A conhecida filósofa germânico-norte americana Hannah Arendt expôs, no seu magistral livro "As origens do Totalitarismo", a forma como os métodos totalitários se impõem, com pequenos passos quase imperceptíveis, manipulando o acriticismo individual face ao poder e fazendo uso da permeabilidade das massas à banalização do Terror. Nessa obra absolutamente imprescindível para a compreensão dos mecanismos de institucionalização de comandos não democráticos numa sociedade, Hannah Arendt recorre, não raras vezes, ao exemplo do Anti-Semitismo europeu recordando-nos como, longe de ser uma criação do Nazismo, o ódio aos judeus se formou de uma lenta fermentação de uma dada forma de pensar tendente a ver nos judeus características sociais, culturais e, até, biológicas diferentes de todos os demais indivíduos humanos. Pretendeu a autora, e bem, enfatizar que o passo inicial para a imposição de uma determinada forma de pensar passa pela criação e sustentação de um determinado temor, quando não mesmo ódio, por um determinado grupo ou classe social, procurando acentuar a sua diferença e daí extraindo, falaciosamente, razões para deles desconfiar e os odiar. E com isso galvanizar os destinatários da sua mensagem não democrática, proto-totalitária, em torno de um ódio assim tornado comum. A mensagem de Arendt brilha por espantosamente actual: o que valeu para os escravos gregos na Roma Antiga, para os judeus do final do séc XIX e iníco do século XX vale ainda hoje, por exemplo, para ostracizar negros e homossexuais.Não obstante estes "novos ódios", não pude deixar de me lembrar do supra referido ensaio de Arendt baseado no Anti-semitismo quando tomei conhecimento do escândalo denunciado pelo correspondente do diário francês Libération em Bruxelas. Sucede que Maciej Giertych, deputado europeu eleito pelo (e membro directivo do) Partido das Famílias Polacas (como já varíadíssmas vezes foi aqui referido no Devaneios, trata-se de um partido de extrema direita em pleno Governo da Polónia) resolveu lançar, escandalosamente apoiado com subvenções do Parlamento Europeu, um livro onde faz, sem pudores, a apologia do Anti semitismo. Semelhante professor universitário (???) das hostes mais extremistas do poder polaco fala-nos da impossibilidade de cohabitarem a "civilização europeia e a judaica" em plena Europa. Explica-nos detalhadamente como os judeus preferem eles mesmos viver em ghettos ("Hitler apenas os forçou"), regendo-se pelas suas próprias regras e assegurando a devida distância "de todos nós". Como se não bastasse, Maciej Giertych assegura-nos ainda que "embora não sendo uma raça diferente, o desejo de viverem separados nas suas próprias comunidades tornou-os biologicamente diferentes".Eis, assaz cristalino, um exemplo de Arendt. Uma conclusão aparentemente lógica esconde, não obstante, todo um ódio por uma dada comunidade. O que vale para fazer, de forma tão impune e, ainda por cima, subvencionada, a apologia da "diferença biológica" dos judeus poderia ser identicamente utilizada para todo e qualquer outro grupo que se quisesse atacar. Imigrantes. Muçulmanos. Homossexuais.A nossa tolerância por semelhantes mensagens enforma o segundo estágio, na formulação daquela autora, do caminho para o Totalitarismo: a permeabilidade das massas à banalização do Terror.
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A conhecida filósofa germânico-norte americana Hannah Arendt expôs, no seu magistral livro "As origens do Totalitarismo", a forma como os métodos totalitários se impõem, com pequenos passos quase imperceptíveis, manipulando o acriticismo individual face ao poder e fazendo uso da permeabilidade das massas à banalização do Terror. Nessa obra absolutamente imprescindível para a compreensão dos mecanismos de institucionalização de comandos não democráticos numa sociedade, Hannah Arendt recorre, não raras vezes, ao exemplo do Anti-Semitismo europeu recordando-nos como, longe de ser uma criação do Nazismo, o ódio aos judeus se formou de uma lenta fermentação de uma dada forma de pensar tendente a ver nos judeus características sociais, culturais e, até, biológicas diferentes de todos os demais indivíduos humanos. Pretendeu a autora, e bem, enfatizar que o passo inicial para a imposição de uma determinada forma de pensar passa pela criação e sustentação de um determinado temor, quando não mesmo ódio, por um determinado grupo ou classe social, procurando acentuar a sua diferença e daí extraindo, falaciosamente, razões para deles desconfiar e os odiar. E com isso galvanizar os destinatários da sua mensagem não democrática, proto-totalitária, em torno de um ódio assim tornado comum. A mensagem de Arendt brilha por espantosamente actual: o que valeu para os escravos gregos na Roma Antiga, para os judeus do final do séc XIX e iníco do século XX vale ainda hoje, por exemplo, para ostracizar negros e homossexuais.Não obstante estes "novos ódios", não pude deixar de me lembrar do supra referido ensaio de Arendt baseado no Anti-semitismo quando tomei conhecimento do escândalo denunciado pelo correspondente do diário francês Libération em Bruxelas. Sucede que Maciej Giertych, deputado europeu eleito pelo (e membro directivo do) Partido das Famílias Polacas (como já varíadíssmas vezes foi aqui referido no Devaneios, trata-se de um partido de extrema direita em pleno Governo da Polónia) resolveu lançar, escandalosamente apoiado com subvenções do Parlamento Europeu, um livro onde faz, sem pudores, a apologia do Anti semitismo. Semelhante professor universitário (???) das hostes mais extremistas do poder polaco fala-nos da impossibilidade de cohabitarem a "civilização europeia e a judaica" em plena Europa. Explica-nos detalhadamente como os judeus preferem eles mesmos viver em ghettos ("Hitler apenas os forçou"), regendo-se pelas suas próprias regras e assegurando a devida distância "de todos nós". Como se não bastasse, Maciej Giertych assegura-nos ainda que "embora não sendo uma raça diferente, o desejo de viverem separados nas suas próprias comunidades tornou-os biologicamente diferentes".Eis, assaz cristalino, um exemplo de Arendt. Uma conclusão aparentemente lógica esconde, não obstante, todo um ódio por uma dada comunidade. O que vale para fazer, de forma tão impune e, ainda por cima, subvencionada, a apologia da "diferença biológica" dos judeus poderia ser identicamente utilizada para todo e qualquer outro grupo que se quisesse atacar. Imigrantes. Muçulmanos. Homossexuais.A nossa tolerância por semelhantes mensagens enforma o segundo estágio, na formulação daquela autora, do caminho para o Totalitarismo: a permeabilidade das massas à banalização do Terror.