A Nossa Rádio...: Poesia na rádio (II)

30-06-2011
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Tendo chegado ao fim, em 31 de Dezembro último, o apontamento de poesia e música "Os Sons Férteis", era expectável que 2009 começasse, na Antena 2, com uma nova rubrica de poesia. Mas não! Decorridos quase dois meses o vazio continua. E porquê? Eu presumo que o autor de "Os Sons Férteis", Paulo Rato, tenha avisado com bastante antecedência a direcção da Antena 2 de modo a que esta tivesse tempo para tomar as medidas que se impunham. Como se explica então tal inoperância e passividade? Bem, dada a razia de pessoal qualificado que se registou nos últimos anos (e de que a actual direcção de programas tem bastantes culpas no cartório, convém não esquecer), admito que nos actuais quadros da RDP não seja fácil encontrar alguém à altura de um Paulo Rato ou de um António Cardoso Pinto. Mas isso não é razão para que não haja um apontamento de poesia recitada na rádio pública. Duas saídas se ofereciam. Uma delas seria recorrer a 'diseurs' externos com provas dadas: estou a lembrar-me de actores da Cornucópia – Luís Miguel Cintra, Luís Lima Barreto, Luís Lucas, Luísa Cruz, Manuela de Freitas, etc. –, aliás, com diversos discos editados ("A Margem da Alegria", de Ruy Belo, e "Ao longe os barcos de flores: poesia portuguesa do século XX" são apenas dois bons exemplos). A outra alternativa (esta sem qualquer repercussão orçamental) seria fazer uso do património fonográfico existente. E aqui cabe não só o riquíssimo arquivo histórico da RDP (registos de Maria Clara, Carlos Acheman, António Cardoso Pinto, Graça Vasconcelos, Paulo Rato, etc.) mas também as edições discográficas disponíveis, seja de actores/recitadores de renome (além dos já citados, João Villaret, Mário Viegas, Jacinto Ramos, Eunice Muñoz, Carmen Dolores, Maria Barroso, Maria Germana Tânger, Maria Helena d'Eça Leal, Diogo Dória, Carlos Daniel, João Grosso, Santos Manuel, Vítor de Sousa, Natália Luiza, Maria Emília Correia, Afonso Dias, Mário Máximo, etc.), seja dos próprios poetas (Almada Negreiros, José Régio, Miguel Torga, Natália Correia, Herberto Hélder, Ary dos Santos, Mário Cesariny de Vasconcelos, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, Al Berto, José Manuel Mendes, Manuel Alegre, etc.). Nem sempre os poetas foram/são os melhores 'diseurs' da sua poesia, mas casos há em que ninguém melhor do que eles a disse (exemplos: Mário Cesariny de Vasconcelos e Eugénio de Andrade). E houve até poetas que emprestaram também a sua voz à obra alheia, como foi o caso de Ary dos Santos. Nunca mais me saiu da memória a sua admirável e tocante 'pregação' do célebre "Sermão de Santo António aos Peixes", do Padre António Vieira, que Judite Lima uma vez passou num dos seus programas (salvo erro, no "Jardim da Música").Como ficou demonstrado, o que não falta é material de excepcional qualidade. E como escolher o poeta para cada emissão? Nada mais fácil e prático: a data de nascimento ou morte (no caso dos já desaparecidos). Creio que não deve haver um único dia do ano em que não tenha nascido ou morrido um poeta. Já o disse antes e volto a afirmá-lo: a rádio é de todos os media aquele que melhor serve a poesia, ainda mais que os próprios livros. Já dizia Federico García Lorca: "os poemas são feitos para serem recitados, porque num livro estão mortos". Não aproveitar a potencialidade única que a rádio tem no campo da poesia, além de ser uma atitude obscurantista é um crime contra a cultura.Pergunta-se: porque é que a direcção da Antena 2 não mexeu uma palha durante este tempo todo? Será que Rui Pêgo e João Almeida entendem que a poesia não é realmente importante e necessária no serviço público de radiodifusão? É a impressão com que se fica. Para tais indivíduos a poesia parece ter muito menos importância que coisas do género "A Fuga da Arte" e "Vias de Facto"!...É deveras confrangedor e triste ver como a Antena 2, de dia para dia, se vem afastando das obrigações culturais que são, afinal de contas, a razão da sua existência.Apetece invocar a grande Natália Correia: "Ó subalimentados do sonho! / a poesia é para comer."


