Ontem, na Gulbenkian, durante a entrega do Grande Prémio de Romance e Novela da APE — que este ano coube, e muito bem, a Francisco José Viegas —, uma amiga lamentava-se: «Tão poucos escritores. Isto é normal...?» É normal, sim, Isabel. A hora [11:30h] não ajudava, eu sei que não, mas se fosse qualquer outra era na mesma. Nós não estamos em Buenos Aires, onde, contou-me há dois anos a Cristina Norton, os escritores, todos os escritores, mesmo os muito célebres, fazem questão de marcar presença junto dos seus pares. E também não estamos no Porto, cidade cuja vida literária tem uma componente corporativa muito vincada. Aqui não. Em Lisboa o blasé é de regra, e contra mim falo, que não fujo ao padrão. Mas, de certo modo, a Isabel tem razão. No caso do Francisco, que conhece toda a gente, e publica livros há 25 anos, e durante treze dirigiu uma importante revista literária [a LER], e tem feito um monte de outras coisas, as quais incluem programas de livros e literatura na televisão e na rádio por onde passaram para cima de uma centena de autores de todas as gerações e idiossincrasias, relativamente ao Francisco, que não vive isolado numa torre de marfim, nem tem o humor bilioso de alguns metecos, era expectável menos parcimónia. Contando por baixo, digamos que há uma dúzia de pessoas que era suposto encontrar lá. O que se viu foram nove escritores (estou a ser generoso), cinco académicos (três fizeram parte do júri do prémio), um jornalista cultural, dois editores, dois bloggers. Nenhum bonzo, nenhum colunista, nenhum director de jornal, nenhuma estrela da televisão. É verdade que o mais importante não faltou: os filhos, a irmã e o cunhado, os amigos. O resto eram entidades oficiais (só identifiquei o secretário de Estado da Cultura), o presidente da Gulbenkian, burocratas e profissionais do happening. Por junto, qualquer coisa entre 70 e 80 pessoas. A sessão serviu para inaugurar o novo auditório 3 da Gulbenkian. Eu continuo a achar um rotundo disparate ter de ser o Presidente da República a entregar o prémio. É assim desde 1985, tornou-se um hábito, mas não faz sentido. Portugal não é a Bolívia. Dito isto, fica o discurso do Francisco. É todo um programa: «Eu escrevo histórias [...] Talvez por isso, por eu gostar de escrever histórias que algum dia me comoveram, não posso falar em nome dos outros nem acho que o trabalho do escritor, seja ele contador de histórias ou não, deva ser realizado em nome de outra coisa senão da alegria de escrever e, por interpostas pessoas, da alegria de ler. Escrevo histórias porque não acredito num mundo sem história, sem memória e sem perturbação.» A foto é de Miss Pearls.
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Ontem, na Gulbenkian, durante a entrega do Grande Prémio de Romance e Novela da APE — que este ano coube, e muito bem, a Francisco José Viegas —, uma amiga lamentava-se: «Tão poucos escritores. Isto é normal...?» É normal, sim, Isabel. A hora [11:30h] não ajudava, eu sei que não, mas se fosse qualquer outra era na mesma. Nós não estamos em Buenos Aires, onde, contou-me há dois anos a Cristina Norton, os escritores, todos os escritores, mesmo os muito célebres, fazem questão de marcar presença junto dos seus pares. E também não estamos no Porto, cidade cuja vida literária tem uma componente corporativa muito vincada. Aqui não. Em Lisboa o blasé é de regra, e contra mim falo, que não fujo ao padrão. Mas, de certo modo, a Isabel tem razão. No caso do Francisco, que conhece toda a gente, e publica livros há 25 anos, e durante treze dirigiu uma importante revista literária [a LER], e tem feito um monte de outras coisas, as quais incluem programas de livros e literatura na televisão e na rádio por onde passaram para cima de uma centena de autores de todas as gerações e idiossincrasias, relativamente ao Francisco, que não vive isolado numa torre de marfim, nem tem o humor bilioso de alguns metecos, era expectável menos parcimónia. Contando por baixo, digamos que há uma dúzia de pessoas que era suposto encontrar lá. O que se viu foram nove escritores (estou a ser generoso), cinco académicos (três fizeram parte do júri do prémio), um jornalista cultural, dois editores, dois bloggers. Nenhum bonzo, nenhum colunista, nenhum director de jornal, nenhuma estrela da televisão. É verdade que o mais importante não faltou: os filhos, a irmã e o cunhado, os amigos. O resto eram entidades oficiais (só identifiquei o secretário de Estado da Cultura), o presidente da Gulbenkian, burocratas e profissionais do happening. Por junto, qualquer coisa entre 70 e 80 pessoas. A sessão serviu para inaugurar o novo auditório 3 da Gulbenkian. Eu continuo a achar um rotundo disparate ter de ser o Presidente da República a entregar o prémio. É assim desde 1985, tornou-se um hábito, mas não faz sentido. Portugal não é a Bolívia. Dito isto, fica o discurso do Francisco. É todo um programa: «Eu escrevo histórias [...] Talvez por isso, por eu gostar de escrever histórias que algum dia me comoveram, não posso falar em nome dos outros nem acho que o trabalho do escritor, seja ele contador de histórias ou não, deva ser realizado em nome de outra coisa senão da alegria de escrever e, por interpostas pessoas, da alegria de ler. Escrevo histórias porque não acredito num mundo sem história, sem memória e sem perturbação.» A foto é de Miss Pearls.