O PS de Seguro e a tentação populista

21-01-2012
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O PS de Seguro e a tentação populista

Sempre que um dos grandes partidos passa à oposição fica bem dizer que “não temos oposição”. Guterres só foi visto como alternativa a Cavaco depois de se ter descoberto a indignação do país na madrugada do buzinão, Barroso parecia um líder sem futuro poucos meses antes de chegar a primeiro-ministro, todos se recordam do calvário de Ferro e do rosário de líderes conhecidos pelo PSD nos últimos seis anos. Talvez por isso valha a pena ser prudente na avaliação de António José Seguro, o novo homem no “lugar do morto”, isto é, no lugar de líder da oposição em Portugal. Seguramente por isso tenho tido alguma paciência, esperado para ver mais e dado tempo ao tempo. Mas chega, que apesar de tudo também a oposição já teve os seus “100 dias”.

É certo que a forma desastrada como a dupla Seguro/Zorrinho geriram as intervenções do PS no debate quinzenal desta quarta-feira era tentadora, mas não é ela que me atrai. Um mau debate no início de uma longa maratona como é uma legislatura pode não passar da espuma dos dias. O que me leva a escrever é o receio de que o PS possa evoluir mais depressa do que se pensa para uma posição semelhante à do Partido da Nova Democracia grego (direita), isto é, que ignore as suas responsabilidades na crise e adopte uma linha populista e anti-reformista. Os ingredientes para isso acontecer estão todos lá.

Primeiro que tudo, os socialistas fizeram a transição entre o “socratismo” e aquilo a que Zorrinho chamou o “novo PS” sem terem perdido um minuto a tentarem perceber porque tiveram, nas eleições de Junho, o seu pior resultado dos últimos 20 anos e, sobretudo, sem terem feito o balanço de seis anos de (má) governação. Ainda este domingo, numa entrevista ao PÚBLICO, Seguro conseguiu fugir à insistência de quatro perguntas seguidas sobre os erros recentes do PS: “Eu não esqueço nenhum passado, mas eu sou líder do PS para o futuro”, disse, como se o futuro se pudesse construir sem perceber o passado e reconhecer erros com frontalidade.

É sabido que os partidos não têm por hábito olhar para os seus próprios pecados. O PSD de Marcelo nunca quis saber dos males do cavaquismo e o PS de Ferro arrepiou-se todo quando Vicente Jorge Silva falou da “tralha guterrista”. Pior: o PS que consagrou Seguro no Congresso de Braga é exactamente o mesmo PS que meses antes alinhou no cerimonial norte-coreano do Congresso de Matosinhos. O famoso “aparelho” que garantiu a vitória a Seguro é também o mesmo que se mostrara fidelíssimo a Sócrates. Talvez como nunca no passado, o PS (tal como o PSD) é hoje uma organização cujo cimento é uma burocracia interna que não se move por convicções, antes por fidelidades transitórias e cálculos de poder. Sendo assim, como poderia tal gente olhar criticamente para um período de tantas benesses e alegrias? Não podia, até por ter sido cúmplice e actor do principal pecado dessa era, o dos atropelos à liberdade em nome da celebração dos méritos de uma liderança messiânica e autoritária.

Mesmo assim o PS podia ter ido mais longe, mas preferiu a doce cosmética do congresso de Braga, com o punho a regressar no lugar da rosa, sinal da cíclica encenação de uma “viragem à esquerda”. No resto manteve-se dentro do colete-de-forças imposto pela anterior liderança: uma retórica “social” para ajudar a engolir uma troika bem real. Só que isto é argamassa frágil e incoerente que a tentativa de Seguro para descentrar a discussão e levá-la para temas europeus não resolve. O problema do PS não é muito diferente do problema das restantes esquerdas europeias: num tempo em que as sociedades já não produzem os excessos (sob a forma de crescimento económico) que era possível redistribuir, como continuar a ser socialista sem ser acumulando dívidas?

Seguro não dá nenhuma resposta convincente a este dilema, antes prefere surfar a última onda, a dos eurobonds, não por acaso um instrumento para prolongar a dívida e adiar a cura. É por isso difícil encontrar no seu discurso qualquer resquício da componente de “sonho” que, no passado, se associava à ideia de esquerda, bem pelo contrário. Sobra antes um novelo de tensões típicas de um partido regressado à oposição.

No centro dessas tensões está o acordo com a troika, um acordo negociado e assinado pelos socialistas e que muitos deles já encaram como um insuportável colete-de-forças. De tal forma que já criaram uma nova ladainha: o PS está comprometido com os objectivos do memorando, não com as medidas a tomar. A vontade de saltar fora do entendimento é enorme e compreende-se porquê: primeiro, porque as medidas são impopulares; depois, porque genuinamente não se concorda com o memorando de entendimento. Tivesse este sido negociado, tal e qual, pelo actual governo e não se duvide que teríamos já o PS na rua, ao lado da CGTP.

E onde está, numa tensão que se percebe cruzar o grupo parlamentar, António José Seguro? O discurso calmo parece colocá-lo à direita, pelo menos em retórica, do seu antecessor, mas ao mesmo tempo vai piscando o olho à esquerda socialista que antes execrava Sócrates. Avesso a definir-se e a traçar linhas claras de demarcação, dá a sensação de se adapta a cada dia mais do que lidera. É certo que, como todos os líderes recém-empossados, tem ainda muito que andar para que possamos falar de um “segurismo”, mas não faltam sinais de que, embalado pelas circunstâncias e empurrado por um partido que não quis aprender nada, possa em breve descolar do memorando. Só que em nome dos “objectivos” do memorando. Talvez a discussão do próximo Orçamento de Estado se revele, neste domínio, clarificadora.

