disseram: "Os miúdos lançaram-se à água e começaram a nadar, em pânico, mas a ilha de Utoya é longe da cidade. Outros esconderam-se. Não quiseram continuar a falar; estavam aterrados."
Ontem, o que o primeiro-ministro, Jens Stoltenberg - que não estava no gabinete no momento da explosão e deveria dar, hoje, uma palestra no acampamento dos jovens trabalhistas -, conseguiu dizer foi que a situação era "muito séria". "Creio que não há ministros feridos. Eu estou bem, por razões de segurança não devo dizer onde me encontro." Uma medida baseada no que parece ser uma evidência: os trabalhistas do Governo e as bases juvenis terão sido o alvo.
O centro da cidade foi esvaziado por receio de novas explosões e o Exército formou cordões de segurança. A polícia, essa tentava perceber se seriam ataques isolados ou concertados. Ao início da noite, e segundo a CNN, confirmou: havia provas suficientes para concluir que a bomba e o tiroteio estavam relacionados.
Quando a polícia já percebera que se tratara de um atentado - foi uma bomba deliberada, anunciara -, mas não arriscava atribuir autoria ao mais violento ataque na Noruega desde a II Guerra Mundial, a estação de televisão do Qatar, Al Jazira, avançava uma hipótese explicativa. Semanas antes, a justiça norueguesa acusara de terrorismo Najmuddin Faraj Ahmad, ou mullah Krekar, fundador do grupo islamista Ansar al-Islam, do Curdistão, por ameaçar de morte uma antiga ministra, Erna Solberg. "A Noruega pagará um preço elevado pela minha morte", terá dito então, segundo a Al Jazira. Porém, a Reuters ouviu alguns especialistas que explicaram que Krekar não é suficientemente importante para a Al-Qaeda para motivar um atentado de vingança.
Afeganistão e cartoons
Na Noruega, a violência por motivos políticos é pouco comum, ainda que o país seja membro da NATO e tenha sido referido por líderes da Al-Qaeda devido ao seu envolvimento no conflito no Afeganistão. No Verão do ano passado, a polícia prendeu um grupo de indivíduos - todos imigrantes originários do Iraque e Uzbequistão -, com ligações à Al-Qaeda no Paquistão, que preparavam um atentado no país.
Ao fim da tarde surgiu um comunicado a reivindicar os ataques, do grupo Ansar al-Jihad al-Alami, também conhecido por Ajudantes da Jihad Global. A mensagem dizia precisamente que a bomba tinha sido a "resposta" à presença de tropas da Noruega no Afeganistão e aos insultos ao profeta Maomé (a imprensa local reproduziu os cartoons dinamarqueses).
"Desde o raide em Estocolmo [Suécia, atentado de Dezembro de 2010 que provocou um morto] que advertimos que haveria mais operações", diz o documento traduzido para o inglês pelo New York Times. "O que viram é só o princípio, há mais para vir."
Em Maio, após a morte de Osama Bin Laden, que era o líder da Al-Qaeda, a Ansar al-Jihad al-Alami apelou a uma mobilização geral dos jihadistas - deveriam manter-se afastados de edifícios que fossem alvos potenciais em todos os países "amigos" dos Estados Unidos e da NATO.
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Muitas cautelas
A polícia ainda não tinha confirmado a veracidade da reivindicação. E se os extremistas islâmicos eram a primeira possibilidade, as fontes ouvidas pela Reuters acrescentavam outra. "Temos de ser cautelosos porque ainda se sabe pouco. Mas uma bomba desta potência só é obra da extrema-direita ou de militantes islamistas", disse Majeed Nawaz, dobritânico Quilliam.
"É muito difícil dizer o que aconteceu", disse David Lea, analista do grupo Control Risk especializado na Europa. "Não há certamente nenhum grupo terrorista interno na Noruega, ainda que tenha havido algumas detenções por ligações à Al-Qaeda, de tempos a tempos", adiantou.
Os líderes mundiais reagiram de imediato. Barack Obama (EUA), Nicolas Sarkozy (França) e William Hague (Reino Unido) condenaram os ataques. O ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, cauteloso, disse que o seu país condena "todo o tipo de terrorismo".
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Primeiro foi a bomba, depois o tiroteio. Um só atentado, dividido em duas frentes. A polícia procura perceber quem realizou este ataque: islamistas ou a extrema-direita?
A bomba de grande potência foi deixada numa rua estratégica. Ali, no centro do poder na Noruega, estão situados o Ministério das Finanças, o Ministério do Petróleo e a sede com 17 andares do Governo, onde o primeiro-ministro trabalha. Quando rebentou, disse a jornalista da rádio NRK, Ingunn Andersen, a rua, os prédios deram um salto. E a seguir ao estrondo ficaram escombros, gente presa no interior dos edifícios, pessoas ensanguentadas no chão, vidros partidos, incêndios. "Via-se a destruição em cinco quarteirões."
O atentado que ocorreu ontem à tarde em Oslo (14h30 em Portugal continental) matou sete pessoas e feriu dezenas, 11 gravemente. Eram dados provisórios, e o vice-chefe da polícia de Oslo, Egil Vrekke, disse à BBC que havia "muitas baixas".
O responsável de comunicação da Cruz Vermelha na Noruega, Oistein Mjarum, adiantou a esta estação de televisão que os escritórios da organização ficam muito próximos da zona da explosão que foi ouvida em toda a cidade. "É uma zona muito movimentada e numa tarde de sexta-feira há muita gente nas ruas, e muita gente a trabalhar naqueles edifícios", disse.
