O aeroporto da Portela e uma porta de vidro que se abria automaticamente quando alguém se aproximava; a FIL e uma máquina prodigiosa, onde os jornais entravam inteiros e abertos e saíam dobrados e cintados; os pilares e os cabos da nova ponte sobre o Tejo, que haviam de constituir depois o tema recorrente das minhas ineptas composições de desenho; as chaminés inclinadas do paquete "Infante D. Henrique", acostado no cais e igualzinho ao postal lá de casa, a recordar a última viagem do meu pai a África; a elegância altiva e calcária do aqueduto das Águas Livres; a sede da "Agência Portuguesa de Revistas", com a lista infinita das extensas metrópoles do Império: Lisboa, Porto, Bissau, Luanda, Lourenço Marques...Estas são as imagens iniciais que a minha primeira infância retém da cidade de Lisboa. São, no entanto, imagens difusas. Não datam de uma primeira e única visita. Traduzem já o trabalho de reelaboração da memória.Fosse porque em Lisboa estavam os melhores clientes da empresa familiar, fosse porque a burocracia centralizadora do país obrigava a deslocações frequentes à capital, fosse pelo que fosse, a verdade é que desde sempre me lembro de Lisboa. Tirando essa que, com dois anos e sem lembranças, me trouxe (num voo da TAP, com escala em Lagos) à Europa, não há para mim uma viagem a Lisboa que seja a primeira viagem.Ao contrário, recordo bem a minha primeira viagem ao Porto. Foi em Fevereiro de 1968, um pouco antes de nos mudarmos definitivamente para Vila Nova de Gaia.Apesar de distar apenas oitenta quilómetros de Águeda (quase menos duzentos do que Lisboa), o Porto era para mim uma terra completamente ignorada. Até o seu principal clube de futebol eu desconhecia na altura. No meu universo só existiam o Sporting, o Benfica, o Belenenses, a CUF, o Barreirense e a Académica.Lembro o "Opel Kadett" branco a descer a arborizada Avenida Marechal Gomes da Costa, que havia de ser da República. Lembro a entrada na ponte D. Luiz e a minha mãe a questionar-me o nome do rio. Lembro a letra e a música da canção "ó meu rio Douro, dourinho, dourado" que então entoei. Lembro um eléctrico ronceiro que connosco se cruzou.Estranhamente, não retive a cascata amuralhada da cidade medieval. Só muito mais tarde me deixaria seduzir pelo seu encantamento granítico. E mais ainda pelos seus amanheceres de nevoeiro.A minha primeira imagem do Porto, a que retenho viva e sempre presente, registei-a já no regresso a Águeda. É uma imagem nocturna da Praça da Batalha, com os pequenos losângulos azuis e brancos do anúncio do "Gazcidla" a subirem pela fachada de um prédio acima, emulando pequenas chamas de fogão. Em baixo, em néon azul, a acendar e a apagar, o slogan famoso: "uma chama viva, onde quer que viva".Nunca me revi no tema "Porto sentido", de Carlos T e Rui Veloso.
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O aeroporto da Portela e uma porta de vidro que se abria automaticamente quando alguém se aproximava; a FIL e uma máquina prodigiosa, onde os jornais entravam inteiros e abertos e saíam dobrados e cintados; os pilares e os cabos da nova ponte sobre o Tejo, que haviam de constituir depois o tema recorrente das minhas ineptas composições de desenho; as chaminés inclinadas do paquete "Infante D. Henrique", acostado no cais e igualzinho ao postal lá de casa, a recordar a última viagem do meu pai a África; a elegância altiva e calcária do aqueduto das Águas Livres; a sede da "Agência Portuguesa de Revistas", com a lista infinita das extensas metrópoles do Império: Lisboa, Porto, Bissau, Luanda, Lourenço Marques...Estas são as imagens iniciais que a minha primeira infância retém da cidade de Lisboa. São, no entanto, imagens difusas. Não datam de uma primeira e única visita. Traduzem já o trabalho de reelaboração da memória.Fosse porque em Lisboa estavam os melhores clientes da empresa familiar, fosse porque a burocracia centralizadora do país obrigava a deslocações frequentes à capital, fosse pelo que fosse, a verdade é que desde sempre me lembro de Lisboa. Tirando essa que, com dois anos e sem lembranças, me trouxe (num voo da TAP, com escala em Lagos) à Europa, não há para mim uma viagem a Lisboa que seja a primeira viagem.Ao contrário, recordo bem a minha primeira viagem ao Porto. Foi em Fevereiro de 1968, um pouco antes de nos mudarmos definitivamente para Vila Nova de Gaia.Apesar de distar apenas oitenta quilómetros de Águeda (quase menos duzentos do que Lisboa), o Porto era para mim uma terra completamente ignorada. Até o seu principal clube de futebol eu desconhecia na altura. No meu universo só existiam o Sporting, o Benfica, o Belenenses, a CUF, o Barreirense e a Académica.Lembro o "Opel Kadett" branco a descer a arborizada Avenida Marechal Gomes da Costa, que havia de ser da República. Lembro a entrada na ponte D. Luiz e a minha mãe a questionar-me o nome do rio. Lembro a letra e a música da canção "ó meu rio Douro, dourinho, dourado" que então entoei. Lembro um eléctrico ronceiro que connosco se cruzou.Estranhamente, não retive a cascata amuralhada da cidade medieval. Só muito mais tarde me deixaria seduzir pelo seu encantamento granítico. E mais ainda pelos seus amanheceres de nevoeiro.A minha primeira imagem do Porto, a que retenho viva e sempre presente, registei-a já no regresso a Águeda. É uma imagem nocturna da Praça da Batalha, com os pequenos losângulos azuis e brancos do anúncio do "Gazcidla" a subirem pela fachada de um prédio acima, emulando pequenas chamas de fogão. Em baixo, em néon azul, a acendar e a apagar, o slogan famoso: "uma chama viva, onde quer que viva".Nunca me revi no tema "Porto sentido", de Carlos T e Rui Veloso.