Vinte cópias, vinte. Foi quanto o professor Joaquim nos marcou para as férias grandes. No dia 7 de Outubro, quando começassem as aulas da segunda classe, todos nós teríamos que apresentar o caderno com os deveres completos: vinte cópias.Não parecia muito. Afinal, tinha metade do mês de Junho, e os meses inteiros de Julho, Agosto e Setembro para as fazer. Nem a duas por semana chegava. O que era isso, para quem tinha passado o ano a fazer uma por dia?Às perguntas frequentes da minha mãe sobre os deveres, fui sempre respondendo com um encolher de ombros:- Tenho tempo.Muito mais urgentes eram as brincadeiras com os primos em casa dos avós: as caçadinhas, o par ou pernão, o bom barqueiro, o arranca nabo, a galinha da papoila, as quedas de bicicleta e as simulações de festivais da canção, com palco montado no sótão da adega...Por volta de meados de Setembro, o assunto das cópias começou a preocupar-me. Tinha que as fazer. A situação ainda não era desesperante, mas não a podia protelar. Por uma ou duas vezes, a consciência do dever impôs-se e fiz a cópia do dia. Mas foram assomos de excepção. Ao final da tarde do dia 6 de Outubro tinha apenas três cópias feitas.Foi a minha primeira noitada de trabalho. Não sei se jantei. Sei que copiei, copiei, copiei...À uma da manhã, a minha mãe entrou no quarto e forçou-me a ir para a cama. Fui a chorar. Só tinha ainda dezassete cópias. Ao outro dia, o professor Joaquim nem para elas olhou.Recordei o stress dessa noite de Outono de 1967, ao ler no "Público" a saga das cinquenta folhas de árvore do "Calvin" que agora acaba.
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Vinte cópias, vinte. Foi quanto o professor Joaquim nos marcou para as férias grandes. No dia 7 de Outubro, quando começassem as aulas da segunda classe, todos nós teríamos que apresentar o caderno com os deveres completos: vinte cópias.Não parecia muito. Afinal, tinha metade do mês de Junho, e os meses inteiros de Julho, Agosto e Setembro para as fazer. Nem a duas por semana chegava. O que era isso, para quem tinha passado o ano a fazer uma por dia?Às perguntas frequentes da minha mãe sobre os deveres, fui sempre respondendo com um encolher de ombros:- Tenho tempo.Muito mais urgentes eram as brincadeiras com os primos em casa dos avós: as caçadinhas, o par ou pernão, o bom barqueiro, o arranca nabo, a galinha da papoila, as quedas de bicicleta e as simulações de festivais da canção, com palco montado no sótão da adega...Por volta de meados de Setembro, o assunto das cópias começou a preocupar-me. Tinha que as fazer. A situação ainda não era desesperante, mas não a podia protelar. Por uma ou duas vezes, a consciência do dever impôs-se e fiz a cópia do dia. Mas foram assomos de excepção. Ao final da tarde do dia 6 de Outubro tinha apenas três cópias feitas.Foi a minha primeira noitada de trabalho. Não sei se jantei. Sei que copiei, copiei, copiei...À uma da manhã, a minha mãe entrou no quarto e forçou-me a ir para a cama. Fui a chorar. Só tinha ainda dezassete cópias. Ao outro dia, o professor Joaquim nem para elas olhou.Recordei o stress dessa noite de Outono de 1967, ao ler no "Público" a saga das cinquenta folhas de árvore do "Calvin" que agora acaba.