Pouco depois, um homem vestido de polícia disparou contra membros da juventude trabalhista (o partido no poder) que participavam num acampamento de Verão numa ilha perto da capital do país. O homem, de 32 anos e "dialecto de Oslo", foi detido e o Ministério da Justiça fez saber tratar-se de um cidadão norueguês. A polícia anunciou também ter encontrado explosivos na ilha e falava de nove mortos e oito feridos; outras fontes falavam em 30 vítimas. "Vi com os meus próprios olhos, pelo menos, 20 pessoas mortas na água", disse Andre Skeie, 26 anos, citado pela Reuters.
"Quando vem a polícia?"
Testemunhas na ilha contaram à ediçãodo jornal(cuja sede também foi atingida pela explosão) que o homem se identificou como polícia e entrou no acampamento. "Ele disse que era uma vistoria de rotina relacionada com o ataque de Oslo." Na ilha estavam entre 500 e 700 jovens. Um deles enviou um: "Estamos na zona da praia. Um homem está a disparar. Ajudem-nos. Quando vem a polícia para nos ajudar?"
Um representante do partido trabalhista, Bjorn Jarle Roberg-Larsen, telefonou a alguns dos adolescentes e reproduziu o que lhe disseram: "Os miúdos lançaram-se à água e começaram a nadar, em pânico, mas a ilha de Utoya é longe da cidade. Outros esconderam-se. Não quiseram continuar a falar; estavam aterrados."
Ontem, o que o primeiro-ministro, Jens Stoltenberg - que não estava no gabinete no momento da explosão e deveria dar, hoje, uma palestra no acampamento dos jovens trabalhistas -, conseguiu dizer foi que a situação era "muito séria". "Creio que não há ministros feridos. Eu estou bem, por razões de segurança não devo dizer onde me encontro." Uma medida baseada no que parece ser uma evidência: os trabalhistas do Governo e as bases juvenis terão sido o alvo.
O centro da cidade foi esvaziado por receio de novas explosões e o Exército formou cordões de segurança. A polícia, essa tentava perceber se seriam ataques isolados ou concertados. Ao início da noite, e segundo a CNN, confirmou: havia provas suficientes para concluir que a bomba e o tiroteio estavam relacionados.
Quando a polícia já percebera que se tratara de um atentado - foi uma bomba deliberada, anunciara -, mas não arriscava atribuir autoria ao mais violento ataque na Noruega desde a II Guerra Mundial, a estação de televisão do Qatar, Al Jazira, avançava uma hipótese explicativa. Semanas antes, a justiça norueguesa acusara de terrorismo Najmuddin Faraj Ahmad, ou mullah Krekar, fundador do grupo islamista Ansar al-Islam, do Curdistão, por ameaçar de morte uma antiga ministra, Erna Solberg. "A Noruega pagará um preço elevado pela minha morte", terá dito então, segundo a Al Jazira. Porém, a Reuters ouviu alguns especialistas que explicaram que Krekar não é suficientemente importante para a Al-Qaeda para motivar um atentado de vingança.
Afeganistão e cartoons
Na Noruega, a violência por motivos políticos é pouco comum, ainda que o país seja membro da NATO e tenha sido referido por líderes da Al-Qaeda devido ao seu envolvimento no conflito no Afeganistão. No Verão do ano passado, a polícia prendeu um grupo de indivíduos - todos imigrantes originários do Iraque e Uzbequistão -, com ligações à Al-Qaeda no Paquistão, que preparavam um atentado no país.
Ao fim da tarde surgiu um comunicado a reivindicar os ataques, do grupo Ansar al-Jihad al-Alami, também conhecido por Ajudantes da Jihad Global. A mensagem dizia precisamente que a bomba tinha sido a "resposta" à presença de tropas da Noruega no Afeganistão e aos insultos ao profeta Maomé (a imprensa local reproduziu os cartoons dinamarqueses).
"Desde o raide em Estocolmo [Suécia, atentado de Dezembro de 2010 que provocou um morto] que advertimos que haveria mais operações", diz o documento traduzido para o inglês pelo New York Times. "O que viram é só o princípio, há mais para vir."
Em Maio, após a morte de Osama Bin Laden, que era o líder da Al-Qaeda, a Ansar al-Jihad al-Alami apelou a uma mobilização geral dos jihadistas - deveriam manter-se afastados de edifícios que fossem alvos potenciais em todos os países "amigos" dos Estados Unidos e da NATO.
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Muitas cautelas
A polícia ainda não tinha confirmado a veracidade da reivindicação. E se os extremistas islâmicos eram a primeira possibilidade, as fontes ouvidas pela Reuters acrescentavam outra. "Temos de ser cautelosos porque ainda se sabe pouco. Mas uma bomba desta potência só é obra da extrema-direita ou de militantes islamistas", disse Majeed Nawaz, dobritânico Quilliam.
"É muito difícil dizer o que aconteceu", disse David Lea, analista do grupo Control Risk especializado na Europa. "Não há certamente nenhum grupo terrorista interno na Noruega, ainda que tenha havido algumas detenções por ligações à Al-Qaeda, de tempos a tempos", adiantou.
Os líderes mundiais reagiram de imediato. Barack Obama (EUA), Nicolas Sarkozy (França) e William Hague (Reino Unido) condenaram os ataques. O ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, cauteloso, disse que o seu país condena "todo o tipo de terrorismo".