Tendo chegado ao fim, em 31 de Dezembro último, o apontamento de poesia e música "Os Sons Férteis", era expectável que 2009 começasse, na Antena 2, com uma nova rubrica de poesia. Mas não! Decorridos quase dois meses o vazio continua. E porquê? Eu presumo que o autor de "Os Sons Férteis", Paulo Rato, tenha avisado com bastante antecedência a direcção da Antena 2 de modo a que esta tivesse tempo para tomar as medidas que se impunham. Como se explica então tal inoperância e passividade? Bem, dada a razia de pessoal qualificado que se registou nos últimos anos (e de que a actual direcção de programas tem bastantes culpas no cartório, convém não esquecer), admito que nos actuais quadros da RDP não seja fácil encontrar alguém à altura de um Paulo Rato ou de um António Cardoso Pinto. Mas isso não é razão para que não haja um apontamento de poesia recitada na rádio pública. Duas saídas se ofereciam. Uma delas seria recorrer a 'diseurs' externos com provas dadas: estou a lembrar-me de actores da Cornucópia – Luís Miguel Cintra, Luís Lima Barreto, Luís Lucas, Luísa Cruz, Manuela de Freitas, etc. –, aliás, com diversos discos editados ("A Margem da Alegria", de Ruy Belo, e "Ao longe os barcos de flores: poesia portuguesa do século XX" são apenas dois bons exemplos). A outra alternativa (esta sem qualquer repercussão orçamental) seria fazer uso do património fonográfico existente. E aqui cabe não só o riquíssimo arquivo histórico da RDP (registos de Maria Clara, Carlos Acheman, António Cardoso Pinto, Graça Vasconcelos, Paulo Rato, etc.) mas também as edições discográficas disponíveis, seja de actores/recitadores de renome (além dos já citados, João Villaret, Mário Viegas, Jacinto Ramos, Eunice Muñoz, Carmen Dolores, Maria Barroso, Maria Germana Tânger, Maria Helena d'Eça Leal, Diogo Dória, Carlos Daniel, João Grosso, Santos Manuel, Vítor de Sousa, Natália Luiza, Maria Emília Correia, Afonso Dias, Mário Máximo, etc.), seja dos próprios poetas (Almada Negreiros, José Régio, Miguel Torga, Natália Correia, Herberto Hélder, Ary dos Santos, Mário Cesariny de Vasconcelos, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, Al Berto, José Manuel Mendes, Manuel Alegre, etc.). Nem sempre os poetas foram/são os melhores 'diseurs' da sua poesia, mas casos há em que ninguém melhor do que eles a disse (exemplos: Mário Cesariny de Vasconcelos e Eugénio de Andrade). E houve até poetas que emprestaram também a sua voz à obra alheia, como foi o caso de Ary dos Santos. Nunca mais me saiu da memória a sua admirável e tocante 'pregação' do célebre "Sermão de Santo António aos Peixes", do Padre António Vieira, que Judite Lima uma vez passou num dos seus programas (salvo erro, no "Jardim da Música").Como ficou demonstrado, o que não falta é material de excepcional qualidade. E como escolher o poeta para cada emissão? Nada mais fácil e prático: a data de nascimento ou morte (no caso dos já desaparecidos). Creio que não deve haver um único dia do ano em que não tenha nascido ou morrido um poeta. Já o disse antes e volto a afirmá-lo: a rádio é de todos os media aquele que melhor serve a poesia, ainda mais que os próprios livros. Já dizia Federico García Lorca: "os poemas são feitos para serem recitados, porque num livro estão mortos". Não aproveitar a potencialidade única que a rádio tem no campo da poesia, além de ser uma atitude obscurantista é um crime contra a cultura.Pergunta-se: porque é que a direcção da Antena 2 não mexeu uma palha durante este tempo todo? Será que Rui Pêgo e João Almeida entendem que a poesia não é realmente importante e necessária no serviço público de radiodifusão? É a impressão com que se fica. Para tais indivíduos a poesia parece ter muito menos importância que coisas do género "A Fuga da Arte" e "Vias de Facto"!...É deveras confrangedor e triste ver como a Antena 2, de dia para dia, se vem afastando das obrigações culturais que são, afinal de contas, a razão da sua existência.Apetece invocar a grande Natália Correia: "Ó subalimentados do sonho! / a poesia é para comer."

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