Público, 30 de Setembro de 2011

O PS de Seguro e a tentação populista

Sempre que um dos grandes partidos passa à oposição fica bem dizer que “não temos oposição”. Guterres só foi visto como alternativa a Cavaco depois de se ter descoberto a indignação do país na madrugada do buzinão, Barroso parecia um líder sem futuro poucos meses antes de chegar a primeiro-ministro, todos se recordam do calvário de Ferro e do rosário de líderes conhecidos pelo PSD nos últimos seis anos. Talvez por isso valha a pena ser prudente na avaliação de António José Seguro, o novo homem no “lugar do morto”, isto é, no lugar de líder da oposição em Portugal. Seguramente por isso tenho tido alguma paciência, esperado para ver mais e dado tempo ao tempo. Mas chega, que apesar de tudo também a oposição já teve os seus “100 dias”.

É certo que a forma desastrada como a dupla Seguro/Zorrinho geriram as intervenções do PS no debate quinzenal desta quarta-feira era tentadora, mas não é ela que me atrai. Um mau debate no início de uma longa maratona como é uma legislatura pode não passar da espuma dos dias. O que me leva a escrever é o receio de que o PS possa evoluir mais depressa do que se pensa para uma posição semelhante à do Partido da Nova Democracia grego (direita), isto é, que ignore as suas responsabilidades na crise e adopte uma linha populista e anti-reformista. Os ingredientes para isso acontecer estão todos lá.

Primeiro que tudo, os socialistas fizeram a transição entre o “socratismo” e aquilo a que Zorrinho chamou o “novo PS” sem terem perdido um minuto a tentarem perceber porque tiveram, nas eleições de Junho, o seu pior resultado dos últimos 20 anos e, sobretudo, sem terem feito o balanço de seis anos de (má) governação. Ainda este domingo, numa entrevista ao PÚBLICO, Seguro conseguiu fugir à insistência de quatro perguntas seguidas sobre os erros recentes do PS: “Eu não esqueço nenhum passado, mas eu sou líder do PS para o futuro”, disse, como se o futuro se pudesse construir sem perceber o passado e reconhecer erros com frontalidade.

É sabido que os partidos não têm por hábito olhar para os seus próprios pecados. O PSD de Marcelo nunca quis saber dos males do cavaquismo e o PS de Ferro arrepiou-se todo quando Vicente Jorge Silva falou da “tralha guterrista”. Pior: o PS que consagrou Seguro no Congresso de Braga é exactamente o mesmo PS que meses antes alinhou no cerimonial norte-coreano do Congresso de Matosinhos. O famoso “aparelho” que garantiu a vitória a Seguro é também o mesmo que se mostrara fidelíssimo a Sócrates. Talvez como nunca no passado, o PS (tal como o PSD) é hoje uma organização cujo cimento é uma burocracia interna que não se move por convicções, antes por fidelidades transitórias e cálculos de poder. Sendo assim, como poderia tal gente olhar criticamente para um período de tantas benesses e alegrias? Não podia, até por ter sido cúmplice e actor do principal pecado dessa era, o dos atropelos à liberdade em nome da celebração dos méritos de uma liderança messiânica e autoritária.

Mesmo assim o PS podia ter ido mais longe, mas preferiu a doce cosmética do congresso de Braga, com o punho a regressar no lugar da rosa, sinal da cíclica encenação de uma “viragem à esquerda”. No resto manteve-se dentro do colete-de-forças imposto pela anterior liderança: uma retórica “social” para ajudar a engolir uma troika bem real. Só que isto é argamassa frágil e incoerente que a tentativa de Seguro para descentrar a discussão e levá-la para temas europeus não resolve. O problema do PS não é muito diferente do problema das restantes esquerdas europeias: num tempo em que as sociedades já não produzem os excessos (sob a forma de crescimento económico) que era possível redistribuir, como continuar a ser socialista sem ser acumulando dívidas?

Seguro não dá nenhuma resposta convincente a este dilema, antes prefere surfar a última onda, a dos eurobonds, não por acaso um instrumento para prolongar a dívida e adiar a cura. É por isso difícil encontrar no seu discurso qualquer resquício da componente de “sonho” que, no passado, se associava à ideia de esquerda, bem pelo contrário. Sobra antes um novelo de tensões típicas de um partido regressado à oposição.

No centro dessas tensões está o acordo com a troika, um acordo negociado e assinado pelos socialistas e que muitos deles já encaram como um insuportável colete-de-forças. De tal forma que já criaram uma nova ladainha: o PS está comprometido com os objectivos do memorando, não com as medidas a tomar. A vontade de saltar fora do entendimento é enorme e compreende-se porquê: primeiro, porque as medidas são impopulares; depois, porque genuinamente não se concorda com o memorando de entendimento. Tivesse este sido negociado, tal e qual, pelo actual governo e não se duvide que teríamos já o PS na rua, ao lado da CGTP.

E onde está, numa tensão que se percebe cruzar o grupo parlamentar, António José Seguro? O discurso calmo parece colocá-lo à direita, pelo menos em retórica, do seu antecessor, mas ao mesmo tempo vai piscando o olho à esquerda socialista que antes execrava Sócrates. Avesso a definir-se e a traçar linhas claras de demarcação, dá a sensação de se adapta a cada dia mais do que lidera. É certo que, como todos os líderes recém-empossados, tem ainda muito que andar para que possamos falar de um “segurismo”, mas não faltam sinais de que, embalado pelas circunstâncias e empurrado por um partido que não quis aprender nada, possa em breve descolar do memorando. Só que em nome dos “objectivos” do memorando. Talvez a discussão do próximo Orçamento de Estado se revele, neste domínio, clarificadora.

Público, 30 de Setembro de 2011

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