Tal como no Cairo, em Trípoli já há checkpoints criadosnos bairros e piquetes de jovens a limpar as ruas

02-09-2011
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À noite, as ruas estão cheias. Trípoli organiza-se. Literalmente em cada esquina há um checkpoint de civis armados, pedindo identificação, revistando os carros. Gritam Allahu Akbar, trocam informações sobre a situação nos vários locais da capital e arredores.

Os mais de 30 jornalistas que estavam detidos no hotel Rixos, cercados por mais de 3 mil soldados pró-Khadafi, foram libertados, dizem. Quatro jornalistas italianos foram raptados na estrada que segue para a fronteira tunisina, é outra informação. Fortes combates junto a essa fronteira. As forças de Khadafi lançaram morteiros contra uma prisão, em Trípoli, matando mais de 100 reclusos. Algumas informações podem ser confirmadas, outras, como é o caso desta última, não. Os rumores e as mentiras cumprem o seu propósito. Sempre foi assim, nos seis meses desta guerra civil. Agora, é como se houvesse um ataque concentrado.

Na cidade, os checkpoints parecem ser compostos por habitantes de cada bairro, de cada quarteirão. Mas vê-se que existe alguma espécie de organização, nos seus procedimentos, na forma de abordagem e de disposição, de ambos os lados da rua. Ao mesmo tempo, piquetes de jovens, equipados com vassouras e pás, limpam as ruas. Tudo isto lembra o Cairo, nos dias da revolução. Percebe-se que há uma cartilha prática comum, provavelmente comunicada através da Internet e do Facebook.

Há piquetes também na estrada que vem do Oeste, embora cada vez mais espaçados, à medida que nos aproximamos da fronteira tunisina. Excepto na própria fronteira. A única que está aberta é em Dehiba, uns 400 quilómetros a sul de Djerba, na Tunísia. As fronteiras a norte situam-se em zonas inseguras.

Em Dehiba não se perde tempo. Só com os guardas tunisinos. Os líbios desapareceram. No posto fronteiriço está um jovem de calções e kalashnikov que manda seguir, sem sequer olhar para os passaportes. Só mais de 300 quilómetros à frente, alguém se lembra de os pedir. Aí, na zona montanhosa de Zintan, somos obrigados a fazer um desvio, até uma escola ocupada pelos rebeldes, onde é necessário que alguém emita uma autorização especial para podermos seguir até Trípoli.

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Toda esta região, daqui à fronteira, foi alvo de violentos bombardeamentos das forças da NATO. Vêem-se tanques e outros veículos destruídos, casas despedaçadas. As povoações de Nalut, Al Hawamid, Tiji ou Badr, estão virtualmente desertas. Os cafés e as lojas estão fechados. Na estrada, vêem-se agora os carros cheios de tralha nos tejadilhos, com famílias inteiras, muitas crianças de olhos perplexos, a regressar a estas povoações. Começa a sentir-se que tudo acabou. Que se pode regressar. Que a vida vai voltar ao normal. Mas é uma sensação ainda incipiente, que releva antes de mais da vontade de que assim seja.

Há crateras de bombas na estrada. Edifícios esburacados de balas. Montanhas amarelas e cor de tijolo, escarpadas, de topos rasos como mesas, tudo feito de areia endurecida e suja. Nas povoações, os muros dizem: "Thanks to USA, France, England". "Thanks NATO You"ve saved our lives". Ou "Merci Surkuzi".

Os checkpoints são ocupados por homens muito velhos, envergando T-shirts caveadas de algodão e sorrisos magnânimos, ou alguns muito jovens, sentados com os pés descalços em cima de outra cadeira de plástico à sua frente, metralhadora pousada nos joelhos, num estilo muito próprio, que mistura elementos estéticos dos boémios do Mediterrâneo, os beduínos do deserto, os guerrilheiros do Afeganistão e os revolucionários dos anos 70. O estilo livre de quem, finalmente, venceu.

À noite, as ruas estão cheias. Trípoli organiza-se. Literalmente em cada esquina há um checkpoint de civis armados, pedindo identificação, revistando os carros. Gritam Allahu Akbar, trocam informações sobre a situação nos vários locais da capital e arredores.

Os mais de 30 jornalistas que estavam detidos no hotel Rixos, cercados por mais de 3 mil soldados pró-Khadafi, foram libertados, dizem. Quatro jornalistas italianos foram raptados na estrada que segue para a fronteira tunisina, é outra informação. Fortes combates junto a essa fronteira. As forças de Khadafi lançaram morteiros contra uma prisão, em Trípoli, matando mais de 100 reclusos. Algumas informações podem ser confirmadas, outras, como é o caso desta última, não. Os rumores e as mentiras cumprem o seu propósito. Sempre foi assim, nos seis meses desta guerra civil. Agora, é como se houvesse um ataque concentrado.

Na cidade, os checkpoints parecem ser compostos por habitantes de cada bairro, de cada quarteirão. Mas vê-se que existe alguma espécie de organização, nos seus procedimentos, na forma de abordagem e de disposição, de ambos os lados da rua. Ao mesmo tempo, piquetes de jovens, equipados com vassouras e pás, limpam as ruas. Tudo isto lembra o Cairo, nos dias da revolução. Percebe-se que há uma cartilha prática comum, provavelmente comunicada através da Internet e do Facebook.

Há piquetes também na estrada que vem do Oeste, embora cada vez mais espaçados, à medida que nos aproximamos da fronteira tunisina. Excepto na própria fronteira. A única que está aberta é em Dehiba, uns 400 quilómetros a sul de Djerba, na Tunísia. As fronteiras a norte situam-se em zonas inseguras.

Em Dehiba não se perde tempo. Só com os guardas tunisinos. Os líbios desapareceram. No posto fronteiriço está um jovem de calções e kalashnikov que manda seguir, sem sequer olhar para os passaportes. Só mais de 300 quilómetros à frente, alguém se lembra de os pedir. Aí, na zona montanhosa de Zintan, somos obrigados a fazer um desvio, até uma escola ocupada pelos rebeldes, onde é necessário que alguém emita uma autorização especial para podermos seguir até Trípoli.

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Toda esta região, daqui à fronteira, foi alvo de violentos bombardeamentos das forças da NATO. Vêem-se tanques e outros veículos destruídos, casas despedaçadas. As povoações de Nalut, Al Hawamid, Tiji ou Badr, estão virtualmente desertas. Os cafés e as lojas estão fechados. Na estrada, vêem-se agora os carros cheios de tralha nos tejadilhos, com famílias inteiras, muitas crianças de olhos perplexos, a regressar a estas povoações. Começa a sentir-se que tudo acabou. Que se pode regressar. Que a vida vai voltar ao normal. Mas é uma sensação ainda incipiente, que releva antes de mais da vontade de que assim seja.

Há crateras de bombas na estrada. Edifícios esburacados de balas. Montanhas amarelas e cor de tijolo, escarpadas, de topos rasos como mesas, tudo feito de areia endurecida e suja. Nas povoações, os muros dizem: "Thanks to USA, France, England". "Thanks NATO You"ve saved our lives". Ou "Merci Surkuzi".

Os checkpoints são ocupados por homens muito velhos, envergando T-shirts caveadas de algodão e sorrisos magnânimos, ou alguns muito jovens, sentados com os pés descalços em cima de outra cadeira de plástico à sua frente, metralhadora pousada nos joelhos, num estilo muito próprio, que mistura elementos estéticos dos boémios do Mediterrâneo, os beduínos do deserto, os guerrilheiros do Afeganistão e os revolucionários dos anos 70. O estilo livre de quem, finalmente, venceu.

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